Mães resistem a invisibilidade do trabalho de cuidado

Mulheres enfrentam desigualdades estruturais que alteram sua rotina e sua identidade, de acordo com padrões femininos impostos pela sociedade
por
Carolina Machado
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07/05/2026 - 12h

Segundo relatório do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizado em 2025, as mulheres dedicam cerca de 21 horas semanais aos cuidados da casa e dos filhos, praticamente o dobro do tempo gasto pelos homens. Na escala 6x1, por exemplo, o único dia de folga para essas mães é dedicado à limpeza, alimentação e cuidados com os filhos; são 65 horas semanais, contando trabalho formal e informal invisibilizado. Essa jornada dupla, realizada por mais de 90% das brasileiras, altera a rotina e identidade feminina de acordo com cada realidade, a partir de exigências sociais e construções culturais relacionadas à mulher. 

Mesmo fazendo parte de um recorte privilegiado dessas brasileiras, Estéfi Machado, de 48 anos, não romantiza a rotina como mãe nas redes sociais. Ela trabalha de casa e, com a chegada de seu filho Teo, hoje aos 18 anos, tudo se tornou mais caótico. “Eu fazia meus freelas em um quartinho e, quando ele nasceu, não tinha mais tempo para terminar minhas coisas”, relata em entrevista. 

“Mesmo com o apoio do meu marido e da minha família, as tarefas sempre ficaram para mim. Eu me desdobrei, me sacrifiquei e desejo ser vista. Afinal, tanto eu, quanto outras mulheres criamos novos cidadãos para o mundo”, conta. Ela ressalta que, como qualquer mãe, adora presentes e cartinhas, mas reconhece que isso não é suficiente no Dia das Mães, o reconhecimento precisa vir acompanhado de uma mudança real do comportamento dos filhos e dos maridos dentro de casa. 

Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado
Estéfi Machado e seu filho Teo, de 18 anos. Reprodução: vInstagram/@blog.estefi.machado

Adriana Machado, psicóloga clínica formada pelo Mackenzie, descreve a maternidade como uma construção subjetiva e sociopolítica profunda, marcada pela reestruturação feminina. “É uma complexa transição de vida que exige escolhas e adaptação aos desafios impostos ao novo papel”, esclarece. Ela acrescenta que, apesar de ser uma vivência individual e única para cada mulher, todas são atravessadas por imposições sociais e culturais, provenientes da estrutura de uma sociedade patriarcal, que acarretam mudanças de rotina e na própria identidade feminina.

No caso de Estéfi, sua formação como designer se fundiu com a maternidade e, assim, começou a dividir com o público suas invenções criativas que mãe e filho projetavam enquanto cuidava de Teo em casa. “Essa é uma realidade que não faz parte da maioria das brasileiras”, reconhece. Mesmo assim, a criação de conteúdo surgiu em sua vida como um desabafo, assim como qualquer outra mãe gostaria: enxergar-se e ser enxergada por outras mulheres que exercem a mesma função. “Não é blogueiragem, não. Ele brincava com tecido, papel e papelão, e criávamos juntos invenções com os meus materiais de design”, explica. 

Colagem com amor de mãe, feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado
Colagem "com amor de mãe", feito por Estéfi Machado Reprodução: Instagram: @blog.estefi.machado

A designer completa sobre a importância de desconstruir estereótipos e papéis de gênero sendo mãe de um menino. “Isso é importante para mim, estou toda hora falando para ele prestar atenção no jeito com o qual trata as amigas, as primas, as tias, a avó e, futuramente, a parceira”, relata. Estéfi  acrescenta, dizendo que Teo reconhece o esforço da mãe em orientá-lo ao apontar situações, dentro e fora de sua rotina, que diminuem as mulheres e o trabalho realizado por elas nas jornadas de cuidado.

Já Adriana complementa, declarando que o ato de cuidar não se refere apenas ao aspecto prático: “faz parte da estrutura para a constituição do psiquismo e da identidade de outro ser humano”. A psicóloga complementa, dizendo que a experiência materna é um encontro entre o desejo, as responsabilidades e um novo modo de ser e criar no mundo. Ainda assim, é um trabalho informal que não é reconhecido, independentemente da posição social em que a mãe ocupa.

Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado
Estéfi Machado em ensaio fotográfico. Reprodução:Instagram/ @blog.estefi.machado

Estéfi e Adriana concordam que até  mesmo as mães feministas lidam com uma relação desigual dentro de casa, fruto de uma estrutura patriarcal que incentiva mulheres a assumirem todas essas responsabilidades. “Se nem mesmo quem tem voz consegue se libertar dessas estruturas, o que dizer daquelas muitas que sofrem com a sobrecarga caladas e solitárias, sem tempo de questionar e repensar sua própria realidade”, conclui a psicóloga.