ELAS POR ELAS: Isabel Marques educa dançando e dança educando

Entre o palco e a sala de aula, construiu sua trajetória unindo a arte e a transformação social
por
Anna Cândida Xavier
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09/03/2026 - 12h

Isabel Marques, de 61 anos, é artista e pioneira no estudo do ensino de dança no Brasil. É doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora do Caleidos Cia. de Dança desde 1996. Sua trajetória na dança começou ainda criança, nas clássicas aulas de balé, mas na adolescência começou a questionar as metodologias e práticas de ensino. “A repetição, imitação, controle e a busca do corpo ideal das bailarinas não cabiam mais em mim. Tudo isso estava em oposição à possibilidade de criação”.

Isabel Marques sorrindo em um espetáculo de dança
Isabel Marques no espetáculo “Entrevista”, 2024 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Com 16 anos, ganhou uma bolsa de estudos do United World Colleges (UWC) para estudar no Canadá. Isabel conta que a experiência em um colégio internacional abriu seus horizontes, fez amizades com jovens de todo o mundo e cursou o ensino médio longe da censura da Ditadura Militar. Decidiu fazer pedagogia após ler “Pedagogia do Oprimido” de Paulo Freire. “Encontrei o livro em inglês na mesa dos alunos de filosofia, fiquei curiosa por ser um autor brasileiro e me encantei por ele e pela a educação”, conta. 

Ao voltar para o Brasil, ingressou na USP e retomou as aulas de dança – agora com foco na improvisação – onde conheceu os princípios e processos de criação de Rudolf Laban, um dos precursores da dança moderna. Isabel conta que Laban foi crucial para sua trajetória, uma vez que ele foi responsável pelo primeiro currículo escolar que inclui dança, criado em 1958 na Inglaterra.

A carreira de Isabel Marques é permeada pelas interfaces entre dança e educação, entre a vivência acadêmica e o fazer artístico. Em 1991, após terminar seu mestrado em Londres, começou a dar aula na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) como professora convidada. Na universidade, criou um grupo de pesquisa voltado à integração entre arte e educação, que mais tarde se transformou na companhia de dança contemporânea Caleidos.

Isabel Marques, sentada em uma mesa escrevendo.
Isabel Marques em sua defesa de doutorado, 1996 – Foto: Arquivo Caleidos Cia. de Dança 

Na mesma época, foi convidada por Ana Mae Barbosa para fazer parte da equipe de Paulo Freire na Secretaria da Educação da prefeitura de Luiza Erundina em São Paulo. “A ideia era abrir o leque de possibilidades do ensino de arte nas escolas, porque antes só tinham artes visuais e música. Em 1993, nós lançamos um novo currículo, desenhado a muitas mãos, que incluía o teatro e a dança e aprofundava as outras linguagens”, conta Isabel. 

Em 1997, foi responsável por elaborar os currículos nacionais de dança do Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Isabel acredita que a importância da dança na escola em um país que dança é a possibilidade de compreendê-la como linguagem e como arte. “A escola trata a dança como área do conhecimento, não só como entretenimento, lazer, diversão, religião – todas muito importantes e muito significativas e cruciais para o Brasil. Mas, ao estudar a linguagem da dança é possível atribuir significado aos movimentos, você tem a possibilidade de questionar, de perguntar, de recriar e de ser co-criador do mundo mesmo, da arte”. 

Isabel Marques ministrando uma palestra.
Isabel Marques ministrando uma palestra, 2009 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança

Ao longo das últimas décadas, Isabel lecionou diversos cursos de formação de professores para a rede de escolas públicas de São Paulo. “É importante que as professoras entendam que esse corpo delas, que muitas vezes não é o corpo ideal, que não é o corpo da bailarina, esbelto e flexível, também dança. É a volta ao corpo, ao movimento e à vida que as torna professoras diferenciadas”. Isabel destaca o direito à dança e ao movimento nas escolas. “A escola tradicional supervaloriza a mente, o corpo é morto na escola. Quando a gente trabalha com a dança na escola pública, a gente introduz a importância da diversidade corporal”. 

O trabalho com as escolas públicas é central em sua trajetória.“É na escola que a gente trabalha em prol da transformação social, da conscientização e da visão crítica do mundo”. Para ela, é a partir de um diálogo estabelecido com o mundo que é possível transformá-lo. Afirma que as redes de relação que criamos com o mundo podem partir de uma elaboração mental ou da experiência não verbal, de percepção através do movimento. “Você percebe o mundo através do movimento, você conhece as pessoas… Uma coisa é você falar eu te amo, outra coisa é você abraçar e beijar. São complementares”. 

Em seu livro “Ensino de Dança Hoje”, publicado em 1999, Isabel Marques propõe o conceito de “dança no contexto”. Para ela, é preciso relacionar as suas aulas de dança aos contextos sociais, afetivos, culturais e políticos, o objetivo não é simplesmente aprender uma sequência de passos, mas criar dança a partir de um contexto. “Eu conheço praticamente todos os estados do Brasil ensinando dança e dançando, sempre com um cuidado de não impor a cultura paulistana, sempre estabelecendo um diálogo com o local”.

Em suas peregrinações pelo país, Isabel lançou seis livros sobre dança e educação e ministrou cursos de especialização, incluindo aulas inaugurais em faculdades de dança. Ela conta que, no início de sua carreira, havia somente três graduações em dança no Brasil. Hoje, após o programa Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), de 2008, existem mais de 40. 

Este ano, o Caleidos, companhia de dança dirigida por Isabel Marques e Fábio Brazil, completa 30 anos. “A gente brinca que 30 anos de dança no Brasil equivalem a 200 na Europa”, comenta Isabel frente às dificuldades de viver enquanto artista no Brasil. O Caleidos já produziu 35 espetáculos de dança e ganhou 16 prêmios de fomento à dança, em nível municipal, estadual e federal. Uma das marcas da companhia é a interatividade com o público, chamar as pessoas para participar do espetáculo, dançar com os bailarinos. 

Alunos da escola pública participam de um espetáculo de dança do Caleidos
Espetáculo “Coreológicas Ludus” na sede do Caleidos com alunos da Rede Pública de Ensino de São Paulo, 2011 – Foto: Fábio Brazil/Caleidos Cia. de Dança 

Os espetáculos do Caleidos nascem de imperativos sociais, explica Isabel, “é quase um chamamento”. Destaca a importância de experienciar o mundo como parte do processo criativo, muitas cenas surgem da experiência do cotidiano, com um olhar artístico apurado. O processo de construção dos espetáculos costuma envolver muita pesquisa, “eu sou pesquisadora então eu valorizo muito as pesquisas acadêmicas, é a partir dessas discussões que conseguimos ir além da experiência pessoal. O artista é um interlocutor da sociedade em que vive, do seu contexto, propõe diálogos que abrangem algo além de si mesmo”. 

Em 2025, Isabel Marques foi homenageada no XI Congresso Internacional SESC de Arte/Educação, produzido em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco. Durante o evento, estreiou seu primeiro solo de dança: ‘Outonos’. Para ela, o espetáculo surgiu da necessidade de falar sobre o envelhecimento, “envelhecer não é uma sensação, você é avisado que está mais velha pelo diálogo com as novas gerações”. “É o comportamento dos outros em relação a você que faz você se sentir mais velha. Eu adoro o assento reservado para idosos no metrô, mas alguém levantar para você sentar causa um estranhamento”. O espetáculo volta em cartaz no segundo semestre de 2026.

Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”
Isabel Marques dançando no espetáculo “Outonos”, 2025 – Foto: Lino Fly/Arquivo Caleidos Cia. de Dança