Com o dólar em alta e edições cada vez mais sofisticadas, o mercado de HQs tenta sobreviver entre colecionadores fiéis, sebos e drives compartilhados na internet
por
Emily de Matos
Luis Henrique Oliveira
Wildner Felix Cerqueira
|
02/04/2026 - 12h

Quem passa em frente a uma banca de jornal e olha para as HQs disponíveis logo percebe: o preço mudou. Edições simples viraram raridade e, no lugar delas, capas duras e omnibus (no contexto editorial, refere-se a um volume que reúne várias obras) dividem o espaço nas prateleiras. Com o dólar em alta, principalmente depois da guerra no Oriente Médio e o custo do papel acompanhando a disparada da moeda americana, os quadrinhos chegaram a 2026 com valores que assusta boa parte dos leitores brasileiros.

Para quem trabalha no setor há décadas, porém, a novidade é relativa. "O quadrinho nunca foi barato no Brasil. Sempre teve um preço alto", afirma Fernando Pedroso Vaz, jornaleiro veterano de Itapevi, na Zona Oeste de São Paulo, que atua há 30 anos no ramo. Na sua visão, o produto evoluiu junto com o valor cobrado, saiu do básico e se transformou em peça de colecionador, com edições especiais e volumes únicos que reúnem histórias inteiras em um só livro.

Fernando Pedroso Vaz, jornaleiro de Itapevi, ao lado de quadrinhos diversos
Fernando Pedroso é jornaleiro à 30 anos em Itapevi. Foto: Luis Henrique Oliveira

O problema, ele admite, é outro: "O salário do brasileiro não subiu o equivalente". É nessa tensão entre um produto que se reinventou como objeto de arte e um poder de compra que patina que o mercado de quadrinhos tenta encontrar seu equilíbrio no Brasil. O mercado de quadrinhos passa por um momento de expansão paradoxal: ao mesmo tempo em que conquista novos públicos, enfrenta desafios estruturais que ameaçam os canais tradicionais de venda. Para Maria Gabrielle Fontinele, leitora desde os 13 anos, o preço elevado não a afastou, mas ela percebe seu efeito nos leitores mais novos. "Tem afastado, principalmente em relação aos da Marvel", afirma. Na sua leitura, o boom dos filmes criou um atalho: o público se interessa pela história, mas migra para a tela e esquece a publicação impressa. A adaptação cinematográfica, que poderia funcionar como porta de entrada para os quadrinhos, acaba competindo com eles, explica Fontinele. "O pessoal começa pela marca da HQ, mas no final acaba totalmente diferente", ela observa, apontando uma contradição que frustra tanto leitores antigos quanto potenciais novos consumidores.

Quem permanece fiel ao formato impresso carrega algo que vai além do hábito. Maria descreve uma dimensão afetiva que sustenta o mercado mesmo diante das adversidades: "você criou um apego emocional por aquilo." A coleção vira memória, identidade, algo transmitido entre gerações. É esse público cativo, fiel desde o início, que mantém bancas como a de Itapevi de pé, mesmo com a concorrência brutal da internet. O vendedor não tem ilusões sobre o futuro das bancas: "o futuro das bancas é deixar de existir". Mas reconhece, com certa ironia, que a internet, ao mesmo tempo que lhe tirou clientes, fortaleceu o colecionismo. Ficou mais fácil encontrar edições antigas, completar séries, acessar títulos importados.

A entrada da banca de Fernando, cheia de revistas e quadrinhos
A banca de Fernando Pedroso é a única que ainda resiste na cidade de Itapevi. Foto: Luis Henrique Oliveira

Para driblar a disparidade entre o número das vendas, grandes editoras vêm adotando medidas alternativas. A Panini, por exemplo, apostou na volta de quadrinhos com a lombada canoa como forma de baratear a produção e tornar o custo mais acessível para os consumidores. Esse formato tem como característica as páginas grampeadas, diferentes da encadernação com as folhas coladas que tinham adotado nos últimos anos.

Também trouxeram para o Brasil em 2025 os “DC de Bolso”, relançamento de arcos essenciais dentro do universo DC Comics compactados em publicações menos luxuosas que as versões anteriores. Gibis como Reino do Amanhã e Superman: Entre a Foice e o Martelo custam entre R$23,34 a R$49,50, enquanto suas impressões em capa dura chegam a R$450. Embora a intenção seja atrair novos leitores, os índices não mentem: segundo pesquisas feitas pela Nielsen BookScan, houve uma queda de 14% nas vendas de quadrinhos em 2023, último ano do estudo.

Paulo Henrique Passos, estudante de antropologia na Universidade de Brasília (UnB), é um leitor assíduo de revistinhas desde os 11 anos de idade. A paixão pelo meio é tanta que, durante a pandemia da Covid-19, ele criou uma iniciativa para facilitar o acesso a materiais do Batman, sejam eles filmes, desenhos animados e, claro, histórias em quadrinhos. "Eu percebi que como o novo filme [do Batman] estava a caminho, eu poderia não só facilitar as pessoas a conhecerem mais o personagem, mas também fazer elas entenderem porque ele é tão amado e atemporal", explica o estudante.

