Foi em Resende (RJ) que Jair Messias Bolsonaro, ex-presidente e capitão do exército condenado por tentativa de golpe de estado, viveu entre 1974 e 1977 e teve, com a então esposa Rogéria Nantes Braga Bolsonaro, seu primeiro filho: Flávio Nantes Bolsonaro, nascido no dia 30 de abril de 1981.
Hoje, com 45 anos, Flávio é candidato à presidência da república pelo Partido Liberal (PL), casado com a cirurgiã-dentista Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro e pai de duas meninas.
O primogênito de Jair, apelidado pelo pai como “zero um”, foi deputado estadual por quatro mandatos e senador da república. Possui graduação em direito pela Universidade Candido Mendes (UCAM) e especialização em políticas públicas pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ) e em empreendedorismo pela Fundação Getulio Vargas (FGV).
Sua trajetória política começou como legislador estadual do Rio de Janeiro. Em 2002, Flávio, então com 21 anos e filiado ao Partido Progressista (PP), tornou-se o deputado estadual mais novo a ser eleito no Rio, contabilizando 31.293 votos. Ocupou o cargo por quatro mandatos consecutivos, entre 2003 e 2018, e ampliou sua votação nas eleições seguintes, 43 mil votos em 2006, 58 mil em 2010 e mais de 160 mil em 2014. Nesse meio tempo, o candidato também mudou diversas vezes de legendas, passando pelo Partido da Frente Liberal (atual União Brasil), Partido Social Cristão (PSC) e Partido Social Liberal (PSL).
Em 16 anos no mandato estadual, Flávio protocolou 140 Projetos de Lei (PL) e 14 Propostas de Emenda à Constituição Estadual do Rio de Janeiro. Grande parte da sua atuação foi centrada em temas ligados à segurança pública, uma das principais bandeiras políticas de seu pai. Entre as propostas apresentadas nesse período estão a redução da jornada de trabalho para servidores e militares com dependentes com deficiência, isenção de taxas e ampliação do direito ao porte e posse de armas de fogo e o combate às cotas raciais em universidades públicas.
No ano de 2016, quando ainda estava no PSC, concorreu à prefeitura do Rio de Janeiro e terminou em quarto lugar, acumulando 424.307 votos.
Dois anos mais tarde, alavancado pela vitória de Jair Bolsonaro na disputa presidencial, Flávio foi eleito senador da república com 31,3% dos votos válidos, recebendo o voto de 4,3 milhões de fluminenses.
Seus anos como senador foram marcados pela interlocução com parlamentares e dirigentes partidários. Propôs 59 PLs e 93 Propostas de Emenda à Constituição (PEC). Contudo, apenas um Projeto de Lei foi aprovado pelas duas casas, o PL 3.190 de 2023, que prevê adequações para empresas no Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado.
O candidato também foi relator da “PEC da Praia", que transfere terrenos costeiros para seus ocupantes privados. Flávio presidiu algumas comissões, incluindo a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ).
O caso da rachadinha
Em dezembro de 2018, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão administrativo responsável por analisar transações financeiras, apontou movimentações consideradas anormais nas contas de Fabrício Queiroz, policial militar aposentado e assessor pde Flávio na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
Entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, o assessor movimentou cerca de R$ 1,2 milhão. A investigação passou a questionar a origem dos recursos e a existência de um possível esquema de “rachadinha”, prática em que funcionários públicos devolvem parte de seus salários ao parlamentar ou a pessoas ligadas ao gabinete.
O Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio Bolsonaro, Fabrício Queiroz e outras pessoas por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita em 2020. Na denúncia, os promotores defenderam que o então deputado seria o líder do esquema e Queiroz, seu operador financeiro. O MP afirmou que as irregularidades teriam ocorrido entre 2007 e 2018, durante o período em que Flávio exerceu mandato na Alerj. Flávio negou as acusações.
Posteriores decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF) anularam elementos utilizados na investigação, especialmente provas relacionadas à quebra de sigilo bancário e fiscal.
Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou a denúncia contra Flávio. A decisão impediu o prosseguimento da acusação com base nos elementos considerados inválidos.
Candidatura à presidência em 2026
Flávio Bolsonaro chega às eleições presidenciais com o objetivo de manter vivo o legado de seu pai, Jair Bolsonaro.
No dia cinco de dezembro de 2025, via redes sociais, o candidato anunciou sua pré candidatura. Em nota, Flávio escreve que a decisão foi de seu pai: “É com grande responsabilidade que confirmo a decisão da maior liderança política e moral do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, de me conferir a missão de dar continuidade ao nosso projeto de nação”, declarou.
O filho do ex-presidente, na mesma nota, criticou a situação contemporânea do Brasil: “Eu não posso, e não vou, me conformar ao ver o nosso país caminhar por um tempo de instabilidade, insegurança e desânimo. Eu não vou ficar de braços cruzados enquanto vejo a esperança das famílias sendo apagada e nossa democracia sucumbindo”.
