Jornalista compartilhou sua trajetória e respondeu perguntas de alunos de Jornalismo da PUC-SP
por
Thaís de Matos
|
23/04/2026 - 12h

“Desde cedo, eu entendi que eu tinha uma função de fazer a ponte entre as pessoas que precisavam ser ouvidas e as elites”. Mais de uma vez, o papel de “fazer a ponte” foi frisado como um motor para Juliana Rosa, jornalista de economia há mais de 25 anos. Ela é comentarista da área na Band TV, Bandnews TV e rádios Bandnews e Bandeirantes desde 2021. 

Na labuta, Rosa recebe autoridades, economistas e empresários, com o intuito de compartilhar conhecimento de forma simples, a fim de contribuir para um debate qualificado no país. Antes do Grupo Bandeirantes de Comunicação, a jornalista atuou 20 anos como analista de economia na GloboNews. Ela começou a carreira em 1997 em uma rádio popular do Rio de Janeiro, a Rádio Tupi, indiretamente por influência do pai. Tanto ele quanto a mãe são pernambucanos, que vieram para o sudeste a fim de melhorar as condições de vida. 

“Eu via meu pai, que trabalhou em uma rádio até o final da vida. Eu cresci vendo meu pai, ia trabalhar com ele, às vezes porque minha mãe ainda não tinha chegado [do trabalho]. E uma coisa que eu continuei fazendo, que ele fazia, era todo dia parar na porta da rádio e ouvir as pessoas que estavam ali”, relembra Rosa. Ainda dando continuidade à história, Juliana diz que ouvir essas pessoa foi o que a fez escolher o Jornalismo.

juliana rosa e pollyana ferrari
Juliana Rosa ao lado da professora Pollyana Ferrari / Foto: Thaís de Matos

“As pessoas ficam até hoje em portas de rádios populares porque são invisíveis na sociedade. E você parar ali é uma questão de obrigação jornalística, porque são aquelas pessoas que vão te dizer por que você é jornalista. Elas vão falar que não têm remédio, lixo, saneamento básico, que não comem direito, têm trabalho… Então, certamente isso me moldou completamente. A gente fica achando que a economia está muito longe, mas por que tais pessoas não têm condições de melhorar de vida? Quais são as pautas econômicas que a gente precisa discutir para que essa realidade mude?”, reforça Rosa.

A partir desse questionamento, ano passado ela lançou o livro “De galinha a gavião: como impulsionar o voo da economia brasileira", que tem como objetivo traduzir o "economês" para quem não é especialista, mas quer entender os mecanismos que travam o crescimento do Brasil. Para escrever o livro, Juliana conversou com alguns dos maiores nomes de cada área. “Foi a partir desse incômodo interior que eu tive a minha vida inteira que eu tive a coragem de escrever esse livro como jornalista. Não sou economista, mas quis ouvir os grandes especialistas para dizer que do jeito que está, não dá para ficar”. O título da publicação faz uma analogia entre o “voo” da galinha e a economia brasileira: ambos crescem, mas logo caem – não se sustentam. 

Ainda nessa linha, Juliana critica os jargões do “economês” que tanto são reproduzidos, mas não são devidamente explicados. “O ‘economês’ tem uma função, que é perpetuar as desigualdades, continuar falando para quem já é iniciado. Então, em toda a minha vida, a questão de traduzir a linguagem sempre foi a marca da minha profissão. É um esforço de compreensão, se as pessoas não entendem como você está falando, a gente está falhando”. Mesmo atuando há tanto tempo na editoria econômica, a jornalista diz que até hoje é interrompida ou ignorada por entrevistados homens. Para ela, o preparo é importante para se fazer ser mais ouvida. “A gente tem uma desvantagem, porque a visão machista ainda é muito grande. Isso tem melhorado devagarinho, mas acho que a gente tem que se impor pela nossa competência e se dar o respeito. É duro, cansa, nosso esforço [de mulheres] normalmente é maior, mas não tem outro caminho”, desabafa.  

Tática de retaliação iraniana restringe o fluxo de petróleo apenas a "nações amigas", eleva o barril do Brent a US$104 e acende alerta sobre nova onda de inflação mundial
por
Juliana Bertini de Paula
Maria Eduarda Cepeda
|
27/03/2026 - 12h
Desde o último dia 2 de março, o Estreito de Ormuz passou a operar sob fortes restrições impostas pelo Irã a embarcações consideradas “hostis”, impactando diretamente navios ligados aos Estados Unidos, Israel e países europeus. A passagem, que conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico, não está totalmente fechada, mas funciona de forma seletiva, com autorização caso a caso sob controle da Guarda Revolucionária iraniana (IRGC), o que reduziu drasticamente o fluxo marítimo na principal rota energética do mundo.

A atual crise geopolítica se intensificou após os bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel contra alvos iranianos no dia 28 de fevereiro, ofensiva que resultou na morte do líder supremo Ali Khamenei. A confirmação oficial do óbito ocorreu no mesmo dia pela mídia estatal, desencadeando uma escalada militar que culminou na eleição do linha-dura Mojtaba Khamenei, filho de Ali, como novo líder supremo em 8 de março. Como resposta aos ataques, Teerã passou a restringir o tráfego no estreito e a realizar ataques pontuais a embarcações comerciais, ampliando o risco na área.