Apelidado de “Bat-drive”, o projeto traz um acervo impressionante com todas as aventuras que o homem-morcego já protagonizou dentre seus 87 anos de criação – algumas fora de circulação nas bancas e livrarias, disponíveis de forma gratuita para qualquer um interessado em ler. Entretanto, a dedicação não impediu que Passos se decepcionasse com o mercado. Ele admite que diminuiu o fluxo de compra hoje em dia e que o preço não foi o único fator para a decisão.

“A qualidade oferecida pela maior editora do Brasil em histórias de quadrinhos, que é a Panini, também me fez perder muito interesse em continuar acompanhando as comics porque, enquanto o preço é muito alto, a qualidade não é equiparável ao valor que você está pagando”, explica.

Quadrinhos de diversas editoras e heróis espalhados no chão
Editoras vem tentando arranjar alternativas para não pesar tanto no bolso do leitor. Foto: Luis Henrique Oliveira

Tanto Fontinele quanto Passos relatam que começaram a comprar as HQs em sebos, optando por edições antigas de seus heróis favoritos a um menor preço. Feiras de livros e editoras independentes nacionais também entram nas opções na hora de comprar suas revistinhas e aumentar suas coleções. Essa escolha revela a contradição que as editoras brasileiras encontram no mercado hoje em dia; Se elas ainda buscam uma fórmula certa para equilibrar qualidade e acessibilidade, os fãs já encontraram as suas: entre sebos empoeirados, feiras de rua e drives compartilhados na internet.

Redes sociais e algoritmos remodelam funcionamento social da religião
por
Larissa Viana
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30/03/2026 - 12h

O exercício da fé se torna cada vez mais presente nas redes sociais e telas dos celulares, bem como na vida contemporânea acelerada. A prática religiosa não depende mais somente de espaços físicos e organizações formais de espiritualidade, como igrejas e templos. Fiéis têm possibilidades de construir trajetórias próprias que combinam crenças, aplicações e referências diversas. Alguns exemplos de ambientes digitais de religião incluem aplicativos, sites, comunidades e transmissões em redes sociais.

Nos apps e sites os usuários têm acesso desde textos informativos até celebrações e rituais. A cena é cada vez mais comum: alguém assiste a um culto ao vivo pelo celular, compartilha uma mensagem espiritual nas redes sociais e, minutos depois, consome conteúdos de outra tradição religiosa até em jogos. Recentemente, o fenômeno de missas na plataforma de jogos Roblox ganhou destaque por atrair o público jovem às celebrações da fé cristã. Os jogadores podem se inserir nas cerimônias, acompanhar por meio de transmissões públicas em aplicativos e fazer parte de chats de conversa online.

Apesar de seguir com sua tradicionalidade, a Igreja Católica se adapta às novas formas de evangelização e garante um maior alcance em espaços descontraídos. Em entrevista à AGEMT, o arcebispo da Arquidiocese de Aparecida no Roblox, Giovanni Burke, afirma que “embora tenha uma grande diversidade na comunidade católica do Roblox, todos professamos a mesma fé, e essa diversidade fortalece a nossa vida religiosa e coletiva, já que cada um pode praticar aquele carisma que mais se identifica”, explica Burke. 

Mesmo assim, aspectos estruturais da Igreja não são ignorados. Ainda existem no meio da plataforma cargos e hierarquias, embora não sejam oficializados. De acordo com Burke, “em nossa comunidade o papel dos nossos líderes como bispos e o papa é mais administrativo, em respeito e obediência ao magistério da Igreja real que detém a verdadeira autoridade para ensinar e governar”, ressalta.

Celebração de Domingo de Ramos no Roblox. Foto: Reprodução/Instagram/@arquiaparecidarb
Celebração de Domingo de Ramos no Roblox. Foto: Reprodução/Instagram/@arquiaparecidarb

Também existem outros tipos de coletivos digitais que celebram outras fés. “Como nossa comunidade é católica romana, tudo que fazemos está em conformidade com a Igreja. Mas também para quem pensa diferente há outras comunidades dentro do ambiente virtual da plataforma Roblox, como comunidades evangélicas”, diz Burke. Dessa forma, a Igreja e outras entidades passam por um processo de democratização da religião característico do tempo atual, já que o acesso se diversificou. A sinodalidade (do grego synodos (caminhar juntos), por exemplo, é a forma de ser da Igreja, não apenas um evento; valorizando a voz de todos, especialmente através de consultas em nível paroquial, diocesano e universal. "Mas, ainda sim submetidos a hierarquia da igreja, que não permite desvios na sã doutrina, mesmo que tenha de ser aplicada apenas aqueles que atentem a tradição e hierarquia da igreja”,  diz Burke.

Outro aspecto relevante no cenário contemporâneo é o papel dos algoritmos, que sugerem conteúdos com base no comportamento do usuário. Esse mecanismo tende a reforçar determinadas crenças e criar bolhas espirituais, nas quais o indivíduo é constantemente exposto a perspectivas semelhantes às suas. Com isso, cria-se o risco de isolamento ideológico que ocasiona uma visão de mundo limitada. Além de manter a concentração do usuário no ambiente virtual, que prejudica a vivência religiosa autêntica, também existe o perigo de disseminação de desinformação ou conteúdos negativos. Mas também oferecem a possibilidade de aprender e transitar entre diferentes perspectivas religiosas. Se por um lado, a era digital fragmenta, por outro ela também conecta. E é nesse equilíbrio instável que a religião segue se reinventando como uma construção humana em movimento permanente.

