A experiência de João Pedro mostra como tecnologias assistivas ampliam as possibilidades de mobilidade de pessoas com deficiência física.
por
Dhara Yuki
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26/10/2026 - 12h

Por Dhara Yuki

 

Para João Pedro sair de casa exige pensar além do destino. Antes de atravessar a porta é preciso considerar o caminho, a distância, o tempo que ficará em pé e os recursos que poderá precisar para chegar ao lugar desejado. Dependendo do compromisso, a escolha pode ser uma órtese, uma muleta ou uma cadeira de rodas. A decisão não é apenas sobre como se locomover, mas sobre qual equipamento oferecerá melhores condições para enfrentar o percurso.

Diagnosticado ainda durante a gestação com mielomeningocele, uma má-formação congênita da coluna vertebral, João teve contato com a tecnologia médica antes mesmo de nascer. Durante os exames de pré-natal, sua mãe descobriu a condição e soube que existia a possibilidade de uma cirurgia para corrigir a má-formação ainda dentro do útero. O procedimento, que envolve a abertura do útero para operar a coluna do feto e depois reposicioná-lo, foi uma das primeiras possibilidades de intervenção médica relacionadas à sua condição. Uma das complicações associadas à mielomeningocele é a hidrocefalia, caracterizada pelo acúmulo de líquido nos ventrículos cerebrais. Logo após o nascimento, João passou por uma cirurgia para tratar o problema e recebeu uma válvula que permitia drenar o excesso de líquido. O dispositivo, entretanto, exigia acompanhamento médico e poderia precisar ser substituído ao longo da vida. A possibilidade de depender de um equipamento por tempo indeterminado fez parte de sua história desde o começo. Anos depois, uma nova intervenção médica mudaria essa relação com a tecnologia.

Quando tinha dois anos, a mãe de João descobriu o Hospital Sarah Kubitschek, em Minas Gerais, uma instituição especializada em reabilitação. Lá, ele iniciou um tratamento direcionado às necessidades de pessoas com a mesma deficiência e passou a utilizar órteses de polipropileno, dispositivos que auxiliam a sustentação e o movimento das pernas, e esse acompanhamento durou dez anos. A órtese se tornou parte de sua rotina e permitiu que ele desenvolvesse sua mobilidade com o auxílio do equipamento. Entretanto, conforme crescia, as limitações do material começaram a aparecer. Por volta dos 12 anos, a equipe que o acompanhava informou que as órteses utilizadas até então não seriam mais suficientes para suportar seu peso. Era necessário encontrar outra alternativa.

A busca levou João à Ottobock, uma empresa especializada em soluções de tecnologia assistiva, entre elas órteses e próteses. A alternativa encontrada utilizava fibra de carbono, um material que permite produzir dispositivos leves e resistentes. Porém, o custo representava um obstáculo. Os equipamentos eram caros, e conseguir acesso a uma tecnologia mais adequada às suas necessidades não dependia apenas de sua existência. Na mesma época, João decidiu procurar uma cadeira de rodas motorizada. Embora conseguisse andar com o auxílio da órtese, percorrer longas distâncias provocava cansaço. A cadeira poderia facilitar esses deslocamentos, mas, para adquiri-la, foi necessário organizar uma vaquinha com a ajuda de amigos e familiares.

No entanto, a cadeira não correspondeu às expectativas, pois pesava aproximadamente 70 quilos, sendo difícil transportá-la, e as condições das ruas de Santo André tornavam a locomoção ainda mais complicada. A tecnologia havia sido pensada para facilitar seus deslocamentos, mas o peso do equipamento e as características do espaço urbano acabaram gerando novas dificuldades. A experiência evidencia uma contradição presente no cotidiano de muitas pessoas com deficiência, um dispositivo pode oferecer determinada solução sem necessariamente resolver os problemas encontrados no ambiente em que será utilizado. Não basta que um equipamento permita o deslocamento se o peso, o transporte ou as condições das calçadas dificultam sua utilização.

Aos 15 anos, João enfrentou outro episódio que mudaria sua relação com os recursos médicos. As dores de cabeça se tornaram intensas e não melhoraram nem com o uso de fortes analgésicos. Ao procurar um neurologista, recebeu a orientação de que a válvula implantada após o nascimento deveria ser substituída, mesmo sem estar completamente obstruída, porém outra possibilidade foi levantada, segundo João, o médico havia desenvolvido uma técnica cirúrgica que permitiria tratar a hidrocefalia sem a necessidade de manter a válvula. O procedimento foi realizado fora do convênio porque não oferecia cobertura, e teve o resultado esperado. Desde então, João não precisou mais utilizar o dispositivo. A cirurgia representou uma grande mudança, um recurso que havia acompanhado sua história desde os primeiros dias de vida deixou de ser necessário. O avanço médico não se limitou a substituir um equipamento antigo por outro, mas possibilitou uma nova condição de tratamento. O acesso, porém, teve um custo. A ausência de cobertura pelo convênio fez com que o procedimento dependesse de recursos particulares, revelando que a existência de uma tecnologia não significa que ela esteja disponível para todos que poderiam se beneficiar dela.

Na mesma fase, João conseguiu adquirir uma órtese de fibra de carbono. O equipamento permaneceu com ele por aproximadamente seis anos, período em que o dispositivo acompanhou seu crescimento e suas necessidades. Agora, ele se prepara para trocá-lo por um modelo mais recente, desenvolvido para corrigir melhor sua marcha e oferecer menor peso. A evolução das órteses mostra como a tecnologia assistiva não se resume à criação de um equipamento. Os dispositivos também passam por aperfeiçoamentos que podem modificar sua eficiência, seu conforto e a forma como se integram à rotina de quem os utiliza. Para João, a troca representa a possibilidade de contar com um recurso mais adequado às necessidades atuais, depois de anos utilizando o mesmo equipamento.

A cadeira de rodas também ganhou uma nova versão. Durante um intercâmbio na Itália, João passou os primeiros 15 dias acompanhado da mãe para compreender como seria sua rotina no país e avaliar as dificuldades de deslocamento. Percebeu que não conseguiria percorrer todos os trajetos apenas com a órtese. Dessa vez, encontrou uma cadeira mais leve, compacta e acessível financeiramente. O modelo atual pesa 27 quilos, dobra-se como um carrinho de bebê e custou menos da metade do preço da primeira cadeira motorizada que havia adquirido.

Hoje, João alterna os recursos de acordo com a necessidade. Nos dias em que precisa comparecer presencialmente a compromissos que exigem permanecer muito tempo em pé, utiliza a cadeira de rodas. Para ir à faculdade, quando considera o percurso viável, prefere a órtese e a muleta. A escolha também depende das condições do caminho. Em ruas irregulares ou em trajetos nos quais precisa ter maior controle dos movimentos, a cadeira pode ser menos prática do que a muleta. O equipamento mais avançado, portanto, não é necessariamente o mais adequado em todas as situações. A autonomia está também na possibilidade de escolher o recurso que melhor responde às necessidades de cada deslocamento.

