Entenda as motivações da queda e seus impactos no país
por
Isabella Damião
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23/04/2026 - 12h

Na última terça-feira (14), a cotação do dólar alcançou o menor valor desde 2024, abaixo dos R$5,00. A mudança do cenário financeiro no Brasil se deu, sobretudo, como consequência das últimas negociações entre o governo dos Estados Unidos e do Irã, em guerra desde fevereiro de 2026.

O dólar comercial, ou a taxa de câmbio, corresponde ao valor do real em relação ao dólar e reflete, principalmente, a política internacional e a inflação de cada país. Desse modo, a oscilação das tentativas de acordo entre o governo estadunidense e iraniano torna arriscado o cenário americano em diversos setores da economia, principalmente no comércio de petróleo. Os dois países disputam o controle do Estreito de Ormuz, via marítima que entrega 20% do petróleo mundial. 

O enfraquecimento do dólar se deu mundialmente, e outras moedas como o peso chileno e o peso mexicano também se valorizaram nessa relação. “Quando o mercado passa a acreditar que o Federal Reserve [Sistema de Reserva Federal dos Estados Unidos] pode reduzir ou desacelerar o aperto monetário, o dólar tende a perder força frente a outras moedas, especialmente de países emergentes", explica a professora de Economia da PUC-SP, Cristina Helena Pinto de Mello. 

Em relação ao real, a economista pontua que o que o favorece são as altas taxas de juros, que atraem investimento de capital estrangeiro. Além disso, a balança comercial brasileira apresentou, entre janeiro e abril de 2026, um superávit de US$20,92 bilhões, 44,3% a mais do que o valor do mesmo período no ano anterior. Esses fatores contribuem para um fluxo positivo de capital no Brasil e valorizam o real. 

Gráfico - média diária de saldo
Gráfico: Secretária do Comércio Exterior/MDIC

 

Quanto aos efeitos da redução do dólar comercial, Cristina Helena não vê uma mudança a longo prazo na economia brasileira: embora existam boas indicações nesse cenário, como o controle da inflação, a oscilação da taxa de câmbio pode deixar o fluxo de capitais mais suscetível à juros. “O real tem se destacado entre moedas emergentes em alguns momentos recentes, mas isso não é um movimento isolado nem garantido. Isso é conjuntural e pode se inverter”, esclareceu. 

Influenciadora brasileira detalha a criação e o sucesso de seu body splash
por
Fernanda Dias
João Luiz Freitas
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30/03/2026 - 12h

Com 442 mil seguidores no Instagram, a influenciadora digital Lis Bella Andreazzi viu que seu público consumia muitos perfumes e teve a ideia de criar um produto com a sua cara. A parceria com a Ekomist, empresa que faz aromas para grandes marcas, foi o passo seguinte para tirar o plano do papel e lançar o  "Eighteen Seasons". Em entrevista à AGEMT ela detalha a estratégia de seu body splash e explica para o leitor o poder da influência digital sobre o consumo. 

A conversa revelou como criadores de conteúdo movem o mercado e fazem produtos esgotarem em poucas horas. Também contou sobre o processo de criação para garantir que o item faça parte da rotina de quem a segue.  Lis Bella entende o impacto de suas indicações no mundo digital e percebe que seu público confia muito no que ela usa no dia a dia. A influenciadora explica que nem todo produto vende com facilidade e o que importa é o alinhamento com o perfil de quem a acompanha. "Não é todo mundo que vai comprar? É quem se sentir atraído pelo produto, se divulgo maquiagem ou perfume, a chance de venda é maior", ressalta Lis Bella, que acrescenta: "as pessoas veem que ela usa o item de verdade e não apenas para uma propaganda". 

"Você ser uma influenciadora que passa essa confiança para o público, criando uma intimidade por meio de exemplos de sua rotina de cuidados com a pele gera muito engajamento". Segundo a influenciadora essa credibilidade está altamente ligada à escolha de não divulgar golpes ou casas de apostas, pois as marcas buscam influenciadores com boa reputação para parcerias de longo prazo. O nome "Eighteen Seasons" marca uma fase de transição na vida dela, pois o lançamento teve uma ativação estratégica em sua festa de 18 anos.

Além disso, ela chamou alguns de seus seguidores para estarem presentes nesse lançamento, reforçando a ideia de que ela preza pela proximidade ao público. A embalagem tem inspiração em produtos internacionais de sucesso e a marca atrai quem gosta de perfume e quem admira o estilo de Lis Bella.

Lis Bella Andreazzi - mulher segurando seu produto
Lis Bella Andreazzi na divulgação do seu produto "Eighteen Seasons". Fonte: divulgação. 

O mercado vê o surgimento de febres passageiras em alimentos e cosméticos, vários produtos viralizam e esgotam rapidamente. Exemplos recentes incluem o "morango do amor" e o "labubu". Esses itens mostram como um vídeo ou uma tendência pode criar uma demanda imediata e massiva. A velocidade com que esses produtos aparecem e desaparecem do mercado é um desafio para as marcas e um reflexo do consumo impulsionado pelas redes sociais.

A ideia de que um produto pode viralizar hoje e ser esquecido amanhã não é apenas percepção das redes sociais, mas já vem sendo discutida também no campo do marketing. Um estudo recente da Nanyang Business School, em Singapura, define esse cenário como “economia do momento”, em que marcas e consumidores passam a girar em torno de tendências rápidas, com picos de atenção que desaparecem em pouco tempo.

Na prática, o que se observa é um padrão recorrente. Um vídeo viraliza, o produto ganha visibilidade, a procura dispara e, em poucos dias, o interesse começa a cair. O ciclo é curto e, muitas vezes, substituído rapidamente por uma nova tendência. A influenciadora reforça, em entrevista, que a relação de confiança com o público acelera esse processo. Quando a indicação vem de alguém com quem o seguidor já se identifica, a decisão de compra tende a acontecer mais rápido, sem muita comparação ou planejamento. Ao mesmo tempo, o próprio estudo aponta um limite importante: chamar atenção não significa construir uma relação duradoura. Em um ambiente onde tudo é substituído rapidamente, ser visto não garante ser lembrado.

