“É uma tragédia atrás da outra”, diz jornalista ambiental sobre clima e ecocídio

Primeiro dia da semana de jornalismo da PUC alerta para tragédias socioambientais como projeto político do atual governo
por
Hadass Leventhal e Júlia Gomes Zuin
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08/06/2021 - 12h

 

Dois dias depois do Dia Mundial do Meio Ambiente, a PUC-SP inaugurou, no dia 11 de junho, a primeira noite da 43a Semana de Jornalismo, de tema “A Arte de Fazer Jornalismo e suas (Re) evoluções”, com a mesa “Clima, Ecocídio e Administração Pública: a Cobertura Jornalística Ambiental”. Mediado pelo professor Urbano Nobre Nojosa, o debate teve 176 espectadores e a presença de intérpretes de libras, tornando a discussão mais inclusiva. Entre os convidados estavam Luís Fernando Guedes, Diretor de Conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica, Daniela Gomes Pinto, coordenadora do Programa de Desenvolvimento Local do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV, e Mariana Della Barba, editora da Repórter Brasil.

Grande parte do debate foi sobre como o jornalismo ambiental opera atualmente. Em sua fala inicial, Daniela, ex-aluna da curso, alertou que a Amazônia sofre ameaças constantes por conta do modelo de desenvolvimento nacional voltado às commodities. Dessa forma, é impossível desvencilhar o ativismo climático do sistema econômico. “Quando a gente pensa em uma agenda de clima, a gente tem que pensar se nós temos condições de discutir e mudar esse paradigma de desenvolvimento econômico", situa Gomes.

Por esses motivos, a coordenadora ressaltou a importância da associação dos conceitos de agenda socioambiental e climática, elementos que são vistos como separados por muitos. “Meio ambiente não é clima”, pontua. “Mesmo que a gente resolva as questões climáticas, não vamos resolver questões antropológicas, como acesso a recursos hídricos, qualidade dos mesmos, proteção da biodiversidade e proteção da diversidade humana e cultural”. 

Daniela reconhece que a agenda climática vem avançando muito, mas percebe que vem desacompanhada de outros fatores socioambientais em seu progresso. Para ela, um exemplo a ser seguido é a chamada ESG (Environmental, Social and Corporate Governance). “São critérios para investimentos de bancos públicos e privados em que os bancos e investidores têm que olhar para as questões ambientais, sociais e de governança dos seus investimentos”. Essa nova visão das empresas representa uma expansão do olhar jornalístico sobre o tema. Em um país como o Brasil, onde a desigualdade social é predominante, é dever do jornalista, quando responsável por cobrir matérias sobre a agenda climática, evidenciar as questões socioambientais.

Em relação ao dever do jornalista de comunicar assuntos científicos, Mariana baseou seus argumentos no conceito de justiça epistêmica, que descreve como “equidade da concepção de conhecimento”. Já Daniela nota que, no que concerne ao meio ambiente, estamos acostumados às mesmas fontes de informação, notadamente sulistas. Consequentemente, as populações da Amazônia são tratadas como personagens ilustrativos para os fenômenos explicados por especialistas. 

Em meio àquilo que a coordenadora caracteriza como uma militância antiambiental e antissocial por parte do governo, coberturas jornalísticas superficiais beneficiam a narrativa de que acabar com esses indivíduos é necessário para o desenvolvimento econômico. “Estamos em um contexto dramático. Não há somente uma fragilização das instituições de proteção ambiental e social, mas também um ataque direto a elas. Hoje, o jornalismo é mais importante do que nunca para combater essas narrativas que a gente via no regime militar”. Portanto, é necessário que a comunicação promova conversas mais complexas e embasadas.

Para tal, os convidados defendem as mídias alternativas por conta de sua natureza investigativa e denunciativa. “O jornalismo independente cobre temas pouco discutidos pela imprensa tradicional”, avalia a editora da Repórter Brasil. A agência, conforme contou Mariana, vai “de ponta a ponta” em sua apuração. Sua investigação abrange os poderosos, sejam eles uma grande loja ou um governador, “sem medo de atingir ninguém, e sem nenhum interesse, como na grande imprensa”. Para ilustrar seu pensamento, ela citou sua abordagem com as cadeias produtivas que investiga: “Vamos desde à terra indigena que está sendo destruída, passando pelo trecho da floresta está sendo devastado, até chegar nos grandes produtores, como, por exemplo, a JBS”. 