O impacto da crise atinge diretamente uma das principais artérias da economia global: cerca de 20% do petróleo mundial e uma parcela significativa do gás natural liquefeito (GNL) passam pelo estreito. Com a queda de 95% no fluxo de navios de carga registrada nas últimas semanas, os mercados de energia enfrentam forte volatilidade. O barril do petróleo tipo Brent ultrapassou a marca dos US$ 100 em diferentes momentos ao longo do mês. Para tentar conter a crise de desabastecimento, a Agência Internacional de Energia (AIE) já liberou 400 milhões de barris de suas reservas emergenciais e estuda uma nova intervenção.

Para a economista Luciana Massaguer, formada pela PUC-Campinas, os efeitos já são concretos e devem se intensificar. “O choque de inflação já é uma realidade. Não é mais uma expectativa e é irreversível, não só por causa do petróleo, mas também por causa da energia, que está mais cara na Europa e na Ásia”, afirma. Segundo ela, a resposta das autoridades monetárias tende a ser limitada: “A resposta dos bancos centrais, como Fed, BCE e Banco Central do Brasil, é complexa, pois aumentar os juros para combater a inflação pode acelerar a recessão, enquanto cortá-los pode inflar ainda mais os preços.”

A transformação da região em uma zona de alto risco militar também elevou os custos do transporte marítimo internacional. Seguradoras passaram a restringir cobertura para embarcações na área, enquanto companhias de navegação evitam a rota — o custo para transportar um barril de petróleo chegou a duplicar desde o início do conflito. Embora não haja uma paralisação total incontestável, o estrangulamento do tráfego já representa um gargalo histórico para o comércio internacional.

Os efeitos começam a se expandir para além do setor energético. O encarecimento do transporte e a instabilidade na região impactam o fluxo de insumos agrícolas, incluindo fertilizantes, em um momento sensível para o calendário de plantio em diversas partes do mundo. “O impacto chega antecipado porque o mercado antecipa tudo. Os fretes encarecem os preços na base e a falta de seguro na navegação naquela região está gerando escassez”, explica Massaguer. Ela destaca ainda que o maior risco está na cadeia alimentar global: “O que pode afetar mais é a segurança alimentar e a oferta de fertilizantes que precisam passar por lá.”

Apesar disso, a economista avalia que os impactos no Brasil tendem a ser mais moderados no curto prazo. “Aqui no Brasil não acho que teremos problemas de segurança alimentar no curto prazo porque temos estoque, mas voltamos para o problema da inflação”, afirma.

No campo diplomático e militar, o cenário sofreu uma reviravolta na terça-feira (31). O governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, passou a avaliar a possibilidade de encerrar a guerra contra o Irã mesmo que o Estreito de Ormuz permaneça fechado. O Pentágono avalia que uma operação militar direta para reabrir a rota marítima prolongaria o conflito, optando agora por uma estratégia focada em enfraquecer a Marinha iraniana e pressionar aliados. Paralelamente, os esforços para formar uma coalizão internacional de proteção marítima continuam enfrentando adesão limitada.

Para economias altamente dependentes da importação de energia, as alternativas logísticas seguem restritas. Oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos operam próximos da capacidade máxima, mas conseguem desviar apenas parte do volume que normalmente atravessa o estreito. Esse limite evidencia a dependência estrutural global de uma rota estratégica que segue operando sob forte instabilidade e com perspectivas incertas de reabertura total.

Na avaliação de Massaguer, o tempo será um fator determinante para a gravidade da crise. “A economia mundial aguenta essa ‘asfixia’ por um curto período, de um a três meses, sobrevivendo com estoques e rotas alternativas. A partir do quarto mês, o esgotamento dos estoques e o custo proibitivo da energia tornam uma recessão profunda quase inevitável”, conclui.

Aplicativos começam a mudar a relação dos fiéis brasileiros, gerando impacto nas cerimônias
por
Sofia Morelli
|
24/03/2026 - 12h

A religiosidade está passando por um processo de digitalização, alterando práticas religiosas tradicionais e o alcance das instituições. Com a reconfiguração da crença no mundo contemporâneo, surgem preocupações sobre o que pode estar sendo perdido durante o processo. A facilidade de acesso e de ampliação é um atrativo, que para muitos fiéis pode instigar a devoção a sua devida fé, mas historicamente a religião privilegiava o esforço na devoção, o que mudou com as transmissões de missas, cultos e o impulso da comunicação digital, tornando-se uma fé mais individualizada. 

Localizada no bairro Itaim Bibi, em São Paulo, a igreja Metodista do Itaim Bibi (IMIB) recorre à transmissões online como forma de atrair mais fiéis e trazer inovação por meio de "apps da fé". “As transmissões acabam trazendo benefícios para a igreja, porque alcança mais jovens e hoje em dia e está difícil atraí-los. A gente só tem dois jovens que frequentam", diz a pastora Meire. Ela assumiu o cargo em fevereiro de 2026 e já implementou um programa de transmissão dos cultos, que são divulgadas, por enquanto, em um grupo de WhatsApp. Com 47 milhões de fiéis protestantes no Brasil, segundo pesquisa IBGE (2022), a fé atravessou séculos com uma estabilidade admirável, sofrendo apenas algumas mudanças do tempo. Os meios de comunicação digital não chegaram para desestabilizar, mas como um processo natural da contemporaneidade. Por exemplo, o compartilhamento do evangelho e a inserção da igreja no ambiente digital atravessa novas fronteiras, podendo se aproximar de adeptos a fé que não costumam seguir a doutrina tradicional. 

