Pensando no protagonismo da comunidade negra, organizações como o Oportunidade Preta e a Agência de Comunicação Umbono confrontam a hegemonia racial no cenário trabalhista
por
Ana Luiza Pêgo e Felipe Albanez
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15/10/2020 - 12h

Pretos e pardos são os mais afetados pelo desemprego no Brasil. De acordo com dados divulgados pelo IBGE em 2019, dentre os mais de 12 milhões de desempregados, 64,3% são autodeclarados pretos ou pardos. Entretanto, cresce o número de projetos que buscam reverter essa estatística assimétrica oferecendo oportunidades para o povo negro. Em todos os setores as queixas são as mesmas: faltam negros em posições de liderança. “O Brasil só vai superar esse cenário de racismo estrutural quando não forem os brancos que estiverem decidindo como pretos e indígenas vão viver no país”, pontuou a idealizadora do projeto Oportunidade Preta, Jacqueline Oliveira (31). 

Mesmo morando no Quênia, com a ajuda de uma amiga, ela decidiu criar sua própria iniciativa. Entretanto, ela não contava com tamanho sucesso de sua publicação oferecendo ajuda à comunidade preta. Oliveira sugeriu à colega que unissem seus projetos. “Nesse processo de se unir e criar um projeto só, nós notamos que 95% das pessoas que vieram até a gente eram pretas. Então, por que não fazer o óbvio: tornar isso um projeto para pretos?” 

Aqueles que se dispõem a participar são orientados por mentores e nessas sessões recebem recomendações para melhorar o currículo, melhor se apresentar e principalmente, entender quais as melhores oportunidades no mercado atual. Além desse processo, a brasileira conta que trabalha em parceria com algumas empresas. “A gente divulga as vagas dentro da nossa rede e faz essa ponte. A gente também cede um espaço nosso para que as empresas façam palestras de apresentação e mostre como a empresa está preparada para receber funcionários negros, fale sobre valores e o que é necessário para se aplicar para essa vaga.”

 

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Descrição gerada automaticamente

Logotipo do projeto Oportunidade Preta. Foto: Divulgação

 

Alguns meses depois, com cerca de 400 pessoas envolvidas no Oportunidade Preta, ela confessa que a ideia inicial era conectar pessoas que queriam ajudar com aquelas que precisavam ser ajudadas.

Como ação afirmativa, o Oportunidade funciona muito bem. “de início o papel social era conseguir o emprego, a longo prazo, é formar uma frente de liderança de pessoas pretas no Brasil.” Oliveira ainda conta, em entrevista por WhatsApp, que ainda não quantificam o alcance do projeto. “A gente já conseguiu bolsa de estudo em pós-graduação, bolsas em cursos, dezenas de pessoas que conseguiram empregos, então a gente tem bastante resultado.”

Já o publicitário e sócio da agência Umbono Comunicação, Bruno Rico (34) passou por outra instituição antes de decidir iniciar seu projeto. “Na época o Instituto ainda estava na estruturação, não existia um setor de comunicação definido e precisava de alguém com uma linguagem de movimento negro, com um letramento racial legal e que se comunicava bem com essas questões que envolvem a negritude.”

Rico atuou como gestor de comunicação do Instituto Identidades do Brasil. “Para quem não sabe, o Instituto trabalha com essa questão: diversidade racial no mercado de trabalho. Com grande ênfase em cargos de liderança.” Ele conta que a experiência no Instituto foi muito importante, já que pôde unir sua perspectiva de militante com a de profissional publicitário.

 

Grupo de pessoas em pé posando para foto

Descrição gerada automaticamente

Bruno Rico no Instituto Identidades do Brasil. Foto: Acervo Pessoal

 

Entretanto, depois de três anos no cargo de gestão, decidiu iniciar a própria agência de marketing digital. O sócio da Umbono revela que sempre se incomodou com a elitização do setor publicitário e que conheceu grandes agências do ramo que sequer tinham colaboradores negros. “Queria poder dar a minha cara a uma comunicação que eu julgo diversa, plural e efetiva.” Baseado nisso, montou seu time de comunicadores. “Toda minha agência é negra. Eu e meu sócio e atualmente, meus dois funcionários. Nossa base é negra, mas a gente atende todo tipo de cliente.”

Para o publicitário, o problema está na falta de representatividade. “Não estamos nos cargos de poder, estruturas de poder, mas estamos aí. Não somos minoria, somos minorizados. Percentualmente nós somos maioria, mas somos minorizados porque não temos poder.” 

Seguindo o fio dos projetos, a fotógrafa e integrante da produtora Future Is Of Color, Alessandra Lima (28) criou sua iniciativa. “No final de 2015 criei o projeto AFROWAVE, buscando levar uma onda de referências provenientes da diáspora africana para os lugares com maior visibilidade.”

