Em equipes de ponta do futebol brasileiro o fenômeno do atleta de base chama a atenção desde cedo, com atletas nativos de todas as regiões do país. Em clubes de menor estrutura, por outro lado, a pressão aparece de forma ainda mais direta: o sonho de jogar futebol caminha lado a lado com a vida escolar e a necessidade de ajudar em casa.
A dificuldade antes da profissionalização passa por uma alta concorrência, salários baixos e difícil conciliação com a escola.
O estudo “O futebol masculino brasileiro e a escolarização no processo de formação de jogadores”, publicado pela Universidade do Futebol em parceria com a Indústria de Base em 2019, revela que há aproximadamente 40.320 atletas de base estimados no Brasil. Destes, apenas 6,7% se tornam jogadores profissionais.
Igor Menezes, atleta do sub-20 do Barretos, confirma a dificuldade de equilibrar os estudos com os treinos: “A rotina é cansativa e os atletas costumam não prestar atenção na aula. Eu já estudei em oito escolas diferentes por conta dos clubes e quando você estuda em escola pública, você não liga pro estudo”. Menezes também afirma que são exceções os que conseguem estudar enquanto atletas de base.
Para Beatriz Césari, psicóloga e psiquiatra especialista em saúde mental, essa rotina desgastante e focada no alto rendimento pode trazer consequências para o adolescente no futuro: “O adolescente nesse contexto é cobrado além do que deveria. Isso, além da dificuldade nos estudos, pode acarretar problemas em relações interpessoais fora do futebol. Essa espécie de isolamento pode trazer uma série de problemas psicológicos”. Césari também discute os sinais que estes jovens apresentam de possível burnout ou ansiedade. Para ela, o principal é uma mudança repentina no comportamento: “ Se o treinador, por exemplo, reparar nessa mudança do adolescente é o momento de ligar a luz de emergência e buscar acompanhamento psicológico”.
Leonardo Biagioli, auxiliar técnico da base do Corinthians, destaca que seu cargo tem contato com as famílias dos atletas nesse contexto do dia a dia exaustivo: “eu dou muita liberdade para os meninos falarem sobre o que passam até irem para o clube e quando saem de lá”. Biagioli também explica que o acompanhamento psicológico nos grandes clubes começa somente no sub-17. Para Beatriz Césari esse acompanhamento deve existir desde a chegada do atleta ao alto rendimento, independentemente da idade.
Outra questão vivida pelos atletas de base são os problemas financeiros. Uma pesquisa divulgada pela plataforma CupomValido que reuniu dados da CBF, Statista e Ernst & Young, revela que 55% dos atletas profissionais recebem aproximadamente um salário mínimo por mês. Essa dificuldade, porém, aparece antes da profissionalização. Igor Menezes afirma ser a maior questão de um atleta de base: “A maior dificuldade que eu enfrento hoje é a pressão sobre mim mesmo quanto ao dinheiro. O fato de eu ter 20 anos e ganhar uma miséria, nem um terço de um salário mínimo é a minha maior pressão”.
Esse problema , além da pressão do jogador em si mesmo, também pode carregar tensões familiares. Um artigo da Universidade do Futebol revela que um número considerável de menores de idade são responsáveis pelo sustento da família e ajudam nas contas de casa.
Para Fernando Thomáz, professor graduado em ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP), essa problemática é uma regra dentro de um sistema de desigualdade estrutural muito específico do Brasil: “ Quando falamos de futebol de base, estamos falando, na maioria esmagadora dos casos, de meninos vindos de famílias de baixa renda. Nisso, a família inteira passa a investir simbólica e emocionalmente nesse único ativo, porque, dentro da lógica de desigualdade em que ela vive, esse é o caminho mais rápido, quase o único, de mudar de vida”. Thomáz também pontua que o filho assume um papel de responsabilidade adulta precocemente, o que é um problema, visto que o jovem ainda não tem repertório emocional para processar esse peso.
Beatriz Césari afirma que essa pressão, mesmo que indireta, imposta pela família também ajuda em futuros diagnósticos psicológicos: “O sonho, muitas vezes, é do adulto. Isso pode tornar o adolescente refém de uma imagem que não lhe define, o que gera um jovem distante de sua identidade”.
Apesar dessas dificuldades, muitos jovens mantêm vivo o sonho de seguir carreira profissional no futebol. Igor Menezes afirma que é indescritível a sensação de entrar em campo e ver pessoas torcendo pelo seu sucesso dentro do futebol: “ O futebol me proporcionou muita coisa na minha vida, como vivências de dormir em cama de madeira, em cama de cimento, comer comida ruim e crua durante meses. Eu carrego muito aprendizado”. Menezes também sustenta que não vai largar o futebol, mesmo com todas as questões: “ Eu cresci com isso, amo isso, e não tem como eu largar. Meu sonho é que minha família entre numa loja e tenha uma camiseta minha, com meu nome escrito lá, independente de qual seja o time, mas com meu nome escrito, onde possam falar, pô, é meu filho.”
Fernando Thomáz destaca que a frustração desse sonho é o ponto mais cruel de todo esse processo. Para ele, isso gera um luto particular, que leva o garoto de volta ao mesmo cenário de desigualdade de onde saiu: “A sociedade fala muito do sucesso raro que ‘deu certo’, mas quase nunca fala dos milhares que não conseguiram, e que carregam, junto com essa frustração pessoal, o peso de terem falhado com a própria família”.