Em janeiro deste ano, a startup chinesa DeepSeek, sediada em Hangzhou, lançou o modelo de inteligência artificial DeepSeek-R1. Um chatbot que concorre com os modelos ocidentais em desempenho, como o ChatGPT, o Google Gemini e o MetaAI, mas com custos menores. Este lançamento destaca a rápida evolução da China no campo da inteligência artificial, desafiando a hegemonia tecnológica dos Estados Unidos e sinalizando uma mudança no equilíbrio global da inovação.

Para consolidar sua posição, a gigante asiática tem investido massivamente em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Em 2021, o país destinou mais de 400 bilhões de dólares para o setor, tornando-se um dos maiores investidores em inovação. De acordo com o 14º Plano Quinquenal (2021 - 2025), o governo chinês estabeleceu a meta de aumentar esses investimentos priorizando áreas estratégicas como inteligência artificial e biotecnologia.
O impacto desse avanço se reflete no surgimento das grandes empresas chinesas de tecnologia, como Huawei, Tencent, Alibaba e Xiaomi, que competem diretamente com empresas ocidentais no setor digital e de telecomunicações. Em entrevista à AGEMT, Edgar Nishiyama, diretor de dados, análises e inteligência artificial, da Qbem, e John Pierman, engenheiro em aprendizagem de máquina, da Arancia, detalham as questões que as companhias chinesas ainda enfrentam para superar as norte-americanas.
“A China continuará avançando em setores onde tem autossuficiência (ex.: baterias, energia solar), mas a dependência de semicondutores ocidentais limita sua capacidade de liderar em IA e computação quântica. Sob sanções de Trump, a liderança será fragmentada: EUA dominarão tecnologias de ponta; China, aplicações comerciais em escala.” diz Nishiyama, que acrescenta: "apesar da rápida evolução chinesa e o forte empenho do país em inovação, a confiabilidade da população mundial em produtos estadunidenses segue consolidada e pode ser um empecilho para a aderência do público em tecnologias vindas do oriente".
Após, o lançamento da IA chinesa, a Microsoft e a OpenIA iniciaram uma investigação para checar se haviam tido acesso indevido aos dados de treinamento de modelos avançados da empresa. Há desconfiança no campo global a respeito do tratamento de dados por parte da China, que possui uma Lei de Segurança de Dados Cibernéticos que exige o acesso a dados sensíveis de empresas privadas em seu território. A respeito do roubo de dados, com frequência os Estados Unidos os acusam de alguma forma.
O banimento temporário do TikTok durante o Governo Biden, acendeu alertas no mundo todo, por alegar armazenamento de informações de milhares de estadunidenses a pedido do governo chinês, afirmação que foi negada pelos proprietários do aplicativo. Depois de quase um mês fora das lojas de aplicativo, Trump adiou a aplicação da lei que exige a venda da empresa ou a saída do país.
“Acredito que a única maneira da China ser líder global em inovação é, não apenas continuar a desenvolver inovações revolucionárias em vários setores de tecnologia, mas também deve haver alguma queda de confiança na inovação americana”, explica Pierman.
A ascendência chinesa desafia mais do que apenas o mercado tecnológico, mas uma forte política mundial centrada nos países ocidentais, em especial, os Estados Unidos, que trava uma guerra tecnológica silenciosa que visa minar o crescimento do rival.
Essa expansão não é de hoje, mas, liderada pelo Partido Comunista Chinês (PCC), teve início na década de 1980, impulsionada pelas reformas promovidas por Deng Xiaoping. Ele assumiu o poder em 1978, após a morte de Mao Tsé-Tung, fundador da República Popular da China. Diferente de seu antecessor, Deng implementou uma série de medidas para modernizar a economia, adotando elementos do capitalismo enquanto mantinha o controle centralizado do Estado. Entre suas principais iniciativas estavam a criação das zonas econômicas especiais (ZEEs) que atraíram investimentos externos, e a flexibilização da propriedade privada nos setores produtivos. Essas estratégias transformaram a China em um dos principais polos industriais do mundo e abriram caminho para sua atual aspiração à liderança tecnológica.