Em 2021, a Igreja Adventista no Brasil começou a explorar esses novos formatos digitais com recrutamentos de desenvolvedores, apostando que esse novo mundo seria benéfico para a ampliação da doutrina. Carlos Magalhães, diretor de marketing digital da instituição Adventista, em uma entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos, diz: " Eu só uso aplicativos, lá tem tudo. Vejo o horário do pôr do sol e leio um texto para fazer a meditação. É bom para quando estou em viagem e não levei a Bíblia, por exemplo. Assim posso receber o sábado com oração", diz.

 “No final quem acaba acessando, nos aplicativos que algumas igreja já usam ou no nosso grupo mesmo, são só pessoas que já fazem parte da comunidade e querem sentir as palavras de Deus, mesmo à distância”, conta pastora Meire, mas a cautela deve estar sempre presente. O intuito deve ser a ampliação ao invés da substituição da profundidade espiritual por uma mentalidade imediatista. Essência e adaptação podem andar lado a lado com equilíbrio, com a exploração das tecnologias e o mantimento dos valores, sem acompanhar as exigências do nosso presente.

Missa de Domingo (22) na Igreja Metodista do Itaim Bibi.

 


 

Uma análise sobre a passagem do físico e teórico alemão pelo Brasil e o apagamento das mulheres na ciência
por
Natália Matvyenko Maciel Almeida
Joana Grigório
|
16/11/2025 - 12h

Em 1925, Albert Einstein desembarcou na américa do sul, na cidade do Rio de Janeiro, para uma sequência de palestras e nesse vídeo exploramos uma parte dos relatos escritos em seu diário e a falta de registros de pessoas racializadas e também de mulheres nas conferências.

Referências utilizadas para esse vídeo: 

1. Tolmasquim, Alfredo Tiomno. Einstein, o Viajante da Relatividade na América do Sul (2003)
Este livro oferece um olhar detalhado sobre a visita de Albert Einstein à América do Sul, incluindo sua passagem pelo Brasil. O autor explora a recepção do cientista e seu impacto no cenário científico da época.

2. Haag, Carlos. "Tropical Relativity" (2004)
Artigo publicado na revista Pesquisa FAPESP, que aborda os diários de viagem de Einstein na América do Sul, com destaque para suas observações sobre o Brasil e suas interações com a ciência local.

3. Moreira, Ildeu de Castro. Entrevista: Visita de Einstein ao Rio de Janeiro promoveu valorização da ciência pura (2025)
Entrevista com Ildeu de Castro Moreira, que discute o impacto da visita de Einstein ao Rio de Janeiro, enfatizando a valorização da ciência fundamental e os desdobramentos para a pesquisa no Brasil.

4. Fundação Oswaldo Cruz. Museu tem atrações em homenagem aos 100 anos da visita de Einstein (2025)
A Fundação Oswaldo Cruz celebra o centenário da visita de Einstein ao Brasil com exposições e atividades que relembram a importância histórica dessa passagem do cientista.

5. Observatório Nacional. 100 Anos de Einstein no Brasil (2025)
O Observatório Nacional comemora o centenário da visita de Einstein ao Brasil com uma série de palestras e reflexões sobre o impacto de sua passagem no campo científico brasileiro.

6. Rosenkranz, Ze'ev (org.). The Travel Diaries of Albert Einstein (2018)
Esta coletânea organiza os diários de viagem de Einstein, incluindo suas observações sobre diferentes regiões do mundo, com destaque para seus comentários sobre a América do Sul, e apresenta uma análise crítica sobre seus pontos de vista racializados.

7. Artigos de divulgação histórica sobre os diários de Einstein e racismo
Diversas publicações, como matérias da History.com e do The Guardian, discutem as anotações de Einstein sobre suas viagens à Ásia e outros lugares, destacando seus comentários sobre raça e cultura.

Nota de Checagem de Fatos
As informações sobre a visita de Einstein ao Brasil e seu impacto no país, incluindo o papel de Carlos Chagas e a análise dos diários de viagem, foram baseadas em fontes como Fiocruz, Observatório Nacional, e pesquisas de Ildeu de Castro Moreira. As reflexões sobre os comentários racializados de Einstein seguem a análise crítica adotada por estudiosos como Tolmasquim, Haag e Rosenkranz.

Releitura transmídia da estadia do físico no Rio de Janeiro em 1925
por |
03/11/2025 - 12h

Em maio de 1925, Albert Einstein visitou o Rio de Janeiro por uma semana hospedando-se no Hotel Glória, quarto 400. Apesar da recepção calorosa como celebridade, sua passagem foi um desastre cômico. A comitiva que o cercava não tinha um único físico ou matemático - apenas médicos, advogados, políticos e militares da elite social brasileira. No Clube de Engenharia, falou para uma plateia lotada que não entendia alemão nem suas ideias, em uma sala barulhenta e sem acústica. Na Academia de Ciências, teve que ouvir três discursos vazios em francês mal falado, incluindo um sobre "a influência da Relatividade na Biologia". O ápice foi quando o jurista Pontes de Miranda tentou desafiá-lo em alemão com considerações sobre metafísica e direito. Einstein levou de presente um papagaio que repetia "Data venia, Herr Einstein", lembrando-o sempre, com humor, da "ciência" dos doutores brasileiros.

“Einstein: visualize o impossível” é um projeto dos estudantes do quarto semestre de jornalismo da PUC-SP, da disciplina de jornalismo transmídia. O projeto aborda, de diferentes maneiras, uma releitura da icônica visita do físico ao Brasil em 1925. Todos os relatos estão em um site especial. Além de produções visuais e sonoras, o especial propõe uma narrativa em quadrinhos que conecta ciência, história e imaginação, tendo como cenário o Observatório Nacional (espaço que recebeu Albert Einstein). 