Dentro de casa, a rotina é diferente. João utiliza um assento fixo durante o banho por causa da dificuldade para permanecer em pé por muito tempo, mas fora isso, sua casa não conta com adaptações específicas para sua condição, inclusive, consegue subir e descer escadas, mas algumas tarefas mais simples, como levar um copo ou um prato da pia até a mesa, exigem atenção para evitar desequilíbrios. A tecnologia, nesse contexto, não elimina todas as dificuldades. Mesmo com os equipamentos que utiliza, existem situações em que a organização dos espaços e as características do ambiente interferem diretamente em sua autonomia.

A mesma questão aparece quando João vai à faculdade. A instituição realiza a chamada por meio do sistema da catraca, mas a entrada principal não oferece acessibilidade. Para conseguir entrar, ele precisa utilizar o portão dos fundos, que permite a passagem, mas não conta com o sistema de registro de presença. A solução encontrada pela instituição para registrar presença aos alunos não contempla todos da mesma maneira. O problema não está na capacidade de João de frequentar as aulas, mas na ausência de uma estrutura que permita que ele acesse o espaço e cumpra os procedimentos institucionais nas mesmas condições que os demais estudantes. Segundo ele, mesmo após uma reforma na faculdade, a questão permaneceu sem solução. Essa situação diz que a acessibilidade não depende exclusivamente de equipamentos individuais ou de avanços na medicina, mas também de planejamento dos espaços coletivos e dos serviços utilizados diariamente.

A autonomia de João se estende ainda à direção de veículos. Desde 2023, ele tem carteira de habilitação e pode dirigir, mas precisa utilizar um carro adaptado. Como não consegue acionar os pedais convencionais da maneira habitual, o veículo possui uma haste que permite acelerar e frear manualmente e um pomo giratório instalado no volante que facilita as manobras com apenas uma das mãos. O carro também precisa ter câmbio automático, já que o sistema de adaptação utilizado não funciona com embreagem convencional.

Da cirurgia realizada ainda na infância aos equipamentos utilizados para andar e dirigir, a tecnologia atravessa diferentes etapas da vida de João. Em alguns momentos, aparece como uma intervenção médica capaz de modificar um tratamento, em outros, como um dispositivo que facilita um trajeto ou permite realizar uma atividade cotidiana. Mas sua experiência também mostra que a autonomia não depende apenas do desenvolvimento de novos recursos. O preço dos equipamentos, a cobertura dos procedimentos médicos, as condições das ruas e a acessibilidade das instituições interferem diretamente nos benefícios que essas tecnologias podem oferecer.

Para João, sair de casa sem nenhum dispositivo de auxílio não é uma possibilidade viável. Em seus deslocamentos, órtese, muleta e cadeira de rodas cumprem funções diferentes, escolhidas de acordo com o percurso e o tempo que precisará permanecer em movimento. O desenvolvimento de equipamentos mais leves, resistentes e funcionais amplia as possibilidades de mobilidade, mas não transforma automaticamente os espaços em ambientes acessíveis. Quando uma cadeira de rodas encontra dificuldades nas ruas ou um estudante precisa utilizar uma entrada alternativa para chegar à faculdade, fica evidente que a inovação tecnológica e a inclusão não avançam necessariamente no mesmo ritmo. A história de João revela duas dimensões de uma mesma questão, a importância de tecnologias que respondam às necessidades das pessoas com deficiência e a necessidade de ambientes preparados para que elas possam utilizá-las. Afinal, não basta desenvolver equipamentos capazes de ampliar a autonomia se os caminhos que levam à universidade, ao trabalho e aos demais espaços da vida cotidiana continuam impondo barreiras.

 

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Franquia de games do lendário skatista da Califórnia trouxe o universo do esporte para os holofotes ao longo das décadas
por
Ivo Leite
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23/10/2026 - 12h

 

Jogar videogame é uma atividade que pode inspirar e fazer sonhar, seja para ser jogador de futebol com títulos como FIFA e PES, por exemplo, ou skatista. Vários jovens começaram a se prestar atenção no universo das quatro rodinhas por meio de um amigo ou por si só. Mas, será que houve algo a mais que despertasse esse interesse?

Em 29 de Setembro de 1999, o jogo Tony Hawk Pro Skater, do skatista californiano Tony Hawk, chegou ao mercado para o console Playstation. O game foi um pontapé inicial para o surgimento de uma franquia de sucesso que vendeu mais de 350 mil cópias só nos três primeiros meses daquele ano. 

Versão do jogo para PC. Foto Ivo Leite/AGEMT
 Versão do jogo para PC. Foto Ivo Leite/AGEMT

 

Criada em parceria com a Activision, uma das maiores e mais influentes distribuidoras de jogos eletrônicos do mundo, a franquia ficou famosa por sua jogabilidade arcade rápida. Após grande êxito com o Playstation, o game foi para outros consoles como o Nintendo 64, Game Boy Color, Dreamcast e N-Gage.

As variações foram sendo criadas com a essência do jogo original. Tony Hawk Pro Skater Underground é um exemplo dessas sequências, dentre outras que surgiram. Houve alguns experimentos como em Tony Hawk Ride que, diferente de seus antecessores, usava um periférico físico em formato de skate como controle. 

 

Por conta do acessório, o jogo custava US$119,90, o dobro de um game comum na época - Reprodução/Mercado Livre
Por conta do acessório, o jogo custava US$119,90 - o dobro de um game comum na época Foto: Reprodução/ anúncio Mercado Livre 

Em 2020, a franquia foi remasterizada com gráficos hiper modernos, lançando o Tony Hawk 1 + 2, premiado como melhor jogo de esporte em eventos como o The Game Awards e o D.I.C.E. Awards. E em 2025, a coletânea Pro Skater 3 + 4 veio ao mercado para concretizar a volta do título.

“Cresci jogando e isso certamente me influenciou a me aventurar sobre quatro rodinhas”, afirma o gamer e skatista Felipe Dias, de 23 anos, que atualmente deseja se formar no curso de Design de Games. “Quero sempre me lembrar de como me apaixonei pelo esporte”, finaliza Dias.

 

Manobras e pistas com dinâmica real . Foto Ivo Leite/AGEMT
Manobras e pistas com dinâmica real Foto: Ivo Leite/AGEMT

 

Um dos pontos  altos da série de jogos Tony Hawk está nas trilhas sonoras marcantes. Gerações de apaixonados por grandes bandas ouviram e se lembram de pelo menos uma música presente nos jogos. A lista compõe diversos estilos musicais como hardcore, punk rock, hip-hop, ska punk e metal. Destaque para “No Cigar”, do Millencolin; “Guerrilla Radio” do Rage Against the Machine e “Superman”do Goldfinger. 