Andreazzi destaca que, nesse contexto, o timing se torna um dos fatores mais importantes. Participar de uma tendência no momento certo pode definir o alcance de um produto. Fora desse período, o interesse tende a cair rapidamente. Por fim, o eixo do comportamento do consumidor busca entender como essas dinâmicas afetam as escolhas. A repetição desse padrão indica um consumo mais impulsivo, influenciado pela urgência e pelo desejo de participar de algo coletivo. No entanto, esse comportamento nem sempre se traduz em fidelidade. A própria lógica da “economia do momento” sugere que o consumidor está sempre em busca do próximo viral. Segundo Andreazzi, a continuidade da relação depende menos do hype e mais da experiência real com o produto após a compra.

 

Bolhas de IAs e tensões geopolíticas afetam o valor final dos produtos eletrônicos
por
João Moura
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27/03/2026 - 12h

O consumidor brasileiro que planeja atualizar seus dispositivos eletrônicos nos próximos meses encontrará um cenário difícil. Segundo projeção da Gartner, empresa de consultoria no mercado de tecnologia, o preço dos computadores deve sofrer um reajuste de 17% em curto prazo. Ainda nessa análise, o mercado de PC’s deve sofrer uma retração de 10,4% em vendas. O aumento do preço é  impulsionado por uma combinação de fatores globais e decisões de política interna. O encarecimento de memórias RAM e unidades de armazenamento SSD, se transformou no principal vilão do orçamento doméstico e empresarial, agravando uma tendência de alta que se acumula desde o final de 2024.

O motivo principal dessa inflação está no crescimento do mercado de inteligência artificial (IA). A infraestrutura necessária para sustentar os modelos de linguagem (LLMs) e processamento de dados exige uma grande quantidade de hardware. Como resultado, as big techs estão direcionando seus investimentos para a construção e manutenção de data centers, consumindo a maior parte da produção mundial de semicondutores.

O apetite das gigantes da tecnologia acaba por "canibalizar" a oferta de produtos para o consumidor comum e pequenos varejistas. Um marco dessa mudança ocorreu em novembro de 2025, quando a Micron, uma das líderes globais do setor, anunciou o fim de sua linha de memórias padrão para consumidores, reajustando todo o seu portfólio para atender exclusivamente às demandas corporativas de alta escala. Para a economista e professora da PUC-SP, Leslie Denise Beloque, o momento exige cautela extra dos investidores e consumidores. “Temos uma imensa bolha no campo das big techs. Quer dizer que a valorização das ações dela na bolsa é extremamente grande, supondo que o desempenho delas na vida real também esteja. Isso fatalmente uma hora estoura, e todo mundo que tinha ação vai ver que isso era irreal, e perde dinheiro”, afirma Leslie.

Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick
Data centers dominam o mercado de memória RAM. Foto: wirestock/Freepick

Além da pressão de demanda, a oferta global de chips enfrenta problemas logísticos e diplomáticos. A guerra tarifária entre Estados Unidos e China impôs barreiras severas ao fluxo de recursos essenciais para a fabricação de microchips, afetando empresas cruciais como a TSMC e a Nvidia. A escalada de tensões entre os dois países também envolve restrições à exportação de tecnologias sensíveis e sanções comerciais estratégicas, especialmente no setor de semicondutores avançados.

Washington (EUA) tem ampliado o controle sobre o envio de equipamentos de litografia e chips de alto desempenho para empresas chinesas, enquanto Pequim responde com políticas de incentivo à produção doméstica e possíveis limitações na exportação de minerais críticos, como terras raras. Esse embate cria um ambiente de incerteza para toda a cadeia global de suprimentos, elevando custos, atrasando entregas e reduzindo a previsibilidade do mercado. No Brasil, o cenário é agravado pela questão tributária. A resolução Gecex 852, que entrou plenamente em vigor no início de  março de 2026, estabeleceu uma taxação de 12,6% sobre placas de vídeo, memórias RAM e placas-mãe. Embora o governo justifique a medida como uma forma de proteger a indústria nacional, que registrou um aumento de 33% na importação desses itens desde 2022, o impacto imediato é o desestímulo ao consumo.

Redes sociais passam a integrar entretenimento e consumo, acelerando o avanço do social commerce no Brasil
por
Eduarda Amaral
Kaleo Ferreira
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28/03/2026 - 12h

O comércio eletrônico brasileiro vive uma nova fase impulsionada pelos marketplaces, plataformas que conectam vendedores e consumidores em um mesmo ambiente digital. Nos últimos anos, esse modelo se consolidou como um dos principais motores de e-commerce no país, concentrando grande parte das vendas online e ampliando o alcance de marcas e pequenos empreendedores. Se preferir, ouça esta matéria em áudio.

Em 2026 um novo formato ganha espaço, o social commerce, que integra redes sociais às vendas online, permitindo ao consumidor descobrir e comprar produtos sem sair da plataforma. Um exemplo desse movimento é o TikTok Shop, que transforma vídeos curtos e transmissões ao vivo em vitrines digitais. O modelo se apoia no conceito de discovery commerce, o consumo por descoberta. Diferente da lógica tradicional, em que o cliente busca o que quer comprar, aqui ele os encontra de forma espontânea enquanto consome conteúdo. Para o especialista Felipe Couto, cofundador técnico e engenheiro principal da Jodda.ia, plataforma que integra gestão de dados e performance no e-commerce, os marketplaces deixaram de ser meros intermediários para se tornarem provedores de infraestrutura. Ao oferecerem soluções de logística, publicidade e crédito, essas plataformas geraram um "efeito de rede, em que mais vendedores atraem mais consumidores, fortalecendo o ciclo", explica Couto.

