Por muito tempo, o futebol brasileiro fez questão de esconder um dado inconveniente: em um país em que mais de 56% da população se declara preta ou parda, onde o esporte mais popular foi construído com os pés, o suor e o talento de homens negros, nenhum técnico negro jamais dirigiu a Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. E nas divisões de elite do campeonato nacional, raramente há mais do que um único treinador negro entre os vinte clubes da Série A. Quase sempre solitário nesse posto, existe um nome: Roger Machado.
Roger Machado Marques nasceu no dia 4 de março de 1975, em Porto Alegre. Revelado pelo Grêmio, foi promovido ao time profissional aos 18 anos. Ao seu lado nesse início difícil estava sua irmã, que atuou como procuradora e sempre carregou a educação como valor central. Essa influência nunca o abandonou. Anos depois, Roger declarou acreditar "na educação como o melhor caminho de transformação social, assim como a minha irmã acreditou na época em que comecei no Grêmio."
Dentro de campo, a carreira foi de glórias: três Copas do Brasil, um Campeonato Brasileiro, uma Libertadores e uma Recopa Sul-Americana pelo Grêmio, além de passagens pelo futebol japonês e pelo Fluminense. Uma lesão na coluna encerrou sua carreira antes do esperado, mas Roger Machado não saiu do futebol, apenas mudou de posição.
Ao encerrar a carreira de jogador, ingressou na faculdade de Educação Física não como uma formalidade, mas por convicção. Como técnico, passou pelo Juventude, Novo Hamburgo, Grêmio, Atlético Mineiro, Palmeiras, Bahia, Fluminense, Internacional e São Paulo, conquistando títulos estaduais em quatro estados diferentes. Em 2015, foi eleito o treinador revelação do Brasil após transformar um Grêmio em crise num time que encantava o país. Quem colheu esse trabalho nos anos seguintes foi Renato Portaluppi. Roger raramente recebe esse crédito.
Há um tipo de preconceito que o Brasil aprendeu a disfarçar bem. Não é o insulto declarado. É o deboche, a ironia, o questionamento constante de uma competência que jamais seria questionada em outro contexto. Em 2015, quando assumiu o Grêmio, um jornal gaúcho publicou o título irônico: "Dicionário de Roger: técnico faz um mês de Grêmio e apresenta 'nova língua'". A forma como ele se expressava, com clareza; precisão; com a desenvoltura de quem estudou o que faz, era tratada como afetação.
Roger não se esquiva desse debate. Em entrevista à AFP, explicou por que há tão poucos treinadores negros no futebol: "Quando negros e brancos decidem ascender na pirâmide social, os filtros começam a aparecer. São os filtros da ideologia que criou o racismo e que atribui ao negro uma condição de menor inteligência, menor capacidade de liderança e gestão, justamente as competências de um treinador de futebol."
Ao perceber que suas filhas não encontravam livros infantojuvenis com autores e personagens negros, decidiu agir. Em parceria com professores da UFRGS, criou o projeto Canela Preta e o selo Diálogos da Diáspora, financiando a publicação de livros de autores negros e indígenas vendidos a preço acessível graças ao seu investimento direto. O projeto já está em sua terceira edição.
O São Paulo, ao contratá-lo em março de 2026, encerrou um hiato de mais de 41 anos sem um treinador negro no cargo. Roger é, com frequência, o único técnico negro entre os 20 clubes da Série A e carrega, não apenas a própria carreira, mas a representatividade de um grupo inteiro.
No tricolor paulista, durou 63 dias. Foram 17 partidas, 7 vitórias, 4 empates e 6 derrotas, somando 49% de aproveitamento e uma pressão que começou antes mesmo de sua estreia. A demissão veio na noite de 13 de maio, minutos após a eliminação para o Juventude na Copa do Brasil, por 3 a 1 em Caxias do Sul. O desfecho teve um detalhe revelador: dois dias antes, em áudio vazado, o presidente do clube havia dito publicamente que não havia dinheiro para trocar o técnico. Bastou uma derrota para a conta mudar. Na apresentação ao São Paulo, Roger havia resumido a própria trajetória com uma frase que vale por um livro: "Quando quis virar treinador, disseram que tem poucos treinadores negros no futebol, que eu não seria a exceção. E eu sou a exceção." A demissão não apaga isso.