Alessandra Lima,  criadora do AFROWAVE. Foto: Acervo Pessoal

Lima revela que começou a fotografar a comunidade preta por não se enxergar na mídia. Além disso, ela acredita que o papel de seu trabalho é mostrar que a comunidade tem muito mais a oferecer além de debates sobre racismo. “Mostrar que tem muita coisa que as pessoas ainda não conhecem e que existe um mundo além do contexto europeu que criou um ‘padrão’ para tudo na vida. Seja em comportamento, moda, política e etc.”

A produtora da qual faz parte atua com os mesmos princípios. “A Future [Is Of Color] é uma produtora que realiza pesquisa e curadoria de artistas de diáspora africana, divulgando seus trabalhos, projetos e conectando essas pessoas à grandes marcas.” Como colaboradora, a fotógrafa diz que o objetivo do projeto é compartilhar com o mundo a essência da comunidade negra. “É influenciar e inspirar gerações futuras, mostrar nossa raízes, ancestralidade, de onde viemos e para onde vamos!”

 

Grupos buscam a democratização do acesso à educação e arte nas comunidades longe dos centros urbanos
por
Evelyn Fagundes e Gabriela Gosta
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09/10/2020 - 12h

Iniciativas educacionais e artísticas lideradas por pessoas negras estão democratizando o acesso à cultura na periferia de Guarulhos, região metropolitana do Estado de São Paulo. O objetivo desses movimentos é empoderar a cultura periférica por meio do estímulo ao debate e à solidariedade.

 

Segundo o Mapa do Ensino Superior divulgado em maio deste ano pelo Instituto Semesp, 61% dos jovens da classe A estão matriculados em instituições de ensino superior, enquanto apenas 10,5% dos jovens da classe E acessam a graduação. O Cursinho Comunitário Cora Coralina, localizado no bairro Bom Clima, busca transformar esses dados e aumentar a taxa de adolescentes de baixa renda nas universidades. Fundado em 2013, hoje o Cursinho conta com mais de 50 colaboradores e atende cerca de 40 alunos por ano. No entanto, em vista da pandemia, suas atividades estão suspensas, assim como os demais movimentos culturais a serem citados.

Saulo Alberton
Fonte: Acervo pessoal de Saulo Alberton

 

Em entrevista realizada por chamada de vídeo, um dos líderes e professores desse projeto, Saulo Alberton, 26, doutorando em Física pela USP, contou que o propósito do cursinho não se restringe a ingressar jovens das periferias nas universidades, mas também a desenvolver o coletivismo.  “No Cursinho Comunitário o aluno exercita virtudes que não são exercitadas em um cursinho particular. O aluno trabalha a convivência, a partilha e vai trabalhando cada vez menos o indivíduo para pensar em conjunto”, afirma Alberton.

 

Paloma Queiroz, 27, é graduada em Química pela USP e é uma das fundadoras e também líder do Cursinho. Em entrevista realizada virtualmente, Paloma afirmou com orgulho: “O Cursinho abre a mente do aluno. O jovem que entra em um cursinho comunitário sai outra pessoa. Ele muda muito, se torna uma pessoa muito mais crítica e questionadora”.

 

Colecionando aprovações em diversas instituições do país, o Cursinho Comunitário não se limita à realização das aulas aos fins de semana, mas também desenvolve atividades extracurriculares que estimulam a cidadania. São eventos como palestras, sessões de filmes e passeios às universidades e museus.

Paloma Queiroz está usando uma camisa que traz a frase: "respeita as mina" e atrás dela uma parede grafitada com a frase: "mulher negra é a revolução"
Fonte: Acervo pessoal de Paloma Queiroz

 

 

“Uma vez apresentamos uma palestra sobre violência contra a mulher e foi exatamente o tema que caiu como redação do Enem”, afirma Paloma Queiroz. Os eventos extracurriculares não se voltam apenas para os alunos do Cursinho, mas também para a vizinhança, como afirma a líder: “Queremos trazer a comunidade para o cursinho. O Cora tem o papel de discutir sobre os diversos assuntos que estão acontecendo na cidade, de questionar e de agregar com outros coletivos e a sociedade”.

 

 “Ser um bom cidadão não significa apenas ter um domínio das disciplinas escolares, mas conseguir compreender a realidade, a cultura da sua cidade, do seu país e conseguir socializar. Nesse sentido, sempre tentamos trazer atividades que se relacionam tanto com a realidade local, quanto com a demanda dos vestibulares”, declara Saulo.

 

 

 

 

Alunos, ex-alunos e professores do Cursinho Comunitário Cora Coralina
Fonte: Acervo pessoal de Saulo Alberton

 

Também localizado no bairro Bom Clima, o Karamujo Cultural é um evento ocorrido todo o primeiro domingo do mês e que reúne apresentações musicais, oficinas de leitura, gincanas infantis, dança e teatro.

Roberto Preto está cantando e tocando guitarra
Fonte: Acervo pessoal de Roberto Preto

 

 

Um dos líderes e fundadores do projeto é o músico e motofretista Roberto Preto, 36, afirmou em entrevista sucedida via chamada de vídeo por Whatsapp que a criação do projeto se deu pela necessidade de valorizar o espaço público, estimular a cultura local e a convivência entre moradores.