Nesse tempo, o skate se tornou um esporte de grande expressão chegando a compor até os Jogos Olímpicos, a partir de 2020. E a ascensão de sua prática também pode ser avaliada pela influência de jogos digitais como o Tony Hawk Pro Skater. 

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Uma mudança na mentalidade corporativista do brasileiro está atrelada à luta pela redução de horas trabalhadas
por
Clara Dell'Armelina
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19/05/2026 - 12h

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou um maior fôlego nos últimos dias após a Câmara dos Deputados confirmar para 26 de maio deste ano a votação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que reduz a jornada semanal de trabalho e amplia o descanso dos trabalhadores brasileiros. A medida pode impactar cerca de 16 milhões de trabalhadores que atualmente atuam no modelo de seis dias de trabalho para apenas um de repouso. O avanço da proposta ocorre em meio à pressão popular, com apoio de centrais sindicais e resistência de parte do empresariado, e corrida eleitoral.

Foram reacendidas as discussões entre empresários, trabalhadores e especialistas sobre produtividade, saúde mental e reorganização do mercado de trabalho. Para a economista e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira, Dirlene Silva, em entrevista à AGEMT, o debate vai além das planilhas econômicas e exige uma mudança estrutural na forma como o trabalho é pensado no Brasil, “essa transição exige mais do que um ajuste de escala, ela exige mudança de modelo de gestão e de mentalidade”, afirma.

Dirlene Silva: Economista e mestre em Gestão e Negócios, é fundadora e CEO da DS Estratégia de Educação e Inteligência Financeira.
Dirlene Silva (Foto: Fábio Chialastri)

Segundo Dirlene, experiências internacionais em países como Islândia e Reino Unido mostraram que jornadas reduzidas podem manter, ou até mesmo chegar a elevar, a produtividade quando acompanhadas de reorganização dos processos internos, “esses países demostraram que o ganho vem da reorganização do trabalho, não da redução pura e simples de horas. Na prática, as empresas precisam atuar nas frentes de revisão de processos, gestão por resultados, redistribuição de jornadas e mudança de mentalidade”, explica Silva, que sugere que devem especialmente procurar buscar uma transformação da cultura corporativa, abandonando a lógica de que longas jornadas representam maior eficiência e reconhecendo que descanso e bem-estar também impactam diretamente a produtividade do trabalhador. “A economia é, sobretudo, sobre pessoas. E pessoas não produzem de forma linear ao longo de horas extensas”, diz ela.

O aumento de receita registrado em empresas que adotaram jornadas reduzidas está ligado diretamente ao ganho de eficiência operacional e ao bem-estar dos trabalhadores. Experiências internacionais reforçam essa lógica de que menos horas de trabalho podem significar mais foco, menos retrabalho e melhor aproveitamento do tempo. Em 2019, a filial japonesa da Microsoft registrou aumento de quase 40% na produtividade após implementar uma semana de quatro dias de trabalho, além de reduzir gastos com energia e reuniões mais longas. Para Dirlene, empresas que cuidam das pessoas conseguem maior consistência na entrega de resultados. “Seres humanos precisam de descanso para produzirem melhor”, afirma.

Prédio da Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock
Microsoft - Imagem: Tang Yan Song/Shutterstock

Falar sobre o adoecimento físico e mental dos trabalhadores é também falar sobre os impactos econômicos para empresas e para o próprio Estado, especialmente nas áreas de saúde pública e previdência. “Ao longo de mais de 30 anos no corporativo, vi muitas pessoas adoecerem e até morrerem por excesso de trabalho”, relata. Para Dirlene, jornadas menores favorecem equilíbrio emocional, melhora na tomada de decisão e redução do adoecimento mental. “Economia não acontece só na planilha, acontece também no comportamento. E comportamento melhora quando as condições melhoram”, explica.

Toda essa discussão também expõe desigualdades históricas do mercado de trabalho brasileiro, os trabalhadores submetidos às jornadas mais longas geralmente ocupam cargos menos valorizados e recebem salários menores. “Não é a quantidade de horas que determina o nível de renda, mas o tipo de trabalho, o nível de qualificação e a posição ocupada na estrutura produtiva”, afirma.

A CEO ainda aponta que, no Brasil, a cultura da hora extra muitas vezes se transforma em complemento salarial, refletindo baixos salários estruturais, “ainda convivemos com um cenário em que trabalhar mais horas não significa, necessariamente, ganhar mais”. Uma pesquisa da Catho reforça esse cenário apontando que 60,7% dos trabalhadores brasileiros fazem horas extras regularmente e, segundo o levantamento, muitas empresas ampliam a carga de trabalho dos funcionários como estratégia para aumentar a produtividade, algo que contribui para a normalização das jornadas extensas no mercado de trabalho do Brasil.

Gráfico da pesquisa da Catho
(Foto: Reprodução/Catho)

Dirlene acredita que a principal barreira para a aprovação definitiva da medida ainda é cultural, ela diz que ainda “existe uma lógica muito antiga baseada em controle de jornada, não em produtividade”. Ela defende que o país precisa compreender que desenvolvimento econômico sustentável depende diretamente das condições de vida dos trabalhadores pois “não existe desenvolvimento sustentável com pessoas adoecendo para sustentar o sistema”, conclui.

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Em meio ao envelhecimento de cada indivíduo, uma vida digna é garantida para todos. E deveria ser assim, mas a realidade de muitos é contraditória.
por
Alice Begnini
Rafaella Lalo
Heloá Hurtado
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09/04/2026 - 12h

Por trás de peles enrugadas, histórias invisíveis que não são contadas nas visitas, que por vezes nem se quer existem, um capítulo que não é mostrado nas fotos de família. Os corredores são silenciosos, com rotinas organizadas e uma saudade sem tamanho: A família. Abraços, ligações e o próprio calor humano se tornam ausentes, aquela presença de quem fez parte da história, não está mais ali. Os olhares esperançosos entre as portas, esperando a entrada de alguém que talvez não venha mais.

A carência, não é apenas algo físico, ela se torna algo estrutural. O dia que era marcado por encontros, passa a ser marcado por rotinas rígidas, silenciosas, que nem sempre são sinônimos de paz. As datas comemorativas, nem sequer existem, não são compartilhadas. Mesmo com profissionais dedicados e capazes, há um espaço que nenhuma instituição irá suprir, onde o abandono familiar se instala.

Pensando nesse sentido, observa-se que a superlotação piora a realidade. O espaço acolhedor se torna insuficiente perante a grande demanda, idosos começam a dividir quartos, rotinas e além de tudo suas histórias. Aquela atmosfera que indica transmitir cuidado, afeto e tranquilidade, torna- se hostil, provocando uma crise emocional, social e humana.

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) registraram um grande aumento na população idosa entre 2010 e 2022, além de apontar que o número de idosos que residem em abrigos cresceu 65% em 10 anos.