O candidato possui algumas alianças com governadores espalhados pelo país. A principal é com Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador do estado de São Paulo. Outros nomes como, Cláudio Castro (PL) e Jorginho Mello (PL) também apoiam publicamente a candidatura de Flávio.
A divulgação da campanha do candidato visa enfatizar a relação do senador com o eleitor popular. Nas suas redes sociais, Flávio busca mostrar para os eleitores seu apoio e interação com a população. Apesar de seguirem a mesma vertente ideológica, Flávio e Jair Bolsonaro possuem diferenças em seus discursos.
A primeira delas, é a relação com o chamado “centrão”. O ex-presidente, inicialmente, adotou uma postura de rejeição. O filho, por outro lado, manteve relação com as lideranças centrais desde o início de sua trajetória como político.
Embora seu pai, seja historicamente defensor da pena de morte, o senador já declarou publicamente, em sua redes sociais, ser contrário.
Segurança
O eixo central da proposta do candidato é o enquadramento de organizações criminosas como narcoterroristas, modelo semelhante ao estabelecido pelo líder de El Salvador, Nayib Bukele. Facções como o Comando Vermelho, Primeiro Comando da Capital, milícias e demais grupos armados passariam a essa classificação, o que, segundo o plano do candidato, abriria caminho para bloqueio de ativos financeiros e desarticulação de esquemas de lavagem de dinheiro.
Na área penal, o candidato defende a redução da maioridade de 18 para 16 anos. A proposta se junta a outras mudanças como exigência de cumprimento integral da pena para assassinos e agressores de mulheres, e quadruplicação da pena inicial para quem furta, revende ou comercializa celulares roubados.
No sistema prisional, Flávio propõe a construção de cinco presídios federais de segurança máxima inspirados no modelo salvadorenho, batizados de "TREVA", nos quais líderes de quadrilhas ficariam isolados, sem acesso a celular ou visita íntima. Paralelamente, o plano prevê parcerias com estados para a criação de meio milhão de novas vagas no sistema prisional ao longo de quatro anos de mandato, além da promessa de dobrar os investimentos federais em segurança pública no mesmo período.
Duas medidas do plano têm como alvo crimes contra mulheres e crianças: A primeira é a castração química para estupradores e abusadores condenados pela Justiça e a segunda amplia o monitoramento eletrônico. Agressores sob medida protetiva usariam tornozeleira, e o rompimento da distância regulamentar da vítima dispararia um alerta às autoridades.
Junto a isso, Flávio propõe o projeto Muralha Brasileira,extensão nacional do Muralha Paulista. Seria um sistema nacional de reconhecimento facial integrado a bancos de dados criminais, que vigiaria portos, aeroportos e áreas públicas com o apoio de mais de 1 milhão de novas câmeras de segurança.
Costumes e pautas sociais
Flávio se posiciona contra a ampliação do direito ao aborto e a legalização das drogas e defende valores cristãos como parte de sua identidade política.
A religião também aparece de forma explícita em seu discurso. Flávio chegou a defender o Brasil como uma “nação cristã”, aproximando-se da base religiosa de Jair Bolsonaro.Sobre as armas, a campanha demonstra uma mudança de ênfase. Embora Flávio não tenha rompido com a pauta armamentista, o tema perdeu espaço para propostas de endurecimento penal e combate ao crime organizado. Na educação, aparecem propostas como expansão das escolas cívico-militares, método fônico de alfabetização e ensino de robótica e inteligência artificial. Flávio também tenta ampliar sua aproximação com o eleitorado feminino. O programa “Brasil por Elas” prevê creches, capacitação profissional, incentivo ao empreendedorismo, atendimento à saúde e medidas de proteção contra a violência.
Ao lançar o programa, afirmou que não havia se tornado “feministo” e vinculou a valorização das mulheres à defesa da família. A estratégia busca ampliar seu eleitorado sem romper com a base ideológica bolsonarista.
Economia e programas sociais
A área social e a política econômica aparecem interligadas, com os programas assistenciais tratados como ponte de acesso ao mercado de trabalho formal.
No plano de governo, o candidato assume o compromisso de manter todos os programas sociais em vigor, com foco no aperfeiçoamento da gestão e no combate às fraudes. Contudo, certos recursos de programas seriam bloqueados para apostas online, numa medida apresentada como proteção ao orçamento alimentar das famílias em situação de vulnerabilidade.
Na área habitacional, o plano retoma o programa “Casa Verde e Amarela”, com meta de entrega de 2,5 milhões de moradias e prioridade para que títulos de propriedade urbana sejam concedidos em nome das mulheres.
O candidato propõe, no âmbito tributário, rever a reforma em curso, buscando reduzir a alíquota do Imposto sobre Valor Agregado, atualmente projetada em 30%, e simplificar a legislação, com garantia de não cumulatividade real, de forma a impedir a cobrança de imposto sobre imposto, além de desonerar exportações e investimentos.
