No final de 2025 a Casa Branca divulgou a nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos, o documento cita a Doutrina Monroe e diz que deve-se "retomar" os princípios no relacionamento com a América Latina. Ao trazer essa lógica histórica de influência dos EUA sobre a região, o governo de Donald Trump parece operar uma espécie de atualização informal daquela doutrina, agora com menos coerência diplomática e mais por imprevisibilidade estratégica. Em vez da negociação multilateral, o que é observado é a substituição do diálogo por pressões econômicas, ameaças políticas e iniciativas unilaterais que tensionam as relações regionais.
A Doutrina Monroe, formulada em 1823 sob o lema “América para os americanos”, foi uma política externa estadunidense responsável por construir as primeiras relações do país com a América Latina. Inicialmente apresentada como um instrumento de oposição às tentativas de recolonização europeia no continente, a doutrina transformou-se, ao longo do tempo, em justificativa para a consolidação da influência norte-americana no hemisfério.
Para Sergio Simoni, professor doutor em ciência política da USP, esse movimento não é inteiramente novo, governos norte-americanos sempre buscaram ampliar sua influência no continente. Mas o atual momento se distingue por ultrapassar os padrões considerados esperados da diplomacia contemporânea. Para o professor, a política externa de Trump “vai além do esperado tanto no âmbito político quanto no âmbito diplomático e econômico”.
Segundo o professor de História da PUC-SP, Daniel Carvalho De Paula, no século XIX a Doutrina Monroe possuía um caráter mais defensivo e simbólico, mas passou por uma importante reinterpretação no início do século XX com o Corolário Roosevelt. “Ela foi reinterpretada como fundamento do direito de intervenção dos Estados Unidos em países latino-americanos, especialmente em nome da estabilidade política, da proteção de interesses econômicos e da segurança regional”, explica.
Na avaliação de De Paula, as preocupações atuais dos Estados Unidos concentram-se em temas como migração, narcotráfico, segurança energética e, sobretudo, no avanço da presença chinesa na América Latina. Ainda assim, o historiador ressalta uma diferença importante em relação ao passado: “Hoje existe uma América Latina mais diversificada em suas alianças internacionais e com maior capacidade de negociação, o que torna a hegemonia norte-americana menos absoluta e mais sujeita a disputas políticas, econômicas e diplomáticas no cenário hemisférico atual”.
Doutrina Monroe 2.0
Essas pressões sobre países como México, Colômbia e Brasil, frequentemente apresentadas no discurso do combate ao narcotráfico e ao terrorismo, podem ser entendidas como parte de uma continuidade histórica mais ampla da política externa dos Estados Unidos na região, como Simoni destaca: “O governo Trump está tomando diversas iniciativas para manter ou aumentar a influência dos Estados Unidos na América Latina. O exemplo clássico é a Doutrina Monroe, que foi um documento doutrinário sobre isso e que o Trump agora até diz que está atualizando”
Mesmo quando não se concretizam em intervenções diretas, essas iniciativas, sejam sanções, ameaças diplomáticas ou pressões econômicas, já produzem efeitos internos importantes. Elas reorganizam o campo político doméstico, reforçam atores e discursos mais alinhados a Washington e reconfiguram disputas que passam a ser atravessadas por esse eixo externo. Nesse sentido, não se trata apenas de “ações pontuais”, mas de fatores que interferem na dinâmica política dos países, deslocando prioridades governamentais e influenciando a formação de coalizões.
Diferentemente de leituras que aproximam esse cenário do Plano Condor, o docente ressalta uma distinção fundamental: o contexto atual é marcado por regimes democráticos, e não por ditaduras militares articuladas sob a lógica da Guerra Fria. Ainda assim, isso não significa ausência de influência externa, mas sim uma transformação de seus mecanismos. Em vez da repressão direta, o que acontece é uma articulação transnacional de grupos de extrema-direita, capazes de influenciar agendas, eleições e governos.
As tarifas
Na economia, a política tarifária se tornou um dos principais instrumentos estratégicos de Donald Trump. Segundo Simoni “A questão das tarifas, que era algo que ele já tinha feito no primeiro mandato e anunciado na campanha [eleitoral] que iria fazer. É algo que afeta o mundo todo, não só países da América Latina”.
Em julho de 2025, o Brasil foi o país mais afetado pelo tarifaço de Trump, com taxa de 50% de aumento, mas deixou de fora itens estratégicos, como o petróleo. Ainda em 2025, o presidente dos Estados Unidos recuou e isentou itens como café, carnes, frutas e minerais. A medida foi formalizada por meio de uma nova ordem executiva assinada por Donald Trump e publicada no site da Casa Branca.
A imposição de tarifas, que chegaram a patamares médios elevados desde 2025, não apenas reorganiza fluxos comerciais, mas também funciona como mecanismo de pressão política sobre países parceiros. Mais do que medidas protecionistas, essas tarifas operam como ferramentas de negociação, frequentemente aplicadas ou suspensas conforme interesses conjunturais. Resultando em um ambiente de instabilidade que afeta diretamente a autonomia econômica da América Latina.