A produção contou com a colaboração de Bruno Matos, vice-diretor da Escola Estadual Professor Walter Ribas de Andrade. Já o vídeo “Os impactos de Albert Einstein na educação brasileira explicado por doguinhos” apresenta as contribuições das teorias do cientista para a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) a partir da entrevista com o professor de física Dediel Oliveira.  

Em “Diário do Einstein”, o leitor encontra coletânea de depoimentos em formato de diário sobre a passagem de Albert Einstein pelo Rio de Janeiro no ano de 1925, comentando ao longo de cada dia, pontos turísticos e palestras presenciadas por ele. No podcast "A carta que revolucionou a corrida armamentista", discute carta assinada pelo físico Albert Einstein em agosto de 1939, que alertava o presidente dos EUA, Franklin D.Roosevelt, sobre o potencial da Alemanha nazista em desenvolver uma bomba atômica.

O vídeo vertical “Einstein no Brasil” narra o encontro do físico com Carlos Chagas, marcando um momento científico crucial. A produção destaca a troca intelectual entre os dois grandes nomes da época. Por fim, é possível compreender uma sutil crítica sobre a omissão de um encontro com cientistas mulheres consagradas, como Bertha Lutz. Em “Einstein: uma análise de sua trajetória política”, as cartas de Einstein e seus discursos que expressavam preocupação com a violência e os conflitos no Oriente Médio são revisitadas. Nas declarações, o físico defende uma convivência justa entre judeus e árabes, e o projeto analisa como suas palavras ecoam no contexto atual da guerra entre Israel e Palestina, mostrando que o tempo passa, mas as perguntas sobre humanidade e coexistência continuam urgentes. 

Finalmente, o livro "Os Sonhos de Einstein", de Alan Lightman, pela Cia das Letras, apresenta uma série de sonhos imaginários que o jovem Albert Einstein teria tido enquanto desenvolvia a Teoria da Relatividade, em 1905. Em cada um deles, o tempo funciona de um jeito diferente, às vezes para, volta ou corre mais rápido e essas variações servem para refletir sobre a vida, as lembranças e as escolhas humanas. "Neste mundo, a textura do tempo parece ser pegajosa. Porções de cidades aderem a algum momento na história e não se soltam. Do mesmo modo, algumas pessoas ficam presas em algum ponto de suas vidas e não se libertam".
 

Em meio a pandemia da Covid-19 e conflitos incessantes ao redor do mundo, entenda esse grupo e conheça a uma das instituições que lhes presta apoio no Brasil
por
Marina Daquanno Testi e Thayná Alves
|
08/12/2020 - 12h

 

 

     

        O número de refugiados no Brasil vem crescendo a cada ano. Só no ano de 2018, segundo a Agência da ONU Para Refugiados (ACNUR) foram relatadas 80 mil solicitações de reconhecimento de condição de refugiado no Brasil. Os grupos de maior número entre as solicitações são os venezuelanos (61.681), que saíram do país devido à crise humanitária, e os haitianos (7.030), cujo fluxo de migração se intensificou após o terremoto que atingiu o país em 2010.  

        A lei brasileira considera refugiado todo indivíduo que está fora de seu país de origem devido a guerras, terremotos, miséria e questões relacionadas a conflitos de raça, religião, perseguição política, entre outros motivos que violam seus direitos humanos. Isso pode acontecer, por exemplo, quando a vida, liberdade ou integridade física da pessoa corria sério risco no seu país.

        Para que o imigrante seja reconhecido como refugiado, é necessário enviar uma solicitação para o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). O processo de reconhecimento, que antes era mais burocrático e mais demorado, atualmente é feito no site do Ministério da Justiça, a partir do preenchimento do formulário que pode ser feito ainda no país de origem. Todas as etapas podem ser acompanhadas pela internet, mas para o processo começar a tramitar, o solicitante deverá comparecer pessoalmente a uma unidade da polícia federal. 

        Dentre a população refugiada reconhecida no Brasil, segundo o censo da ACNUR de 2018, a maioria se concentra nas faixas etárias de 30 a 59 anos (41,80%), seguido de pessoas com idade entre 18 a 29 anos (38,58%). Do total, 34% são mulheres e 66% são homens, ressaltando os sírios, os congoleses como nacionalidades em maior quantidade (respectivamente 55% e 21%). 

         Em janeiro de 2020, o Brasil tornou-se o país com maior número de refugiados venezuelanos reconhecidos na América Latina, cerca de 17 mil pessoas se beneficiaram da aplicação facilitada no processo de reconhecimento, segundo a  Agência da ONU para Refugiados. As autoridades brasileiras estimam que cerca de 264 mil venezuelanos vivem atualmente no país. Uma média de 500 venezuelanos continua a atravessar a fronteira com o Brasil todos os dias, principalmente para o estado de Roraima.

         Apesar de em grande quantidade, apenas 215 municípios têm algum tipo de serviço especializado de atenção a essa população. As maiores dificuldades encontradas por pessoas refugiadas são a adaptação com o mercado de trabalho, com o aprendizado do idioma, o preconceito e a xenofobia, educação (muitos possuem diplomas em seus países de origem que não são aceitos aqui no Brasil), moradia e saúde. 

 

Covid-19 e o amparo aos refugiados

 

        Diante de um quadro de crise em escala global, como o que acontece este ano com a pandemia da Covid-19, essa população de migrantes e refugiados, que já se encontram em extrema vulnerabilidade, conta com o apoio de poucas instituições voltadas especialmente para suas necessidades. Este é o caso da Missão Paz, uma instituição filantrópica de apoio e acolhimento a imigrantes e refugiados, com uma das sedes na cidade de São Paulo, como conta o padre Paolo Parise.