Associação Fernanda Bianchini transforma a cultura em ferramenta de inclusão
por
Gianna Flores
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30/03/2026 - 12h

O som das palmas marca o ritmo. Não é música ainda. É direção. É orientação. Em uma sala de ensaio na zona sul de São Paulo, braços se elevam, pés deslizam e corpos ocupam o espaço com precisão. À primeira vista, é uma aula de dança como tantas outras. Mas, ali o movimento não depende do olhar. A Associação Fernanda Bianchini Cia Ballet de Cegos construiu, ao longo de décadas, um trabalho que ultrapassa a ideia tradicional de ensino artístico. Fundada nos anos 1990, a instituição se tornou referência ao desenvolver um método próprio de ensino de dança para pessoas com deficiência visual, sem, no entanto, se limitar a isso. Hoje, o espaço acolhe alunos com diferentes tipos de deficiência e oferece atividades que vão do balé clássico ao pilates. Para a psicóloga Marina Queiroz de Andrade, especialista em inclusão social, esse tipo de iniciativa tem um impacto que vai além do aprendizado técnico. “A arte, especialmente a dança, reorganiza a forma como a pessoa se percebe no mundo. Quando o corpo encontra possibilidades de expressão, ele deixa de ser visto apenas pelas suas limitações e passa a ser reconhecido pela sua potência”, afirma.

Mais do que formar bailarinos, a dança, ali, não se resume à estética do movimento. Ela funciona como um meio de reorganizar relações, com o próprio corpo, com o outro e com o espaço, já que a dinâmica da aula revela outras formas de perceber o corpo e o espaço. As palmas e as orientações verbais funcionam como guia. O toque também se torna linguagem, mãos que conduzem, ajustam e indicam caminhos. Cria-se uma relação de troca que ultrapassa a técnica e se aproxima de uma construção coletiva do movimento. Trata-se de um processo que não ocorre de maneira imediata. Para doar e participar, clique e conheça o projeto

dançando
Durante o ano, a CIA realiza apresentações tanto internas e quanto abertas para o público geral. Foto: Gianna Flores

Há pausas, tentativas e repetições. Entre um exercício e outro, há risos, conversas, pequenos comentários que quebram a formalidade da aula e revelam o espaço como um ambiente de convivência. Na associação, a dança não é vista apenas como execução, mas também como relação. A presença de professores e bailarinos com deficiência visual reforça essa lógica. O conhecimento não vem de fora, mas é construído dentro da própria experiência. Ensinar, nesse contexto, também é partilhar vivências.

A associação funciona por meio de doações e a proposta não é apenas ensinar dança, mas criar um ambiente em que o corpo possa ser experimentado sem as limitações frequentemente impostas fora dali. A psicóloga destaca também a importância das aulas serem gratuitas. A inclusão nesse caso não acontece só na proposta, mas na possibilidade de real acesso”, conta Andrade. Em um cenário em que o acesso à cultura ainda é desigual, iniciativas como essa apontam para outras possibilidades de inclusão.

 

 

Com inflação acumulada, taxas variáveis e aumento dos gastos, trabalhadores questionam a divisão de lucro nas plataformas digitais
por
Laura Petroucic
Liz Ortiz Fratucci
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26/03/2026 - 12h

Os aplicativos de transporte como a Uber e a 99 surgiram no Brasil no início da década passada, com a promessa de oferecer uma alternativa de renda flexível, acessível e, em muitos casos, mais vantajosa do que os empregos tradicionais. Para milhares de motoristas, essa proposta ainda se mantém, porém, com o tempo, passou a incluir novos desafios, como o aumento dos custos operacionais e as taxas variáveis cobradas pelas plataformas. Motorista desde 2022, Gabriel Ribeiro conta que decidiu entrar nos aplicativos em busca de um trabalho menos desgastante fisicamente e com maior autonomia de horários. Antes disso, ele trabalhava em um açougue, e descreve a rotina como extremamente pesada. “Era um trabalho muito braçal, cansativo. Eu precisava de algo mais leve e que me permitisse estudar”, afirma.

Na época, ele fazia um curso técnico e precisava de flexibilidade, algo que não encontrava no emprego formal. “Eu não queria depender de patrão para pedir folga ou ajustar horário”, completa. Essa busca por “ser seu próprio chefe” tem sido algo muito comum e um dos principais atrativos dos aplicativos. O início foi impulsionado após um acidente com seu carro. Gabriel passou a usar um veículo alugado que era aceito nas plataformas, e a partir daí, decidiu testar o trabalho como motorista e acabou permanecendo. Segundo ele, naquele momento, os incentivos e bônus oferecidos também tornavam a entrada mais sedutora, funcionando como um estímulo econômico para novos trabalhadores ingressarem no setor.

Com o tempo, no entanto, a percepção sobre os ganhos mudou. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que o Brasil registrou inflação de 5,79% em 2022, 4,62% em 2023 e 4,83% em 2024, índices que impactam diretamente trabalhadores sem reajustes automáticos, como é o caso dos motoristas de aplicativo.

Outro ponto central da discussão está na divisão do valor das corridas. De acordo com Gabriel, a taxa retida pelas plataformas varia entre 10% e 40%, com média de cerca de 20%. Em alguns casos, essa diferença se torna evidente. “Teve corrida que o passageiro pagou quase R$ 70 e eu recebi pouco mais de R$ 40”, relata. Em trajetos mais longos, o impacto é ainda mais expressivo. “Já fiz corrida para o aeroporto em que o passageiro pagou cerca de R$ 400 e eu recebi por volta de R$ 250. A plataforma ficou com mais de R$ 100”, afirma.