Nesse cenário, o entretenimento passa a desempenhar um papel central na decisão de compra, permitindo que marcas e criadores apresentem produtos de forma mais orgânica e próxima do consumidor. Essa estratégia transforma a navegação nas redes em um ambiente de descoberta constante, no qual recomendações e o algoritmo influenciam diretamente o comportamento do consumidor. Os números confirmam o avanço do setor. De acordo com a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce brasileiro faturou R$ 235 bilhões em 2025, alta de 15% em relação ao ano anterior. O período encerrou com 94 milhões de compradores online e aumento de 5,8% no volume de pedidos, com projeções que indicam a manutenção desse ritmo em 2026.

Gráfico faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 de acordo com a ABComm
Evolução do faturamento do e-commerce no Brasil de 2020 a 2025 - Fonte: ABComm

Essa alta-performance tem nos marketplaces seu principal motor, somada ao fenômeno do live commerce. O modelo popularizado na China em plataformas como Taobao Live e Douyin (versão chinesa do TikTok), onde o setor já movimenta centenas de bilhões de dólares anualmente, ganha força no Brasil como uma das formas mais autênticas de exposição de produtos. Nas transmissões ao vivo, vendedores e criadores respondem a dúvidas em tempo real, estabelecendo uma relação de proximidade que transforma o micro-influenciador em peça estratégica desse ecossistema.

Couto cita empresas que encontraram nas plataformas um atalho para expansão. A Growth Supplements, por exemplo, que já registrava alto faturamento em seu site próprio, alcançou milhões de pedidos em apenas um mês após migrar para o Mercado Livre. Para ele, o movimento evidencia que "não é só o pequeno seller (vendedor) que depende disso, até empresas grandes usam marketplaces como canal estratégico de crescimento". Mas esse formato, no entanto, começa a ser desafiado por um novo concorrente. Com cerca de 90 milhões de usuários no Brasil, o TikTok Shop registrou um crescimento de 26 vezes na receita diária média em apenas cinco meses desde sua chegada ao país, em 2025. 

Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos — Imagem: Eduarda Amaral/Canva
Montagem com interface do TikTok Shop e vídeos de promoção de produtos - Arte: Eduarda Amaral/Canva

Ao aproximar entretenimento, recomendação e compra em um único ambiente, o social commerce redefine a jornada do consumidor e abre novas frentes de monetização. Nesse modelo, o conteúdo se transforma em vitrine e o criador em mediador, consolidando uma etapa do varejo digital em que as fronteiras entre diversão e consumo são cada vez mais difusas. 

Essa transição para novos canais exige mais do que presença digital, exige inteligência sobre o próprio negócio. É justamente esse o desafio que Couto enfrenta no dia a dia com a Jodda.ia. Segundo ele, a maioria dos vendedores tomam decisões com base em dados históricos e intuição: sabem quanto venderam, mas não entendem por que venderam ou onde perderam margem. "Um vendedor que não tem essa base analítica estruturada vai tentar replicar o que faz no Mercado Livre e vai se frustrar, porque as métricas são diferentes", afirma. Para ele, ter clareza sobre o lucro é o que permite avaliar com segurança se um item faz sentido no TikTok Shop, onde o giro é acelerado pela viralidade.

Essa disputa, no entanto, não deve se consolidar como uma competição direta entre modelos. O cenário aponta para uma convergência entre marketplaces e social commerce, à medida que plataformas de venda incorporam elementos de conteúdo, enquanto redes sociais avançam na estrutura operacional. Para Couto, essa transformação já está em curso e reflete uma adaptação do varejo digital a um consumidor mais orientado por experiência e conveniência.

Nesse processo, o avanço do TikTok Shop como ameaça real ainda depende de fatores como logística e confiança no pós-venda, áreas em que players consolidados mantêm vantagem. “Se o TikTok Shop conseguir fechar essa lacuna, aí o jogo muda”, afirma Couto. A disputa deixa de ser apenas por preço ou variedade e passa a envolver experiência e eficiência. “O marketplace venceu pela infraestrutura; o TikTok Shop cresce pela atenção; e o próximo ciclo será vencido por quem conseguir unir atenção, operação e margem no mesmo sistema”, conclui.

O que a crise gerada por Vorcaro conta sobre o letramento financeiro dos brasileiros
por
Leticia Falaschi
Anna Cândida Xavier
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27/03/2026 - 12h

O escândalo do banco Master tomou conta do noticiário brasileiro, promessas de rendimentos milagrosos, altas taxas de juros, ativos sem retaguarda e possível envolvimento de nomes importantes da política. A investigação da Polícia Federal estima que a crise do Master gerou R$50 bilhões em prejuízos generalizados, inclusive para investidores inexperientes que apostaram tudo o que tinham em uma cilada. Este caso deixa um alerta sobre a transformação do risco em produto e a expectativa em estratégia de mercado. Desde 2017, quando o empresário Daniel Vorcaro assumiu a presidência, o Banco Master apresentou um crescimento acelerado, baseado na emissão de Certificado de Depósito Bancários (CDB) com alto juros.

O CDB é um investimento de renda fixa emitido por bancos para captar dinheiro, ao investir, o cliente empresta dinheiro ao banco e recebe os juros. O Master oferecia uma rentabilidade muito superior à média de mercado, o que gerou uma captação expressiva e promessa de grandes retornos aos investidores. As operações eram complexas, de alto risco e pouco transparentes. A crise expõe não apenas uma falha financeira, mas um fenômeno social e comunicacional mais amplo, construído ao longo da última década no Brasil: a popularização do investimento em um ambiente mediado por linguagem simplificada, entretenimento e disputas de narrativa. Plataformas digitais, assessores e influenciadores passaram a traduzir o mercado financeiro em uma linguagem acessível, vendendo a ideia de que investir era simples e seguro. “As pessoas usam aquilo que é mais simples de acessar, que é a caderneta de poupança”, explica Cristina Helena Pinto, professora doutora em economia pela Fundação Getúlio Vargas.

Segundo ela, "o retorno monetário modesto deste tipo de investimento leva alguns à se arriscarem. Pessoas que têm baixo letramento financeiro, ou têm muita vontade de realizar rápido um ganho extraordinário”, caem, alerta Cristina. Nesse movimento, encontram um ecossistema financeiro pronto para oferecer soluções mais lucrativas, como CBD´s com juros muito altos.  Nesse percurso, muitos investidores se tornam vulneráveis a conteúdos que prometem ganhos rápidos, especialmente quando há muita vontade de realizar rápido um ganho extraordinário, o que se torna corriqueiro para boa parte da população.