Profissional auxiliando a mobilidade de um idoso que necessita de cuidados.
Idosos representam cerca de 15% da população. Foto:pixabay.

Segundo Flávia Damião, enfermeira, que atua no Lar Sant’Ana Residencial: “É muito comum a ocorrência de abandono, mesmo em residências de famílias com boas condições financeiras.” A afirmação da enfermeira evidencia que o abandono familiar perpassa a saúde mental e física dos idosos.

Há cinco anos atuando na área, Damião presencia o cotidiano e os desafios desse ambiente. No lugar onde trabalha, residem cerca de 100 idosos que estão inseridos em atividades de dança, exercício físico e fisioterapia. Segundo ela, essas práticas contribuem diretamente para a saúde mental e favorecem a socialização entre eles.

Contudo, o cuidado profissional não ocupa todas as faltas. “Apesar das condições, eles ainda são muito carinhosos “, afirma. Ao falar sobre o afastamento familiar, ela é clara: “É comum, inclusive em um residencial de alto padrão. “Eles sentem muito. Ela não sabe mais quem eu sou, mas eu sei quem ela é”. Aponta um relato presenciado pela enfermeira.

A força desse abandono é complexa e afeta a saúde física e mental. Entretanto, não é pontuado um único motivo para esse afastamento familiar, a falta de tempo, rotina de trabalho intenso, dificuldade em lidar com os cuidados e até mesmo o desespero emocional. Cada caso tem o peso de sua história, de suas vivências. “Eu não sei o passado deles, nem como era a convivência com a família. Eu não sei quem ele foi, eu sei o que ele é aqui”, aponta Flávia.

A psicóloga Normal Richter, explica que a solidão pode gerar ou piorar um quadro de saúde. “Quando estão em estado de lucidez, é comum que sintam raiva, tristeza e sentimentos que intensificam a impressão de abandono e ingratidão por parte da família.

Porém, nem sempre é assim dentro dessas casas. Ailton Luiz, filho de uma ex-residente dessas casas de repouso, aponta uma vivência diferente. Ailton acompanhou de perto o tempo que sua mãe esteve dentro desse ambiente e afirma o cuidado recebido. “Eles tinham bastante assistência. O cuidado era 24 horas, não só físico, mas com relação aos medicamentos também. Segundo ele, existia um cuidado com o bem-estar. “Eles passeavam com ela nos espaços da casa, conversavam, não deixavam ela parada, isso fazia a diferença.”

Idosos fazendo atividades em conjunto.
Pessoas da terceira idade que praticam atividades regulares tem até 30% menos risco de ter doenças como a depressão. Foto:@larsantanaresidencial.

O relato dele, aponta que, se existissem estruturas próprias e adequadas, profissionais prontos e investimentos para os medicamentos as residências poderiam sim cumprir seu objetivo, mas essa não é a realidade de muitos.

Flávia Damião relembra algumas situações delicadas em instituições públicas. “Os quartos estavam tão cheios que não tinha como passar. Em muitos casos, os idosos chegam por resgates, retirados de situações de extrema vulnerabilidade.”

A forma precária vai além da estrutura em si, em algumas instituições há ausência de medicamentos, fraldas e até mesmo itens de higiene básica. Por diversas vezes campanhas e organizações dos próprios funcionários arrecadam os itens necessários e se propõem para buscar vagas em outras casas que não estão superlotadas. É um apoio improvisado, que acaba mantendo de maneira básica aquele ambiente, por meio de iniciativas individuais ou coletivas do que propriamente de uma ação do poder público.

Flávia afirma que o cuidado emocional não pode ser sistematizado. “Trabalhar com idoso é um grande desafio”. Destaca que esse tipo de trabalho exige sim preparo, mas acima de tudo sensibilidade perante as histórias marcadas muitas vezes, pela própria ausência.

A enfermeira ainda conclui, “Gostaria que esse público fosse mais olhado. Que não precisassem ser abrigados em casas de níveis precários. Que todos pudessem ter um envelhecimento digno”.

Diante desse cenário, a superlotação e o afastamento familiar dos idosos apontam mais falhas estruturais, demonstram a forma com que a sociedade tem lidado com o envelhecimento. Provocada não apenas pela falta de recursos, mas também pela falta de vínculo, comprometimento e responsabilidade.

Desse modo, comportamentos que afetam a dignidade dos idosos violam e desrespeitam os direitos pregados pelo Estatuto da Pessoa Idosa, que prezam pela segurança e cuidado absoluto, protegendo de qualquer negligência, discriminação, violência e crueldade. 

Entretanto, com o aumento do envelhecimento populacional, o vínculo afetivo se destaca em meios de prevenção contra a decadência da saúde mental e física dos idosos, entregando para a sociedade conscientização das obrigações que são implementadas sobre os cuidados e responsabilidades sobre pessoas idosas. Por trás de um corpo que não tem a mesma agilidade de antes e uma mente que hoje não é tão lúcida, existem histórias que um dia foram momentos importantes e fizeram parte da trajetória de vida de alguém. Cabe à comunidade honrar essa história e lembrá-los de sua importância dentro do espaço onde vivem, reafirmando que eles são seres humanos e merecem respeito e qualidade de vida digna.

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Trajetória de Paulo Ignez revela a luta, persistência e um amor inabalável pelo desenho.
por
Victória Ignez
Isadora Cobra
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13/11/2025 - 12h

  

A primeira memória que Paulo Lemes Ignez Jr. guarda de si mesmo é ele desenhando. O papel, o lápis e o silêncio curioso da infância nunca foram passatempo, eram destino. Aos 8 anos, já imitava o pai, copiando cada linha com a urgência de quem sabia, mesmo sem saber, que a arte seria seu caminho. E foi. 

Fotografia de Paulo Ignez Junior
Acervo Pessoal: Paulo Ignez Junior

Hoje, aos 42 anos, Paulo é um dos nomes mais respeitados do mercado de animação e games, com mais de 23 anos de carreira. Atuou como Animador e Character Designer em produções nacionais e internacionais, como o filme “A Princesa e o Sapo” (Disney Feature Animation), os curtas “Eu Juro que Vi” (MultiRio) e o game “Chef Squad” (Eldorado Studios). Há 15 anos também ministra cursos sendo 13 deles na ICS, formando artistas que hoje vivem do que ele ensinou. Atualmente, trabalha como supervisor de animação em dois grandes estúdios e dedica parte de seus dias à carreira autoral como artista visual. 

Mas o caminho até aqui nunca foi linear. Nunca foi fácil. Nunca foi garantido. 

Paulo nasceu em 1983, cresceu entre mudanças, escolas diferentes e amigos que, por coincidência ou destino, também desenhavam. Uma sincronia que, hoje, ele entende como combustível. As referências vinham de todo lugar: animes, quadrinhos de super-heróis e revistas sobre games e animação. Assim a paixão dele por esse mundo foi crescendo. 