Na visão econômica, esse modelo levanta questionamentos sobre a distribuição de renda dentro das plataformas digitais. Para o motorista, a dinâmica pode prejudicar tanto quem dirige quanto para quem utiliza o serviço. “Às vezes a plataforma prejudica o motorista, às vezes o usuário, e às vezes os dois”, resume. Ele relembra uma situação em que um passageiro, após fazer um freelance, gastou quase todo o valor ganho no dia de trabalho apenas para retornar para casa. “Quem saiu perdendo foi o usuário”, diz.

Apesar das críticas, a flexibilidade continua sendo um dos principais atrativos. “Se eu quiser trabalhar seis horas, eu trabalho. Se quiser trabalhar 12, também posso”, afirma. No entanto, essa autonomia está diretamente ligada à necessidade de adaptação às condições do mercado. Para manter uma renda mais alta, é preciso trabalhar em horários estratégicos, aproveitar picos de demanda e, muitas vezes, estender a jornada. “Se o dia está bom, eu estico. Se não está, às vezes nem compensa sair”, explica.

Ainda assim, Gabriel destaca que o trabalho por aplicativo pode representar uma oportunidade relevante, especialmente para pessoas com baixa qualificação no mercado de trabalho. “Para quem não tem faculdade ou curso técnico, só a habilitação, dá pra ganhar mais do que em muitos empregos CLT”, afirma. Segundo ele, ao comparar a carga horária total incluindo deslocamento, é possível obter rendimentos até superiores aos de trabalhos formais de menor remuneração, mesmo sem benefícios como férias remuneradas ou 13º salário.

Essa característica reforça o papel dos aplicativos como porta de entrada no mercado de trabalho, sobretudo em um cenário de desemprego ou informalidade. Por outro lado, também evidencia a ausência de proteção social típica das relações formais, transferindo ao trabalhador a responsabilidade por custos, riscos e planejamento financeiro. Gabriel cita o caso de um colega que enfrentou prejuízos significativos. “Eu conheço gente que quebrou com a Uber. O cara bateu o carro duas, três vezes no mês, e aí não tem o que fazer, o custo é todo dele”, relata.

Os custos operacionais também pesam nessa equação. Combustível, manutenção, seguro e até o aluguel do veículo impactam diretamente o lucro. No caso dele, o uso de um carro elétrico reduz parte desses gastos, mas exige um investimento maior. Para outros motoristas, a conta pode ser ainda mais apertada, dependendo do tipo de veículo e da categoria em que atuam.

Diante desse cenário, Gabriel acredita que mudanças poderiam tornar o modelo mais equilibrado. Entre as sugestões, ele defende a redução das taxas cobradas pelas plataformas e maior transparência na divisão dos valores das corridas. “A educação tem que ser dos dois lados”, afirma, ao também mencionar a necessidade de melhorar a relação entre usuários e motoristas.

Mesmo com os desafios, ele não classifica o trabalho de forma totalmente negativa. “A Uber não é nem o anjinho, nem o capetinha. É um pouco dos dois”, resume. Entre autonomia e instabilidade, o trabalho por aplicativos segue como uma alternativa relevante dentro da economia contemporânea, mas cada vez mais marcada por tensões sobre renda, custos e distribuição de ganhos.

Transformando a vida de milhões de pessoas todo ano, merece mais reconhecimento e recursos para manter o Brasil vivo
por
Vítor Nhoatto
|
28/11/2025 - 12h

Por Vítor Nhoatto

 

Uma das poucas certezas de todo ser humano, tal qual a morte, é a doença. Sabe aquele resfriado que vem junto ao seco do frio, uma ferida que infecciona depois de cair de bicicleta, até aquelas mais sérias que podem aparecer. Fato é que sem saúde não se vive, sendo um direito constitucional não por acaso. Sendo assim, é preciso que o acesso a essa necessidade tão básica quanto respirar e se alimentar seja universal, e não um bem a se comprar apenas por aqueles que podem.

Para isso então que existe o Sistema Único de Saúde (SUS), tão falado e muito mais presente na vida do que alguns podem sequer imaginar, ou querer. Para se ter uma ideia, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), órgão regulador dos medicamentos disponíveis no país, de controle alimentar e hídrico, faz parte do SUS. Regulamentado em 1990, é responsável pelas vacinas e desenvolvimento científico ainda, e sabe os planos de saúde, a Agência Nacional de Saúde (ANS), que os regula, também é integrante do sistema.

Para falar dessa diferença real na vida, antes é preciso até olhar nos papéis para lembrar já a quanto tempo ele é médico, enfermeiro, farmácia. De cabelos curtos hoje, depois de uma repaginada no visual devido ao câncer de pulmão que teve justamente na pandemia de COVID-19, Léia Marisa celebra que há dois anos consegue receber na AME Maria Zélia o micofenolato de Mofetila. Pois é, muitas vezes quando o nome é chique o preço é alto, uns R$500 por caixa, mil reais por mês gastos antes da papelada ficar pronta e ser aceita em 30 de novembro de 2023, já que a doença não espera os trâmites e filas.