É nesse ponto que a dimensão comunicacional se torna central. Segundo Davidson Carvalho, que defendeu mestrado na PUC-SP analisando o mercado financeiro para pequenos empreendedores, "há uma mudança estrutural na forma como o mercado financeiro se comunica: conteúdos sobre dinheiro passaram a adotar lógica de entretenimento, com ritmo acelerado, apelo visual e fragmentação". 

"O uso de memes e recursos visuais não é necessariamente um problema, como no caso do canal Me Poupe!, mas pode servir para “quebrar o ritmo racional do negócio”. O resultado é uma comunicação que privilegia engajamento em detrimento da profundidade", explica Carvalho. 

A economista Cristina Helena reforça essa ambiguidade ao apontar que, mesmo para quem possui conhecimento, há um conflito entre percepção de risco e confiança institucional: “olhava para aquilo e falava, está acima do que o mercado está pagando, tem alguma coisa de errado aqui”, mas, ao mesmo tempo, confiava que “dificilmente esse banco ia estar numa situação de risco tão elevado sem aparecer alguma coisa”. Essa confiança no sistema, combinada com a comunicação simplificada, contribuiu para diluir a percepção de risco entre investidores menos experientes.

Outro aspecto central é a disputa de narrativas entre instituições tradicionais e novos agentes comunicacionais. Como afirma Carvalho, “o banco não está isolado, não está conversando sozinho, pois compete diretamente com influenciadores que também se propõem a falar sobre educação financeira”, adverte. No entanto, há uma diferença de linguagem: enquanto instituições oferecem conteúdos mais técnicos, influenciadores alcançam grande audiência com formatos dinâmicos. 

Essa assimetria ajuda a explicar por que narrativas simplificadas têm maior alcance, mesmo quando menos completas. Nessa disputa por atenção, as instituições acabam por perder. “Os bancos também pensam em como decifrar a economia para o consumidor.” afirma Carvalho. 

Fundo Garantidor de Créditos (FGC)

Para a professora, a existência do (FGC) levou muitos investidores a acreditarem que estavam protegidos. Apesar dele garantir retorno para investimentos de até R$ 250 mil, muitas pessoas apostaram suas poucas fichas para além desse valor, confiando na segurança do CBD do Master. “O risco faz parte da estrutura do negócio de um banco, a diferença do caso Master são as fraudes, a emissão de ativos sem colateral, sem retaguarda” afirma Cristina. 

A crise do Master revela limites estruturais que vão além da comunicação. Carvalho destaca que muitos brasileiros simplesmente não têm tempo para se aprofundar: “um cara que está 12 horas numa moto, chega em casa e vai descansar, ele não vai fazer mais nada”, o que torna o consumo de informação rápida e superficial quase inevitável. Aí, a decisão de investimento deixa de ser apenas econômica e passa a ser mediada por cansaço, falta de tempo e excesso de estímulos", explica o mestre Carvalho. 

 

por
Natasha Meneguelli
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08/05/2020 - 12h

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), maior banco de fomento do Brasil, tem aumentado sua presença na economia depois do início da crise causada pela pandemia de Covid-19. Ele lidera algumas das principais medidas de apoio apresentadas pelo governo federal para as empresas, protagonismo que, em certa medida, contrasta com a tendência verificada nos últimos anos. 

“Estávamos em um momento de reduzir o tamanho do Estado por meio de refocalização das estatais e privatizações. Agora haverá um debate de até que ponto o Estado deve garantir uma estrutura mínima de segurança para evitar crises”, afirma Sérgio Lazzarini, professor do Insper, que tem entre as suas pesquisas as relações entre empresas privadas e o setor público.

O economista aponta que a atuação do BNDES após a pandemia será diferente da política de ‘campeãs nacionais’ dos governos Lula e Dilma, que consistia em fortalecer grandes empresas para se tornarem globais. “Aqui, o foco será em garantir produtos e serviços essenciais, em cenários de elevado estresse, como estamos passando.”

As medidas do banco estão programadas para o período de quarentena, e são voltadas a micro, pequenas e médias empresas, além do setor de saúde. De acordo com informações disponibilizadas em seu site, o BNDES movimenta R$ 67 bilhões em financiamentos que incluem um Programa Emergencial de Suporte a Empregos, para pagamento da folha de salário de funcionários de empresas, e um Apoio Emergencial ao Combate da Pandemia, para compra de equipamentos e outros produtos de saúde. Além disso, o banco suspendeu em até seis meses o pagamento de parcelas de crédito nas modalidades direta e indireta para empresas afetadas pela crise – medida conhecida no mercado como standstill

As ações lançadas na pandemia evidenciam  a mudança de eixo de grandes empresas para as menores, que possuem uma base financeira menos robusta  para lidar com momentos de fortes impactos negativos na economia. As perspectivas de piora da crise após o isolamento social apontam a necessidade de ações que deem suporte às empresas, diminuindo as taxas de desemprego, que, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), devem aumentar principalmente em países emergentes, onde o número de desempregados receberá um acréscimo entre 1,7 milhão e 7,4 milhões de pessoas, segundo as estimativas do órgão.

“Acho que o esforço de reduzir as distorções do passado deve continuar. Por exemplo, evitar que o BNDES empreste para grandes empresas ou setores que podem se capitalizar de outra forma. Havia também a prática de fazer intervenções governamentais nos mercados e compensar os empresários com crédito facilitado”, diz Lazzarini. “Agora falaremos mais na linha de como o BNDES pode estimular empreendedorismo e infraestrutura crítica, que pode ser de menor interesse pelo setor privado. Isso ainda implicará um BNDES menor que no passado, porém muito mais direcionado e provavelmente muito mais efetivo.”