Aos 15, era impossível e injusto pedir que ele seguisse qualquer outro caminho. Começou a trabalhar cedo, entrou em uma escola de animação sem ter dinheiro para continuar pagando, foi nessa mesma instituição que conseguiu o primeiro emprego, porque o diretor da escola também tinha um estúdio de animação chamado HGN Produções e então surgiu a oportunidade de começar como estagiário, ele conta que ganhava “bem pouco”, mas seu talento falou primeiro, o diretor jogou no mercado, onde Paulo cresceu estúdio após estúdio, quadro após quadro. 

Paulo sempre teve vontade de trabalhar para fora do país, e durante os trabalhos no Brasil, conheceu um profissional de animação que trabalhou para produções da Disney. Ele conta que, no estúdio esse produtor, havia os livros dos filmes da Disney, como eram feitos, e tinha fitas de videocassete que mostravam os estúdios, o make-off dos filmes. Foi então que Paulo teve uma virada de chave e se programou para morar no Canadá. Seu objetivo era aprimorar seu inglês e se especializar ainda mais no seu trabalho. 

Ele sempre soube o que era capaz de fazer, o mundo ao redor é que demorou a perceber.  

No início, o desafio era ser levado a sério. Jovem demais, rápido de menos, eficiente de mais em um ambiente que testava seus limites diariamente. Aprendeu a se comunicar, a trabalhar em equipe, a entregar rápido, a lidar com pressões que quebram muitos no começo. Mais tarde, quando virou supervisor com pouco mais de 20 anos, sentiu a resistência de profissionais mais velhos que não o viam como autoridade. Era um menino em um cargo de adulto, mas ele persistiu. Foi ganhando confiança, velocidade, precisão. Foi deixando de ser promessa para se tornar referência. 

Paulo trabalhou na equipe brasileira que animou cenas de “A Princesa e o Sapo”, da Disney. Remotamente, mas com padrão internacional e supervisores exigentes. Foi selecionado para cenas complexas, revisou trabalhos de outros artistas, coordenou uma pequena equipe. Diz que foi um dos trabalhos mais cansativos da vida e um dos mais marcantes. Visitou o estúdio da Disney. Viu de perto aqueles que admirou por anos. Confirmou que conseguia ocupar esse espaço.  

Para ele, o mercado de animação no Brasil anda “em passos de formiga”. Falta investimento governamental, as políticas de incentivo oscilam e a maioria dos melhores artistas do país trabalha para fora como ele. Paulo não romantiza o setor, sabe que não é do governo que virá o reconhecimento, e sim da própria força de cada artista. 

Ainda assim, vê valor no que muitos produzem com poucos recursos, e acredita que artistas não podem depender do que nunca veio de forma consistente. 

Paulo não se vê como alguém que “transforma o mundo”, mas sabe que seu trabalho influencia principalmente crianças. Ao mesmo tempo, é crítico do conteúdo que chega ao público infantil, afirmando que a maioria dos desenhos e games consumidos hoje têm mais potência negativa do que positiva. Para ele, o filtro dos pais é essencial. E lembra algo importante: quem realmente molda a sociedade são as narrativas mais realistas, filmes, séries, histórias que tratam do humano. A animação, segundo ele, toca mais as crianças, mas não define culturas inteiras. 

O dia de Paulo começa cedo e termina tarde. Supervisiona equipes, revisa desenhos, faz correções, participa de reuniões com diretores internacionais e, à noite, dá aula até as 22h30. Quando sobra tempo e quase nunca sobra, ele relaxa desenhando para si, andando de patins ou tocando violão. Também mergulha em estudos de filosofia, religiões comparadas e mitologia. Esse é o espaço onde respira. 

O pai que viu o artista nascer 

Paulo Tadeu Ignez, pai, acompanhou tudo desde o primeiro traço. “Desde sempre. Começou com uns 8 anos, quando ele me via desenhando.” Ele não só viu, apoiou, pagou cursos, incentivou o que podia. Hoje, fala com orgulho: “Ele ensinou muita gente. Imagine quantas pessoas vivem de desenho porque aprenderam com ele. Na comunidade artística, ele é conhecido como mestre.” Mas também revela saudades: “Ele se tornou um pouco antissocial, sempre focado no trabalho dele, prioriza os estudos.” Nos próximos anos, Paulo, o filho, quer expandir o trabalho autoral, criar uma marca própria, produzir pinturas, ilustrações, fine art, talvez expor em galerias. Também quer manter o ensino vivo formando mais artistas, como quem devolve ao mundo aquilo que recebeu. Ele sabe que o Brasil talvez nunca dê o reconhecimento que sua área merece. Mas também sabe que o mundo reconhece e isso basta. Porque, no fim, Paulo continua sendo o menino que desenhava para mostrar às pessoas. Agora, a diferença é que o mundo inteiro olha de volta.

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Mulheres de diferentes regiões do estado se organizaram pela internet e criaram uma lista de supostos abusadores sexuais
por
Gabriela Costa de Souza
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24/06/2020 - 12h

Na última semana de maio, jovens de várias cidades de São Paulo fizeram uma lista que circulou pelo WhatsApp com o nome de diversos homens, apontados como supostos assediadores e agressores sexuais. Muitas mulheres utilizaram a hashtag #exposed acrescida do nome do município, em outras redes sociais, para compartilhar seus relatos de violência.

Esse movimento tinha a intenção de alertar outras mulheres sobre possíveis agressores com quem elas poderiam estar se relacionando. “Nós precisamos saber quem são as pessoas ao nosso redor, o tipo de amizades que a gente cultiva. Eu não quero conviver com esses homens”, relatou Letícia (nome falso) acerca do ocorrido.

Ela ainda afirmou que a lista foi fundamental para que começasse a conversar com as amigas sobre situações que já tinha vivido. “Eu tenho transtorno de ansiedade e essa situação toda se tornou um gatilho para mim, mas eu comecei a sentir mais abertura para falar com outras mulheres sobre isso, a gente precisa se unir mais”.

As denúncias realizadas através da lista foram contabilizadas por Miwa Hamada Kashiwagi, (19). “Me colocaram num grupo do WhatsApp com mais de duzentas meninas, e a lista continuava crescendo. Chegou um momento em que tivemos que organizar tudo por meio de uma planilha”. De acordo com Kashiwagi, somente na cidade de São José dos Campos, foram 967 queixas no total, sendo 370 de assédio sexual, 253 de assédio verbal, 84 de estupro, 54 de agressões físicas, entre outras.

Foto do Acervo Pessoal de Miwa Kashiwagi
Fonte: Acervo Pessoal de Miwa Hamada Kashiwagi

A universitária também disse que o movimento foi importante para conscientizar as pessoas acerca do quão comum a violência contra a mulher acontece. “A gente precisa desmistificar essa ideia de que um abusador é sempre um homem estranho ou um monstro, porque, na maioria das vezes, são uns caras simpáticos que te dão bom dia na sala de aula”. Kashiwagi, que já teve suas fotos colocadas sem a sua permissão em um site de acompanhantes de luxo, disse que, atualmente, não denunciaria nenhuma outra agressão por conta do “estresse desnecessário” que “não traria resultados”.

