Anne Carson vence Nobel de Literatura de 2026

Especialista em literatura clássica, a autora canadense construiu uma carreira cheia de experimentações com a linguagem e de releituras de mitos gregos.
por
Livia Vilela
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13/10/2026 - 12h

A escritora canadense Anne Carson, de 76 anos, conquistou o Prêmio Nobel de Literatura de 2026, anunciado na última quinta-feira (8) pela Academia Sueca. Conhecida por desafiar as fronteiras entre poesia, prosa e ensaio, a autora recebeu a principal distinção literária do mundo por uma obra que reinventa os clássicos da Antiguidade e explora novas possibilidades de expressão. Sua produção combina referências à mitologia grega com reflexões contemporâneas sobre amor, desejo e a condição humana.

Criado em 1901, o Nobel de Literatura reconhece anualmente autores que se destacam por suas contribuições à literatura. Carson é a 19ª mulher a receber o prêmio, que já tem 125 anos de história. Além do reconhecimento internacional, a escritora receberá uma medalha de ouro, um diploma e 11 milhões de coroas suecas, aproximadamente R$ 6,2 milhões. A cerimônia de entrega está prevista para 10 de dezembro, em Estocolmo, na Suécia.

A notícia também surpreendeu a escritora, que estava em Reykjavík, na Islândia, quando recebeu a ligação da Academia Sueca. Conhecida por sua discrição, Carson reagiu com bom humor à escolha. “Loucos. Acho que todos estão loucos. É uma loucura”, declarou à emissora pública islandesa RÚV, ao comentar a decisão do comitê.

Nascida em Toronto, no Canadá, em 1950, Anne Carson é poeta, ensaísta, tradutora e professora de literatura clássica. Seu interesse pela língua e pela cultura da Grécia Antiga orientou grande parte de sua trajetória acadêmica e literária. Especialista em estudos clássicos, lecionou em instituições como as universidades McGill, no Canadá, Michigan e Princeton, nos Estados Unidos, além de se dedicar à tradução de autores como Safo, Eurípides e Sófocles.

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A poeta e ensaísta Anne Carson, em 2012 Foto: Peter Smith/ Instagram @nobelprize

 

Seu livro de estreia, "Eros, o Doce-Amargo", lançado em 1986, foi desenvolvido a partir de sua pesquisa de doutorado. Desde então, Carson construiu uma carreira marcada pela aproximação entre a cultura da Antiguidade e as experiências contemporâneas. Seu trabalho já havia sido reconhecido com prêmios importantes antes do Nobel, como o T. S. Eliot, em 2001, e o Princesa das Astúrias de Letras, em 2020.

Além de revisitar temas da Antiguidade, Carson se destaca pela forma como explora diferentes possibilidades da linguagem e rompe com as estruturas tradicionais da literatura. Em suas obras, poesia e prosa se misturam a reflexões filosóficas, críticas literárias e referências históricas, sem uma separação rígida entre esses elementos. A autora também recorre à mitologia grega para reinterpretar personagens e conflitos antigos a partir de questões contemporâneas, como identidade, sexualidade, desejo, sofrimento e perda.

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Anúncio oficial da Academia Sueca sobre a escolha de Anne Carson para o Nobel de Literatura de 2026. 
Foto: Instagram @nobelprize


Entre seus trabalhos mais conhecidos está "Autobiografia do Vermelho", publicado originalmente em 1998. Considerado um dos principais títulos da autora, o romance em versos revisita o mito grego de Gerião, monstro vermelho e alado morto por Hércules durante um de seus doze trabalhos. Na releitura de Carson, Gerião é apresentado como um jovem sensível, apaixonado por fotografia, que vive uma intensa relação amorosa com Héracles. A história aborda o amadurecimento, a descoberta da sexualidade e as dores do primeiro amor, transformando uma figura tradicionalmente monstruosa em protagonista de uma experiência profundamente humana.

Outra obra de destaque é a primeira "Eros, o Doce-Amargo", de 1986, que discute a natureza do desejo amoroso a partir da literatura e da filosofia da Grécia Antiga. Inspirada especialmente nos poemas de Safo, a escritora explora a relação entre amor, ausência e desejo, refletindo sobre como a impossibilidade de possuir completamente aquilo que se ama participa da própria experiência amorosa. O livro combina pesquisa acadêmica e sensibilidade poética, característica que se tornaria central em sua produção.

Já em "A Beleza do Marido", lançado mais recentemente em 2001, Carson apresenta a história de um casamento marcado pela paixão, pela infidelidade e pelo desgaste. Estruturado como um ensaio ficcional em 29 tangos, o livro combina versos e reflexões sobre a beleza, a memória e as contradições do amor. Foi por essa obra que a autora se tornou a primeira mulher a receber o T. S. Eliot.

No Brasil, oito livros da escritora já foram publicados por editoras como a 34, a Relicário e a Bazar do Tempo. Embora sua produção seja marcada por referências à Antiguidade, Carson encontra na experimentação uma forma de renovar a literatura. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, em 2016, ela resumiu sua visão sobre as possibilidades da escrita: “Se a prosa é uma casa, a poesia é um homem em chamas correndo muito depressa por dentro dela”.
 

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