Esta mesma lógica parece conduzir alguns pacotes de providências preparados por instituições importantes para reconstruir a economia brasileira depois do período de quarentena, como  o programa que está sendo elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), ao qual o presidente da instituição, Carlos Von Doellinger, tem se referido como um “Plano Marshall”, em alusão  ao plano que reconstruiu a Europa depois da Segunda Guerra Mundial. 

Em entrevista ao jornal Valor Econômico, em meados de abril, Von Doellinger disse que todas as diretorias foram mobilizadas e começaram a entregar relatórios no final do mesmo mês, apesar de não dar nenhuma projeção do valor para o plano. O objetivo é que o documento finalizado chegue à mesa do ministro da Economia, Paulo Guedes, no começo de junho.

A proposta do Ipea tem quatro eixos dos quais o terceiro envolve investimentos em infraestrutura mediante esforço do BNDES e indução do setor privado. A ideia até o momento é que envolva a remodelagem de parcerias público-privadas, tornando-as mais atraentes. Entre os setores a serem priorizados, estão o de saneamento básico, habitação e outras áreas de infraestrutura urbana.

 

 

Para Rafael Bianchini, o desemprego e a pobreza, que já se encontravam em situação delicada, irão aumentar com a pandemia de Covid-19
por
Lincoln Oliveira de Castro
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06/05/2020 - 12h

O ano de 2020 começou diferente de qualquer outro do século 21. Com a chegada do novo coronavírus, o mundo já começa a sentir os efeitos do que promete ser a maior recessão desde, pelo menos, a Grande Depressão da década de 1930. Para alguns países, é um processo que se inicia agora; para outros, o agravamento de uma crise anterior à pandemia, cuja solução se torna ainda mais complicada. É o caso da Argentina.

A cada ano que passa, a situação do país fica mais difícil. Suas dívidas em empréstimos e títulos passam de US$ 100 bilhões. Já a dívida pública total do país soma US$ 311 bilhões, o que equivale a 90% do Produto Interno Bruto. Após a eclosão da Covid-19, a Argentina declarou default técnico, mais conhecido como "calote", com os credores locais, adiando o pagamento da sua dívida para 2021. 

Não bastasse o alto endividamento, nos últimos 40 anos a taxa de pobreza subiu de 4% para 40%. Estimativas do Instituto Nacional de Estatísticas (Indec) indicam que, em 2019, havia 15 milhões de pessoas na pobreza no país. Para piorar, a inflação chega a 50% ao ano. Este cenário, que tende a se agravar com a pandemia, dificulta ainda mais a busca de alternativas factíveis.

Em meio ao surto de Covid-19, gastar recursos com investimentos é considerado secundário. A única saída é levar dinheiro aos mais pobres através de programas sociais. A opinião é do economista e professor da Fundação Getúlio Vargas Rafael Bianchini, que acompanha a situação da Argentina há alguns anos.  "Neste momento, o que a Argentina tem a fazer é injetar dinheiro na população e focar nos mais pobres. Tentar preservar a situação mínima de dignidade para a base da pirâmide. Então, é renda básica universal para essas pessoas."

Apesar de ver a "injeção" de dinheiro nos mais pobres como a única medida que deve ser tomada no momento, Bianchini observa que algumas pessoas irão se beneficiar sem precisar. "É bem possível que neste momento não dê para ter critérios muito seletivos, porque você não tem como levar as pessoas para se cadastrar. Não tem como realizar critérios que os governos costumam fazer para selecionar beneficiários de programas sociais: é jogar dinheiro para todo mundo e admitir que alguns vão receber sem precisar. Paciência, é a vida", diz.

Recentemente, o presidente da Argentina, Alberto Fernández, atendendo às reivindicações das centrais sindicais, contribuiu para que a taxa de desemprego e, consequentemente, os índices de pobreza não aumentassem, ao decretar, no dia primeiro de abril, a proibição de demissões nos 60 dias seguintes, apenas permitindo demissões por justa causa. Mas não há quem se engane. Esta medida é apenas uma das muitas que devem ser tomadas daqui em diante.

Ainda no período da eleição, o atual presidente havia lançado o plano "Argentina contra a fome", inspirado no programa "Fome Zero", criado por Lula em 2003 e responsável por tirar o Brasil do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), contribuindo para que a pobreza extrema diminuísse 75% entre 2001 e 2012, tornando-se referência internacional. O plano de Fernández, que visa erradicar a fome de 15 milhões de pessoas, ainda não saiu do papel. 

 

por
Virginia Mencarini
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06/05/2020 - 12h

A pandemia de Covid-19 vem afetando diversos setores da economia em todo o mundo. Um dos que mais têm sentido seus impactos é a indústria têxtil – e, por consequência, o mundo da moda. Hoje, mais do que nunca, os dois precisam encontrar caminhos alternativos para contornar essa situação da maneira mais consciente possível.

No Brasil, a indústria têxtil representa uma grande parcela da economia, tornando-se muito vulnerável em meio à pandemia. De acordo com dados divulgados pela Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção) e atualizados em dezembro de 2019, o setor faturou US$ 48,3 bilhões em 2018. Ainda no mesmo ano, foi o segundo maior gerador do primeiro emprego no Brasil, representou quase 17% dos empregos do país e é o quarto maior produtor de denim e malhas do mundo. A moda brasileira também dita sua presença entre as cinco maiores semanas de moda do mundo, responsabilidade carregada pela São Paulo Fashion Week.

Máquina de Tecelagem
Foto: site Mercado & Consumo

A relevância do setor é inegável, mas ainda assim vem enfrentando algumas dificuldades. Desde a crise de 2014 e 2015, quando o PIB brasileiro se retraiu em mais de 7%, a indústria têxtil vem oscilando no que diz respeito a vendas e receitas. Quanto à exportação (um de seus maiores pilares), a balança comercial se encontra desfavorável atualmente. Ainda segundo a Abit, entre janeiro e setembro de 2019, o Brasil registrou US$ 4,133 bilhões em importações, contra US$ 665 milhões em exportações.