        Nascido e criado na Itália, Parise atua desde 2010 na Missão Paz, atualmente como um dos diretores, e explica que esta instituição está ligada a uma congregação da Igreja Católica chamada Scalabrinianos, que atua com imigrantes e refugiados em 34 países do mundo. “Na região do Glicério - município do estado de São Paulo-, a obra se iniciou nos anos 30 e atualmente está presente em Manaus, Rio de Janeiro, Cuiabá, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Foz do Iguaçu, Corumbá e outros lugares.”

        Sua estrutura atual conta com a Casa do Migrante, um abrigo com capacidade de 110 indivíduos que são acolhidos com alimentação, material de higiene pessoal, roupas, aulas de português, acompanhamento de assistentes sociais e apoio psicológico; e o Centro Pastoral e de Mediação dos Migrantes (CPMM) que oferece atendimento e serviços voltados aos imigrantes, quanto aos seguintes temas: documentação e jurídico; trabalho, capacitação e cidadania; saúde; serviço social; família e comunidade. “Além disso, temos a área de pesquisa em parceria com a revista Travessia, que é o Centro de Estudos Migratórios (CEM), uma biblioteca especializada em migração e a WebRadio Migrantes”, completa Pe. Paolo.

Fonte: Site da instituição Missão Paz - Casa do Migrante
Fonte: Site da instituição Missão Paz - Crianças brincam na Casa do Migrante

        De acordo com o diretor, o maior desafio enfrentado pela instituição, durante a pandemia, foi com a saúde dos refugiados, principalmente pela impossibilidade de viver a quarentena isoladamente, já que muitos vivem em ocupações ou em lugares com muitas pessoas concentradas. Ele ainda denunciou que, dentre tantas vítimas da Covid-19 em São Paulo, um dos grupos mais afetados foi o de imigrantes bolivianos, “muitos foram contaminados e muitos morreram”.

        Diante de instabilidades políticas e econômicas, atualmente, sírios e venezuelanos são as principais nacionalidades afetadas que solicitam entrada no país. O que ratifica o Pe. Parise, “Falando pela Missão Paz, se você utiliza o termo ‘refugiados’, o maior grupo neste momento é de venezuelanos, sejam os que foram acolhidos pela missão paz, sejam os que estão entrando no Brasil. E depois encontramos outros grupos como da República Democrática do Congo. Mas se falamos de imigrantes, temos Colombianos, Bolivianos, Paraguaios, Peruanos, Angolanos e de outros países que estão recorrendo ao Brasil.”

        Mesmo com mudanças críticas, no cenário jurídico e político brasileiro, para que esta população seja recebida no país e tenha seus direitos respeitados, ainda não se pode falar em auxílio do governo ou medidas diretas de apoio a refugiados e imigrantes. 

        Paolo relembra a criação de leis que têm beneficiado a população no Brasil. Uma delas é a lei municipal Nº 16.478 de 2016, onde o Prefeito do Município de São Paulo, Fernando Haddad, instituiu a Política Municipal para a População Imigrante que garantia a esses o acesso a direitos sociais e aos serviços públicos, o respeito à diversidade e à interculturalidade, impedia a violação de direitos e fomentava a participação social; e a outra é a lei federal Nº13.445 de 2017, ou a nova Lei de Migração, que substitui o Estatuto do Estrangeiro e define os direitos e deveres do migrante e do visitante, regula a sua entrada e estada no País e estabelece princípios e diretrizes para as políticas públicas para o emigrante.

        A Missão Paz se mantém através de projetos e dinheiro injetado pela congregação da Igreja Católica. “Neste momento, a Missão Paz não recebe apoio financeiro nem do município, nem do estado e nem do Governo Federal”, relata Parise. Durante a pandemia receberam ajuda da sociedade civil, “[A Instituição] Conseguiu muitas doações de pessoas físicas, de instituições, de campanhas, fosse em dinheiro, em cestas básicas ou kits de higiene pessoal”, e com 200 cestas básicas, por mês, da Prefeitura de São Paulo. Também receberam ajuda com testes de COVID em nível municipal. 

         A instituição filantrópica ainda conta com a ajuda de vários parceiros, como explica seu diretor “na área de incidências políticas, por exemplo, nós atuamos com a ONG Conectas Direitos Humanos, temos na área de refugiados um projeto com a ACNUR, estamos preparando outro com a OIM (Organização Internacional para as Migrações) e temos algumas ações com a Cruz Vermelha”. 

        Desde o começo do ano, já atenderam por volta de 7 mil imigrantes e refugiados, e, hoje em dia, tem por volta de 40 pessoas na Casa, o que representa ⅓ da capacidade total. Além disso, entregam de 50 a 60 cestas básicas a refugiados, diariamente, e ao redor de 60 a 70 que vão, por dia, procurar os serviços do CPMM. “Outras ações incluíram a disponibilização de atendimentos online, de aulas de português a atendimentos jurídicos, psicológicos ou serviços sociais, além de ajudar a completar aluguel, água ou luz daqueles que precisam da ajuda da instituiçã”, fala Padre Paolo. 

        Todo esse esforço e dedicação da instituição foi feito, sempre, visando seguir as normas de segurança e as indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde). Foram fornecidos a seus funcionários e a população migrante e de refugiados álcool para higienizar as mãos, máscaras e demais equipamentos e serviços de proteção e higiene.

