O Diabo Veste Prada 2 reacende o glamour e questiona os bastidores da indústria

Sequência resgata personagens icônicos e revisita a moda na era digital
por
Carolina Nader
|
08/05/2026 - 12h

O filme O Diabo Veste Prada 2, produzido por David Frankel, estreou dia 30 de abril nos cinemas. 20 anos após o primeiro lançamento, a continuação do clássico retoma o universo da revista de moda “Runway”, agora inserido em um contexto marcado por transformações digitais da indústria e pelo crescimento das redes sociais. Protagonizado por grandes nomes do cinema como Meryl Streep, Anne Hathaway e Emily Blunt, a retomada contou com a distribuição da Disney Pictures, que aposta na força da nostalgia ao mesmo tempo em que dialoga com uma nova geração.

Cartaz de divulgação do filme “O Diabo Veste Prada 2.” Foto: @odiabovesteprada2 / Instagram
Cartaz de divulgação do filme “O Diabo Veste Prada 2.” Foto: @odiabovesteprada2 / Instagram 

Frankel mantém o olhar atento para os bastidores do mundo da moda e do jornalismo, adicionando discussões éticas sobre a profissão. Em meio à pressão por relevância e engajamento, o drama levanta questionamentos sobre o que a indústria editorial escolhe mostrar e o que prefere ocultar. A narrativa explora também o contraste entre tradição e inovação, evidenciando o esforço da “Runway” para se manter ativa sem abandonar os valores que a consolidaram, mesmo diante de um mercado cada vez mais liderado por interesses comerciais. 

Ainda assim, o roteiro preserva o humor ácido característico da franquia, equilibrando essas reflexões com momentos leves que mantêm vivo o charme do universo fashion. 

Miranda Priestly, representada por Meryl Streep, continua sendo a figura misteriosa que marca a memória do público. Sua presença, mais uma vez, cativa a atenção dos fãs, com diálogos irônicos e uma mistura de frieza e elegância. Ao mesmo tempo, sua personagem se vê diante do desafio de recuperar a relevância da revista e preservar suas tradições em um cenário que parece constantemente ameaçá-las. 

Anne Hathaway retorna como Andy Sachs, agora em uma posição mais consolidada profissionalmente, o que cria um contraponto interessante em relação à jovem insegura do primeiro longa. A dinâmica entre as duas personagens ganha novas camadas, marcada menos pela hierarquia direta e mais por conflitos de visão, valores e trajetórias. 

 

Meryl Streep e Anne Hathaway na Coreia do Sul para evento global relacionado ao lançamento do filme. Foto: @tiziano.raw / Instagram
Meryl Streep e Anne Hathaway na Coreia do Sul para evento global relacionado ao lançamento do filme. Foto: @tiziano.raw / Instagram 

A obra também ressalta as relações de lealdade no trabalho, destacando o ambiente competitivo da imprensa. Parcerias, rivalidades e escolhas profissionais se conectam, reforçando a ideia de que o sucesso, nesse meio, raramente é construído de forma isolada ou sem conflitos. 

Visualmente, o longa mantém uma estética glamourosa, com figurinos que continuam desempenhando papel fundamental na construção dos personagens e na ambientação da indústria da moda. Ao mesmo tempo, a montagem incorpora elementos contemporâneos, como telas de celular e fluxos digitais, evidenciando a mudança de época.  

O lançamento dessa continuação foi acompanhado por uma forte estratégia de marketing que ampliou sua presença para além das salas de cinema. Grandes marcas do mercado atual participaram na divulgação, criando produtos temáticos que instantaneamente se tornaram itens de desejo entre os fãs. Canecas, copos, chaveiros, itens de maquiagem e outros objetos colecionáveis reforçam o apelo comercial da produção e mostram como o universo da revista “Runway” ultrapassa a ficção e se insere diretamente na lógica de consumo contemporânea. 

Meryl Streep e Anna Wintour - ex-editora chefe da Vogue e suposta inspiração para a personagem Miranda -  protagonizaram um encontro para um vídeo promocional, que foi produzido pela revista Vogue americana. Esse material fez parte da divulgação da edição de maio da revista e serviu como uma ação de promoção estratégica para a estreia de O Diabo Veste Prada 2.   

A recepção crítica tem sido mista, variando entre o entusiasmo dos fãs e análises mais criteriosas por parte da imprensa especializada. Muitos elogiam o carisma do elenco e a tentativa de atualizar o debate sobre o mundo da moda e do jornalismo, enquanto outros apontam que a narrativa, em certos momentos, depende excessivamente da  nostalgia. Ainda assim, há consenso de que o filme consegue recuperar parte do brilho do original, especialmente nas cenas conduzidas por Meryl Streep. 

O site Rotten Tomatos possui avaliações e comentários sobre obras cinematográficas, feitas por fãs e especialistas. De acordo com a Sara Michelle Fetters, crítica de cinema, “o novo filme é como uma visita agradável com velhos amigos; só não entre nele antecipando nada mais do que isso.” Na plataforma, o longa teve 76% de aprovação dos críticos e 86% do público.

A mudança de tom em relação ao primeiro filme é perceptível. Antes a história focava na iniciação de Andy em um ambiente exigente, agora o conflito gira em torno da permanência e da reinvenção. A trilha sonora acompanha essa transição, mesclando referências modernas com sons do passado, reafirmando o diálogo entre tradição e inovação que atravessa toda a obra. Runway, de Lagy Gaga e Doechii, aparece como destaque no lançamento, enquanto que, no primeiro, Suddenly I See de KT Tunstall é considerada a principal música da obra. Entretanto, ambos apresentam a canção Vogue de Madonna, mesmo que de forma discreta. 

Mais do que revisitar personagens icônicos, O Diabo Veste Prada 2 propõe questionamentos atuais: até que ponto é possível equilibrar ética e mercado? É viável manter tradições em um cenário que exige constante renovação? E, sobretudo, qual é o preço de permanecer no topo? Ao levantar essas questões, o filme se apoia na familiaridade de seu universo para construir uma narrativa que, apesar de imperfeita, encontra espaço para se conectar com o presente.