O basquete, que já havia sido o principal esporte norte-americano, vê cada vez mais a audiência e o interesse pela modalidade caírem. Desde o início da temporada de 2024/2025 o número de telespectadores já caiu 30% em relação à temporada anterior. Os números são ainda mais avassaladores em relação a 2012, onde houve uma queda de 45% na audiência durante esses 13 anos.
De acordo com uma pesquisa realizada pelo portal de notícias Sportico, dentre os 100 eventos televisivos mais assistidos nos Estados Unidos em 2024, nenhum foi um jogo de NBA. O mais impressionante é a presença de 72 jogos da NFL nessa lista, além de um jogo da WNBA, liga de basquete feminino, o que pode indicar que o problema não seja o esporte em si, mas a liga masculina de basquete que não está atrativa para o público.
Um evento que atesta o estado da NBA é o All-Star Game. Jogo que tradicionalmente reúne os melhores jogadores da liga para disputarem um jogo amistoso entre si. O evento que já foi um dos mais aguardados dos esportes, hoje não tem mais o mesmo brilho de antes. Os jogadores parecem desinteressados e sem competitividade para jogar, além de “pegarem mais leve” com medo de se lesionarem. O astro do Los Angeles Lakers, LeBron James, se posicionou sobre a queda de audiência do All-Star Game e da NBA como um todo: "Eles têm que fazer algo. Obviamente, nos últimos anos o All-Star Game não foi legal. É uma conversa muito maior. Não é só o All-Star Game, é nosso jogo em geral. Temos que ter uma conversa. São bolas de três para c** sendo arremessadas por jogo”.
João Dannemann, administrador do Camisa 23, uma das maiores páginas de basquete fora dos EUA, entende que a NBA tem problemas, mas não está em crise. “Não acho que a palavra ‘crise’ seja apropriada. Acho que a NBA nunca vai viver uma crise de audiência ou de jogo, visto que a marca é muito forte globalmente, ao contrário da NFL que é mais nixada nos Estados Unidos.”. Apesar de não reconhecer como crise, ele entende sim que a liga vem perdendo visibilidade no mercado americano e tem ficado para trás de outros esportes, como o futebol americano.
Sendo crise ou não, a liga está com problemas de audiência e esses são os principais motivos para isso estar acontecendo:
Domínio estrangeiro na NBA
A temporada 2024/25 da NBA possui o recorde de estrangeiros na liga,125 jogadores estrangeiros de 43 nacionalidades diferentes. Além da quantidade numerosa de estrangeiros, muitos deles também se tornaram os principais nomes da liga. Dos últimos seis vencedores do prêmio de MVP, três eram de fora dos Estados Unidos: Giannis Antetokounmpo, Joel Embiid e Nikola Jokic. E desde a temporada 2018/2019, ao menos cinco jogadores estrangeiros integraram os times do All Star Game. O último MVP da NBA, foi o norte-americano Jaylen Brown, que nesta atual temporada não performa em nenhuma das estatísticas da liga, já Jokic e Antetokounmpo, dois dos últimos três MVP's estrangeiros da NBA, aparecem em várias dessas estatísticas. Essa oscilação de uma figura estadunidense no topo da liga, após era Lebron e Curry, e com a ascensão de estrelas estrangeiras, faz com que os telespectadores norte-americanos não tenham alguém do mesmo país como referência atual em um esporte que por muitos anos foi o maior de sua nação.
Temporada cansativa
O formato atual da NBA também pode afastar os telespectadores da liga. Diferente da NFL, que vem tendo uma ascensão gigantesca de espectadores, a NBA possui 65 jogos a mais, só na temporada regular, que a liga de futebol americano. As duas ligas dividem os times em conferências e divisões, por conta do grande tamanho territorial dos Estados Unidos, tendo 2 conferências e 3 divisões na NBA e 4 na NFL. Mesmo com estrutura parecida, o calendário de jogos é totalmente diferente. Na NBA cada equipe disputa 82 jogos, 41 em casa e 41 fora. As equipes da Conferência Leste enfrentam os times da Conferência Oeste duas vezes durante a temporada regular. Dentro da divisão, que é criada de acordo com critérios geográficos, os times se enfrentam quatro vezes. E com rivais da mesma conferência, mas de divisões diferentes, são feitos três ou quatro jogos. Já a NFL opta por um calendário mais simples, com apenas 17 jogos na temporada regular, com direito a uma semana de folga durante a temporada, a “Bye week”.