Como se já não bastasse a lenta recuperação da economia brasileira, a pandemia do coronavírus impôs a quarentena a fim de diminuir casos e contágios. Em São Paulo, o governador João Doria determinou, entre outras medidas, o fechamento do comércio de bens e serviços considerados não essenciais para evitar aglomerações, o que foi acatado pelos empreendedores, e tem mantido o isolamento social desde 24 de março. De acordo com estimativa feita pela assessoria econômica da FecomercioSP, o consumo de bens chamados duráveis (carros, eletrodomésticos, móveis etc) e semiduráveis (roupas e calçados) tende a diminuir durante esse período.

Com isso, a equipe de economia da Abit realizou uma enquete com os empresários do setor têxtil e confecção para medir as consequências do vírus e as atitudes tomadas frente ao novo problema. Com uma amostra de 183 empresas, a pesquisa, realizada em março, relatou que 97% dos empresários já sentiram o efeito em seu processo produtivo e que 93% dos entrevistados estão tomando medidas preventivas em relação aos seus colaboradores: 62% adotaram férias coletivas, 30% recorreram ao home office, mas sem o consentimento do sindicato da categoria, e 22% apelaram para as demissões.

Algo igualmente inédito no cenário da indústria têxtil brasileira, como a paralisação geral, foi a urgência decretada pelo governo federal na produção de itens da rede têxtil relacionados à área médica, como máscaras, luvas e aventais. A Abit informa que todo o parque manufatureiro do setor está integralmente mobilizado para atender às demandas mais urgentes da Covid-19. O presidente da associação, Fernando Valente Pimentel, em matéria disponibilizada no site da entidade, reforçou: “Nesse sentido, nossa indústria, buscando superar os desafios presentes, está trabalhando, nos locais onde as fábricas podem funcionar, para converter seu processo de fabricação à produção de máscaras, aventais, abrigos e outros produtos, muitos dos quais vinham sendo importados, para atender às necessidades prementes geradas pela pandemia do novo coronavírus”.

 

Produção de máscara
Produção de máscaras pelo Grupo Lunelli / Foto: site Guia JeansWear

Essas mudanças, tanto na rotina da população quanto do mercado da moda, não só afetaram o Brasil, mas o mundo todo. A temporada das semanas de moda, que começou em Nova York em fevereiro deste ano, também sofreu o grande impacto do coronavírus. Para apresentar as novas coleções de luxo outono/inverno de 2021, os estilistas tiveram que se adaptar conforme a pandemia ia se alastrando e o evento acontecia.

           O tão esperado desfile de Giorgio Armani na Itália (epicentro do vírus na Europa) aconteceu, porém em um novo formato. De portas fechadas e sem público, as modelos exibiram as novas ideias e tendências Armani nas passarelas por meio de transmissões ao vivo em todas as plataformas digitais da marca. Para a jornalista brasileira e consultora de moda Lilian Pacce, essa é a oportunidade para uma maior reflexão: “Hoje em dia, fazer transmissão ao vivo de desfile é hiperviável. Qual é a real necessidade de você estar dentro daquele recinto, correr o risco de ficar doente? [...] Vamos questionar isso”, apelou em vídeo para o seu canal no YouTube. Outro destino da temporada, Paris, também foi marcado por dificuldades, e a parada final, São Paulo, não teve outro fim senão o cancelamento absoluto. Semanas de moda em Tóquio, Seul, Xangai e Pequim também compartilharam do mesmo desfecho.

Estilista Giorgio Armani e suas modelos em desfile fechado para público
Estilista Giorgio Armani e modelos em seu desfile fechado para o público / Foto: Stefano Guindani

Analisando os resultados econômicos da conturbada temporada outono/inverno 2021, o prejuízo foi alto. O coronavírus acabou ocupando os lugares nas primeiras filas dos desfiles principalmente da imprensa e compradores chineses, sempre muito assíduos, já que não embarcaram para ver de perto o inverno europeu. Segundo um estudo da consultoria Bain & Management, 35% de todas as compras de artigos de luxo realizadas em 2019 foram feitas por chineses que viajaram ao exterior, ou aconteceram na própria China. Ou seja, o impacto econômico da Covid-19 é nitidamente observado.

Pensando em como resolver todas essas questões trazidas pelo coronavírus e como proceder a partir desse momento, aqui no Brasil, a assessoria de comunicação da Confederação Nacional da Indústria (CNI) vem reunindo iniciativas do setor industrial para combater a Covid-19. Seu intuito é contribuir com a divulgação dessas ações, a fim de mostrar como as empresas estão tentando ajudar o país em meio a essa pandemia, e como estão contribuindo na conscientização da população para acatarem as medidas de proteção. A Agência CNI de Notícias é responsável por atualizar diariamente uma página exclusiva que centraliza todas as informações, notícias e posicionamentos das indústrias a respeito da Covid-19.

Uma das heranças deixadas pelo coronavírus, quando se trata do mercado varejista, é o muito provável boom do e-commerce. As compras online aos poucos já estavam ganhando seu espaço na vida dos consumidores brasileiros e estrangeiros, mas com o isolamento social (e até depois disso), esse comportamento só tende a aumentar. Plataformas de compra como o portal Shop2gether devem conquistar novos clientes, antes apreensivos com a nova maneira de aquisição. Em matéria na Vogue Brasil, Ana Isabel Carvalho Pinto, fundadora e diretora do portal, arriscou: “Quem tinha alguma resistência, deve passar a experimentar”.

Os desfiles live e online também fazem parte do legado da Covid-19, assim como uma maior reflexão sobre sustentabilidade (pauta e demanda que já estavam muito presentes na forma de consumir dos millenials e geração Z, antes mesmo da crise do vírus). Para o jornalista e colunista Bruno Astuto, essa nova ordem traz consigo uma onda de mudanças de hábitos e valores, “Não faz mais sentido, sobretudo depois da última e tensa temporada [outono/inverno 2021], viajar oito vezes por ano para Milão, Paris e Nova York. As empresas atacadistas deverão investir em novas tecnologias de realidade aumentada para criar a sensação mais próxima de uma experiência ao vivo”, disse em sua coluna na Vogue Brasil.