Resposta brasileira às políticas estadunidenses
No Brasil, diante de pressões externas (como ameaças tarifárias e disputas financeiras), o governo Lula passou a mobilizar um discurso nacionalista historicamente associado à direita. Ao defender a soberania econômica frente às investidas norte-americanas, o governo desloca temporariamente as fronteiras ideológicas tradicionais, evidenciando como a política externa de Trump reconfigura não apenas relações internacionais, mas também disputas internas.
Sobre as estratégias brasileiras, Sergio Simoni afirma: “A gente teve alguns indícios de que o governo Lula conseguiu beliscar um pouco dessa pauta que é tradicional da direita brasileira, de defesa do nacionalismo, quando o governo começou a defender e levantar essa bandeira para combater as tarifas que o Trump estava fazendo e as ameaças ao PIX.”
O que seria a “Doutrina Monroe 2.0” não se apresenta como um projeto estruturado e coerente, mas como uma prática marcada pela volatilidade. Entre tarifas, ameaças e articulações políticas transnacionais, a América Latina volta a ocupar um lugar central na estratégia dos Estados Unidos, não mais como território de intervenção direta, mas como espaço de disputa em um cenário global cada vez mais instável.
O sequestro de Nicolás Maduro
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças norte-americanas, anunciada por Donald Trump em janeiro de 2026, trouxe à tona o debate sobre os limites da atuação dos Estados Unidos na América Latina e discussões sobre soberania e intervenção no continente. Segundo o governo norte-americano, Maduro foi retirado da Venezuela para responder em solo estadunidense a acusações ligadas ao narcotráfico. A operação gerou reações diplomáticas imediatas e foi classificada por governos e organizações internacionais como um episódio sem precedentes recentes nas relações hemisféricas.
Na avaliação do professor Daniel, o episódio representa simultaneamente ruptura jurídica e diplomática e continuidade histórica. “É ruptura porque a captura de um chefe de Estado em território estrangeiro, por forças norte-americanas, ultrapassa formas tradicionais de pressão diplomática, sanções econômicas ou apoio indireto a opositores”, afirma o docente. Para ele, o caso foi denunciado como possível violação da soberania venezuelana e das normas internacionais, mas não pode ser compreendido como um acontecimento isolado.
Segundo o acadêmico, existe uma continuidade histórica que conecta o episódio às práticas anteriores da política externa dos Estados Unidos na região. “A Doutrina Monroe, o Corolário Roosevelt, as ocupações militares no Caribe e na América Central e o apoio a golpes durante a Guerra Fria mostram que muda a linguagem legitimadora, mas permanece a pretensão de Washington de agir unilateralmente quando considera que a região afeta sua segurança estratégica”, explica.
Nesse sentido, o caso Maduro aparece como um dos exemplos mais explícitos daquilo que parte dos analistas descreve como uma “Doutrina Monroe 2.0”: não necessariamente baseada em ocupações prolongadas ou operações sistemáticas, mas marcada por ações de alto impacto político, justificadas por argumentos ligados à segurança, ao combate ao crime organizado ou à estabilidade regional.
A questão cubana
As tensões envolvendo Cuba também ajudam a compreender a centralidade renovada da América Latina na política externa norte-americana. Desde a Revolução Cubana de 1959, a ilha ocupa um lugar singular na estratégia dos Estados Unidos, funcionando simultaneamente como adversário político e símbolo histórico das disputas por influência no continente.
Durante a Guerra Fria, Cuba tornou-se um dos principais pontos de confronto entre os Estados Unidos e a União Soviética. O embargo econômico, as tentativas de isolamento diplomático e os sucessivos episódios de tensão consolidaram a ilha como um símbolo da resistência à hegemonia estadunidense na região. Embora o contexto internacional tenha mudado, parte dessa lógica permanece.
Segundo Daniel Carvalho de Paula, Cuba continua sendo percebida pelos Estados Unidos como peça estratégica no Hemisfério Ocidental. “Desde a Revolução Cubana de 1959, a ilha tornou-se um desafio histórico à hegemonia norte-americana na América Latina, sobrevivendo à Guerra Fria, ao embargo econômico e às tentativas de isolamento diplomático”, afirma.
Na avaliação do professor, as pressões contemporâneas não se explicam apenas por divergências ideológicas. “Hoje, essa lógica aparece associada não apenas à dimensão ideológica, como ocorreu durante a Guerra Fria, mas também à crescente influência de países como China e Rússia na América Latina e no Caribe, envolvendo interesses econômicos, tecnológicos, militares e estratégicos”, explica. Para Daniel, esse processo evidencia permanências históricas mais profundas. “Cuba continua funcionando como um símbolo das disputas sobre soberania, autonomia regional e limites da hegemonia norte-americana no continente”, conclui.