Gucci e Prada são destaques em Milão 2026

Das novas direções criativas às tendências que dominaram as passarelas.
por
Liz Ortiz Fratucci
Nina Januzzi da Gloria
|
04/03/2026 - 12h

De 24 de fevereiro a 2 de março, a Semana de Moda de Milão Outono/Inverno 26-27 evidenciou um momento de transição criativa em casas históricas, com direções artísticas recém-estabelecidas redefinindo códigos de identidade, produto e posicionamento.

Na Fendi, a estreia de Maria Grazia Chiuri valorizou o trabalho artesanal que é marca registrada da casa italiana. Peças em couro, tecidos encorpados e cortes muito bem feitos reforçaram essa tradição. Casacos longos, saias na altura do joelho e bolsas estruturadas mostraram uma moda sofisticada, mas pensada para ser usada no dia a dia. A coleção equilibrou elegância e funcionalidade.

 

Fendi FW26. Foto: Divulgação/Fendi

Fendi FW26. Foto: Divulgação/Fendi
 
Fendi FW26. Foto: Divulgação/Fendi
Fendi FW26. Foto: Divulgação/Fendi

 

Um dos momentos mais comentados desses três primeiros dias aconteceu na Prada. O desfile apresentou 60 looks com apenas 15 modelos, cada uma entrando quatro vezes na passarela. As produções eram construídas em camadas, como uma cebola: várias peças sobrepostas que iam sendo retiradas nos bastidores, revelando novas combinações a partir da mesma base. 

A ideia, de Miuccia Prada e Raf Simons, era mostrar como uma mesma roupa pode se transformar ao longo do dia, acompanhando diferentes momentos. Em um período em que muitas produções parecem descartáveis por causa da velocidade da internet, a Prada defendeu a ideia de continuidade e versatilidade, mostrando que a moda pode ser adaptável sem perder identidade.

 

Prada FW26. Foto: Divulgação/Prada
Prada FW26. Foto: Divulgação/Prada
Prada FW26. Foto: Divulgação/Prada
Prada FW26. Foto: Divulgação/Prada

Demna Gvasalia fez sua estreia como diretor criativo da Gucci na temporada. Em setembro do ano passado, ele já havia apresentado sua primeira coleção para a marca, de apenas 37 looks mostrados por meio de um lookbook e fashion film estrelado pela atriz Demi Moore. Essa coleção teve como proposta criativa uma brincadeira com a construção dos arquétipos dos consumidores da marca através das imagens.

Demna, conhecido por seu trabalho na Balenciaga e na Vetements, sua marca autoral que deixou a direção em 2019. O designer ficou conhecido e se popularizou com a geração Z, por utilizar da ironia e do exagero como formas de realizar críticas à cultura. 

Desde a saída do diretor criativo Alessandro Michele em 2022, a Gucci anda enfrentando uma grande queda nas vendas. O diretor que assumiu o lugar de Michele em 2023, Sabato de Sarno, acabou não atingindo as expectativas dos clientes por trazer um estilo mais minimalista e pouco disruptivo aos seus designs, que era o oposto ao que o Alessandro Michele construiu em seus 8 anos à frente da marca.

No momento em que a marca anunciou Gvasalia como novo diretor criativo, a escolha sinalizou algo muito específico: não se tratava apenas de trocar a estética apresentada por De Sarno, mas de recuperar relevância simbólica e o impacto midiático.

Quando a marca perde grande parte do seu movimento comercial, é comum a tentativa de resgatar os elementos da sua era com maior força simbólica e impacto cultural. Na Gucci, essa era foi a de Tom Ford. No período em que Ford assumiu o comando artístico da grife, ela estava passando por um momento de quase falência e que conseguiu ser revertido com a criação de uma identidade clara, provocativa e que evocava sensualidade e poder. 

 No desfile apresentado em Milão na sexta-feira (27/02), o novo comandante criativo fez uma clara ode a essa fase da label.

Em uma passarela preta com um feixe de luz branca, o designer aproveita para explorar a sensualidade e supervalorizar a estética física. O casting masculino é também formado por homens musculosos, o que não é o padrão para as passarelas, mas era algo que Tom Ford trazia nos anos 90. As peças, extremamente justas, usaram como acessório esses corpos atléticos, moldados por jaquetas de couro, camisetas apertadas e calças metalizadas. As modelos mulheres vestiam jeans ajustados, saias midi, vestidos cintilantes e caminhavam como se tivessem acabado de sair de uma noitada. 