 

“Os eventos culturais, unidos com os movimentos educacionais podem produzir a transformação que o país precisa”, afirma Preto. Para ele, uma das melhores propostas do Karamujo Cultural são as ações voltadas às crianças: “Muitas vezes alguma criança chega dizendo ‘tio, ontem foi meu aniversário e eu nem ganhei parabéns’ e isso aperta o coração. Então, decidimos que todo o Karamujo teria bolo para as crianças aniversariantes do mês”, conta.

 

 

 

Crianças colorindo desenhos
Fonte: Marcelo Stangari

 

Roberto Preto defende que os projetos culturais são sistemas de mão dupla: ao mesmo tempo em que os líderes do evento levam felicidade ao público, esse corresponde da mesma maneira. “Quando estou falando no microfone, sinto que estou sendo bombardeado de energias boas. Com isso, não tem como não crescer, é inevitável. A mente que se expande jamais volta ao tamanho original”, conclui.

 

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Fonte: Marcelo Stangari

 

O Karamujo Cultural é um evento muito respeitado pela comunidade. Apesar de possuir licença de funcionamento pela Prefeitura de Guarulhos, a Polícia Militar e a Guarda Civil Municipal já tentaram intervir na realização do evento. O mesmo conflito com as autoridades ocorreu em outro projeto periférico, o Sarau da Quebrada, que acontece duas vezes por ano, na Praça da Estrela, no bairro Cidade Soberana.

Érica Teixeira
Fonte: Acervo pessoal de Érica Teixeira

 

 

Uma das líderes do sarau, Érica Teixeira, revelou em entrevista por vídeochamada que, na terceira edição do evento, em 2018, policiais chegaram com viaturas e cães de guarda enquanto a equipe de organização arrumava o local. “Começaram a fazer várias perguntas. Diziam que não poderíamos fazer o evento, enquanto mostravam um panfleto que tínhamos usado para promover o sarau”, conta.

 

Ela ainda relatou que revistaram alguns garotos sentados na praça, pois diziam ter recebido uma denúncia anônima. Apesar do conflito, o sarau resistiu e, hoje, já conta com seis edições realizadas. “O nosso intuito é valorizar e incentivar toda a arte que já acontecia na quebrada, mas não tinha chance de se mostrar. Queremos ser um ambiente livre para pessoas comuns partilharem”.

 

“Muitos falam que nós da quebrada temos que ir para os grandes centros. Só que essas mesmas pessoas também são necessárias onde nasceram, porque são elas que falam com propriedade sobre esse lugar.”, complementa.

 

 

 

 

Equipe de organização do Sarau. (Da esquerda pra direita) Murilo, Adams, Elvis, Érica, Eduarda, Helô, Henrique
Fonte: Acervo pessoal de Érica Teixeira

 

Teixeira ainda conta que muitas pessoas que participaram algumas vezes do sarau, acabaram se tornando produtores culturais ou líderes de projetos semelhantes: “O nosso grito de resistência está ecoando e isso nos deixa muito feliz.”

 

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Fonte: Acervo pessoal de Érica Teixeira

 

Criador de podcast "Papo de visão" chama ídolos de super-heróis. Cantor Fabbricio busca manter representatividade na música
por
Lucas Martins e Paulo Castro
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07/10/2020 - 12h

 

Os Racionais MC´s surgiram em 1988 na zona sul de São Paulo. Com as suas letras recheadas de críticas sociais, combate ao racismo e orgulho da cor de sua pele, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay se tornaram inspirações para milhões de jovens negros Brasil à fora, entre eles, Tarso Oliveira, criador do podcast “Papo de Visão”. “Eles são os meus super-heróis. Se eu to vivo hoje, respirando, amando a minha pele, se eu olho no espelho e me sinto feliz, me sinto bonito, é por causa do Racionais”.

Racionais
Racionais MC's (Foto:Divulgação)

Além do grupo de rap de São Paulo, Oliveira admirava diversos outros artistas que o faziam sentir orgulho da cor da sua pele, “Os meus pais não eram músicos, mas eles tinham um ouvido muito bom. Por influência deles, eu ouvia muito Luiz Melodia, Tim Maia e Jorge Ben Jor. Cresci nos anos 90, então eu ouvi muito os sambistas da época, que também eram os meus heróis de autoestima e representatividade. Eu olhava pra eles e pensava: ‘Quero ser bonito que nem esses caras”.

Oliveira é filho de professores, mas desde pequeno, se interessou pela música, que, segundo ele, é o seu oxigênio. O também músico e historiador acredita que a arte foi a base da sua formação. “A música me despertou pro conhecimento. Pra me conhecer como homem negro dentro de uma sociedade racista e dentro de um mundo capitalista. Como eu sou inserido e como eu sou visto. Através da música, eu percebi que era possível. Eu pensava: ‘não vou deixar ninguém me chamar de macaco”.

