Olinda, reconhecida como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco e identificada pelas autênticas festas populares no carnaval, recebeu mais de 4 milhões de foliões neste ano (2025). Essa celebração, que tem suas raízes na resistência e identidade popular, representa grupos africanos e indígenas que deram forma a um dos carnavais mais tradicionais do Brasil.
O carnaval, apesar de ser organizado sob a responsabilidade da Prefeitura Municipal de Olinda, tem como protagonismo a participação popular. Em sua origem, no século XIX, festas populares como o entrudo – um tipo de brincadeira de rua em que as pessoas jogavam uns nos outros farinha, baldes de água, luvas cheias de areias etc. – deram lugar a blocos organizados, clubes de frevo, trocas carnavalescas e o maracatu, que estão vivos até hoje.
Com diferentes tipos de festas, como o tradicional clube de frevo “Vassourinhas de Olinda”, as Troças Carnavalescas como “Eu Acho É Pouco”, Clube do boneco com a famosa “Corrida dos Bonecos Gigantes” e o Maracatu, o carnaval acontece gratuitamente nas ruas, sem sambódromos, cordões de isolamento ou trios elétricos segregando as pessoas.
O jornalista Leokarcio Cavalcanti, pós-graduado em estudos cinematográficos, tem 31 anos e usa da riqueza cultural olindense para criar conteúdos no Instagram e Youtube, conhecido pelo nome de Anfitrião de Olinda. Nascido em Timbaúba, na Zona da Mata, norte de Pernambuco, morou a maior parte da vida em Olinda. Ele comenta sobre a essência popular da festa: “A principal característica dessa festa é ser de rua, feito pelo povo. Qualquer um pode brincar, seja rico ou pobre”.
Além disso, o frevo e o maracatu são não apenas símbolos da cultura pernambucana e do carnaval, mas também resistência de grupos reprimidos de uma cidade histórica, que possui a religião de matriz africana e indígena em sua construção. Leokarcio acrescenta que “O batuque do frevo e do maracatu eram marginalizados pela elite, sendo motivo de detenção policial. Assim, os grupos artísticos enxergaram sua entrada no carnaval como uma tentativa de sobrevivência”.
Segundo o jornalista, o frevo surgiu no Recife no final do século XIX, com a abolição da escravatura e a Proclamação da República, derivado de uma mistura de ritmos musicais, como o gênero “dobrado”, vindo das marchas militares europeias, e do grupo “fanfarras”, músicos que tocam instrumentos de metal. A manifestação musical foi criada pelos especialmente pelos homens, negros, escravos recém libertos que encontravam no Carnaval de rua sua resistência.
De acordo com o historiador Mario Ribeiro, devido as brigas e resistências do povo com os movimentos da capoeira durante as festas, o governo proibiu esse esporte. Quando os escravos estavam jogando capoeira na rua e chegava um militar, eles trocavam os movimentos, surgindo, assim, o passo do frevo. A influência da capoeira no passo é perceptível até hoje, no movimento corporal da dança e no nome dos passos. Com uma música de ritmo acelerado, a palavra “frevo” tem origem em 1907, vem do verbo “ferver” e faz associação a como as pessoas dançavam nas ruas, como se estivessem em ebulição.

A mistura de ritmos, quando somado o povo e a sua diversidade, fez do frevo uma expressão cultural singular, e de grande relevância para o carnaval. Sua contribuição sociocultural é tanta, que teve reconhecimento como Patrimônio Imaterial do Brasil, pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) e como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, pela Unesco.
Outra manifestação cultural que marca o Carnaval de Olinda é o maracatu. Dividido em duas principais vertentes, o maracatu nação (ou baque virado) e o maracatu rural (ou baque solto), essas tradições também têm raízes na cultura ancestral. Manifestação cultural performática criada para homenagear os Reis do Congo, no qual um cortejo real, composto por rei, rainha, príncipes, princesas, figuras da nobreza, vassalos, baianas, dentre outras personagens, desfilam pelas ruas de Recife e Olinda. O maracatu executa uma dança específica e é acompanhado por uma orquestra percussiva, composta por instrumentos como alfaias (tambores grandes), caixas e taróis, gonguê e ganzás. Este representa uma cultura negra ancestral, presente na região metropolitana do Recife desde o século XIX, com as antigas nações de escravos africanos. Em sua maioria, possuem vínculo religioso com as religiões de matriz africana, como o candomblé.

Já o maracatu rural, influenciado pela cultura afro-indígena, teve sua origem nas áreas onde foi consolidada a economia açucareira e possui forte presença na Zona da Mata, norte de Pernambuco. Desfilam em cortejo sob a orientação do apito do mestre e sua música apresenta instrumentos percussivos e de sopro. Trata-se de uma manifestação do sobrenatural, em que entidades protetoras são invocadas, em rituais de umbanda, para que propiciem aos brincantes do maracatu sucesso nas suas andanças.

Leokarcio ressalta que “o frevo e o maracatu existem no carnaval de Olinda não apenas como grandes símbolos da nossa cultura, mas como resistência de uma cidade histórica, que, até os dias de hoje, sente as consequências da escravidão, formada em grande parte por descendentes de pessoas escravizadas. Naturalmente existe uma grande relação dos moradores da cidade na manutenção do frevo e do maracatu pela própria identificação cultural".
Assim, o carnaval de Olinda vai muito além de uma simples festividade. É uma manifestação viva da história, da resistência e da identidade popular. Com raízes nas tradições dos povos africanos e indígenas, o frevo e o maracatu expressam a luta e a criatividade de um povo que transformou a rua em palco de afirmação cultural. No pulsar do frevo e na cadência do maracatu, a cidade reafirma mais um ano seu compromisso com a memória coletiva e com a liberdade de expressão, fazendo do carnaval uma celebração da liberdade, identidade e cultura.