Dinheiro na mão de pessoas negras consolida projetos contra-hegemônicos

Iniciativas criadas por pessoas negras auxiliam a colocar negros em espaços que contrariam a subserviência forjada ao longo da história
por
Julio Cesar Ferreira e Danilo Zelic
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02/10/2020 - 12h

“No Brasil há estereótipos de pobreza e ignorância, então empoderar pessoas pretas para terem conhecimento sobre finanças, economia e investimentos, com certeza é um ponto importante para mudar esses estigmas racistas”, afirma Alan Soares, idealizador do Boletinhos. Em entrevista realizada por meio de mensagens de e-mail, Alan Soares, publicitário, 24, conta que decidiu criar o Boletinhos, um perfil no Instagram, como forma de ajudar as pessoas a lidarem melhor com seu dinheiro.

“Eu sempre gostei de cuidar do meu próprio dinheiro, estudar sobre finanças e economia, como um interesse pessoal mesmo, nada profissional.”, acrescentando que: “A maioria dos conteúdos sobre finanças que chegavam até mim eram de coaches que prometiam o 'primeiro milhão antes dos 30', um discurso que eu não gosto. Procuro ser o mais pé no chão dentro do Boletinhos.”

Alan Soares
Alan Soares, criador do Boletinhos. (Reprodução Instagram)

Para ele, falar sobre finanças de uma forma fácil e didática é essencial. “Acho que todos os assuntos deveriam ser democratizados - traduzidos em linguagens mais acessíveis.” Pois para o publicitário, “Enquanto o conhecimento fica restrito a uma elite intelectual, ele se mantém como um instrumento de controle social. E ensinar as pessoas sobre dinheiro quebra muitas dessas barreiras de dominação.”

Ele pontua a importância de negros saberem lidar com o dinheiro, sobretudo para subverter o inconsciente coletivo. Em seu projeto de dissertação de mestrado, que está aguardando a aprovação, ele busca discorrer sobre o Afrofuturismo e o Imaginário do Negro no Futuro. “O Afrofuturismo é um movimento que quer mudar o inconsciente coletivo sobre o negro”, disse ainda que: “No Brasil há estereótipos de pobreza e ignorância, então empoderar pessoas pretas para terem conhecimento sobre finanças, economia e investimentos, com certeza é um ponto importante para mudar esses estigmas racistas.”

“Nunca pensei que pudesse ajudar tanta gente. E fico mais feliz ainda vendo quanta gente preta segue o Boletinhos e aprende sobre finanças com ele”, adicionando também que é, “Algo tão negado à população em geral, e mais ainda às pessoas pretas.”

Boletinhos.
        Conta do Boletinhos no Instagram (Reprodução Instagram)

Por outro lado, há negros que não falam de finanças, mas buscam empreender. Atualmente no Brasil, há várias iniciativas privadas que visam contribuir para o empreendedorismo negro. Como por exemplo, a Feira Preta e o Movimento Black Money, que possibilita a conexão entre empreendedores negros e comunidade negra, buscando fortalecer o afroconsumo. 

O levantamento realizado pelo Global Entrepreneurship Monitor, em 2017, mostra que a população negra representa 51% dos empreendedores do país. Mas outro dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) expõe que 64,6% dos desempregados no país são negros. O que contribuiu em pensar que empreender acaba sendo a única saída para essa população.

Já o empreendimento idealizado pelos irmãos Daniel, 30 e Diego Dias, 33 e com a ajuda do primo, Thiago Rosário, resultou na criação da Cervejaria Implicantes, que iniciou de uma produção caseira, em que apenas conhecidos pudessem desfrutar do produto, para algo amplo e que abordasse a principal causa da marca: a representatividade e a luta contra o racismo. 

A falta de representatividade e o gosto por cerveja artesanal, sucedeu na criação da Implicantes, marca negra, que luta contra o racismo por meio de rótulos com figuras importantes dessa luta, e principalmente, porque é criada por pessoas negras. Eles criaram a marca porque, ao frequentarem espaços cervejeiros, não se sentiam representados e pertencentes do local. 

Idealizadores Implicantes.
Thiago Rosário (esquerda) Daniel Dias (centro) e Diego Dias (direita), idealizadores da Cervejaria Implicantes. (Acervo Pessoal)

Em entrevista feita por meio de áudios, Diego falou que outras marcas de cerveja já tentaram, de algum modo, praticar a representatividade, mas na maioria das vezes não era nada favorável. “Geralmente com figuras caricatas, ou termos pejorativos. Então muitas vezes ficava complicado nós consumirmos aquele produto, porque nós íamos estar validando uma ideia totalmente equivocada”.

Frases como: "Por que a gente fala que é a primeira cerveja negra?” e “Talvez seja vitimismo'' eram escutadas por eles. Para contrapor essas falas, Diego argumenta que: “A gente queria representar o nosso povo que não se sente à vontade, queríamos mostrar para pessoas iguais a nós, que tem uma cervejaria que não vai trazer somente o rock; uma cultura que é de branco, cis e hétero.” 

Rótulos Implicantes
Rótulos das cervejas da Implicantes, com as figuras negras: Maria Firmina dos Reis (esquerda) Luís Gama (centro) e Leônidas da Silva (direita). (Reprodução Instagram)

Em outro momento, falam sobre como a população negra reage a marca, Diego diz que o sentimento não poderia ser melhor. “A gente chega a se emocionar. Viram que era realmente uma cervejaria que lutava por eles”. A reação e a busca por criação dentro da marca, proporcionou a produção de produtos exclusivos. 

Diego ainda fala que: “A pegada e a essência da Implicantes, é pelo Black Money. Nós não vendemos somente para pretos, mas nos nossos eventos a gente traz de preferência pessoas pretas, afroempreendedores, para que possam fortalecer”.