Sobre a questão de denúncias formais, a jovem Yasmin Oliveira também revelou não sentir segurança para fazer um boletim de ocorrência. Ela contou que falou com alguns meninos que já a haviam assediado de alguma forma e cujos nomes estavam na lista. “Conversei sobre como foi errado e como isso me machucava. Foi bem tranquilo, porque eles escutaram e queriam mesmo entender como mudar, espero que seja uma disposição verdadeira. Todo mundo merece uma segunda chance”.

Foto de Acervo Pessoal de Yasmin Oliveira
Fonte: Acervo Pessoal de Yasmin Oliveira 

Oliveira também afirmou ser fundamental a união de mulheres para enfrentar experiências violentas. “Quando a gente está sozinha é difícil demais enfrentar tudo que nos oprime. Agora, quando juntamos pessoas que passam pelas mesmas coisas, não precisamos explicar a dor ou o medo, porque a pessoa já vive, e isso torna muito mais fácil um diálogo”.

Mesmo com toda a força que o movimento deu para muitas mulheres, há precauções que devem ser tomadas. A advogada Rosimere Lopes Oliveira adverte que, fazer denúncias sem provas ou formalidades jurídicas, pode ser prejudicial para as próprias vítimas. Muitos garotos, cujos nomes estavam na lista, entraram na Justiça e vão processar as responsáveis por calúnia e difamação. “É gravíssima a maneira como estão fazendo isso, porque é totalmente inadequada. Se a pessoa sofreu qualquer tipo de violência ela precisa tomar as medidas cabíveis, ou seja, ir até uma delegacia e realizar a denúncia”.

Foto do Acervo Pessoal da advogada Rosimere Lopes Oliveira
Fonte: Acervo Pessoal de Rosimere Lopes

A advogada, que trabalha na área há 10 anos e coordena o projeto “Quebrando as algemas”, para ajudar vítimas de violência doméstica, afirma que as jovens devem denunciar, mas que também precisam levar em conta a presunção da inocência. “Cada caso é um caso e elas precisam sempre buscar ajuda profissional para obter toda a orientação necessária”. Além disso, Oliveira também afirma ser importante analisar a idade dos envolvidos, pois, se a vítima tiver menos de 14 anos, pode ser enquadrado como estupro de vulnerável, o que torna tudo ainda mais grave.

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Com diminuição de 90% do trabalho advogados procuram alternativas para se manterem durante a pandemia.
por
Marcela Foresti
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23/06/2020 - 12h

 

Os advogados Micheli Cristine Ribeiro de Souza e Rodrigo Augusto Guedes, donos do escritório Guedes e Souza Advogados, sentiram o impacto da pandemia logo em seu início “No primeiro dia de isolamento nossas atividades diminuíram em 90%” e com esta queda nas atividades, o casal   precisou  recorrer a  outros negócios a fim de manter as despesas em dia “Minha esposa, que é minha sócia, passou a revender maquiagens”.

Souza decidiu revender produtos de maquiagem para ajudar nas despesas, já que como o escritório dos dois é pequeno, a queda nas atividades impactou a renda do casal. Ela criou um perfil nas redes sociais para este novo negócio a fim de divulgar seus produtos. A advogada  faz as entregas  pessoalmente ou por correio tomando todos os cuidados e obedecendo as normas da OMS.

A rotina do casal antes da pandemia consistia em sair a maior parte do dia para audiências em todo o território nacional,  reuniões com clientes e realizavam as atividades administrativas do  escritório, apenas a noite se reuniam em casa e realizavam as atividades domésticas. 

Com este cenário de pandemia o casal precisou reformular toda a rotina,  já que home office não era o principal modo de trabalho dos dois. Tiveram também que aprender a coordenar as atividades domésticas que aumentaram com a presença de todos em casa “Está sendo difícil manter a concentração no home office, as  atividades domésticas que antes eram apenas a noite passaram a ser o dia todo”.Micheli Cristine Ribeiro de Souza e Rodrigo Augusto Guedes

A maioria dos processos hoje são eletrônicos, o que faz da internet um dos principais meios de trabalho dos advogados, porém com todo o cenário que estamos vivendo hoje nem esses seguiram no início do isolamento. A justiça parou porque também não estava preparada para tudo e só partir de abril, os processos voltaram a correr. Enquanto o número de clientes e processos correndo eram menores no escritório do casal, eles dedicaram parte de seu tempo a cursos e lives sobre assuntos jurídicos para se aprimorarem.

De toda esta experiência com home office o casal aprendeu a realizar as atividades em família e passar mais tempo juntos reforçando os laços familiares.

Já a advogada Lívia Prisco que também tem seu escritório, antes da pandemia passava um bom tempo na rua para audiências e reuniões com clientes, visitava a fóruns e delegacias e fazia  trabalhos em casa, como o peticionamento nos processos. Prisco sentiu os impactos da pandemia logo no começo da quarentena “Senti muito com relação aos pagamentos, muitos clientes alegaram que eram autônomos e não estavam trabalhando, ou que tiveram o salário reduzido”. Com a queda de clientes e as despesas aumentando com todos passando a ficar em casa, a  advogada precisou recorrer a ajuda financeira de familiares e empréstimos bancários.

Lívia Prisco Alves de DeusA rotina dela teve grandes mudanças e o número de reuniões com clientes teve uma queda “Os clientes mais idosos ainda têm certa resistência em fazer reuniões por vídeo chamada” e muitos de seus processos tiverem o prazo suspenso,  os eletrônicos seguiram andamento só a partir de abril.

Diferente do casal Souza e Guedes, Prisco não sentiu dificuldades para trabalhar em home office. Ela não possui um espaço para seu escritório e trabalhava nesta modalidade há três anos “Estabeleço horários para trabalhar e horários para cuidar da casa”.

O tempo livre também está sendo aproveitado por ela para adiantar sua pós graduação, fazer cursos de marketing digital para ajudar na divulgação do seu trabalho e ler doutrinas, tudo para crescer cada vez mais.

Esta experiência de home office fez Prisco perceber que reuniões por vídeo ajudam a economizar melhor o tempo na rua, já que em São Paulo ela não demora menos de uma hora para se locomover de um local ao outro. “Gostaria de continuar fazendo reuniões por vídeo chamada, telefone e e-mail, e me locomover quando estritamente necessário”, ela acredita que o tempo em home office quando se tem disciplina é muito melhor aproveitado e que  sua produtividade acaba sendo bem maior.

