Custo para completar álbum da Copa do Mundo pode passar de R$ 7 mil

Número maior de cromos e reajuste nos preços elevam custo da coleção de 2026; mesmo com queda na procura, vendas ainda movimentam bancas de jornal pelo país
por
Ana Clara Souza
Júlia Polito
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22/05/2026 - 12h

O custo para completar o álbum oficial da Copa do Mundo de 2026 aumentou esse ano e pode ultrapassar os R$ 7 mil reais. Além do crescimento no número de cromos, os preços dos álbuns e pacotes também ficaram mais altos em comparação à edição de 2022. De acordo com o economista Rodolfo Viana, formado pela PUC–SP, em entrevista à AGEMT, o valor elevado está ligado à uma hipótese de probabilidade. “Supondo que a pessoa não faça trocas de figurinhas repetidas e vá comprando pacotes até conseguir probabilisticamente todas as 980 figurinhas necessárias para completar o álbum. Chegaria por volta de 7 mil reais”, explica Rodolfo. 

Segundo o especialista, apesar da percepção de aumento expressivo, o preço das figurinhas sofreu uma alta relativamente pequena quando descontada a inflação do período. Em 2022, cada pacote custava R$ 4 e vinha com cinco cromos, cada unidade saia por cerca de R$ 0,80. Atualmente, os envelopes são vendidos a R$ 7 com sete unidades, média de R$ 1 por cromo, um aumento de cerca de 4,64%. Um dos impactos no bolso dos colecionadores está no aumento da quantidade de figurinhas necessárias para completar o álbum. Na edição do Catar, eram 670 cromos. Agora, o número saltou para 980, um crescimento superior a 46%. A ampliação acompanha o aumento de seleções participantes da Copa do Mundo de 2026, organizada pela FIFA.

Além das figurinhas, os próprios álbuns ficaram mais caros, de acordo com Rodolfo, “A versão capa mole passou de R$ 12 para R$ 24,90, aumento nominal de mais de 107%. Já o modelo capa dura subiu de R$ 44,90 para R$ 74,90, alta de 68,8%, bem acima da inflação registrada no período. Mesmo com alta nos preços, a procura pelos produtos movimenta bancas de jornal e pontos de venda espalhados pelo país. Proprietário de uma banca há quase duas décadas, o jornaleiro Antônio Pereira da Silva afirma que o álbum continua despertando interesse de colecionadores de diferentes idades e ajuda a aumentar o seu rendimento no final do mês, apesar da menor procura esse ano relatada por ele. “A Copa ajuda demais. Esse primeiro mês realmente facilita a pagar as contas que ficaram para trás”, diz Antônio. 

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(Foto/Reprodução: Júlia Polito)

Segundo ele, a sensação de movimento menor nas bancas não significa necessariamente queda nas vendas totais do álbum, mas sim uma mudança na forma de consumo. “Antes era um produto especificamente da banca de jornal. Hoje você vê internet, mercado, bar, todo mundo vendendo. Então, para nós, de banca, ficou mais fraco”, explica. Antônio também aponta que alguns concorrentes oferecem facilidades de pagamento, como compra com vale-refeição, o que impacta diretamente o faturamento dos jornaleiros tradicionais.

Ainda assim, o colecionismo segue atraindo consumidores de diferentes faixas etárias. De acordo com Antônio, o público que mais investe nas figurinhas hoje é formado principalmente por jovens adultos entre 20 e 30 anos, além de universitários. “As crianças vêm junto com os pais e os avós, mas quem mais gasta mesmo é essa galera mais adulta”, relata.

Para o economista Rodolfo Viana, o hábito de colecionar está diretamente ligado à forte relação cultural do brasileiro com o futebol. Apesar disso, ele alerta para o peso financeiro que a brincadeira pode representar no orçamento familiar. “Se a pessoa realmente gastar algo próximo de R$ 7 mil para completar o álbum, estamos falando de um valor equivalente a quase oito cestas básicas em São Paulo”, afirma. Segundo dados do DIEESE citados pelo especialista, a cesta básica na capital paulista custava R$ 883,94 em março deste ano.

O especialista também destaca que o valor estimado considera um cenário extremo, sem trocas de figurinhas repetidas, prática tradicional entre colecionadores e que reduz significativamente os custos finais. Ainda assim, o aumento no número de cromos e o reajuste acima da inflação em alguns produtos oficiais fizeram da edição de 2026 uma das mais caras da história da Copa do Mundo.

A estudante Amanda Ferreira, frequentadora assídua da banca de Antônio, afirma já ter gasto mais de R$ 4 mil com a coleção e acumulado cerca de 3 mil figurinhas repetidas. “Eu já completei o álbum, mas continuo comprando para trocar e vender”, conta. Segundo ela, algumas figurinhas raras chegam a ser negociadas por até R$ 15 entre colecionadores, especialmente as versões brilhantes e especiais de jogadores famosos. “Tem gente que coloca o preço lá em cima porque a procura está muito grande”, diz.

Amanda relata que conseguiu arrecadar mais de R$ 200 em um único dia revendendo cromos repetidos. Para Antônio, essa dinâmica transforma o álbum em um tipo de “microcomércio” paralelo. A valorização de determinadas figurinhas raras e a corrida para completar o álbum antes do início da Copa estimulam ainda mais a circulação de dinheiro entre os colecionadores.