Especial recupera importantes falas de quem participou de evento em 2019, que comemorou os 90 anos do professor que dá nome à agência de notícias do curso de Jornalismo. Tr echos foram extraídos do material preparado pela equipe da TV PUC
por
por Lara Guzzardi e Victor Naia , fotos de Gabriela Neves (com TV PUC)
|
15/11/2020 - 12h

Há um ano acontecia o simpósio “90 anos de Maurício Tragtenberg: Pensar é resistir”. Doris Accioly e Silva analisa o pensamento de Maurício Tragtenberg e suas influências. A professora da Unicamp também vai além: ela busca entender, como Maurício lia e interpretava esses autores, e como, a partir deles, conseguiram interpretar

Doris acrescenta o valor inigualável da pesquisa de Maurício, e a forma única com que ele pesquisava e desenvolvia seu pensamento. A professora comenta, também, como Maurício era generoso e que não se pode, jamais, desprezar algum autor. Mesmo não concordando com conteúdo ou corrente de pensamento, é importante lê-los e debatê-los.

Maurício demonstrava grande interesse pela figura ambígua de Walter Rathenau, e procurava estudá-la com mais profundidade. Tragtenberg, criticava a burocratização no exercício do poder.

Pedro Porcino conta como conheceu Mauricio Tragtenberg em 1984 em pleno processo de redemocratização e, claro, como ajuda que Maurício deu a ele e toda classe sindical foi valiosa. Mais de 30 anos após os eventos, Porcino, nos faz relembrar como os ensinamentos de Maurício e suas visões na classe sindical faz ainda mais sentido nos dias atuais. Maurício conseguia unir o meio acadêmico com a prática. Eis um exemplo: Maurício não escrevia apenas para os alunos e a academia, ele escrevia para os trabalhadores, escrevia para todos.

Lucia Bruno comenta como a visão de Maurício Tragtenberg sobre associações, sindicatos, movimentos sociais - e como suas dicas fazem sentido hoje, analisando o movimento social e sindical que perdeu força. Maurício participou ativamente nestas questões nos anos 70 e 80. 

A AGEMT relembra a fala do ex-aluno de Maurício, Edson Passetti, formado em Ciências Sociais pela PUC - SP, sobre a forte atitude de contestação do sociólogo.

Durante a fala na mesa "O Pensamento de Maurício Tragtenberg e as Práticas de Liberdade" , Passetti comentou sobre a importância de um mestre no aprendizado dos jovens, principalmente nos tempos atuais, com excesso de tecnologia e informação:

O cientista social contou também sobre a ocasião em que Maurício questionou os alunos em sala de aula se eles já tinham pensado em votar no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido político brasileiro que abrigou os opositores da ditadura militar brasileira, fazendo-os refletir:

Passetti, no fim de sua fala, diz que acredita ser válida a discussão acerca da presença dos textos de Maurício no programa das faculdades atuais, já que esses teriam muito a acrescentar aos jovens universitários de diversos cursos:

A historiadora, filósofa e professora colaboradora no IFCH da UNICAMP, Margareth Rago, participou da mesa três: O Pensamento de Maurício Tragtenberg e as Práticas de Liberdade do encontro “90 anos de Mauricio Tragtenberg: Pensar é resistir”.

Ela encerrou sua fala sobre seu contato com o anarquismo, grande alvo de estudo do sociólogo, fazendo uma analogia a fim de mostrar como ela enxerga esse espírito revolucionário de Maurício. 

Durante a mesa  "Coleção Maurício Tragtenberg e a Atualidade do Pensamento Tragtenberguiano", o pensador marxista brasileiro e diretor do CNRS na França, Michael Löwy, que conheceu Maurício através de um evento sobre Kafka, comentou sobre a o caráter inovador e corajoso do pensamento de Tragtenberg.

Löwy discorreu sobre a atualidade das ideias de Maurício diante do nosso cenário político atual e se referiu a ele como um verdadeiro remédio contra a ameaça de fascismo: “o pensamento do Maurício é o melhor antídoto para esse veneno”.

Em homenagem aos 90 anos do sociólogo Maurício Tragtenberg, a PUC-SP realizou o colóquio “Pensar é resistir”. O evento contou com a presença do professor titular do Departamento de Filosofia da PUC-SP, Antonio Valverde, que em sua fala expressou admiração pelas ácidas críticas de Maurício à ordem social.

O colóquio “90 anos de Mauricio Tragtenberg: Pensar é resistir” faz um ano, assim como esse mês a morte de Maurício faz vinte e dois anos. A discussão apresentada na mesa quatro foi encerrada pelo professor e diretor-presidente da Fundação Editora da Unesp, Jézio Hernani B. Gutierre, responsável por possibilitar a publicação da coleção Mauricio Tragtenberg.

A AGEMT relembra a declaração de Jézio acerca da importância de manter a obra do sociólogo sempre viva, ao invés de transformá-la em algum tipo de relicário.

 

A pandemia vista por jovens em outros países.
por
Marcela Foresti
|
06/11/2020 - 12h

A pandemia foi sentida de diferentes formas ao redor do mundo, enquanto alguns países como a Alemanha estão em sua segunda onda, outros lugares como a província de Newfoundland no Canadá  mal tiveram a primeira. 

A estudante Lacey Marshall de Newfoundland no Canadá teve no total apenas três semanas de quarentena neste ano, isso porque segundo o levantamento feito pelo Governo de Newfoundland a província teve apenas 292 casos de infectados pelo vírus.

