A guerra da desinformação entorno dos conflitos no Oriente Médio

Como notícias falsas são utilizadas na disputa de narrativas acerca da batalha entre Hamas e Israel
por
Marina Jonas
|
06/11/2023 - 12h

Nunca foi tão simples ter acesso à informação quanto se tem hoje. Com as tecnologias em mãos e uma sociedade hiperconectada, as notícias se espalham com uma rapidez jamais vista antes. Nunca foi tão fácil estar bem informado; mas, também, nunca foi tão fácil ter acesso à desinformação. No momento atual, o mundo se encontra repleto de conflitos: entre eles, a guerra entre Hamas e Israel, a qual teve início no dia 7 de outubro, quando membros do grupo terrorista atacaram o território israelense, realizando a ação mais violenta já cometida em 50 anos no local. Milhares de mísseis foram disparados em direção a Israel e, em seguida, os extremistas invadiram o país por terra, água e ar através do sul - parte que faz fronteira com a Faixa de Gaza, região palestina controlada pela organização desde 2007. A operação deixou mais de 1.400 mortos, incluindo mulheres e crianças, além de terem sido sequestrados centenas de civis, levados então para Gaza como reféns, onde ainda estão detidos 240. O ataque sem precedentes originou uma série de bombardeios como resposta dos israelenses, dando origem à nova batalha no Oriente Médio e, junto a ela, uma outra disputa se trava: a informacional. 

São incontáveis as informações que circulam acerca da temática e que se espalham de forma incontrolável nas redes sociais, sendo muitas delas falsas ou mesmo descontextualizadas. Desde o começo do conflito, no entanto, as duas maiores agências independentes de checagem do país, Lupa e Aos Fatos, vêm conferindo a procedência das notícias que ganham destaque na internet. Confira a seguir exemplo de checagem já feita: “É falso que homem em foto com Lula é o chefe do Hamas”

Segundo apuração realizada pela equipe de verificação da Agência Lupa no dia 10 de outubro, “Publicação que circula nas redes sociais mostra uma fotografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cumprimentando um homem que, segundo a legenda, seria o chefe do Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). É falso.” O que comprova a falta de veracidade da publicação é o fato do homem ao lado de Lula ser o presidente do Irã, Ebrahim Raisi, e não o chefe do Hamas, Ismail Haniyeh. Além disso, a foto foi tirada no dia 24 de agosto de 2023, em reunião bilateral entre os dois chefes de Estado na cidade de Joanesburgo, na África do Sul, logo após ter sido anunciada a entrada do Irã no Brics. Sendo assim, a imagem também foi utilizada fora de seu contexto original. 

Mas afinal, por que a desinformação vem proliferando de maneira tão veloz e eficaz diante do cenário atual? Em entrevista ao podcast O Assunto, do Portal G1, professor da Universidade da Virgínia (EUA), David Nemer explica que a guerra é um acontecimento emocional e a desinformação próspera com base na emoção, principalmente quando ela é negativa, como a raiva e o medo. Portanto, ele completa: “a desinformação geralmente vem carregada dessas emoções negativas, pois as pessoas tendem a engajar com esse tipo de conteúdo, ou seja, tendem a acreditar e a compartilhar mais facilmente. Isso é da natureza humana; sabendo disso, os algoritmos das redes sociais são desenvolvidos justamente para priorizar conteúdos sensacionalistas e que promovam essa comoção negativa, já que as pessoas teriam uma probabilidade maior de curtir, comentar e compartilhar tal conteúdo.” 

Dessa forma, as plataformas pouco se interessam se o que é publicado e repercutido dentro de suas fronteiras é verdade ou não. E, com a avalanche de informações que recebem diariamente, as pessoas não têm tempo para fazer esse discernimento, tornando-se muito mais propensas a acreditar em notícias falsas. Assim, quando assuntos difíceis e delicados, que envolvem diversos lados, chegam às mídias sociais, notícias tão difíceis e delicadas quanto passam a ser compartilhadas em níveis abundantes, gerando tanta comoção que, na maior parte das vezes, se esquece de conferir de onde vieram e por quais motivos foram publicadas da forma que foi feita; gerando, por fim, ondas de desinformação.