Esses 17 jogos são divididos com 6 jogos dentro da sua divisão, com três disputados em casa e três fora, 4 serão contra uma divisão dentro da sua conferência, com dois em casa e dois fora, 4 serão contra uma divisão da conferência oposta, com dois em casa e dois fora, 2 jogos serão contra franquias que terminaram exatamente na mesma posição no ano anterior dentro das outras duas divisões da sua conferência que restaram, com um jogo em casa e outro fora e o último jogo é contra um time que ficou na mesma posição na temporada anterior em alguma divisão da conferência oposta que o time não está programado para jogar. Nos playoffs de ambas competições possuem a mesma quantidade de confrontos, porém não de jogos; isso ocorre pois cada confronto de playoff na NBA é decidido em até 7 jogos, ou seja, quem ganhar 4 jogos primeiro se classifica, já na NFL é decidido em jogo único. Essa quantidade excessiva de jogos na NBA, e repetição de adversários durante toda a temporada faz com que, para o espectador, fique muito massante de assistir, diferente da NFL, que fica muito mais dinâmica e emocionante, pois cada jogo se torna mais “único”. João Dannemann confirma essa falta dos jogos serem mais exclusivos; “ Oitenta e dois jogos é muita coisa. Para o público médio é ruim porque acaba tirando um pouco da importância da maioria desses jogos”.

Grandes Intervalos Comerciais
Na era moderna da NBA, com o produto da liga cada ano se valorizando, a liga também ganha uma maior visibilidade para marcas. Com isso, junto do aumento do número de transmissões, com todos os 2 mil quatrocentos e sessenta jogos de temporada regular sendo transmitidos, a duração de um jogo médio aumentou drasticamente comparada com a dos anos 90. O dinamismo do jogo de basquete deu lugar para propagandas que atualmente compõe a maioria do tempo de uma transmissão média, seja ela local ou televisionada nacionalmente. A duração regulamentar de um jogo é de 48 minutos, dividido em 4 tempos de 12, mas nas transmissões atuais esses 48 minutos se estendem, em média, por 2 horas e 13 minutos. Esse levantamento do padrão de tempo de um jogo foi feito pelo The Hoops Geek, portal americano, para a temporada 2021/22. Em jogos de Play-off, em que as partidas possuem maior visibilidade, esse tempo aumenta para 2 horas e 25 minutos.
O problema dos três pontos
Talvez a maior reclamação dentro da comunidade que consome NBA é que o jogo atual tem pouco dinamismo e é dominado pelas bolas 3. A linha de 3 pontos foi introduzida na liga em 1979, mas era bem pouco aproveitada. No jogo da época, existiam poucos bons arremessadores e a Liga era composta, em sua maioria, por jogadores altos que dominavam o garrafão. Armadores como Magic Johnson conseguiam se impor na NBA pelo físico e atleticismo. Nos anos 90, a Liga diminui a a linha de 7,25 metros da cesta para 6,71, e nos anos 2000, a técnica de usar posses para chutar pra 3 se tornou comum, com jogadores como Tracy McGrady, Ray Allen e Steve Nash aparecendo como protagonistas da liga como grandes armadores com ótimo aproveitamento no Mid-Range e na linha de 3. Mas foi com a ascensão de Stephen Curry e do Golden State Warriors que o jogo de basquete na NBA mudou completamente. Já tendo conquistado um título no ano anterior, o Warriors terminou a temporada 2015/16 como o melhor time da história da temporada regular, construindo um recorde de 73 vitórias e apenas 9 derrotas e conseguindo um aproveitamento de 41.6% na cesta de 3, mesmo com uma média de mais de 31 arremessos tentados por jogo. Curry, que nessa temporada foi eleito de forma unânime o MVP, foi o jogador com mais arremessos certos de 3 numa mesma temporada regular, com 402. Após o Warriors aparecer como um time tão dominante e montar uma dinastia nos próximos anos, o modo de se jogar da NBA se transformou de um jogo físico para um jogo que era necessário saber chutar. Os pivôs não podiam ser apenas imponentes, mas teriam que também saber chutar e armar jogadas.