Semana de JO discute o racismo na Imprensa

“A imprensa é racista porque é um reflexo da nossa sociedade racista”, defende Flavia Lima em sua fala
por
Julio Cesar Ferreira
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23/09/2020 - 12h

“Racismo na Imprensa Brasileira: o discurso da mídia no combate antirracista”, foi o tema da quinta mesa da 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP. O debate, que ocorreu de forma virtual e com os convidados dividindo suas telas, discutiu o racismo dentro das redações.

O evento, com mais de 180 pessoas, contou com a mediação de Amailton Magno, Professor da PUC-SP e com os palestrantes: Flavia lima, Ombudsman da Folha de S. Paulo, Pedro Borges, cofundador do Alma Preta e Yasmin Santos, ex-repórter da revista piauí e pós-graduanda pela PUC-RS.

Amailton abre a mesa abordando o racismo na história, sobretudo brasileira. Em sua fala, ele afirmou que o racismo é um mal-estar civilizatório e um crime contra a humanidade, de modo que ainda vivemos com os rastros históricos da escravidão. O professor da PUC também destaca que o racismo no Brasil ocorre por meio do fenótipo - o papel do colorismo -  a abolição que ocorreu sem leis reparatórias e a necropolítica (conceito proposto por Achille Mbembe que cita sobre quem o Estado deixa morrer em maior escala, que são os corpos negros). Por fim, enfatizou a maneira que a Instituição Policial ainda ecoa práticas da escravidão. “Os policiais sabem quem é negro.”

 

Amailton
Amailton Magno, Professor da PUC-SP na 42° Semana de Jornalismo (PrintScreen da tela do Zoom)

 

Em seguida, Flavia Lima inicia a sua contribuição explicando a abordagem da mídia, que para ela é reflexo de uma sociedade racista com instituições e leis excludentes, e a imprensa é fruto disso. “A imprensa é racista porque é um reflexo da nossa sociedade racista”. Em sua apresentação, a jornalista da Folha de S. Paulo falou ainda sobre a representação dos negros no jornalismo e como estão quase sempre presentes em sessões policiais, de esporte e em menor escala, cultura. “A mídia transformou o jovem negro em um pivete.” De acordo com ela, a política de cotas foi o único momento em que os negros foram trazidos para o debate político na grande mídia.

Flavia
Flavia Lima, Ombudsman da Folha de S. Paulo na 42° Semana de Jornalismo (PrintScreen da tela do Zoom)

Citou ainda o caso de George Floyd para ilustrar como o jornalismo lida com o racismo no Brasil. “Foi a primeira vez que vi profissionais brancos sem saber muito o que fazer.”

 

Ao término da contribuição de Flavia, Pedro Borges, em sua exposição, defende que a política de cotas foi algo positivo e como foi resultado frutífero das lutas de movimentos sociais negros, e o debate tornou-se nacional, pois, "mexe com a elite brasileira, porque a universidade pública é algo que eles utilizam”. Em seguida, citou Perseu Abramo e os padrões de manipulação que ocorrem em cima das pessoas negras. Ainda criticou a mídia coorporativa, que visa atender os interesses da elite e como a mídia tradicional é usada como instrumento político. E para finalizar seu discurso falou sobre o papel importante que a mídia alternativa tem em desvincular-se dos interesses  aristocráticos brancos. 

 

Pedro
Pedro Borges, cofundador do Alma Preta na 42° Semana de Jornalismo (PrintScreen da tela do Zoom)

 

Yasmin Santos, em sua vez, trouxe sua pesquisa de TCC, “Letra Preta”, para demonstrar o papel de negro dentro do jornalismo impresso. Em seu discurso, Yasmim relata que foi a primeira mulher negra contratada na piauí e que o papel do homem branco mais velho ainda impera nas posições de comando em redações.

 

Yasmin
Yasmin Santos, ex-funcionária da Revista Piauí e pós-graduanda pela PUC-RS na 42° Semana de Jornalismo (PrintScreen da tela do Zoom)

 

Em sua pesquisa, há uma demonstração de como o racismo acontece dentro das redações, que para ela é majoritariamente por meio do silenciamento, colocando o jornalista negro em um espaço de “setoristas de negritude” ou em uma espécie de “Wikipretos”, pois posiciona os negros em locais que só possam falar sobre questões raciais e fossem porta-voz da pauta racial, e nada mais. Além disso defendeu que problemas estruturais exigem mudanças estruturais, trouxe também em sua apresentação que os termos utilizados precisam ser repensados e a necessidade de ouvir fontes e especialistas negros. “Falar sobre isso não é sobre ser um jornalismo militante, é sobre ser um jornalismo ético."

Depois de todas as apresentações, abriram o espaço para as perguntas.

A primeira pergunta levantada por uma participante foi sobre o que fazer em relação à divulgação de imagens de violências e espetacularização dela e como proteger a vítima e expor somente o culpado. Para os convidados, divulgar a imagem da vítima deve ser algo para se pensar com cuidado. Pedro defendeu que é necessária uma manipulação, para que "deixe visível apenas o culpado, não a vítima". Flavia Lima cita que é importante que não haja a espetacularização da violência, mas que ainda "seja dita de forma responsável". Yasmin ressalta que, com a Internet, é muito difícil ter controle sobre isso, mas não devemos publicar imagens de violência em veículos de informação, ao menos sem uma manipulação que proteja a vítima de mais exposição.

Ao responder uma questão sobre o Programa de Trainee para pessoas negras da Magazine Luiza. Yasmin disse que “é preciso pensar em permanência, não somente a entrada”. Já para Pedro Borges "a representatividade não é tudo", pois tem muito para mudar, como defende ele. E o Professor Amailton contribui citando o “pacto narcísico” cunhado por Cida Bento. Para ele, a ação da Magazine Luiza revela o “medo da branquitude no sentimento de perda da fala.”

A "plateia" também perguntou sobre a representatividade e a estética negra no jornalismo. Yasmin cita que os jornalistas brancos precisam se comprometer de fato com a luta antirracista, mas não fazem. “Há uma vontade de diversidade, mas não há ação.” Segundo Flavia, a “estética influencia, porque a redação é um microcosmo da sociedade”.

O espaço que o corpo negro dentro do jornalismo exerce causa um estranhamento, complementam Flavia e Yasmin. Pedro, por sua vez, apontou o fato de que a estética negra incomoda, mas ele gosta de causar incomodo, para ele é um ato político.

Em meio a uma fala de Pedro, ele disse que não podemos ficar reféns apenas da representatividade, e cita: "Daqui a pouco teremos Fernando's Holiday's no jornalismo" Em contrapartida, Flavia Lima, com o objetivo de abarcar a pluralidade de ser negro no Brasil cita "Nós precisamos de Fernando's Holiday's no jornalismo."

Ao longo de várias perguntas e respostas a mesa é finalizada com dicas e conselhos dos palestrantes para que haja um posicionamento antirracista dentro e fora do jornalismo. Flavia ressaltou que é preciso ler e estudar para ter um olhar crítico do racismo na sociedade, Pedro defendeu que jamais podemos perder a noção de coletividade e Yasmin retomou a importância de ouvir profissionais e especialistas negros como fontes.