Tarso
Tarso Oliveira (de boné) ao lado de Edi Rock, membro dos Racionais MC's (Foto: Acervo Pessoal)

O paulistano de 27 anos pensa que a indústria musical é um reflexo de uma sociedade racista e sexista, ou seja, é um ambiente desfavorável para cantores e cantoras de pele negra. Oliveira afirma que a presença de artistas negros no mainstream é essencial, não somente para a representatividade, mas também para a “desconstrução de um padrão dentro de um cenário extremamente racista e não democrático”. Ele destacou o rapper Emicida como um dos artistas negros que conseguiram ser bem sucedidos na música brasileira, “Ele canta o que ele quer, ele é dono da música dele, ele tem a sua produtora musical, ele tem a sua marca. Dentro de um cenário extremamente racista, que não é favorável pra homem preto, isso é uma conquista gigante.”

O músico acredita que os negros sofrem dentro do meio musical por conta da apropriação cultural e do padrão de beleza estabelecido pela sociedade, “O Rock, por exemplo, é um gênero criado por pessoas negras, com artistas, como Chuck Berry, sendo um dos precursores, mas as pessoas acham que o pioneiro era o Elvis Presley, porque ele se encaixava no padrão”.

Chuck Berry
Chuck Berry, um dos precursores do Rock (Foto: Veja/Divulgação)

 

       Por fim, Oliveira enalteceu a importância da música na luta contra o racismo estrutural, “Nas novelas, os negros sempre eram mordomos ou empregados. Não que seja um problema ter essas profissões, mas nunca tínhamos um preto advogado ou uma preta médica. Através da arte, a gente proporciona uma nova perspectiva das pessoas negras.” Ele completou: “A música não é o único meio de combate ao racismo, também precisamos de políticas públicas. Precisamos de negros em todos os lugares e fazendo alguma coisa, não apenas estando ali.”

Assim como Tarso, o cantor Frabriccio também viu sua vida ser mudada pela arte da música. Natural do Espírito Santo, ainda menino recebeu de sua avó o seu primeiro violão, e foi nesse dia que sua paixão começou a criar forma. “Perceber que eu podia fazer aquilo também, é uma descoberta na qual minha mente tá no repeat até hoje, me fascina muito, e me lembro que com aquele violão no colo eu nunca me senti tão bem, belo e começando a me conectar com o que eu tinha de mais sutil em mim e no mundo.”

O cantor debate sobre como funcionam as mídias atuais e a maneiras que os negros sempre foram deixados de lado. “Se tirarmos da linha da história o que não foi criado por "artistas pretos", sobra bem pouco, e pelo que vejo esse pouco que resta não move a indústria, sobretudo no Brasil, onde somos maioria. Eu que sempre me pergunto, faz sentido termos gerações e gerações de invisibilização preta?” Frabriccio usa de perguntas para buscar respostas sobre o número de artistas negros e como o sistema valoriza a maioria, “Da pra acreditar que é algo que simplesmente aconteceu? A indústria e suas engrenagens se beneficiam disso de alguma forma? Não seria mais lucrativo e condizente com a realidade o contrário? A quem diga que é um raciocínio absurdo... E pelo jeito um perigo iminente caso esse embranquecimento pare.”

Fabriccio
Capa do álbum Jungle (Foto:Divulgação)

 

Nascido e criado em Vitória, Fabriccio veio para São Paulo e foi aqui que produziu seu primeiro álbum chamado Jungle. Apaixonado pela arte, o cantor promete continuar sua paixão pela música e ainda representar o povo negro da melhor forma possível, já que muitos esquecem de onde vieram. “Hoje além disso tudo é um trabalho pra mim, mas tento não esquecer que estou lidando com algo maior que eu, e tão misteriosa em seus fluxos como a própria vida. É preciso estar com os ouvidos e coração atentos.”

“Ficamos à mercê de nós mesmos, sem cuidado nenhum dos nossos governantes”, afirma Vanessa França, moradora do Quilombo de São Pedro
por
Laura Monteiro e Raphael Dafferner Teixeira
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06/10/2020 - 12h

Localizado no município de Eldorado (SP), o Quilombo de São Pedro ficou sem atendimento médico durante a pandemia do coronavírus: “Ficamos à mercê de nós mesmos, sem cuidado nenhum dos nossos governantes”, conta a agricultora Vanessa França, que mora no quilombo desde os 6 anos de idade.

Foto: acervo pessoal
Foto: Acervo Pessoal

Estudante de Pedagogia na Universidade Virtual do Estado de São Paulo (UNIVESP), França explica que o atendimento às comunidades era realizado de quinze em quinze dias, porém, após o início da pandemia, o auxílio foi interrompido. Em razão do descaso do Estado para com as comunidades quilombolas, ela defende as práticas desempenhadas pelos habitantes dos quilombos, os quais, a fim de controlar o contágio do vírus, tiveram de se organizar sozinhos, criando barreiras sanitárias e deixando entrar apenas o essencial.

Entretanto, apesar do pouco-caso, França relata o sucesso nas medidas de isolamento de seu território, que não contou com nenhum caso de COVID-19. Porém, a agricultora ressaltou o fato de a população ter corrido um grande risco: “Se um pegasse, a comunidade inteira pegaria”.