 

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Com aulas gravadas e reuniões on-line, a forma de ensinar atualizou e membros da comunidade educativa destacam aspectos positivos
por
Isabella Pugliese Vellani
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21/06/2020 - 12h

Durante a pandemia do coronavírus, a educação precisou se reformular para poder dar continuidade ao ensino. As mudanças foram sentidas de diferentes formas por pais de crianças em processos de alfabetização, alunos em ano de vestibular e professores. Entretanto, são ressaltados aspectos positivos para a autonomia e aprendizagem cotidiana desenvolvida no período.

            Márcio Rafael Cruz, gestor e idealizador da escola on-line Linkage School e professor de biologia na rede privada de educação, relata que a escola já necessitava de  uma reinvenção há anos. “As carteiras enfileiradas, o modelo de escola padronizada, que visa somente a padronização do estudo, é uma tendência ao fracasso. Cedo ou tarde ela vai deixar de existir”.

            O professor destaca que a tecnologia, que permite que as aulas sejam gravadas e haja uma comunicação simultânea com o aluno, gerou uma flexibilização na rotina dos estudantes. “Alunos que tinham dificuldade na questão presencial, com horários fixos, agora no ensino remoto têm uma flexibilidade melhor de horários e se adaptaram melhor”.

FOTO márcio - aula linkage
Márcio Rafael Cruz em gravação para aula on-line da Linkage School (Arquivo pessoal)

 

            Cruz ainda enfatiza que as escolas não estão vivendo o ‘EAD’, mas sim um ensino remoto. “O ensino à distancia tem um planejamento e uma metodologia de aula e avaliação diferente. Não adianta usar o formato de ensino presencial e ‘jogar’ no on-line”.

Por lecionar biologia, que possui diversas atividades laboratoriais, Cruz informa que há uma defasagem nas aulas práticas, mas a situação pode ser revertida. “Nada impede que daqui pra frente alguém possa desenvolver um laboratório virtual. A situação é muito emergencial, por isso o planejamento pode estar um pouco defasado. Estamos lutando um dia de cada vez, resolvendo um problema de cada vez”.

Para a estudante do Colégio Salesiano Santa Teresinha, Julia Clemente, 17, a forma de ensino mais flexibilizada permitiu que ela buscasse mais informações sobre os vestibulares que ela irá prestar no final do ano. “Tenho mais tempo livre para pensar e estou pesquisando sobre os vestibulares, faculdades”.

Clemente aponta que uma das mudanças gerou um resultado positivo no desenvolvimento de sua autonomia, principalmente por estar concluindo o Ensino Médio e enxergar esta independência como um fator importante para seu futuro. “Uma mudança muito boa foi a de ‘liberdade’. No próximo ano eu vou precisar dessa independência e neste sentido, o ensino remoto foi muito bom. Na escola, o professor te obriga, em casa você é o único responsável”.

FOTO Julia aula
Julia Clemente (Arquivo pessoal)

 

Na Educação Infantil, o cenário é diferente. As crianças que passam pelo processo de alfabetização não aprendem matérias e disciplinas, mas sim por meio de interações, sendo estimuladas com atividades e brincadeiras. Desta forma, foram outros os obstáculos enfrentados.

Waleska Brilhante, mãe de Felipe, 4, mostra que no início do período, o menino gostava de ficar de frente da tela do computador para encontrar com os amigos e a professora. “No começo foi tudo divertido. Eram 40 minutos e ele ficava tranquilo. Hoje ele não quer mais ficar nem meia hora, ele não tem paciência, não tem foco”.

Brilhante expõe que a Escola Miudinho, onde Felipe está matriculado é muito vivencial e por isso, sente que as crianças estão perdendo algumas aprendizagens. “Na escola tem horta, cozinha, atividades de folclore, natação, o que ele não está tendo agora. Quando eles chegam na escola tem interação e então começam as atividades. Hoje é sentar e fazer a tarefa”.

Por outro lado, a mãe indica que a família está passando a quarentena em um sítio, o que permite que tenham um maior contato com a natureza e o menino aprenda com essas situações também. “Ele plantou um pé de feijão e está colhendo. Eu acredito que teve uma perda do aprendizado mais ‘formal’, mas da vida, da vivência, ele teve um ganho”.

Brilhante expõe sobre conscientização da importância dos professores para a construção do conhecimento que o período de ensino remoto proporcionou. “Agora, vendo a dificuldade de lidar com toda rotina, acredito que vão ser mais valorizados”.

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A difícil tarefa de aliar as obrigações do cotidiano doméstico com os deveres de um educador e os desafios da educação remota
por
Ana Luiza Pêgo
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20/06/2020 - 12h

O professor de matemática, Alexandre Arrigoni (46), conta que encontrou dificuldades em se adaptar ao ensino à distância. “Nossa casa não está preparada com escritório adequado, com lousa ou até mesmo na parte tecnológica.” Mesmo assim, este não se revela o pior problema, já que o impasse está na conciliação entre a profissão e a rotina familiar. Arrigoni trabalha no período da manhã, o mesmo período de aulas da filha, Larissa Arrigoni (12). “Não tem como eu largar minha aula para ajudá-la e nem ela pode sair da própria aula para pedir por minha ajuda.”.

Filho de Gabriela, Daniel, recebendo o material da escola.
Do outro lado, a professora da educação infantil, Gabriela Rodrigues da Silva (33) revela que não consegue combinar todos os afazeres. “É verdade que não dou conta de conciliar tudo. Fazemos na medida do que é possível e a escola compreendeu que não conseguimos realizar todas as propostas nos dias em que são solicitadas.”.

 

 Acervo pessoal de Gabriela Rodrigues da Silva

Rodrigues ainda conta que para a sua modalidade de aulas, o ensino à distância é inviável. “Esta etapa possui suas próprias características, brincar e interagir são os pilares, ela [a etapa] não existe longe do espaço escolar.”. O filho da professora, Daniel Fernandes Nóbrega (4) estuda em uma instituição da prefeitura de São Paulo e ambos também têm aulas no mesmo período.

 

Uma imagem contendo prateleira, livro, no interior, biblioteca

Descrição gerada automaticamenteA professora do ensino fundamental, Isabela Fumo (39), leciona língua portuguesa em uma escola privada em Guarulhos. Fumo revela que em sua casa essa questão é duplicada, pois o marido também é professor e ainda leciona online em seu canal no Youtube (Literatura Fora da Escola). “Tentamos montar horários para poder ficar online junto com nosso filho. Revezamos na maior parte dos dias. Mas quando não tem jeito, ele perde a aula online e assistimos às gravações que ficam disponíveis na plataforma.”

Acervo pessoal de Isabela Fumo

Em matéria de auxílio ao filho Giuseppe (4), a professora confessa que o garoto precisa de ajuda constante durante as aulas, o que é complicado para o casal de professores, já que precisam administrar suas próprias aulas e tarefas. “Está na fase de aprender as letras e os números. Tem sempre que ter alguém com ele na aula. Sozinho é inviável.”                 

