Em meio ao movimento do Viaduto Santa Ifigênia, no dia 26 de julho, Penha Maia apresentou sua coleção “Brutalismo: Corpo Urbano”. A estilista, acostumada a transitar entre o concreto e o surreal, parte do cenário urbano para reinterpretar o corpo e o cotidiano a partir de elementos presentes na vida da cidade. O desfile, que ocupou a rua e o centro de São Paulo, reflete sobre a verticalização da metrópole, além da força do concreto e a forma como a população ocupa esse espaço. Sobretudo, a apresentação foi uma verdadeira democratização da moda no Brasil.
Paraibana radicada em São Paulo com mais de duas décadas, Penha Maia cria vestidos de noivas para Pó de Arroz há 16 anos. Desde 2020, ela comanda a marca que leva seu nome, que é moldada por seu universo onírico e imaginativo aliado ao uso de materiais, texturas e técnicas diversas.
A coleção “Brutalismo: Corpo Urbano” conta com 45 peças grandes e arquitetônicas com o objetivo de transmitir a imagem de “um corpo pedindo passagem” em meio à expansão vertical da cidade. “Começo o desfile com o concreto bruto a partir da alfaiataria, e termino de uma forma mais doce, trazendo renda e cores mais neutras”, explica Penha em entrevista à AGEMT.
A ideia da estilista durante a dinâmica do desfile se constrói a partir de um cenário estritamente vertical. As formas, inspiradas no balé da Bauhaus, são instrumentos de linguagem para contar a narrativa arquitetônica de Lina Bo Bardi, Oscar Niemeyer e Le Corbusier. Ainda assim, Penha Maia cria uma identidade própria para traduzir os elementos da cidade, relacionando sua inquietude à capital paulista por meio de cores, formas e estruturas inusitadas. O Look Masp, por exemplo, brincou com a geometria e a paleta do Museu de Arte de São Paulo reinterpretando seus elementos visuais em uma proposta que une moda, arquitetura e memória urbana.
Há uma construção romântica dessas peças que ressignifica narrativas e aproxima a moda não apenas da arquitetura, mas também das pessoas responsáveis por construí-la. O capacete de construção transforma-se em adorno; as estruturas metálicas das tubulações reaparecem nas mangas; os óculos de operário envoltos por um material mais delicado. “O uso da matéria prima industrial junto da renda foi uma maneira de diversificar os materiais e trazer o romantismo para a peça”, conta Penha.
A estilista incorpora o upcycling (reciclagem), principalmente, a partir de materiais de seu próprio ateliê. “Meu caminho na sustentabilidade é por meio do reaproveitamento do meu próprio material e com ele construir uma peça pensada, elaborada e carregada de história”, esclarece.
Foto: Divulgação/Penha Maia
Foto: Divulgação/Penha Maia
Penha Maia declara emocionada que, infelizmente, a cultura não chega até todos, principalmente a moda, extremamente elitizada. O Viaduto Santa Ifigênia não fechou, as duas paralelas circularam e a movimentação do entorno se manteve ativa durante o desfile. “Fiquei na boca de cena, soltando as modelos com meu stylist e, de longe, vi uma senhora observando minhas roupas, e me perguntei: o que será que ela está pensando?”, relata. Penha ressalta que usa a moda para fazer arte e que acredita ter chamado atenção do público.
Por fim, ela confia ter conseguido democratizar a moda com “Brutalismo: Corpo Urbano” e alimentado a imaginação e o senso crítico daqueles que por ali passaram.