As comunidades quilombolas do Estado de São Paulo não contam com nenhuma morte. Porém, de acordo com os dados do Observatório da Covid-19 nos Quilombos do Brasil, parceria realizada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) com o instituto Socioambiental, até o dia 28 de setembro, são 4598 casos de coronavírus, 166 óbitos e 1219 quadros em monitoramento. Nos quilombos brasileiros, isso representa uma taxa de mortalidade de 3,6%, 0,7% maior que a taxa do país inteiro (2,9%).

Givânia Silva (52), uma das fundadoras da CONAQ e ativista na luta quilombola, revela que a resistência dos quilombos antecede a pandemia: “Eles têm resistido à invasão da mineração, às queimadas, aos grandes empreendimentos e aos avanços da monocultura”.

Nascida no quilombo Conceição das Crioulas, no interior de Pernambuco, Silva é professora no município de Salgueiro e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de Brasília (UnB), além de mestre em Gestão de Política Públicas. Considerada uma grande figura de liderança pelos povos quilombolas, durante o Governo Lula, ela assumiu a Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais (Subcom) e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

 

Tatiana Reis/Huffpost Brasil
Tatiana Reis/Huffpost Brasil

“Desde o golpe de 2016, se iniciou o extermínio de alguns órgãos e o esvaziamento de outros, fazendo com que as políticas de regulação fundiária se enfraquecessem. Tais artimanhas começaram no Governo Temer e se aprofundaram no Governo Bolsonaro”, declara Silva.

Ainda sobre as demarcações de terras, Vanessa França diz que as principais ações afirmativas são voltadas para essa luta, e explica: “Os quilombolas, sem seu território, não são nada. É do território que nós sobrevivemos”.

Na concepção da estudante de pedagogia, a falta de iniciativa no processo de demarcação das terras traz insegurança aos moradores, os quais, por medo dos grandes fazendeiros, acabam abandonando seus territórios: “Os ruralistas têm interesse em nossas terras, e são eles quem demarcam elas agora”, informou.

Para além da construção de ações afirmativas, França dá ênfase na questão da necessidade de os espaços políticos também serem ocupados pelos quilombolas: “Só nós sabemos o que é importante para nós. Esse lugar também é nosso”.

 “A gente caminhava em um avanço e reclamávamos por ele ser lento; agora nem isso temos, porque o governo atual não investe e nem apresenta nenhuma perspectiva de mudança”, manifesta a ativista. Por isso, os habitantes viram-se obrigados a criar formas de mobilização social: “Temos construído meios de comunicação alternativos por meio das redes sociais, além de pressionarmos os parlamentares e o Congresso Nacional”.

Tatiana Reis/Huffpost Brasil
Tatiana Reis/Huffpost Brasil

 

A pauta acerca da garantia dos direitos dos povos tradicionais há de ser colocada em discussão na esfera pública: “São vários caminhos para as ações afirmativas, elas não se resumem à cotas. É preciso um debate mais amplo, a começar pelas construções políticas, articulações com o Parlamento e até a justiça.” Em seguida, a representante quilombola alega o dever dos órgãos governamentais em assegurar as comunidades frente ao contexto pandêmico: “Estamos denunciando o governo brasileiro por abandono e descaso nesse momento tão difícil”.

Face ao desprezo com os povos quilombola, a residente do Quilombo de São Pedro aproveitou para fazer críticas ao Governo Bolsonaro: “Nós não vemos esse Governo com bons olhos. A cada dia um direito nosso é tirado”, desabafou.

 

Foto: acervo pessoal
Foto: Acervo Pessoal

        A doutoranda conta que o governo do presidente é preocupado com os interesses de sua família e “dos grandes que o bancam”. E continua: “O que mais a gente tem visto nas comunidades quilombolas é a violação dos direitos desses sujeitos, praticado especificamente pelo Estado. Trata-se de um Governo que se afirma e é racista. Ele prega a morte e não a vida, além de ter muito mais compromisso com a escravidão do que com a liberdade”, concluiu sobre o racismo estrutural da sociedade brasileira.

 

 

Iniciativas criadas por pessoas negras auxiliam a colocar negros em espaços que contrariam a subserviência forjada ao longo da história
por
Julio Cesar Ferreira e Danilo Zelic
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02/10/2020 - 12h

“No Brasil há estereótipos de pobreza e ignorância, então empoderar pessoas pretas para terem conhecimento sobre finanças, economia e investimentos, com certeza é um ponto importante para mudar esses estigmas racistas”, afirma Alan Soares, idealizador do Boletinhos. Em entrevista realizada por meio de mensagens de e-mail, Alan Soares, publicitário, 24, conta que decidiu criar o Boletinhos, um perfil no Instagram, como forma de ajudar as pessoas a lidarem melhor com seu dinheiro.