 

Por outro lado, os professores relatam que o maior obstáculo do ensino à distância é, na realidade, a falta de contato com os alunos. “Sinto muita falta da presença do aluno, do olhar do aluno, o contato. Isso é algo que me frustra e me deixa inseguro, sobre a forma como eles estão aprendendo.” relata o professor Arrigoni.

Contudo, a questão vai além do que somente a proximidade entre aluno e professor. A professora de língua portuguesa, diz que o obstáculo está na ausência de interação, isto é, o lado humano do aprender é deixado em segundo plano nas aulas online. “No começo foi pior ainda. Muitos se negavam em abrir a câmera e tivemos que entender, porém não, essa atitude não Uma imagem contendo mesa

Descrição gerada automaticamenteviabiliza a interação.” 

Acervo pessoal de Alexandre Arrigoni.

Por outro lado, o ensino à distância é bastante seletivo, uma vez que nem todos possuem acesso à internet ou aos equipamentos adequados para se adaptar às aulas. “Nem todas as pessoas têm acesso à internet ou mais de um dispositivo para este acesso em casa. então é bem complicado pensar neste ensino à distância.” 

 

Os professores contam que conseguiram tirar algo de positivo dessa mudança repentina no cotidiano das famílias. Os três revelam que agora conseguem de alguma forma passar mais tempo juntos de seus respectivos filhos. “Eu consigo dormir um pouco mais, consigo tomar café com a minha filha, coisas que rotineiramente não fazíamos. Creio que estamos sentindo mais a nossa família.” relata Arrigoni. 

Pessoas em frente a computador

Descrição gerada automaticamenteJuntando-se ao professor, a mãe de Daniel confessa que é muito bom estar mais próxima da família, porém com as crianças o serviço se torna mais complicado.  “É difícil conciliar o trabalho estando em casa com dois filhos pequenos. Eles não compreendem que estou trabalhando e solicitam minha atenção o tempo todo.” 

 

 

Acervo pessoal de Gabriela Rodrigues.

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O período longe dos templos causado pela pandemia de Covid-19 tem distanciado algumas pessoas dos cultos, até mesmo dos virtuais.
por
Lucas Martins Alves de Oliveira
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20/06/2020 - 12h

A pandemia de Covid-19, declarada pela OMS em 11 de março desse ano, provocou o fechamento dos templos para evitar o contágio da população. O período longe dos cultos tem feito com que várias pessoas se afastem de suas práticas religiosas. 

Localizado em São Paulo, na Vila São José, está o Templo de Umbanda Forças de Aruanda, que realizou algumas alterações nas suas atividades em decorrência do surto de Covid-19. O terreiro era aberto diariamente para atividades religiosas, estudos e atividades culturais, mas desde o início da quarentena, os encontros tiveram de ser suspensos. Entretanto, todas as atividades que eram realizadas presencialmente, agora estão acontecendo através de reuniões online, com exceção das giras, que ocorriam todas as sextas-feiras. 

O pai de santo do templo Forças de Aruanda, Cristiano Trevelino, comentou que algumas pessoas se distanciaram da Umbanda em decorrência do longo período longe dos terreiros. “As pessoas buscam a fé por conta de milagres, e se elas não os têm constantemente, acabam se afastando. Já ocorreu esse distanciamento entre os meus filhos de santo, alguns deles nem participaram das atividades online.”  

Cristiano Trevelino
Cristiano Trevelino - Foto: acervo pessoal

           Além disso, Trevelino acredita que a experiência religiosa vai ser afetada, principalmente por conta da ausência das incorporações de santos e do desequilíbrio energético das pessoas durante a pandemia, mas pensa que a quarentena pode proporcionar uma busca interna mais profunda. “A meu ver, o que se ganha é um conhecimento maior de si próprio em relação à fé e à espiritualidade, mas só para aqueles que estão dispostos, mas nem todos estão", disse.    

O “Babá" do Templo Forças de Aruanda espera que, com a volta das atividades presenciais, a maioria daqueles que se afastaram da Umbanda volte a frequentar o terreiro. “Quando retornarmos, as pessoas talvez voltem mais rápido, principalmente pela necessidade e pelo esgotamento que esse tempo tem causado.” 

Assim como Trevelino, a missionária cristã, Fernanda Souza, também notou que as pessoas têm se afastado das instituições religiosas. A missionária se mudou para a cidade de Derby, Inglaterra, em 2019 para prestar serviços voluntários à uma organização cristã chamada YWAM (sigla para Youth With A Mission). Na Europa, a brasileira frequenta uma igreja anglicana chamada Derby City Church. 

Fernanda Souza
Fernanda Souza (Foto: acervo pessoal)

 

Segundo a paulistana, o coronavírus obrigou a Igreja a se reinventar. “Descobrimos que nós podemos ser uma família sem estarmos no mesmo lugar. A igreja não é um espaço, nós somos a igreja.” Em contrapartida, ela acredita que essa situação de pandemia pode afastar algumas pessoas da religião. “Nesse contexto, só fica quem quer, porque quem não quer nem participa das lives. Quem não tá, não tá." 

Souza disse que a sua igreja se preocupa muito com os seus membros, pois sempre liga para eles e visita, com distanciamento, os mais idosos. Ela crê que esse contato constante é essencial para manter os seus irmãos na fé firmes durante esse tempo. "Em relação às outras igrejas, não sei se estão correndo atrás das pessoas. Na Inglaterra estamos correndo. Um ajuda o outro, e isso fortalece os nossos laços.” 

A Derby City Church tem gravado semanalmente os seus conteúdos, que são transmitidos aos domingos. Além disso, as reuniões semanais que ocorriam nas casas dos membros agora são feitas através de ligações de vídeo. "A igreja é como uma família. A família se reunia semanalmente, mas agora não pode mais. Ela se reúne online e você nem sabe quem realmente está participando”, disse. 

Ao contrário de Souza e de Trevelino, Aboo Abudo Atibo, sheik da Mesquita de Guarulhos, acredita que os fiéis de sua religião não terão a sua fé abalada pela quarentena. “O muçulmano é um peixe que vive em todos os ambientes. O homem pode criar um templo em qualquer lugar”, afirmou.

Aboo Abudo Atibo
Aboo Abudo Atibo em gravação - Foto: acervo pessoal

 

           Atibo acredita que ao invés de enfraquecer a fé do muçulmano, a quarentena deve fortalecê-la. “Nada afeta o crente, a menos que seja para melhorá-lo", disse baseado em um dos ensinamentos de Maomé. Ele acredita que a única diferença que os fiéis devem sentir é a falta de abraços e beijos, que segundo o moçambicano, é uma das bases da cultura islâmica. 

O sheik contou que a mesquita que ele lidera tem realizado transmissões todas as sextas-feiras, dia sagrado do Islã, ao meio dia, com mensagens e ensinamentos aos muçulmanos. Além disso, as aulas que ele dava às crianças ainda continuam acontecendo, mas agora são realizadas através de ligações de vídeo. 

 

 
 

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