Desde o começo do século XXI a arte negra periférica ganhou mais espaço dentro da esfera cultural brasileira. O número de museus, memoriais e acervos institucionais aumentou devido à fortificação de políticas públicas voltadas para a valorização da história afro-brasileira. No entanto, mesmo com maior incentivo à visitação e propagação dessa arte, as instituições negras ainda passam por mais dificuldades para a sua permanência: há uma disparidade entre financiamentos que essas instituições recebem em comparação com as tradicionais e em como as suas exposições são percebidas pela sociedade.
Instituições como o Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, na capital de São Paulo, o Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), no Rio de Janeiro, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador na Bahia e o Museu de Arte Negra (MAN) em Inhotim, na região de Brumadinho, em Minas Gerais, são locais importantes que vêm consolidando seu espaço e influência na cena cultural brasileira. Alguns, desde o começo do século, como o Museu Afro Brasil que foi fundado em 2004, quanto outros mais recentes, como o MUHCAB, fundado em 2017.
Claudinei Roberto, conselheiro do Museu Afro Brasil, avalia que a criação dos museus de arte negra é importante para para preservação e divulgação da memória de maiorias que foram, historicamente, minoradas e destaca que essa “já é uma conquista recente desses grupos”.
Outra notável conquista desses museus se encontra na prática: as visitações. O número de visitantes dedicados à espaços de cultura negra, como o Museu Afro Brasil, registrou crescimento nos últimos anos. O Relatório Anual de Atividades, publicado pelo Museu Afro, registrou um aumento de 12% nos visitantes presenciais em 2024 em relação ao ano anterior. Além disso, o museu também expandiu a sua presença virtual, contabilizando aproximadamente 500 mil acessos em seu site oficial.
No entanto, apesar das conquistas recentes, as instituições de arte negra enfrentam dificuldades para a sua permanência. O Museu Afro Brasil possui um contrato de gestão vigente de 2023 a 2027 com o Governo do Estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas (SCEIC) com valor global de aproximadamente R$ 73,7 milhões para os cinco anos, o que resulta em uma média de repasse público anual de aproximadamente R$ 14,7 milhões para a manutenção, eventos e custeio.
Em comparação, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, instituição branca, possui um contrato de gestão válido de 2023 a 2028 com valor global de R$ 206,2 milhões, o que equivale a aproximadamente um investimento anual de R$ 40,5 milhões, conforme os dados oficiais do Portal da Transparência da Cultura, sendo esse valor cerca de seis vezes maior do que valor destinado ao Museu Afro Brasil.
Mesmo com a disparidade financeira aparente, no ano de 2023 o Museu Afro Brasil realizou 120 eventos e 12 exposições. Enquanto o complexo da Pinacoteca (Pinacoteca/Estação Pinacoteca/Pina Contemporânea) apresentou, no mesmo ano, um marco de 118 eventos realizados e sete exposições.
Claudinei Roberto analisa tal discrepância como consequência do passado colonial: “a produção simbólica e intelectual de não brancos é, geralmente, submetida ao processo epistemicida, isto é, a memória e a cultura são sistematicamente apagadas, invisibilizadas e menosprezadas”. O conselheiro explica que o tamanho desses espaços e a quantidade dos museus dedicados à cultura afro-brasileira corresponde à importância (ou a falta de importância) que a branquitude atribui a eles e a população que eles representam ou representariam.
Além da esfera institucional, exposições de arte negra também são, frequentemente, alvo de críticas e mal recebidas pela sociedade. A exposição “FUNK: Um grito de ousadia e liberdade”, exibida no Museu da Língua Portuguesa (MLP) de novembro de 2025 até maio de 2026, foi encerrada antes da data prevista por receber ataques do deputado do Partido Liberal (PL), Tenente Coimbra.
O Ministério Público de São Paulo (MPSP) foi acionado pelo deputado após acusações de “enaltecimento da narcocultura, uso apelativo de imagens de jovens em bailes funk, apologia ao tráfico de drogas e conotação sexual”. Publicado no portal da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), um requerimento de informação ao MLP escrito pelo deputado, alega que a exposição contém a “inclusão de representações de armamento, simbologias potencialmente associadas à criminalidade, conteúdos musicais com temática relacionada à criminalidade, imagens com conotação de violência (...)”.
A exposição, concebida originalmente pelo Museu de Arte do Rio (MAR), foi criada para abrir espaço ao debate do papel do funk nos repertórios linguísticos e artísticos. A exposição investiga a história do funk, sua matriz cultural urbana e periférica, sua extensão à coreografia, seus impactos nas comunidades, na criação de identidade e suas dimensões políticas e econômicas construídas em torno de seu imaginário. A exposição ficou marcada na história do MLP como a terceira maior exposição desde a sua reabertura.
A curadora da exposição, Renata Prado, formada em pedagogia pela Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que “ser curadora de uma exposição de funk que mudou a concepção de arte da cidade do Rio de Janeiro é aceitar o desafio de construir a narrativa do funk paulista no Museu da Língua Portuguesa”. Prado explica que o propósito se conserva, de mostrar novas possibilidades de enxergar a arte através da cultura do funk.
A retirada da exposição foi pauta de audiência pública na Alesp, onde artistas e pesquisadores se reuniram para discutir o significado de tal decisão e o futuro das exposições negras periféricas de São Paulo. A deputada Paula da Bancada Feminista do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) analisa tal acontecimento como uma repressão. "Eu não tenho dúvida de que esse é um ato de censura", declarou na audiência.
Giulya Santana, estudante de publicidade e propaganda na Universidade Presbiteriana Mackenzie, produziu um artigo sobre o papel do funk na construção identitária dos jovens de São Paulo e analisou a exposição do MLP. Giulya levanta a discussão sobre o porquê o funk é atacado quando está em um museu. “Para eles é um insulto um agente público financiar esse tipo de coisa, mas a discussão está muito ligada a um viés moral”, analisa a estudante.
Ela destaca que, historicamente, São Paulo tem criado mais espaço para a arte negra periférica, como o Museu das Favelas, inaugurado em 2022. “Ter um ambiente para pensar a celebração da cultura periférica mostra que existe uma mudança em curso, mas também demonstra que esses projetos curatoriais não sabem, muitas vezes, lidar com esses tipos de manifestação, que são mais vulneráveis, e o funk é uma delas”, explica.
Giulya comenta que há uma fragilidade dessas instituições por não saberem lidar com críticas sobre essas exposições: “Quando o MLP cede a esse tipo de pressão e acaba encerrando a exposição antes do previsto, ele dá uma mensagem de que é mais fácil acabar a discussão do que lidar com o fato de que manifestações periféricas serão atacadas”.
Por fim, Claudinei retoma que somente uma efetiva e equânime participação das “minorias” em todas as esferas de poder da sociedade garantiria a implantação, permanência e expansão dos museus afro e dos seus acervos. “Fora disso tudo adquire um caráter ‘cosmético’, ou seja, tem a aparência de diversidade e pluralismo, mas guarda justamente o contrário, a manutenção da injustiça social a partir da gestão heteronormativa, branca, burguesa, racista, homofóbica, misógina e, portanto, excludente”, detalha o especialista.