“Eu sempre gostei de cuidar do meu próprio dinheiro, estudar sobre finanças e economia, como um interesse pessoal mesmo, nada profissional.”, acrescentando que: “A maioria dos conteúdos sobre finanças que chegavam até mim eram de coaches que prometiam o 'primeiro milhão antes dos 30', um discurso que eu não gosto. Procuro ser o mais pé no chão dentro do Boletinhos.”

Alan Soares
Alan Soares, criador do Boletinhos. (Reprodução Instagram)

Para ele, falar sobre finanças de uma forma fácil e didática é essencial. “Acho que todos os assuntos deveriam ser democratizados - traduzidos em linguagens mais acessíveis.” Pois para o publicitário, “Enquanto o conhecimento fica restrito a uma elite intelectual, ele se mantém como um instrumento de controle social. E ensinar as pessoas sobre dinheiro quebra muitas dessas barreiras de dominação.”

Ele pontua a importância de negros saberem lidar com o dinheiro, sobretudo para subverter o inconsciente coletivo. Em seu projeto de dissertação de mestrado, que está aguardando a aprovação, ele busca discorrer sobre o Afrofuturismo e o Imaginário do Negro no Futuro. “O Afrofuturismo é um movimento que quer mudar o inconsciente coletivo sobre o negro”, disse ainda que: “No Brasil há estereótipos de pobreza e ignorância, então empoderar pessoas pretas para terem conhecimento sobre finanças, economia e investimentos, com certeza é um ponto importante para mudar esses estigmas racistas.”

“Nunca pensei que pudesse ajudar tanta gente. E fico mais feliz ainda vendo quanta gente preta segue o Boletinhos e aprende sobre finanças com ele”, adicionando também que é, “Algo tão negado à população em geral, e mais ainda às pessoas pretas.”

Boletinhos.
        Conta do Boletinhos no Instagram (Reprodução Instagram)

Por outro lado, há negros que não falam de finanças, mas buscam empreender. Atualmente no Brasil, há várias iniciativas privadas que visam contribuir para o empreendedorismo negro. Como por exemplo, a Feira Preta e o Movimento Black Money, que possibilita a conexão entre empreendedores negros e comunidade negra, buscando fortalecer o afroconsumo. 

O levantamento realizado pelo Global Entrepreneurship Monitor, em 2017, mostra que a população negra representa 51% dos empreendedores do país. Mas outro dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) expõe que 64,6% dos desempregados no país são negros. O que contribuiu em pensar que empreender acaba sendo a única saída para essa população.

Já o empreendimento idealizado pelos irmãos Daniel, 30 e Diego Dias, 33 e com a ajuda do primo, Thiago Rosário, resultou na criação da Cervejaria Implicantes, que iniciou de uma produção caseira, em que apenas conhecidos pudessem desfrutar do produto, para algo amplo e que abordasse a principal causa da marca: a representatividade e a luta contra o racismo. 

A falta de representatividade e o gosto por cerveja artesanal, sucedeu na criação da Implicantes, marca negra, que luta contra o racismo por meio de rótulos com figuras importantes dessa luta, e principalmente, porque é criada por pessoas negras. Eles criaram a marca porque, ao frequentarem espaços cervejeiros, não se sentiam representados e pertencentes do local. 

Idealizadores Implicantes.
Thiago Rosário (esquerda) Daniel Dias (centro) e Diego Dias (direita), idealizadores da Cervejaria Implicantes. (Acervo Pessoal)

Em entrevista feita por meio de áudios, Diego falou que outras marcas de cerveja já tentaram, de algum modo, praticar a representatividade, mas na maioria das vezes não era nada favorável. “Geralmente com figuras caricatas, ou termos pejorativos. Então muitas vezes ficava complicado nós consumirmos aquele produto, porque nós íamos estar validando uma ideia totalmente equivocada”.

Frases como: "Por que a gente fala que é a primeira cerveja negra?” e “Talvez seja vitimismo'' eram escutadas por eles. Para contrapor essas falas, Diego argumenta que: “A gente queria representar o nosso povo que não se sente à vontade, queríamos mostrar para pessoas iguais a nós, que tem uma cervejaria que não vai trazer somente o rock; uma cultura que é de branco, cis e hétero.” 

Rótulos Implicantes
Rótulos das cervejas da Implicantes, com as figuras negras: Maria Firmina dos Reis (esquerda) Luís Gama (centro) e Leônidas da Silva (direita). (Reprodução Instagram)

Em outro momento, falam sobre como a população negra reage a marca, Diego diz que o sentimento não poderia ser melhor. “A gente chega a se emocionar. Viram que era realmente uma cervejaria que lutava por eles”. A reação e a busca por criação dentro da marca, proporcionou a produção de produtos exclusivos. 

Diego ainda fala que: “A pegada e a essência da Implicantes, é pelo Black Money. Nós não vendemos somente para pretos, mas nos nossos eventos a gente traz de preferência pessoas pretas, afroempreendedores, para que possam fortalecer”.