A ex-professora, atual dona de casa e empresária a distância do seu restaurante, conta como o período de descoberta e tratamento do câncer, que levou até questões reumatológicas, e ajudou a descobrir uma artrite reumatoide, foi muito difícil. Entre dezenas de idas ao hospital de 2020 até 2023 até chegar ao diagnóstico, foram dias desgastantes, assustadores, e toda ajuda foi essencial, principalmente com os custos de sobreviver à doença. No caso dela, o tratamento do tumor foi feito em rede privada graças ao seu plano de saúde empresarial, que custa salgados R$5 mil reais ao mês. Só aqui são quase quatro salários mínimos, um privilégio muito grande, como ela destaca, olhando para um país em que apenas 7,60% da população ganha entre 5 e 10 salários como o Censo de 2022 do Instituto brasileiro de Geografia e Estatística revela. 

Se aprofundando mais ainda nos fatos, de acordo com o estudo “Quanto custa o câncer” de 2023 do Observatório de Oncologia, do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz (CEE) e do Movimento Todos Juntos Contra o Câncer, os custos de tratamento da doença quadruplicaram nos últimos três anos. Uma sessão de radioterapia ou quimioterapia custava quase R$800 em 2022, e dezenas são necessárias na maioria das vezes. Acrescentando nessa conta, consultas, tomografias e biópsias, mil reais ali e cinco acolá, o custo chega facilmente ultrapassa dezenas de milhares de reais. Isso é ainda mais preocupante tendo em conta a incidência do câncer na população, que segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA) entre 2023 e 2025, 704 mil pessoas terão a doença como Marisa. 

E com isso que o SUS se mostra como algo tão relevante, oferecendo tratamento integral e gratuito contra todos os tipos de cânceres. Claro que muitos problemas existem, como destaca Marisa ao lembrar que quando estava no meio do tratamento enfrentou problemas com o plano de saúde, mas que só o medo de depender da demora do SUS caso fosse preciso, a preocupava muito. A saúde é o bem mais precioso para, o que para todos provavelmente deva ser, e por isso justamente que em 2012 a lei 12.732/12 obriga que o tratamento contra o câncer tem que ser iniciado em até 60 dias após o diagnóstico. 

Mas além disso, com os olhos marejados depois de navegar novamente no mar agitado que foi a jornada até a vida que tem hoje, curada e com o diagnóstico da sua doença crônica, ela volta e lembra que a diferença que não ter que pagar pelo Micofenolato que a mantém respirando faz.  Quando tinha que arcar com as despesas era como um fardo a mais imposto a ela, que considera a saúde hoje como o bem mais valioso. As idas mensais  ao posto são um alívio hoje para ela, destacando que o seu medicamento nunca faltou até então, mas que já presenciou pessoas na situação contrária e que não tinham como arcar pessoalmente com os gastos. Essa é uma realidade infelizmente, segundo fiscalização de 2023 da secretaria de contas do Estado de São Paulo, em quase metade dos postos visitados faltavam algum medicamento.

papéis
A cada seis meses Marisa tem que renovar a receita e toda a papelada para solicitação do seu medicamento junto a AME - Foto: Vítor Nhoatto

Milhões de uns

Mesmo que falte muito, afinal, só 4,16% do orçamento federal foi destinado à saúde em 2024 segundo o Painel do Orçamento Federal, a porcentagem vem aumentando desde 2022, e milhões de brasileiros são atendidos todos os dias. O Brasil é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes com um sistema universal de saúde, e 213 milhões dependem diretamente do SUS, segundo o Ministério da Saúde, que contabiliza em média 2,8 bilhões de atendimentos por ano, empregando 3,5 milhões de profissionais.

E mais um desses uns é Valdir Sousa, que do alto de seus 63 anos de idade é um típico caso brasieleiro. Com diabetes do tipo II há 20 anos e hipertenso, conta que se não fosse o acesso ao sistema gratuito, sua vida seria muito diferente, obviamente pelo lado financeiro, e muito também pelo bem-estar. O mineiro nascido em São João do Paraíso e que vive em São Paulo há décadas já viu tanto na vida, e com o passar do tempo o que todos querem e merecem é justamente qualidade de vida. Essa no caso, em grande parte possível graças a insulina que busca no posto na Freguesia do Ó e os comprimidos que cuidam do seu coração acelerado.

Justamente essa hipertensão que é a doença mais presente nos peitos animados dos brasileiros, e 52% da população é diagnosticada com alguma DCNTs, como revela a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019. Além disso, segundo dados de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs) como as de Valdir são tecnicamente chamadas, são as mais comuns no mundo e no Brasil, com o diabetes inclusive tendo aumentado 70% entre 2000 e 2019. 

Para contextualização, nos Estados Unidos existe há alguns anos o movimento nas redes sociais insulin4all, criado pela organização sem fins lucrativos T1 International, que denuncia os altos custos da insulina no país, onde um frasco de 10ml gira em torno de U$330. Tal situação vem levando inclusive pessoas a racionarem o medicamento, o que pode levar a complicações e até a morte em casos mais graves. Já no Brasil, o mesmo remédio é disponibilizado pelo SUS, e o preço máximo permitido por lei é de R$125,30. 