Consequências positivas estão por vir. No Brasil, no que diz respeito à indústria têxtil e de confecção, uma aposta na expansão do comércio exterior (e interno também) e seu faturamento se dá com o maior uso das plataformas digitais para compras e vendas online. Outro fator, e com grande potencial para viralizar, é a inovação das grandes marcas na forma de apresentar suas coleções. Diminuir gastos e prezar pela sustentabilidade e bom senso, ao minimizar as idas e vindas em todos os cantos do mundo várias vezes ao ano usufruindo das grandes tecnologias dispostas, também estão se tornando, cada vez mais, tendências muito desejadas.

A indústria brasileira de têxtil e confecção tem muito mais a agregar ao país e ao mundo de forma positiva do que já agrega, e, sabendo estudar as novas possibilidades, as chances de gerar ainda mais empregos, um maior faturamento e se estabilizar são altas. Sobre os contratempos enfrentados pelas semanas de moda na última temporada, há um anseio de mudança nesse mercado tão tradicional e estático (apesar das grandes inovações nas passarelas e vitrines), sem jamais perder sua autenticidade. Para Lilian Pacce, “isso [crise do coronavírus] pode ser muito disruptivo. Sem dúvida, a temporada de outono/inverno 2021 vai entrar para a história”. Uma nova ordem vem por aí.

 

Foto de capa: Manequins de máscaras em uma vitrine (Suíça, 31 de março) / site swissinfo.ch / Keystone

por
Rafaela Soares
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05/05/2020 - 12h

Em meio à quarentena e à recessão  provocadas pela rápida proliferação do coronavírus, o mercado floricultor do país já deixou de faturar R$ 297,7 milhões apenas entre os dias 14 e 28 de março, quando as medidas de isolamento social começaram a ser implantadas. Segundo o  Ibraflor (Instituto Brasileiro de Floricultura), o setor movimenta R$ 8,67 bilhões em toda a cadeia e gera mais de 1 milhão de empregos, sendo 210 mil diretos e 800 mil indiretos.

Após um bem-sucedido Dia Internacional da Mulher (8 de março), as previsões para o Dia das Mães (10 de maio) eram muito boas: “A situação mudou de uma hora para outra e o setor da floricultura foi atingido de maneira drástica”, comentou Kees Schoenmaker, presidente do Ibraflor, para o jornal Holambrense.

De acordo com o instituto, os prejuízos previstos para o mês de abril devem somar mais de R$ 669,8 milhões e a perda estimada para o Dia das Mães é de R$ 396,9 milhões.

Lucimeire Barbosa, uma das donas da Floricultura Marajoara,  no cemitério de Congonhas, conta que as vendas caíram cerca de 90% desde o início da quarentena. “Como o tempo dos enterros diminuiu, nem coroa de flores a gente tá vendendo direito”, diz Lucimeire. Ela acrescenta que não conhece nenhuma outra floricultura que tenha mantido as atividades neste período.

Em relação ao Dia das Mães, Lucimeire não tem expectativas de venda. “O Dia das Mães costuma ser muito bom, tanto pra quem vem ao cemitério presentear, como pra quem compra e vai pra casa. Se a quarentena continuar, do jeito que tá acho que a gente não vende nada. Ninguém vai querer sair”, afirma.

Em uma live feita no perfil do Canal Terraviva no Instagram, o diretor de marketing do Ibraflor, Renato Opitz, comentou sobre a maior apreensão do setor em relação ao Dia das Mães. "O volume da produção no Dia das Mães é muito grande, então ele dependia de toda uma cadeia logística de distribuição funcionando perfeitamente para poder escoar. A nossa principal preocupação agora é que essa cadeia funcione, ou seja, não adianta o próprio consumidor, próximo do Dia das Mães, querer o produto e não ter", disse.

Em 2019, o Dia das Mães deu um lucro de quase R$ 10 bilhões ao comércio, sendo a segunda data comemorativa  mais lucrativa para o setor. Diante disso, neste ano,  comparando os resultados da Páscoa com os do ano passado, muitos comerciantes chegaram a propor a mudança do Dia das Mães para o segundo domingo do mês de julho. O governador de São Paulo, João Doria, sugeriu que a data fosse celebrada em agosto.

A respeito de um possível adiamento, Opitz afirmou: "Da nossa parte, do setor de flores ornamentais, a gente é totalmente contra essa mudança por vários motivos, sendo o principal o fato de as flores já estarem plantadas para essa data, então os produtores não teriam onde escoar essa produção e depois, em julho, não teria flor, ou seja, agora vai sobrar e depois vai faltar".

O Ibraflor, junto a cooperativas de Holambra (SP), conhecida como a “cidade das flores”, formou um comitê de crise para monitorar os impactos causados pelo novo coronavírus e analisar o mercado para minimizar os prejuízos em meio às medidas do isolamento social, que fizeram com que festas e eventos fossem cancelados.

Além da criação do comitê, o instituto e as cooperativas lançaram no dia 17 de março uma campanha nas redes sociais intitulada “O poder das flores e das plantas – A flor é o alimento para a alma”, que tem por objetivo incentivar o consumo ao associar flores e plantas com o bem-estar e a geração de emoções, e não só como um artefato para embelezar um cômodo.

No portal Nação Agro, uma iniciativa do Canal Rural, o produtor rural e representante da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo na Ceagesp, Valdemar Koga, deu uma entrevista exclusiva e comentou: "O mercado realmente está com 60 a 70% de perdas, se não mais".

Sobre a situação dos produtores, Koga disse: "A produção será menor, então é possível que futuramente falte mercadoria. Aqueles que não têm condições de continuar com a produção vão parar, já que não têm reserva no caixa. Os médios e os grandes até têm uma reserva, mas não por muito tempo. E outra, se os pequenos produtores pegarem uma linha de crédito, um empréstimo pessoal, os juros seriam muito grandes".