 

Especialistas relatam sobre como o a educação reflete o racismo estrutural no país
por
Carlos Eduardo da Cruz Pires de Moraes e Daniel Dias de Santana Martins
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05/09/2020 - 12h

 

O tema racismo nas últimas décadas mantem-se em pauta em todas as esferas da sociedade brasileira, mas nem sempre onde a regra manda. Para a professora Jussara da Cruz Pires de Moraes (51), "a lei que implica a obrigação de ensinar sobre a História e cultura afro-brasileira e indígena não está sendo respeitada". Moraes é aposentada da rede pública de ensino e, atualmente, leciona no Ensino Fundamental e Médio na rede privada de educação. A legislação sobre o ensino da cultura afro foi criada no governo Lula, durante a gestão Haddad à frente do Ministério da Educação.

“Quando se fala do povo preto nas escolas apenas é dito que eles vieram arrastados da África, em navios negreiros, com grilhões, que famílias foram separadas, morreram, que os negros também se escravizavam e fica nesse senso comum. Foi algo que realmente ocorreu, mas não foi apenas isso. O que parece é que todos aceitavam aquilo, não haviam revoltas por parte das pessoas pretas, não existia uma vontade de mudança, parece que as pessoas foram catequizadas e morriam, mas eles lutaram”.

Segundo Moraes para se mudar a situação atual, a educação é fundamental. “Eu acredito que primeiro as pessoas devam conhecer a sua própria história, procurar dentro da sua própria família as suas origens. Quem eu sou? De onde eu vim? Quem eram meus antepassados?”. A professora acredita ainda que essa é uma tarefa árdua. “Você pergunta para algumas pessoas pretas quem são os avós dela, alguns não sabem responder. Pega a geração de 50, 60, 70, a depender da região ele nem sabe. Ele não sabe porque o avô ou bisavô daquela pessoa talvez tenha sido um escravo. Dependendo do contexto social dessa pessoa, nem uma fotografia sobrou dessa história”.

Já Isabela Alves (18), que cursa arquitetura nas Belas Artes, cita como lida com casos racistas à nas instituições de ensino. "Até hoje nunca aconteceu comigo, mas já me deparei com comentários de amigos usando termos racistas no seu vocabulário. Quando isso ocorre tento conversar e mostrar como a frase está errada."

Seu estudo sobre  a luta negra iniciou-se enquanto pensava em um tema para o seu Trabalho de Conclusão de Curso do técnico: "Meu orientador conversou comigo e mais dois amigos sobre possíveis temas atuais que nos fizessem pensar. Chegamos a um que até então eu nunca havia realmente conversado com tanta profundidade, o racismo." O trabalho denominado Centro Cultural Quilombo Urbano, visava introduzir e enaltecer a história do negro no Brasil, desde a colônia até os dias atuais, além de incluir os imigrantes africanos .

O TCC fez com que Alves reparasse em outros detalhes da sociedade. "No técnico de 20 alunos apenas um era negro e agora na faculdade de 40 é a mesma situação."  O ano de 2020 vem sendo uma amostra de como a população pode apoiar a luta, independente de sua cor, porém para a universitária ainda faltam passos. "Muitos apoiaram as causas pelas redes sociais apenas por apoiar e não por realmente entender o peso dos atos."

Isabela Alves (acervo pessoal)

De acordo com dados do MEC de 2019, pela primeira vez pretos são a maioria no ensino superior público: 50,3%. Contudo, a estudante acredita que o governo ainda não investirá na questão mesmo perante às recentes manifestações" O sistema de educação não terá tanta atenção, mas professores, principalmente aqueles que se interessam pelo assunto, começarão a discutir em sala o tema".

Modelo Centro Cultural Quilombo Urbano (Liceu de Artes e Ofícios)

Para quem deseja iniciar a estudar sobre o assunto, qual seria o caminho ideal? "É legal começar pela base, ou seja, livros escolares, e a partir daí, procurar aprofundar mais, lendo a respeito de grandes nomes como Malcolm X, Martin Luther King, Zumbi dos Palmares e Djamila Ribeiro", concluiu Alves.

 

A modalidade que historicamente sempre teve manifestações políticas, segue como canal para vozes em geral silenciadas
por
Lucas Martins e Paulo Castro
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04/09/2020 - 12h

No dia 26 de agosto, a equipe do Milwaukee Bucks se recusou a enfrentar a equipe do Orlando Magic pela 5ª rodada dos playoffs da NBA após a polícia americana disparar sete vezes contra Jacob Blake, mais um jovem negro vítima do racismo estrutural no país. Além disso, a equipe do Washington Mystics, time na WNBA, entrou em quadra vestida de branco e com 7 marcas de tiro nas costas de cada atleta.

          

Boicote dos Bucks
Quadra vazia após boicote do time de Milwaukee Foto: Kevin C. Cox

 

A decisão do time de Giannis Antetokounmpo e a da franquia de Delle Done não é uma novidade na história do basquete americano, que está diretamente ligada à luta racial nos EUA. Na década de 50, quando apenas brancos jogavam na NBA, o New York Knickerbockers ameaçou deixar a liga caso não fosse permitido que jogadores negros pudessem integrar as franquias. Com esse feito, os Knicks conseguiram a liberação e abriram as portas para que eles entrassem nos times e dominassem o esporte.