Em entrevista ao New York Times, Gvasalia afirma que sabe que todos estão esperando sua versão de moletom da Gucci, mas  diz que isso é exatamente algo que ele não faria. 

Kate Moss voltou à passarela da Gucci, em um momento simbólico para a marca, que também trouxe Fakemink e Nettspend, nomes do Plugg,  gênero musical queridinho da Gen Z. 

 

Gucci FW26. Foto: Divulgação/Gucci
Gucci FW26. Foto: Divulgação/Gucci
Gucci FW26. Foto: Divulgação/Gucci
Gucci FW26. Foto: Divulgação/Gucci

 

Louise Trotter apresentou sua segunda coleção como diretora criativa de Bottega Veneta, em que mostra um direcionamento claro para a marca. Se na sua primeira temporada de verão para a grife, a estação trouxe muito branco e leveza, agora, na sua primeira temporada de inverno, traz silhuetas grandiosas e estruturadas que vão se transformando em texturas fluidas, e cores que vão dos tons mais neutros aos mais vibrantes em poucos minutos de desfile.

Os looks de abertura eram estruturados e, com o desenrolar do ato, os ombros rígidos foram se transformando em pelugem e texturas orgânicas.

Além das novas abordagens do clássico Intrecciato, a líder da maison explorou superfícies. Jaquetas e casacos foram confeccionados em fibra de vidro reciclada, que trouxe um efeito luminoso 

Os tons neutros do início foram dando espaço a intervenções de cobalto, amarelo e rosa que encerraram a coreografia de Trotter com energia e ritmo.

 

Bottega Veneta FW26. Foto: Divulgação/Bottega Veneta
Bottega Veneta FW26. Foto: Divulgação/Bottega Veneta

 

Bottega Veneta FW26. Foto: Divulgação/Bottega Veneta
Bottega Veneta FW26. Foto: Divulgação/Bottega Veneta

Na Ferragamo, o diretor criativo Maximilian Davis revisitou a década de 1920, período de nascimento da marca. O momento conhecido como “anos loucos” já foi um tema abordado em sua última coleção para a marca.

O desfile aconteceu no museu Triennale di Milano, onde cortinas de veludo azul marinho e iluminação baixa criaram uma atmosfera que remetia a um speakeasy (bares clandestinos durante a Lei Seca nos Estados Unidos).

A coleção começa com uma homenagem às roupas dos marinheiros, que representam as travessias e os novos começos. Davis faz um paralelo entre sua história e a de Salvatore Ferragamo, já que tanto sua família quanto a do fundador da grife passaram por processos migratórios em busca de oportunidades.

A releitura dos uniformes náuticos foi feita de maneira desconstruída, com botões deslocados, aberturas intencionalmente soltas, fitas com amarração cruzada e detalhes na gola.

Os acessórios acompanham essa conversa entre eras: a icônica Ferragamo Hug bag é atualizada em tamanhos maiores, variações cromáticas e texturas luxuosas, enquanto uma nova silhueta de bolsa East-West e opções utilitárias reforçam a funcionalidade da coleção.

 

Ferragamo FW26. Foto: Divulgação/Ferragamo
Ferragamo FW26. Foto: Divulgação/Ferragamo

 

Ferragamo FW26. Foto: Divulgação/Ferragamo
Ferragamo FW26. Foto: Divulgação/Ferragamo

Entre as tendências que já apareceram estão o uso de camadas, com casacos sobre vestidos e blazers sobre tricôs; cores mais fechadas, principalmente preto e tons escuros; a alfaiataria estruturada, com cortes precisos; e referências dos anos 1990, como couro, vestidos ajustados e um visual mais minimalista. No styling, as golas das camisas surgem para fora dos blazers propositalmente apenas de um lado, criando uma assimetria divertida que quebra a alfaiataria clássica em desfiles como o da Bottega e da Ferragamo.

Bottega Veneta FW26. Foto: Divulgação/Bottega Veneta
Bottega Veneta FW26. Foto: Divulgação/Bottega Veneta
Ferragamo FW26. Foto: Divulgação/Ferragamo
Ferragamo FW26. Foto: Divulgação/Ferragamo

 

Na beleza, a maquiagem destacou olhos bem esfumados, enquanto os cabelos apareceram levemente desalinhados, com aparência mais natural. A combinação trouxe equilíbrio entre impacto e leveza.


 

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