Para Mariana, atualmente, cobrir questões como esta é como um cenário de guerra. Ela comenta que é preciso ser corajosa, pois há muitas repressões de vários lados, assim como várias tragédias. "Não é uma coisa simples, às vezes sinto como se estivesse enxugando gelo. Mas, ao mesmo tempo, é muito animador ver tanta gente interessada e vários veículos querendo cobrir esse tipo de tema”. 

Em suas matérias da Repórter, com a tentativa de engajar com um público maior, Mariana procura publicar informações em formato de vídeo e conforme outros métodos para, por exemplo, atingir um grupo mais jovem. Ademais, demonstra em suas produções como todo caso influencia, de algum modo, na vida do leitor. Assim, o consumidor se identifica com a matéria e passa a vê-la  com outros olhos.

Além de discutirem o papel da cobertura ambiental jornalística nos dias de hoje, os convidados exploraram os rumos que o jornalismo, como agente de transformação social, pode e deve seguir. Como exemplo, Mariana citou a vez que, em parceria com o UOL, publicou uma matéria expondo um dos fornecedores de carne do Pão de Açúcar e do Carrefour por destruir uma terra indígena com seu gado. No mesmo dia em que veiculou as informações, os dois supermercados citados no texto cancelaram sua parceria com o fornecedor. “A gente busca responsabilizar todo mundo que está envolvido nessa cadeia produtiva”.

A jornalista incentiva que estejamos atentos à agenda climática e prontos para questioná-la a qualquer momento. “Isso vai servir a quem? Como vamos fazer isso? Quem está tomando as decisões? Quais serão as medidas aplicadas?”, indaga. Mariana acredita que o jornalismo ambiental vai se tornar um assunto popular no futuro próximo devido à sua importância. Entretanto, recomenda aos profissionais e estudantes de comunicação reconhecerem que o jornalismo não tem o poder de salvar tudo. “Não falo isso para desanimar ninguém, mas, se todo mundo ajustar essas expectativas, teremos mais forças para continuar”.

Diferentemente de Mariana, Daniela mantém-se otimista com relação ao potencial do jornalismo de mudar o mundo. “O jornalismo ainda movimenta muitos governos no geral, mesmo que não movimente este governo específico. O Estado brasileiro e as empresas se preocupam com a sua reputação”. 

Apesar da discordância, as convidadas compartilham da opinião de que é necessário romper com estereótipos sobre a vida no campo e nas florestas através da informação. Mariana observou que a Repórter Brasil tenta trazer o impacto dos conflitos no campo para o resto da população porque, muitas vezes, “as pessoas não têm consciência”. Desse modo, a organização visa mobilizar o engajamento da sociedade ao providenciar o material para debate. Similarmente, Daniela estimula a disseminação de informações precisas por todos os meios, pois, segundo ela, notícias bem desenvolvidas chegam na política, como no caso dos twitteiros na Comissão Parlamentar de Inquérito da COVID-19.

Mobilizar o público a agir contra o sistema com o qual estão acostumados não é uma tarefa fácil, mas Mariana celebra suas pequenas e grandes vitórias. “O jornalismo não tem poder de salvar tudo, mas vou fazer minha mini parte, que já é bastante”. A jornalista orgulha-se quando suas matérias deixam os leitores indignados, pois considera que está cumprindo seu papel. Além de pressionar o poder público a proteger territórios indígenas e parques ambientais, seu jornalismo providencia ferramentas para o público fazer o mesmo.

Os três palestrantes concordaram que vivemos um momento de retrocesso sob a atual administração federal, conjuntura que reforça a importância do jornalismo de qualidade. Diante das falas de Luis Fernando sobre o potencial catastrófico das mudanças climáticas e a negligência da sociedade civil para com o aquecimento global, Mariana assegura que seguirá resistindo. Em nome dos jornalistas ambientais, concluiu que a única alternativa possível é manter a esperança. “É nossa obrigação continuar, porque esse governo quer ver a gente desistir”.