Lacey Marshall

 Mesmo com o número de casos baixo e um curto período de quarentena, a   província mantém a recomendação de uso de máscaras e distanciamento social.   As aulas voltaram presencialmente em algumas escolas, mas Marshall ainda   está com as suas online.

 Ela não está mais isolada em casa, mas evita ao máximo encontrar diferentes   grupos de amigos na mesma semana “Prefiro me reunir sempre com o mesmo   grupo de amigos e com máscara”.

 Para a canadense o isolamento foi momento de organizar a vida e realizar   atividades diferentes “Me senti mais feliz do que antes durante o isolamento, a saudade de contato físico é pequena”.

Ao contrário dela , as estudantes alemãs Lilli Grandt de Hamburgo e Lisa Spiller de Stuttgart sentiram bastante as consequências da pandemia, a falta de contato com outros gerou desmotivação e afetou algumas amizades. Spiller que tem como hobby principal a escalada, está achando muito difícil não poder fazer a atividade este ano. Lisa Spiller

As estudantes tiveram poucas aulas online, Grandt teve o ano escolar encerrado um pouco mais cedo  que o normal. O calendário escolar na Europa é diferente do Brasil e vai do  mês de agosto até  junho. 

A Alemanha teve seu primeiro isolamento entre Março e Junho e, agora no mês de Novembro, entrou  em sua segunda quarentena que terá o mínimo de um mês de duração.

A diferença entre as duas quarentenas é que a segunda manterá as aulas presenciais e algumas outras atividades básicas funcionando. 

Ao final da primeira quarentena a Alemanha voltou a funcionar apenas com algumas restrições, Spiller viajou para encontrar uma amiga em outro estado e Grandt voltou a sair e ver seus amigos normalmente. A única coisa que mudou nos encontros é o uso de máscara que na Europa é obrigatório em locais públicos e a multa para quem não cumpre a regra pode chegar a dois mil e quinhentos euros.Lilli Grandt

 As três estudantes possuem opiniões diferentes sobre a situação da pandemia, uma vez que as   experiências também são diferentes. Spiller acredita que a fase que está vivendo da pandemia  é   difícil, mas as relações com amigos e família merecem uma maior atenção e importância “É   momento de escolhas difíceis”. 

 Grandt acha o momento complicado pela solidão, mas entende que é algo necessário para   controlar o vírus e para Marshall a situação é de incertezas e aprendizado “As adaptações devem ser feitas por todos, devemos aprender a viver desta nova maneira juntos”.

Diferente destes países, o Brasil segue com números altos de infectados e mortos assim como incertezas enormes sobre as condutas que devem ser tomadas, o país está dividido entre a ciência e a política.

A maioria das escolas e universidades continuam fechadas. Diferente da Alemanha e de Newfoundland no Canadá, aqui não se sabe quando voltaremos a ter aulas presenciais e o ensino remoto está cheio de falhas. 

 

IBGE aponta o envelhecimento da população no Brasil e prevê que haverá uma sociedade com mais idosos daqui 40 anos
por
Giulia Palumbo
|
18/09/2020 - 12h

O famoso jargão “crianças são o futuro”, pode não ter tanto sentido daqui a algumas décadas. Uma pesquisa realizada pelo IBGE mostra como a população brasileira está envelhecendo rapidamente.

Com esse envelhecimento, muitas mudanças poderão ocorrer, principalmente na empregabilidade. Segundo a psicóloga Aparecida Azevedo, devemos ver a terceira idade como mais uma etapa de desenvolvimento e não como a última etapa de vida.

“É necessário que possamos descontruir o estigma de marginalização da população idosa e mostrar que, ‘ir para os aposentos’ como a aposentadoria sugere, pode não ser a opção mais viável para muitos e que oportunidades de emprego nesta fase podem ser uma conquista social e não uma ameaça às futuras gerações.”

José se formou em Ciências Físicas e Biológicas em 1969, no período do “milagre econômico”, onde a economia brasileira cresceu admiráveis 14%. “Quando eu me formei, tinha dois empregos e estava à procura de outro”

Cinquenta anos separam o Seu José do jovem João, que escolheu a profissão de contador. Ainda não se formou, mas já está em busca do emprego. “Hoje em dia, experiência é tudo e é isso que eles procuram. E, como é o primeiro emprego, essa experiência não existe. Dessa forma, não consigo emprego” ressalta o estudante João Venegas.

Para o jovem, está cada vez mais difícil ingressar no mercado de trabalho. Durante boa parte da nossa história, a maioria da população foi formada por jovens. O Brasil não tem experiência em ser um país de pessoas experientes. O desafio agora é enfrentar os novos problemas sem esquecer as antigas barreiras.

 

Matéria idosos
Idosos trabalhando (foto reprodução|Elements)

 

Essa barreira que se enfrenta ao tentar ingressar no mercado de trabalho, afeta não só os jovens, como também a economia. O jovem que demora, para entrar nesse mundo, quando entra, está com a produtividade baixa, o que acarreta em pequena produção e o não crescimento da economia.

 

Hoje, para cada 100 pessoas em idade para trabalhar, há 44 indivíduos menores de 15 anos ou maiores de 64 – patamar maior que o de outros emergentes, como China (37,7) e Rússia (43,5), mas ainda bem abaixo ao de países desenvolvidos e com elevado percentual de idosos como Japão (64) e França (59,2).

