Há décadas, quem passa pela Avenida Faria Lima, em São Paulo, dificilmente deixa de notar uma construção peculiar que desafia os padrões da arquitetura tradicional. Suspensa sobre uma estrutura de concreto e com formato esférico, a Casa Bola se tornou um dos ícones mais curiosos da paisagem paulistana. Agora, quase meio século após sua construção, o imóvel voltou aos holofotes ao receber uma exposição aberta ao público.
Encerrada no último domingo (31), a mostra ABERTO5 marcou um momento histórico para a residência projetada pelo arquiteto Eduardo Longo. Pela primeira vez desde sua construção, a Casa Bola recebeu visitantes de forma ampla, permitindo que o público conhecesse de perto um dos projetos mais experimentais da arquitetura brasileira.
A exposição reuniu cerca de 60 obras de arte e design de mais de 50 artistas de arte contemporânea espalhadas pelos ambientes da casa, transformando a residência em uma experiência que mesclava arte, design e arquitetura. Mas, para muitos visitantes, a grande atração era a própria construção.
Construída entre 1974 e 1979, em meio ao auge da contracultura, a Casa Bola nasceu como uma contestação aos modelos arquitetônicos predominantes da época, marcados pelo Modernismo e pelo Brutalismo. Ao idealizar uma residência esférica, experimental e de aparência leve, Eduardo Longo propôs uma nova forma de pensar a arquitetura, questionando tanto os métodos construtivos quanto a relação das pessoas com o espaço urbano.
“Quando me falaram de fazer a exposição aqui, eu pensei que fosse uma exposição que, como já teve algumas aqui, fosse demorar um mês preparando. Mas depois demorou um ano preparando e foi uma coisa muito maior do que eu esperava. Pra mim tá sendo uma maravilha, porque eu tava aí meio já esquecidão”, afirmou o arquiteto.
Formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Longo ficou conhecido pelo caráter experimental de seus projetos. Ao longo da carreira, buscou alternativas às construções convencionais, explorando soluções mais leves e industrializáveis. A Casa Bola acabou se tornando a síntese mais conhecida dessa pesquisa.
“Eu estava procurando uma coisa ao contrário do que eu fazia, que era tudo de concreto pesado. Eu estava procurando uma coisa leve, para fazer industrialmente um módulo reproduzido em fábrica. A verdade é que nenhum volume é mais leve que a bola”, explica o arquiteto.
Contraste entre a estética radical da Casa Bola e a geometria rígida da arquitetura tradicional ao lado./ Foto Daniela Martinho
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Com aproximadamente oito metros de diâmetro, a residência foi concebida para funcionar como uma casa completa dentro de uma estrutura esférica. Distribuídos em diferentes níveis, os ambientes incluem quartos, áreas de convivência e cozinha.
No interior, predominam as superfícies brancas e as formas curvas, criando uma atmosfera futurista e, ao mesmo tempo, orgânica. Como as paredes acompanham a geometria da esfera, diversos móveis foram desenhados especialmente para se integrar à arquitetura da casa.
Sala de baixo da residência-esfera, com elementos suspensos e plantas que reforçam a atmosfera experimental do projeto. / Foto: Daniela Martinho
Sala superior marcada por curvas contínuas e mobiliário integrado que reforçam a estética futurista.. / Foto: Daniela Martinho
Quarto de criança, marcado pela simplicidade das formas e pela atmosfera leve e contínua. / Foto: Daniela Martinho
Essa dualidade entre tecnologia e artesanato também orientou a curadoria da exposição. Se vista de fora, a Casa Bola lembra uma espaçonave pousada em meio à paisagem urbana paulistana. Por dentro, seus espaços remetem a uma espécie de caverna contemporânea. O próprio Eduardo Longo resume essa contradição com uma frase que se tornou uma das marcas da mostra: “meio Jetsons, meio Flintstones”, em referência aos desenhos animados norte-americanos dos estúdios Hanna-Barbera, da década de setenta, que retratavam a rotina familiar de um futuro distante e do passado no tempo dos dinossauros.