Por trás do nariz vermelho: Como a arte de fazer rir pode ajudar em tratamentos de saúde

A humanização proposta pelo voluntariado faz com que o hospital seja um ambiente mais confortável e acolhedor para pacientes internados ou em tratamento.
por
Sônia Xavier
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07/06/2022 - 12h

 

A atividade de Clown Care - cuidados com palhaços, em tradução livre - é uma prática de humanização hospitalar, na qual voluntários se vestem de palhaços e tentam de forma lúdica distrair pacientes da realidade carregada de estresse, ansiedade e melancolia dos hospitais. Conforme a história do movimento, a prática de palhaços-doutores teve início na década de 60, com participação do médico norte americano Hunter Adams - o Patch Adams -, que teria sido o primeiro a entrar num ambiente hospitalar vestido de palhaço a fim de levar alegria a pacientes que passavam dificuldades psicológicas e físicas por conta das suas enfermidades. 

O próprio Adams passou por um período de grave crise depressiva, logo após a morte do pai, chegando a se internar numa clínica psiquiátrica, percebendo assim que “o riso, a alegria e a criatividade são parte integrante do processo de cura” (The Gesundheit Institute). Em 1971, com ajuda de amigos, acaba fundando o Instituto Gesundheit para abordar todos os problemas de saúde em um único modelo. 

No Brasil o primeiro grupo de Clown Care foi o “Os Doutores da Alegria” criado pelo brasileiro Wellington Nogueira, em 1991, inspirado pelo projeto similar do qual participava em Nova Iorque - a Clown Care Unit . Hoje em dia são várias as instituições sem fins lucrativos que utilizam a arte do palhaço para desmistificar tratamentos e levar conforto a pacientes em situações sensíveis. O uso da dramaticidade e do improviso tenta reduzir o estresse e a ansiedade provocada pela rotina hospitalar, buscando aliviar e dar conforto psicológico e social para essas pessoas.

O simples fato de se caracterizar já atrai um novo olhar sobre o voluntário. Abgail Menezez, voluntária pelo Instituto Nenex desde 2019, relata a sensação de entrar como palhaço no ambiente hospitalar "Quando você entra num hospital sem estar caracterizado, as pessoas mal te olham, mas quando você se caracteriza todos te olham e geralmente abrem um sorriso, então o nariz de palhaço te dá liberdade pra falar com as pessoas, brincar”. 

Voluntários caracterizados de palhaços
Atendimento com voluntários caracterizados. (Foto: arquivo pessoal)

O voluntário coloca à disposição do paciente o prazer de rir, fazendo com que se sinta acolhido, o que para o psicoterapeuta Árlon Miqueias pode  fazê-lo acreditar mais na cura. Tal posicionamento também é partilhado pelo professor e psicólogo Claudinei Affonso, que acredita na mudança da postura perante o tratamento e, ademais, nas relações entre todos os atores que partilham do espaço, como médicos e acompanhantes. Para ele, "algumas intervenções auxiliam na forma como o paciente reage diante do tratamento, outras, ajudam na recuperação e, outras, resgatam a dignidade e identidade perdida em uma internação ou nos modos de tratamento”.

As ações também acrescentam muito na vida do voluntário. Abgail relata que acha o voluntariado muito gratificador: “É muito gratificante você chegar perto de uma criança, fazer bolinha de sabão e na hora ela parar de chorar, ou a enfermeira te chamar pra distrair a criança enquanto aplica a medicação, ou mesmo, colocar as senhorinhas pra dançar. Eu fico com uma sensação de que sirvo pra alguma coisa, mesmo que seja uma palhaçada, risos”. 

Menezez revela que na sua vivência, os adultos lhe parecem mais fragilizados e carentes. Ela acredita que como as crianças geralmente estão acompanhadas ou com brinquedos, elas se distraem com mais facilidade. Os adultos geralmente se sentem mais sozinhos: “ Às vezes, você quer sair do quarto e eles querem continuar conversando, isso é muito legal”. Com a ajuda desse mundo lúdico eles distraem e fazem com que o processo fique um pouco menos doloroso e como é uma atividade sem fins lucrativos é fácil sentir o carinho e o cuidado dos voluntários para com os pacientes “Eu quando estou sem o nariz sou uma pessoa, quando coloco o nariz sou outra. E o legal é que qualquer brincadeira que fizermos se não der certo não tem problema porque a gente é palhaço, se a gente canta e desafina não tem problema, a gente é palhaço”, ressalta Abgail. 

Voluntários caracterizados de palhaços
Palhaços em visita à hospital.(Foto: arquivo pessoal)

Dessa forma os doutores- palhaços têm auxiliado na recuperação de enfermidades físicas e mentais das pessoas, se preocupando com o bem estar delas num ambiente muitas vezes pesaroso. Levando a arte aos outros com amor e, claro, muito bom humor. 

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