Diante desses dados e o envelhecimento da população fica claro como a saúde vai ser cada vez mais necessária, tal qual destaca o jovem de espírito Valdir, que já foi pedreiro e auxiliar de manutenção geral em uma lanchonete, justamente no Hospital das Clínicas. As histórias que já viu na maior referência de saúde pública brasileira enchem a sua mente, e as palavras saem inquietas sobre as melhorias que o SUS precisa e as pessoas merecem. Ele conta em meio a suspiros que quando precisa de exames mais urgentes, ou consultas em meio a crises, tem que recorrer ao plano de saúde da sua esposa, do qual é dependente, já que as unidades de saúde estão sempre cheias e a fila de espera passa de meses algumas vezes. 

Foi nessas passagens obrigadas pela rede privada que ele inclusive descobriu mais um integrante do seu pacote, a doença renal crônica há um ano. Porém, é no SUS que o acompanhamento com nutricionista, nefrologista e endocrinologista foi possível, uma rotina de cuidados essenciais para uma boa qualidade de vida para quem tem a condição. É graças a essa rede de profissionais e a farmácia popular que Valdir vai aproveitando com os dois filhos e a mulher os seus dias, frisando com a voz até meia trêmula, que sem isso não poderia se ter o seu direito de viver com saúde exercido plenamente.

medicamentos
São graças a compostos como esses que tanto Marisa ou Valdir, e os mais de 100 milhões de brasileiros com doenças crônicas podem viver bem tal qual a constituição garante - Foto: Vítor Nhoatto

 

Sem emprego, Maria Bethânia Souza buscou no empreendedorismo uma forma de manter sua casa
por
Lua Beatriz
Pedro Mariutti
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05/05/2022 - 12h

“Quando se é uma mãe, que não tem babá ou qualquer respaldo financeiro, tudo se torna mais difícil. Minha vida parou, mas as contas ainda chegavam. Eu precisei me virar”, afirma Maria Bethânia Souza, 25, mãe de uma menina de seis anos, e chefe de família na periferia do interior de São Paulo, diretamente afetada ao perder seu emprego durante o período pandêmico.

Com a chegada do vírus Sars-CoV-2, o Brasil enfrentou crises econômicas no que tange a população pobre, a taxa de desemprego esteve em alta e alarmou a todos. Entretanto, para aquelas que carregam a função de mãe solo, as dificuldades perduram sem previsão de melhora.

A busca para conquistar um espaço no mercado é árdua para o sexo feminino, fato que se perpetua ao longo de uma cultura que ainda não possui equidade de salários e, a todo instante, coloca em questionamento a capacidade das mulheres. Dentro do cenário de desespero vivido mundialmente, muitas famílias acabaram nas ruas, sem condições de continuar mantendo um lar.

“Até hoje estou sem emprego fixo, e já estamos em 2022. Precisei me reinventar para sobreviver, e ainda sobrevivo.” Souza conta que em dado momento, chegou ao ponto de não saber como resolver a situação de sua casa, e passou a receber a ajuda da mãe.

“Eu fiz o que pude para ajudar minha filha, pois minha neta estava sem ir para a escola, e além da falta de serviço ainda tem a dificuldade de criar uma criança sozinha. Muitas mulheres não tem a sorte de uma mãe que auxilie” conta Fátima, mãe de Maria Bethânia, ambas moradoras da COHAB (Conjunto habitacional).

Os obstáculos não se restringem ao financeiro para as mães solo. Com a paralização das instituições educacionais, os filhos necessitam de atenção redobrada, as sobrecarregando emocionalmente e fisicamente, com as tarefas diárias. “Ser mãe é um trabalho sem folga e remuneração, muitos não enxergam o peso de ser sozinha nessa caminhada.” Completa Souza.

Os impactos são claros e ainda carregados por quem viveu situações de incertezas, tanto financeiras, como mentais. Maria Bethânia encontrou, após os decretos de saúde mais brandos, uma forma de se reerguer: O empreendedorismo.

“Comecei a fazer decorações de festas pequenas, reuniões. Tudo muito simples, mas é o que tem me salvado agora, já que ainda não consegui ser contratada. Talvez dê certo e seja minha chance de ter meu próprio negócio. Mas confesso que ainda tenho crises de ansiedade e pânico com tudo isso.”

Souza, por sua vez, demonstra um olhar otimista mesmo que as cicatrizes existam. “Estou indo a luta, mesmo que ninguém esteja me dando oportunidade, resolvi cria-la. Mas é triste pensar que muitas mulheres estão passando dificuldade e sem ajuda.”

Funcionária conta que precisou ajudar no pagamento do aluguel do espaço e o retorno agora é complicado porque massagem é "luxo"
por
Isadora Pressoto
Sophia Pietá Milhorim
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05/05/2022 - 12h

O salão Fragonezzi Studio, onde a massoterapeuta Ana Flávia dos Santos trabalha, perdeu mais de 70% de seus clientes durante a pandemia, o que gerou dívidas e prejuízos ao estabelecimento. Santos afirma que ‘’com a falta de atendimentos, não entrava dinheiro, tive que arcar com as despesas como aluguel, com o pouco das reservas que eu tinha’’.

‘’Nas massagens acontece o contato direto com o corpo das pacientes, e muitas tinham medo de se contaminar’’, conta Santos. Ela acredita que mesmo após o fim das restrições, o medo da contaminação foi uns dos motivos para a queda contínua do fluxo. Além da crise financeira, que afetou muito a sua área de trabalho, pois mesmo com a volta do salão, em suas palavras ‘’a massagem é vista como 'luxo', não cabendo mais no orçamento das clientes’’. 

