Caso Master: o que você precisa saber

Escândalo monetário ultrapassa sistema financeiro e movimenta STF e Congresso
por
Iasmim Silva
Martim Tarifa
|
04/03/2026 - 12h

O Banco Master foi colocado em liquidação extrajudicial pelo Banco Central do Brasil em novembro de 2025, após meses de acompanhamento da situação financeira da instituição e tentativas frustradas de venda do controle. O banco, de médio porte e com atuação em São Paulo, já vinha sendo monitorado pela autoridade monetária por problemas de liquidez e fragilidades na carteira de crédito.

Antes da decisão, houve o anúncio de uma possível compra pelo Banco de Brasília (BRB), que não foi aprovada. Em seguida, um grupo ligado ao Fictor também tentou assumir a instituição, mas a operação igualmente não avançou. Paralelamente, a Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, passou a investigar suspeitas de criação e venda de carteiras de crédito inexistentes. 

A primeira fase resultou na prisão do controlador Daniel Vorcaro e no afastamento de Paulo Henrique Costa do comando do BRB. Posteriormente, Vorcaro foi solto por decisão judicial e passou a responder às investigações em liberdade.

Nesta quarta-feira (04), Daniel Vorcaro foi preso novamente pela Polícia Federal, em nova fase da Operação Compliance Zero. A medida foi autorizada pelo ministro André Mendonça, atual relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), e faz parte do aprofundamento das investigações sobre possíveis crimes financeiros e tentativa de obstrução das apurações.

Daniel Vorcaro
Dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Foto: Márcio Gustavo Vasconcelos

O caso ganhou repercussão nacional quando surgiram citações a autoridades com foro privilegiado. As investigações passaram a tramitar no STF, após menções aos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli em reportagens e nos autos. O Banco Central já havia divulgado, ao longo de 2025, relatórios apontando problemas na estrutura financeira do Master.

Modelo de negócios e risco

Em entrevista à AGEMT, o economista Rafael Prado afirmou que o modelo de negócios do banco apresentava sinais claros de desequilíbrio. Segundo ele, o Master adotava uma estratégia agressiva de captação, oferecendo CDBs com rentabilidade entre 120% e 140% do CDI, taxa que serve como referência para investimentos considerados de baixo risco no país.

“Era claro o descasamento entre ativos e passivos do banco”, afirmou Prado. “Quando você oferece 120% ou 140% do CDI, está prometendo uma rentabilidade acima do que é considerado livre de risco. O investidor precisa estar ciente de que existe risco nessa operação, mesmo sendo um papel de renda fixa.”

O economista também destacou que parte relevante dos ativos estava concentrada em precatórios e participações em empresas com dificuldades financeiras, além de operações de baixa liquidez. Essa combinação, segundo ele, contribuiu para o comprometimento do balanço e para a perda de capacidade de honrar compromissos.

A crise trouxe ainda discussões sobre o papel do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que garante até R$ 250 mil por CPF em determinados produtos bancários. Embora o fundo seja considerado sólido, especialistas ressaltam que a garantia não elimina o risco da aplicação e não deve ser usada como principal argumento para decisão de investimento.

Para Prado, a atuação do Banco Central seguiu os instrumentos previstos na legislação, passando por etapas de acompanhamento antes de decretar a liquidação. Ele avalia que o episódio é pontual e não indica, até o momento, risco sistêmico para o sistema financeiro brasileiro.

Implicações no STF e suspeitas de conflito

Após a prisão de Daniel Vorcaro em novembro de 2025, relatório da Operação Compliance Zero apontou possível relação do ministro relator com o caso. Menções diretas ao nome de Dias Toffoli apareceram em conversas no celular do dono do Banco Master.

Toffoli
Ministro Dias Toffoli. Foto: Geraldo Magela/Agência Senado

A empresa Maridt Participações, da qual o ministro é sócio, tinha relações comerciais com a Reag, gestora de fundos de investimento suspeita de compor uma rede fraudulenta de finanças junto ao Master e que também teve a liquidação decretada pelo Banco Central. Em nota, o gabinete de Toffoli afirmou que, apesar de ser um dos sócios, quem gere a empresa são seus irmãos.

Após reunião realizada no dia 12 de fevereiro, o STF comunicou o afastamento do ministro Dias Toffoli em votação unânime, mas informou que todos os ministros reconhecem a validade das decisões tomadas por ele durante o período de relatoria do caso. Após novo sorteio, o ministro André Mendonça assumiu a condução do processo.

O doutor em Direito e comentarista político Wagner Gundim afirmou à AGEMT que “a presença de Dias Toffoli no caso Master, do ponto de vista institucional, é profundamente problemática”. Segundo ele, independentemente da conduta do magistrado, o STF, como guardião da Constituição, não pode conviver com rumores de parcialidade.

Como relator, Toffoli decretou sigilo durante as investigações após apontar possível envolvimento de um deputado e determinou a centralização do caso no Supremo, medida prevista para situações com autoridades com foro privilegiado.

O ministro Alexandre de Moraes também foi vinculado ao Banco Master após a divulgação de informação sobre um suposto contrato em nome de sua esposa com empresa ligada a Daniel Vorcaro. Segundo a jornalista Malu Gaspar, o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes teria contrato com o Master que poderia atingir R$ 129 milhões em três anos. O documento, contudo, não foi apresentado publicamente, e a fonte não foi revelada.

Repercussões no Congresso

No Congresso, o senador Ciro Nogueira (PP) apresentou proposta que ficou conhecida como “Emenda Master”, prevendo a ampliação da cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Para Wagner Gundim, a iniciativa evidencia o impacto do poder econômico sobre o poder político. Ele avalia que o caso expõe a atuação de um “lobby institucionalizado, não regularizado” nos bastidores da política brasileira.

O escândalo também passou a ser investigado pela CPI do Crime Organizado, que aprovou a quebra do sigilo decretado por Dias Toffoli e a convocação dos irmãos do ministro, sócios da Maridt Participações. A sessão da CPI que aconteceria nesta quarta-feira (04) foi cancelada após a prisão de Vorcaro. 

As decisões, no entanto, foram suspensas por ministros do STF. Gilmar Mendes anulou a quebra de sigilo das investigações, enquanto André Mendonça acatou pedido da defesa dos irmãos de Toffoli para que não fossem obrigados a depor. A eventual ida à CPI ficou, portanto, a cargo deles.