No campo fiscal, o candidato propõe uma reformulação das regras que regem o controle de gastos, com foco na redução gradual da relação entre dívida pública e PIB. Essa reformulação vem acompanhada de uma proposta de enxugamento da máquina pública, batizada de "Tesouraço", que prevê corte de cargos comissionados, combate a supersalários e a fusão ou extinção de pelo menos dez ministérios.
No mercado de trabalho, Flávio propõe a redução gradual dos encargos sobre a folha de pagamento das empresas, sendo um meio de estimular a contratação com carteira assinada.
Dois novos modelos de contrato acompanham essa medida. Um voltado a jovens de 18 a 24 anos, com custos de folha reduzidos para o primeiro emprego, e outro direcionado à recontratação de pessoas com 50 anos ou mais que estejam desempregadas há mais de um ano.
Instituições e democracia
A relação com o Supremo Tribunal Federal é um dos principais pontos de tensão da candidatura. Flávio Bolsonaro critica a atuação da Corte e propõe limitar decisões individuais de ministros e alterar algumas de suas competências.
O candidato também coloca a liberdade de expressão entre suas principais bandeiras. Ele critica a regulação das redes sociais sob o argumento de combate à censura, embora esse direito não seja absoluto e permaneça sujeito aos limites previstos em lei.
No caso do 8 de Janeiro, Flávio defende uma anistia “ampla, geral e irrestrita” aos envolvidos, o que poderia beneficiar Jair Bolsonaro. A medida, entretanto, não depende apenas do presidente: precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional.
No combate à corrupção, o programa prevê redução de cargos públicos, enfrentamento aos supersalários, mudanças no foro privilegiado e restrições destinadas a evitar conflitos de interesse no Judiciário.
As propostas revelam uma tensão central: Flávio afirma buscar maior equilíbrio entre os Poderes, mas sustenta uma plataforma marcada pelo confronto com o STF.
Política externa
No contexto da política externa, Flávio Bolsonaro defende, em linhas gerais, os mesmos ideais de seu pai.
Em relação às potências mundiais, o candidato defende uma política de aproximação com nações, como Estados Unidos, Israel e China. Por outro lado, é crítico à Venezuela e a outros governos de esquerda da América Latina.
Em relação aos Estados Unidos, o senador busca um alinhamento direto com o governo de Donald Trump. Flávio, inclusive, se reuniu com o presidente americano em maio de 2026, na Casa Branca e foi definido pelo presidente estadunidense como “um jovem inteligente que ama muito o seu país”.
Da mesma forma, o senador possui boa relação com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Em julho de 2026, Netanyahu elogiou o candidato à presidência em vídeo. Na gravação, ele afirmou: “Você é um grande campeão do Brasil, um grande campeão da amizade entre nossos povos, e eu sei que você levará o Brasil a patamares mais elevados”.
A relação de Flávio com a China é pragmática. Em julho de 2026, ele culpou Lula pela taxa adicional de 55% cobrada pelos chineses sobre a carne bovina. O senador afirmou que pretende procurar a Embaixada Chinesa no Brasil, a fim de pedir a revisão dessas taxas. Nesse contexto, o candidato não vê problema algum em negociar e conversar com a nação asiática.
Sobre a Venezuela, Flávio define o governo do país como uma ditadura. Ele utiliza da nação venezuelana como exemplo negativo dos avanços de pautas socialistas.
Em uma publicação no X, em janeiro de 2026, Flávio critica duramente os governantes Hugo Chávez e Nicolás Maduro: “ o país enfrentou a concentração de poder, o enfraquecimento das instituições democráticas, a perseguição à imprensa, a repressão à oposição e a eliminação da independência do Judiciário. Maduro utilizava o território venezuelano como rota estratégica para a distribuição de drogas para diversos países”.
O senador alinha-se a líderes conservadores próximos, como Javier Milei, atual presidente da Argentina, com viés de combater ideologias de esquerda nos continentes americanos.
O vice
Alfredo Gaspar, deputado federal do PL de Alagoas, foi anunciado como vice de Flávio Bolsonaro em cinco de agosto de 2026. Gaspar foi promotor de justiça e atuou no Ministério Público de Alagoas de 1996 a 2020. Além disso, comandou a Secretaria de Segurança Pública de Alagoas em dois períodos, 2015 a 2016 e 2021 a 2022.
Em 2022, Gaspar foi eleito Deputado Federal pelo União Brasil e em 2023 deu início ao seu primeiro mandato.
Em 2026, ele migrou para o PL, onde chegou a ser cotado como candidato ao senado por Alagoas. Entretanto, a candidatura não foi oficializada e ele foi anunciado como vice de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais.
Flávio pretendia colocar uma mulher como vice-presidente, a fim de atrair parte do eleitorado feminino conservador. Porém, acabou anunciando Alfredo Gaspar.
Gaspar foi acusado pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) e pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) por estupro de vulnerávels. A polícia ainda analisa o pedido de abertura da investigação.
Em coletiva realizada no início de agosto, Flávio Bolsonaro caracterizou a acusação como uma farsa. O candidato saiu em defesa do vice e descartou qualquer possibilidade de mudança na chapa.