PEC do fim da escala 6x1 é aprovada no Senado

Aprovação prevê redução gradual da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial e entrará em vigor em 60 dias
por
Isabela Sallum
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16/10/2026 - 12h

Nesta quarta-feira (14), o Senado Federal aprovou, em dois turnos, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 com 75 votos favoráveis e apenas um contrário em cada turno.

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) destacou em suas redes sociais a importância das mobilizações do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), do apoio popular e do presidente Lula para que o senado aprovasse a conquista mais importante da classe trabalhadora brasileira dos últimos quarenta anos (após a Assembleia Constituinte, em 1988). Além disso, a deputada defende que o fim da escala 6x1 abre margem para debates sobre outros direitos trabalhistas.

 

Placa escrito "balconistas contra a escala 6x1" em manifestação
Manifestação contra a escala 6x1. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

De autoria do deputado federal Reginaldo Lopes (PT-MG) e de Érika Hilton (PSOL-SP), a PEC 221/2019 altera o artigo 7º da Constituição Federal para reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, e garantir dois dias de repouso semanal remunerado. A implementação será gradual, inicialmente, o limite será reduzido para 42 horas semanais, 60 dias após a promulgação e a publicação da emenda. Depois de 12 meses, a jornada máxima passará a ser de 40 horas semanais. A mudança visa a substituição da escala 6x1 pelo modelo 5x2, com cinco dias de trabalho e dois de folga.

Disputa eleitoral e mudança de posição de Flávio Bolsonaro

A votação ocorreu em meio à disputa eleitoral entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na véspera da votação da PEC, Flávio declarou apoio ao fim da escala 6x1, após meses de críticas à proposta. A redução da jornada de trabalho se consolidou como uma das principais pautas da agenda trabalhista do governo Lula e passou a ocupar espaço na disputa política entre os candidatos.

Lula com estudantes pela democracia
Lula em manifestação pela democracia. Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação Campanha Lula

Apesar de ter votado a favor da PEC, Flávio Bolsonaro manteve ressalvas ao modelo aprovado e defendeu uma alternativa baseada na negociação entre empregadores e trabalhadores sobre a jornada e a remuneração, com pagamento proporcional às horas trabalhadas. Antes de mudar de posição, o senador havia criticado a iniciativa e questionado seus possíveis efeitos sobre o emprego, argumentando que a redução da jornada poderia elevar os custos das empresas e ampliar a informalidade.

A mudança ocorreu na reta final da campanha eleitoral, após cobranças públicas de Lula para que o adversário se posicionasse sobre o tema. Em 13 de outubro, Flávio anunciou que votaria favoravelmente à medida, afirmando que a decisão correspondia à vontade da maioria dos trabalhadores brasileiros. No dia seguinte, 14, participou remotamente da votação enquanto cumpria compromissos de campanha em Porto Alegre (RS).

Flávio Bolsonaro em evento de comerciantes e industriários
Candidato Flávio Bolsonaro em evento de comércio e indústria após visitar o pai preso. Foto: Vittor Sales/Agência Brasil

Apesar do voto favorável, integrantes do PL sinalizaram a intenção de retomar, em 2027, caso o candidato do PL seja eleito, a chamada PEC das Horas Trabalhadas, proposta que prevê maior flexibilização da jornada e da remuneração. O modelo alternativo levanta questões sobre as garantias trabalhistas, especialmente em relação à negociação individual e à possibilidade de redução dos rendimentos. Assim, embora tenha apoiado a PEC aprovada pelo Senado, Flávio continuou defendendo uma alternativa com regras distintas das previstas no texto.

Votação e implementação da PEC

O único voto contrário à PEC foi do senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), ex-vice-presidente da República durante o governo Jair Bolsonaro. Os senadores Rogério Marinho (PL-RN), Sergio Moro (PL-PR), Márcio Bittar (PL-AC) e Ciro Nogueira (PP-PI) não registraram votos na sessão.

Senadores após a aprovação da PEC do fim da escala 6x1, em Brasília
Sessão do Senado após a votação da PEC. Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Apesar da aprovação no Congresso Nacional, a nova regra não entra em vigor imediatamente. A proposta ainda depende da promulgação no Congresso e da publicação oficial da Emenda Constitucional no Diário Oficial da União. Diferentemente dos projetos de lei, as emendas à Constituição não precisam de sanção presidencial.

Após a promulgação e a publicação, a implementação seguirá o cronograma previsto na proposta. Em 60 dias, a jornada máxima semanal será reduzida de 44 para 42 horas, com garantia de dois dias de descanso remunerado e sem redução salarial. Depois de 12 meses, o limite passará a ser de 40 horas semanais. Assim, a efetivação da mudança dependerá  da adequação das jornadas e da organização dos períodos de descanso seguindo a Emenda da Constituição.