Dançando conforme a música

Cobranças excessivas podem causar problemas psicológicos em bailarinos
por
Isabella Santos
|
14/06/2023 - 12h

O balé clássico surgiu no século 16, nas cortes italianas, como uma manifestação rítmica e natural, servindo também para a comunicação. Era o período renascentista e a dança nascia com a finalidade de entreter a nobreza, tornando-se um símbolo de classe, status e influência que permanece até os dias atuais. 

Por se tratar de uma dança criada para agradar quem possuía dinheiro, os padrões estéticos dominantes ditavam quem poderia se tornar um bailarino profissional. Ser branco, alto e extremamente magro era indispensável para se juntar ao elenco do balé, e quanto mais os dançarinos se encaixavam nos padrões, mais relevantes eram seus papéis em uma apresentação. 

 Essas cobranças, no entanto, não se limitaram ao século 16. Ainda hoje, o mundo da dança continua marcado pelo desgaste dos bailarinos que buscam se encaixar nesses padrões. A bailarina da companhia “Ballet Paula Gasparini”, Giovanna Moraes, 19 anos, relembra as dificuldades e preconceitos sofridos durante as audições. "Quando comecei a dançar em escolas grandes e competir em nível internacional, passei por situações em que ouvi que seria perfeita para certos papéis se eu não fosse tão ‘latina’. No início não entendia direito, até perceber que grandes papéis não eram selecionados pela técnica ou pelo talento, mas muitas vezes pela sua aparência. Quanto mais magra, branca e alta, maiores as chances e os privilégios.”   

Transtornos como bulimia, ansiedade e depressão são comuns no mundo do balé, devido à cobrança enfrentada desde muito cedo. Alguns professores incentivam os alunos a perder peso, em busca de alcançar um padrão “ideal”, e a competitividade também é um elemento desestabilizador. Diante disso, o clima em sala de aula, que deveria ser leve, acaba se tornando o primeiro passo para um transtorno se desenvolver.  

A psicóloga Maria Cristina Lopes, autora do livro “Psicologia da Dança” (cite a editora) destaca o impacto causado por professores em sala de aula. “A maneira como o professor age e fala sobre o corpo na dança é fundamental para que o aluno se sinta pertencente a esse mundo. Eles precisam estar satisfeitos com o seu corpo e aprender a cuidá-lo e preservá-lo. No entanto, quando há uma distorção de imagem, muito presente nos bailarinos, isso o afeta em vários sentidos. É possível que ele desista dos seus sonhos ou da própria dança por se tornar insuportável conviver com esta pressão”, diz. 

A saúde mental dos dançarinos é pouco discutida, e devido a isso muitos não imaginam o quão obscuro ele pode ser. “De mastigar gelo e tomar remédios tarja preta até usar bandagens para remodelar o corpo, já presenciei o desespero de inúmeras amigas para que pudessem chegar o mais perto possível de um padrão inalcançável”, relata Giovanna.  

Quem escolhe seguir carreira com a dança já está sujeito a enfrentar um caminho difícil, com a precariedade e instabilidade financeira, as possíveis lesões devido à carga horária de ensaios e uma vida quase nômade, exigindo do bailarino diversas mudanças de cidade, estado ou até mesmo país. Dessa forma, a companhia em que ele trabalha acaba se tornando sua única casa e seus colegas, coreógrafos e professores se tornam família. Maria Cristina exalta a importância de uma instituição apoiadora para a formação de um bailarino saudável. “Os ambientes que favorecem os benefícios da dança são relacionados a um contexto social saudável, um professor apoiador, uma instituição inclusiva e incentivo ao apoio entre colegas. Faz total diferença no futuro desse indivíduo.", diz a psicóloga. 

Um estudo conduzido pela Universidade de Pittsburg concluiu que, 6,9% das bailarinas profissionais entrevistadas tinham anorexia nervosa, 10,3% tinham bulimia e 10,3% apresentavam uma combinação dos dois transtornos.  

Visando um futuro psicologicamente saudável a esses profissionais, grandes companhias de dança do país deveriam oferecer assistência psicológica para seus profissionais. “Acho extremamente necessário que companhias e festivais criem uma rede de apoio para os bailarinos, e é algo que sentimos falta nesse meio. Um dos maiores problemas no mundo da dança definitivamente é a saúde mental dos bailarinos. Conviver em um ambiente extremamente competitivo em busca de padrões irreais e inalcançáveis afeta muito o psicológico”, diz Giovanna. 

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