 

Segundo a professora de fisioterapia especializada em gerontologia Tereza Cristina Alvisi, o envelhecimento se dá pela queda na baixa taxa de fecundidade. “

 

Dessa forma, daqui a 40 anos, o cenário da população impacta no números de pessoas na idade reprodutiva, sendo necessário que esses indivíduos recebam incentivos para que tenham filhos – população que sustentará os idosos- ou na criação de projetos para mão de obra imigrante.

 

 

O incêndio no Pantanal já destruiu 85% do Parque Estadual Encontro das Águas, lar de uma das maiores quantidades de onças-pintadas no mundo e atividade de turismo milionária.
por
Rafaela Correa de Freitas
|
18/09/2020 - 12h

Em setembro deste ano, as queimadas no pantanal se intensificaram de tal forma que os focos de calor ultrapassaram 5.600 em número, superando o recorde do mesmo mês em 2007, de 5.498 (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). O turismo internacional no Brasil já havia sofrido grande impacto por conta da pandemia da covid-19 que fechou as fronteiras, e agora, as queimadas no Pantanal podem prejudicar a conservação de onças via turismo e a proteção garantida no Parque que esteve em contato com o fogo.

Grande parte das regiões brasileiras possuem uma vasta área que poderia tornar o Brasil referência, se não o foco, do ecoturismo mundial. Seja por conta dos Pampas Gaúchos no Sul do país, as praias de Salvador no Nordeste, a Floresta Amazônica no Norte, trechos da Mata Atlântica no Sudeste ou o Pantanal no Centro-Oeste; o fato de ser possível potencializar a economia brasileira e, ao mesmo tempo, acabar com o extrativismo madeireiro e queimadas, deveria tornar o potencial do turismo brasileiro pauta nos grandes jornais do país.

Luciano Palumbo, fundador do Turismoetc, que conta com grande acervo de informações sobre viagens, gastronomia e entretenimento; e embaixador do GreenPress, Rede de Turismo Consciente sem fins lucrativos, composto por uma equipe de 27 jornalistas e formadores de opinião, aponta que o grande motivo da falta de interesse da mídia em dar voz aos nossos biomas fora das tragédias que eles sofrem, é por conta, na verdade, do desinteresse da população: “grande parte dela, não liga para as questões ambientais, não liga para as queimadas na Amazônia”. Apesar de em pesquisas a população se colocar a favor da proteção do ecossistema brasileiro, pouco se fala dele quando nada visualmente alarmante está acontecendo.

Pesquisa feita pela WWF-Brasil aponta que dois em cada três brasileiros não sabem onde se localiza o Bioma do Pantanal, o que é um grande indicador do porquê só se ouve falar e só se fala dos nossos biomas quando eles estão em imediato perigo. Outra questão levantada durante entrevista com o jornalista, é se essa desinformação não parte da falta de interesse do brasileiro em fazer turismo dentro do país.

 

Luciano Palumbo, fundador do Turismoetc em um caiaque sorrindo para a câmera
Luciano Palumbo, fundador do turismoetc andando de Caiaque na Coastal Paddling Trail. (Foto: Instagram @TurismoEtc)

 “Ainda falta o brasileiro conhecer mais do Brasil, temos o sonho de viajar para a Disney, Buenos Aires, de conhecer a Itália, de pisar na Torre Eiffel, mas a gente não conhece o interior do nosso país. Não conhecemos a riqueza que temos no Pantanal, na Serra Gaúcha, na Amazônia, no Cerrado...”

Michelle Alves, de 26 anos, publicitária e dona do blog e maior canal de intercâmbio do Brasil no youtube, “Mi Alves”, compartilha do mesmo pensamento, “A grande maioria dos brasileiros desde cedo aprecia os EUA, o frio da Europa, as Praias do México, mas esquece como o Brasil é diverso e bonito,” e que acredita que um dos motivos disso é a comparação dos preços entre viagens nacionais e internacionais, o que gera a pergunta “Com esse dinheiro eu vou para tal lugar, não vou gastar isso tudo para ficar no Brasil...” e que a escassa divulgação do turismo brasileiro se concentra na chamada de estrangeiros e não com intuito de atrair pessoas do próprio país. Dados retirados do Plano Nacional de Turismo 2018-2022, revelam que menos de um terço da população viajam pelo Brasil e que, ainda assim, essa locomoção representava, em 2016, 3,5% do PIB do setor de viagens e turismo, o que torna simples ver a dimensão que o turismo doméstico poderia tomar caso impulsionado.

 

Michelle Alves na foto com um mapa-múndi em sua parede de fundo da imagem
Michelle Alves do blog, canal e instagram mialvess (Foto: Instagram @mialvess)



“Um ou outro estado que cria campanhas pontuais para atrair a atenção de outros brasileiros, falo isso porque moro em Blumenau e aqui só tem campanha pra conhecer a cidade na época da Oktoberfest, mas a cidade é muito mais que a festa, tem muitas coisas legais pra fazer.”


 

Valorizar o turismo nacional parte de duas frentes: a vontade do viajante “O primeiro caminho, é mudar o foco”, aponta Palumbo; e a valorização e consumo da chamada Mídia Ambiental, que diferente da cobertura de outros veículos - que termina assim que o problema é controlado, - mantém o assunto em foco, visando estudar e oferecer diagnósticos sobre as consequências, causas e repercussão, o que pode gerar uma parceria sobre como o turismo ajuda a preservar o meio ambiente; além da divulgação de nossos biomas, não como alvo de tragédias, mas como agentes potenciais da economia e ecossistema, como aponta Alves “A informação nas mídias sobre esses biomas e como protegê-los, deveria ser diária.”

 

Imagem de capa por Freepik | by Wirestock