Segundo o Canal Rural, no dia 9 de abril o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou um plano de ajuda econômica a produtores rurais afetados pelo coronavírus e pela seca. A ajuda inclui prorrogações de pagamentos de dívidas e novas linhas de crédito.

por
Adriane Garotti
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05/05/2020 - 12h

Diante de crises econômicas, como a que o Brasil está enfrentando em decorrência da pandemia do novo coronavírus, a tendência é  que a desigualdade social fique ainda mais evidente. O principal ponto afetado pela disparidade econômica acaba sendo a área da saúde, principalmente a vida das pessoas que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Em situações emergenciais, o papel do Estado é garantir que tanto os ricos quanto os pobres consigam se prevenir da forma mais justa possível. Entretanto, acaba se tornando impossível exigir adesão à quarentena de pessoas que vivem em condições precárias de saneamento básico, não têm possibilidade de fazer home office e moram em habitações apertadas e com aglomeração. 

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB), prorrogou, no dia 17 de abril, a quarentena no estado. “Aqui nós não brigamos com a ciência, nós respeitamos a ciência”, disse Doria em pronunciamento. O estado já está em isolamento social desde 22 de março. 

A diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Drager Maia, reforça que nem  todos os brasileiros podem seguir as orientações de isolamento feitas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “Milhões de pessoas não têm a opção do chamado home office, tanto no que se refere ao tipo de trabalho quanto às condições logísticas residenciais. O necessário e importante isolamento social é totalmente diferente para quem tem condições de moradia adequadas e para quem não tem”, afirma.

Katia Drager Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. (Reprodução: Jornal GGN)
Katia Drager Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. (Reprodução: Jornal GGN)

 

A desigualdade social acaba se tornando algo comum aos olhos dos brasileiros e até mesmo sendo banalizada. É nos momentos de crises sanitárias, como esta pandemia mundial, que os menos favorecidos sofrem mais, e o principal motivo disso é a falta de direitos básicos de higiene e saúde. 

Segundo o DataSUS, sistema de informação do Sistema Único de Saúde,  houve uma queda de 2,5% no número de leitos disponíveis no estado de São Paulo nos últimos quatro anos. Em 2015, a média era de 109,5 mil leitos. Já em 2019 esse número caiu para 106,8 mil. Esses dados se referem aos leitos básicos e às Unidades de Terapia Intensiva (UTI), nos hospitais públicos e privados do estado. 

Com o crescimento acelerado dos casos de coronavírus, os hospitais acabam não suportando a demanda de atendimentos e, consequentemente, o sistema de saúde fica sobrecarregado. Dados da Rede Nossa São Paulo (RNSP) mostram que atualmente, em São Paulo, a proporção  é de 2,5 leitos para cada mil habitantes, o que é pouco, ainda mais no enfrentamento de uma pandemia.

Uma das soluções encontradas foi a construção dos hospitais de campanha. São dois na capital paulista, que têm por finalidade atender os pacientes infectados com baixa ou média complexidade. Um deles foi montado no Estádio do Pacaembu, disponibilizando 200 leitos. O outro foi erguido no Anhembi, com 887 leitos, dos quais 64 de Unidade de Terapia Intensiva.

Os números divulgados pela Prefeitura de São Paulo mostram que, até o dia 17 de abril, o bairro com mais mortes na capital paulista era a Brasilândia. O portal de notícias G1 divulgou que o bairro tinha então 89 casos confirmados de Covid-19 e 54 mortes. Já no Morumbi, bairro considerado de classe média alta, eram 297 casos confirmados e sete mortes.

Em meio a uma pandemia, cuja prevenção depende exclusivamente do isolamento social, os trabalhadores informais sentem ainda mais de perto os efeitos da crise econômica. Nesses momentos, os empregos mais vulneráveis e que pagam menos acabam demitindo seus funcionários, o que contribui para o agravamento da desigualdade social. Trabalhadores com carteira assinada também sofrem nessa crise, porém têm uma segurança econômica maior.

Diante da pressão da sociedade civil, economistas e parlamentares, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) sancionou o projeto de lei que visa ajudar os mais vulneráveis nesse momento de crise. A concessão de uma renda básica emergencial de R$ 600 durante a pandemia é uma das ações do governo com intuito de ajudar os mais afetados. 

“É fundamental que o governo priorize o atendimento econômico e social à população que está em situação de vulnerabilidade ou que pode vir a ficar, como consequência da crise provocada pelo coronavírus. A renda básica emergencial é um programa fundamental que precisa ser implementado com maior eficiência e por um período bem maior do que os três meses iniciais previstos”, afirma Katia Drager Maia.

Os efeitos econômicos da pandemia do coronavírus ainda vão ser vistos ao longo dos próximos anos. Maia prevê um aumento significativo nos índices de desigualdade no país nos próximos relatórios da Oxfam Brasil. “O Brasil já apresentava cerca de 40 milhões de pessoas no trabalho informal e esse número deverá aumentar. Os indicadores de renda também devem apresentar uma redução na renda da população, particularmente da base da pirâmide. Já existem análises que indicam que o país pode ter mais de 2 milhões de novos desempregados.”

Um caso muito comentado nas redes sociais foi o post da blogueira fitness Gabriela Pugliesi, cujo teste de Covid-19 apontou resultado positivo no início de março. Em uma postagem na rede social Instagram, ela escreveu: “Bastaram meia dúzia de dias para que o universo estabelecesse a igualdade social, que se dizia ser impossível novamente. O medo invadiu todos. Que isto sirva para nos darmos conta da vulnerabilidade do ser humano. Não se esqueçam, bastou meia dúzia de dias”, escreveu Pugliesi. O assunto teve uma repercussão negativa e a influenciadora apagou o post. 

A visão equivocada de que um vírus possa trazer à tona uma igualdade biológica humana é muito discutida nos dias de hoje, em meio ao enfrentamento da pandemia. Viver num país em desenvolvimento como o Brasil é uma experiência diária que permite enxergar como o mundo ainda sofre com a desigualdade total e não apenas no âmbito da saúde.

Imagem da capa: Casas de Paraisópolis e prédio no Morumbi, em São Paulo. (Reprodução: BBC Brasil)