A pandemia ‘’educou’’ boa parte da população, as pessoas começaram a se atentar mais em termos de higiene, e essa é uma das partes positivas que Santos encontra nesse momento tão difícil da pandemia. Fragonezzi Studio já tinha protocolos de higiene antes da Covid-19, nas sessões de massagem, por exemplo, já era obrigatório o uso de máscara e touca descartável, o que acabou permanecendo e intensificando esse protocolo, com intervalos de 30 minutos entre cada cliente, para ser feita a higienização da maca, e o uso de álcool gel para limpeza das mãos. 

A cabeleireira Ana Carolina Reis, 25, diz que no começo a volta aos atendimentos foi bem devagar, as clientes demoraram a ter confiança para sair de casa e passar horas em um salão de beleza. Com a vacinação em massa e a retomada das festas e eventos, a procura por procedimentos começou a aumentar e a renda financeira do estabelecimento melhorou.  

Reis conta que uma de suas clientes retornou ao salão com uma aparência totalmente diferente. A cliente fazia o uso de alisamentos nos cabelos, e como não podia ir ao salão por conta da pandemia, resolveu assumir os cachos. E hoje com a volta do atendimento, sua visita ao salão não é mais para alisar, e sim, para um auxílio em sua transição capilar, o que melhorou sua autoestima, ’’As pessoas passaram a valorizar mais a nossa profissão e voltaram a cuidar de si mesmas’’.

Seguindo todos os protocolos da vigilância sanitária, como distanciamento entre bancadas, esterilização dos equipamentos, uso de máscaras e álcool em gel disponível na entrada, os salões de beleza ficam mais seguros para reabrir as portas e poder atender os clientes com toda a segurança necessária, declara Reis. 

 

Isolamento social foi estimulo para que cães e gatos fossem companhias em tempos pandêmicos.
por
Ian Valente Rossignoli
Davi Garcia Valentini Vieira de Souza
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05/05/2022 - 12h

A adoção de animais de estimação, principalmente por parte dos “Pais de Pet” de primeira viagem, aumentou durante a pandemia da COVID-19, tornando-se uma saída para suprir a solidão decorrente do isolamento social.

 A União Internacional Protetora dos Animais (UIPA), apresentou uma pesquisa em que a procura por adoção de animais aumentou 400% durante o primeiro trimestre de 2020 e em um outro levantamento feito pelo Radar Pet 2021, foi observado que, 30% dos animais de estimação foram adotados durante o período pandêmico, sendo 23% foram os primeiros bichinhos de seus donos.

Esses dados se confirmam com as entrevistadas Jaqueline Gomes, 54, e Ágatha Chaignon, 18, que adotaram, respectivamente, o “vira-lata” Rock e o gato Alecrim, sendo a primeira vez que as duas adotaram um animalzinho. Elas confessam que antes de ter um bichinho de estimação em casa, elas sentiam falta de uma companhia e devido ao lockdown, agravou-se esse sentimento.

Para Chaignon, após a chegada do animal, o ambiente é outro: “Muda totalmente o clima, ele gosta muito de ficar perto quando estou fazendo minhas coisas em casa.” Ela conta ainda que  “com certeza virou um amigo muito importante, não vivo mais sem ele.”

Jaqueline Gomes acredita que a reclusão em casa com o seu recém adotado trouxe uma confiança a mais na relação entre eles, aprendendo a conviver e amar um ao outro. Segundo ela “acima de tudo eu tinha que cumprir com todas as responsabilidades da adoção, sabendo dos meus compromissos e que ele teria que me acompanhar pra cima e para baixo”.

No âmbito do pós-pandemia, a jovem de 18 anos afirma que a socialização do seu animal de estimação foi tranquila, e que o contato com pessoas e outros animais não foi um problema, e que, se houver a possibilidade, adotaria novamente.

Com a diminuição de casos e o início da volta ao normal o Rock teve que descobrir o mundo fora de um apartamento e acompanhar seus donos no máximo de coisas que ele possa fazer, mas o isolamento contribui para adquirir confiança e ter um crescimento seguro.

Já Paola Giordani, 50, é presidente da UPA (União Protetora dos Animais) em Lorena, interior de SP, há 10 anos, e confirma que, durante a pandemia, houve uma procura maior em relação ao período anterior ao vírus, mas que os critérios de adoção continuavam os mesmos.

 
Entretanto, o índice de abandono também cresceu: “Houve muito mais abandono, de todos os tipos de animais.
Alguns eu acredito por não ter como sustentar, nem com o básico ou mesmo sem condições de levar num veterinário que sabemos que é caro. Outros porque adotaram de impulso, se arrependeram e pra muita gente o mais fácil é prático é se ver livre abandonando.”


A instituição cuida de vacinar, alimentar e castrar o animal, para garantir a adoção responsável, e entregá-lo saudável para o futuro dono. A associação não possui fins lucrativos, e sobrevive a partir de doações e patrocínios.

A partir do aumento da vacinação e a flexibilização das medidas restritivas, Giordani lamenta que a situação relacionada a adoção e abandono piorou. “O abandono e os maus tratos continuam, sinceramente a humanidade não aprendeu nada com essa pandemia, a cada dia os animais sofrem mais. Ficou pior e a procura diminuiu.”

