Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay inspiram novas gerações negras

Criador de podcast "Papo de visão" chama ídolos de super-heróis. Cantor Fabbricio busca manter representatividade na música
por
Lucas Martins e Paulo Castro
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07/10/2020 - 12h

 

Os Racionais MC´s surgiram em 1988 na zona sul de São Paulo. Com as suas letras recheadas de críticas sociais, combate ao racismo e orgulho da cor de sua pele, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay se tornaram inspirações para milhões de jovens negros Brasil à fora, entre eles, Tarso Oliveira, criador do podcast “Papo de Visão”. “Eles são os meus super-heróis. Se eu to vivo hoje, respirando, amando a minha pele, se eu olho no espelho e me sinto feliz, me sinto bonito, é por causa do Racionais”.

Racionais
Racionais MC's (Foto:Divulgação)

Além do grupo de rap de São Paulo, Oliveira admirava diversos outros artistas que o faziam sentir orgulho da cor da sua pele, “Os meus pais não eram músicos, mas eles tinham um ouvido muito bom. Por influência deles, eu ouvia muito Luiz Melodia, Tim Maia e Jorge Ben Jor. Cresci nos anos 90, então eu ouvi muito os sambistas da época, que também eram os meus heróis de autoestima e representatividade. Eu olhava pra eles e pensava: ‘Quero ser bonito que nem esses caras”.

Oliveira é filho de professores, mas desde pequeno, se interessou pela música, que, segundo ele, é o seu oxigênio. O também músico e historiador acredita que a arte foi a base da sua formação. “A música me despertou pro conhecimento. Pra me conhecer como homem negro dentro de uma sociedade racista e dentro de um mundo capitalista. Como eu sou inserido e como eu sou visto. Através da música, eu percebi que era possível. Eu pensava: ‘não vou deixar ninguém me chamar de macaco”.

Tarso
Tarso Oliveira (de boné) ao lado de Edi Rock, membro dos Racionais MC's (Foto: Acervo Pessoal)

O paulistano de 27 anos pensa que a indústria musical é um reflexo de uma sociedade racista e sexista, ou seja, é um ambiente desfavorável para cantores e cantoras de pele negra. Oliveira afirma que a presença de artistas negros no mainstream é essencial, não somente para a representatividade, mas também para a “desconstrução de um padrão dentro de um cenário extremamente racista e não democrático”. Ele destacou o rapper Emicida como um dos artistas negros que conseguiram ser bem sucedidos na música brasileira, “Ele canta o que ele quer, ele é dono da música dele, ele tem a sua produtora musical, ele tem a sua marca. Dentro de um cenário extremamente racista, que não é favorável pra homem preto, isso é uma conquista gigante.”

O músico acredita que os negros sofrem dentro do meio musical por conta da apropriação cultural e do padrão de beleza estabelecido pela sociedade, “O Rock, por exemplo, é um gênero criado por pessoas negras, com artistas, como Chuck Berry, sendo um dos precursores, mas as pessoas acham que o pioneiro era o Elvis Presley, porque ele se encaixava no padrão”.

Chuck Berry
Chuck Berry, um dos precursores do Rock (Foto: Veja/Divulgação)

 

       Por fim, Oliveira enalteceu a importância da música na luta contra o racismo estrutural, “Nas novelas, os negros sempre eram mordomos ou empregados. Não que seja um problema ter essas profissões, mas nunca tínhamos um preto advogado ou uma preta médica. Através da arte, a gente proporciona uma nova perspectiva das pessoas negras.” Ele completou: “A música não é o único meio de combate ao racismo, também precisamos de políticas públicas. Precisamos de negros em todos os lugares e fazendo alguma coisa, não apenas estando ali.”

Assim como Tarso, o cantor Frabriccio também viu sua vida ser mudada pela arte da música. Natural do Espírito Santo, ainda menino recebeu de sua avó o seu primeiro violão, e foi nesse dia que sua paixão começou a criar forma. “Perceber que eu podia fazer aquilo também, é uma descoberta na qual minha mente tá no repeat até hoje, me fascina muito, e me lembro que com aquele violão no colo eu nunca me senti tão bem, belo e começando a me conectar com o que eu tinha de mais sutil em mim e no mundo.”

O cantor debate sobre como funcionam as mídias atuais e a maneiras que os negros sempre foram deixados de lado. “Se tirarmos da linha da história o que não foi criado por "artistas pretos", sobra bem pouco, e pelo que vejo esse pouco que resta não move a indústria, sobretudo no Brasil, onde somos maioria. Eu que sempre me pergunto, faz sentido termos gerações e gerações de invisibilização preta?” Frabriccio usa de perguntas para buscar respostas sobre o número de artistas negros e como o sistema valoriza a maioria, “Da pra acreditar que é algo que simplesmente aconteceu? A indústria e suas engrenagens se beneficiam disso de alguma forma? Não seria mais lucrativo e condizente com a realidade o contrário? A quem diga que é um raciocínio absurdo... E pelo jeito um perigo iminente caso esse embranquecimento pare.”

Fabriccio
Capa do álbum Jungle (Foto:Divulgação)

 

Nascido e criado em Vitória, Fabriccio veio para São Paulo e foi aqui que produziu seu primeiro álbum chamado Jungle. Apaixonado pela arte, o cantor promete continuar sua paixão pela música e ainda representar o povo negro da melhor forma possível, já que muitos esquecem de onde vieram. “Hoje além disso tudo é um trabalho pra mim, mas tento não esquecer que estou lidando com algo maior que eu, e tão misteriosa em seus fluxos como a própria vida. É preciso estar com os ouvidos e coração atentos.”