 

 

Visto como algo possível apenas para a classe média-alta, a causa vegana divide opiniões.
por
Sônia Xavier
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26/04/2022 - 12h

O veganismo é um estilo de vida que busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade animal, seja na alimentação, no vestuário ou em outras esferas do consumo, de acordo com a Vegan Society, a mais antiga e respeitada sociedade vegana do mundo. 

Esse movimento difere do vegetarianismo pelo fato de que o segundo restringe-se ao regime alimentar e que, segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira(SVB), sofre variações entre os adeptos .As principais vertentes do vegetarianismo são o ovolactovegetarianismo que mantém na alimentação ovos, leite e lacticínios, o lactovegetarianismo que consomem leite e lacticínios, o ovovegetarianismo que utiliza ovos na alimentação e o vegetarianismo restrito que não utiliza nenhum produto de origem animal. Não há pesquisas no Brasil sobre o número de praticantes do veganismo, mas segundo estimativa da SVB, dentre os 30 milhões de adeptos do vegetarianismo, 7 milhões seriam veganos, em 2018

Caroline Soares, arquivo pessoal
A ativista vegana e estudante de nutrição Caroline Soares adiou a adesão ao veganismo por achar que seria caro.

Afinal, o veganismo é ou não é caro? Depende, é o que ressalta a ativista vegana e estudante de nutrição Caroline Soares. “Eu adiei meu veganismo por achar que era caro porque eu sou uma mulher periférica, mas eu comecei a entender que a alimentação vegana é básica, é o arroz e o feijão”

Ainda assim, a ativista percebe que há certa elitização do movimento a partir da apropriação do mesmo realizada pela indústria. “Assim como qualquer alergia alimentar, a cabeça da indústria funciona assim: se ela [pessoa vegana] não comer essa opção, ela não vai comer nada, então se tem uma opção vegana no cardápio por R$ 40, as pessoas que são veganas vão ter que consumir porque é isso ou é nada”, explica a ativista.

A publicidade alimenta ainda mais a ideia do veganismo ser para pessoas ricas e não considera a realidade da maioria dos brasileiros. Caroline aponta que a classe média-alta aborda o veganismo associando à alimentação saudável, o que não é, necessariamente, verdade. ”Nós temos que ter consciência de classe dentro do movimento para aproximar as pessoas da luta porque, quando a gente olha para preços assim, a gente imagina que o movimento é burguês, sendo que não é”.

Renata Herrera, arquivo pessoal
A nutricionista Renata Herrera destaca a importância de complementar nutrientes.

Uma das preocupações de pessoas que aderem à dieta vegetariana é o suprimento das necessidades nutricionais, o que, segundo a nutricionista Renata Herrera, é totalmente possível “O que acontece é que, às vezes, é preciso um volume maior (de alguns nutrientes) em uma refeição”.

Quando se fala em veganismo popular, outra pauta que emerge é a insegurança alimentar, que impacta principalmente a parcela mais pobre da população brasileira, ainda mais no cenário socioeconômico atual. “Eu comecei a estudar nutrição porque, na periferia, não existe esse papo de nutrição. A favela já é ‘vegetariana forçada’ porque carne é algo que não entra, então a periferia tem péssimos hábitos alimentares. Ela come o resto do resto da indústria da carne, enquanto a burguesia come bem, tem atendimento nutricional e come na quantidade certa”, ressalta Soares

Renata também se posiciona sobre o papel do profissional de nutrição diante desse contexto. ”O nosso papel é conseguir te ajudar independentemente do seu poder de compra. Se não dá pra comprar o leite vegetal enriquecido com ferro ou b12, dá pra ensinar a fazer o leite em casa com amêndoas ou até amendoim, que é uma opção mais barata”.

Além dos benefícios para a saúde, como a redução do risco de desenvolver doenças cardiovasculares, e ao meio ambiente com a queda na emissão de gases do efeito estufa por exemplo, o movimento vegano resulta ainda em uma aproximação da alimentação mais natural.’ ”Falamos sobre autonomia alimentar, porque depois de me tornar vegana passei a ter mais consciência do que eu tô comprando. A gente tem que aproximar as pessoas da alimentação para que elas saibam o que estão comendo”, ressalta Caroline.

 

 

 

 

Há uma semana da data limite, número de títulos de eleitores de 16 e 17 anos ainda é baixo
por
Carolina Raciunas; Isabela Gama; Henrique Baptista
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26/04/2022 - 12h

Em março houve um aumento considerável e o percentual de jovens para quem o voto é facultativo chegou a 13,6%. Apesar disso, o número total ainda é baixo, principalmente quando em comparação com fevereiro de 2018, quando o número chegou a 23,3%.

Em fevereiro deste ano, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou a menor quantidade de adolescentes de 16 e 17 anos com título de eleitor da história. Naquele mês, foram emitidos 12.297 documentos. Já em março, o cenário mudou para melhor. Houve um crescimento de novos título - tudo em meio à manifestações de artistas incentivando jovens a emitirem o título de eleitor. Um dos principais eventos em que isso ocorreu foi o Lollapalooza Brasil. Para saber mais sobre a atuação dos jovens nas eleições de 2022, confira a reportagem em vídeo sobre o assunto.