Mais tarde, nos anos 60, o lendário Bill Russel, maior campeão da história da liga americana, começou a boicotar alguns jogos como forma de protesto às ofensas racistas sofridas pelos atletas negros durante os jogos. A ação de Russel foi determinante para que a NBA passasse a punir os casos de racismo.

Atualmente, o maior expoente da causa antirracista no basquete é o astro do Los Angeles Lakers, Lebron James. O ala é visto como o porta voz de uma geração de atletas que surge após a era apática de Michael Jordan, que se omitiu em meio aos protestos raciais na década de 90.  

lebron james
LeBron James protestando em quadra (Foto: Al Bello/Getty Images)

Os protestos, antes dentro da quadra, passam a ser fora dela. No hino, nas apresentações e até mesmo nas camisas, tudo é usado para voltar às atenções para o problema maior. Ex-jogador e comentarista da NBA e NBB na TV há dez anos, Danilo Castro valoriza as ações dos jogadores e ainda destaca a habilidade dos atletas de perceberem o poder que hoje eles têm nas mãos.

As manifestações de atletas com o potencial de mobilização que possuem os astros da NBA são extremamente importantes para a visibilidade do assunto. São pessoas com grande base de fãs, formadores de opinião e que não temem colocar seus posicionamentos.” Castro completou exaltando o boicote dos jogos do dia 26 de agosto. “Se recusaram a jogar uma rodada importantíssima de playoffs e isso por si só, acaba gerando um debate, um pensamento, um estudo, uma mobilização mundial para o assunto.”

Danilo Castro
O comentarista carrega a bola durante o jogo das estrelas (Foto: Jump/LNB)

 Muito mais que a NBA ou a WNBA, o basquete é o grande aliado na causa e é impossível não parar para pensar se essas ações poderiam ou não acontecer no Brasil. O esporte da bola laranja vem crescendo ano após ano no Brasil, que em 2019 registrou 365 horas de transmissão na soma da TV fechada e aberta, o terceiro com mais espaço na televisão no ranking dos esportes. Porém o comentarista acredita que “ainda estamos longe de qualquer tipo de movimento”. 

O basquete brasileiro não faz o suficiente, ainda existe o receio de tomar uma posição, tomar a frente, gerar debates, enfim, existe esse receio. O atleta brasileiro tem dificuldade de se unir enquanto classe para lutar por salários atrasados por exemplo. Esperar uma posição mais firme hoje em dia por causas como a do racismo está longe.”

Aruzha Michaski, recordista de lances livres convertidos na LBF e cestinha da última edição da liga pelo time do Pró-Esporte Basquete, é muito ativa na luta antirracista, mas a sua voz, assim como a de suas companheiras de equipe, não tem tanta força por conta da desvalorização que o basquete feminino sofre.

Aruzha Mischaski
Michaski carrega a bola em jogo da LBF (Foto: Marina Gouvêa)

A amadora recém contratada pelo Galitos de Aveiro, de Portugal, fala sobre o racismo presente na sociedade brasileira e acredita que os atletas devem usar suas posições de destaque para dar visibilidade à causa. “Se a gente se omitir, parece que somos a favor desse tipo de coisa. Devemos falar sobre esses assuntos pois somos espelhos e temos crianças que nos usam de exemplo. Já passei por coisas horríveis quando era mais nova e eu não sabia me defender.”

Michaski acredita que o movimento negro tem ganho cada vez mais voz e pede para que todos os esportes se unam nessa luta para atingir o maior público possível. Ela espera que toda a mobilização gerada pela morte de George Floyd não seja apenas uma onda. “O progresso vai ser aos poucos, mas vamos alcançar o nosso objetivo”, completou positivamente.

 

 

Segundo o Ministério da Saúde, 66% das vítimas dessa violência são mulheres pretas
por
Evelyn Fagundes e Gabriela Costa
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03/09/2020 - 12h

“Quem foi que disse que aboliu?” Esse é o refrão da música da companhia Raízes de Baobá, grupo no qual Elizabeth Regina, 24, canta a sua história. Apesar de residir em Guarulhos, ela decidiu cruzar o limite do município para dar a luz à Maria Lua, pois somente assim poderia fugir das sombras da violência obstétrica que sofreu.

A imagem em preto e branco mostra o grupo Raízes de Baobá em uma apresentação. Há cinco pessoas negras com microfones cantando em torno de Elizabeth, também mulher negra, com sua filha no colo.
Fonte: Acervo pessoal de Raízes de Baobá

Os médicos do hospital público de Guarulhos tentaram convencer Elizabeth a acelerar o parto afirmando que o bebê correria risco se não fosse feita a cesárea. Consultando outra maternidade, em São Paulo, ela descobriu não só que Maria Lua não corria risco como não havia necessidade da realização do parto naquele dia.

 “Sempre me senti violada nos exames, era doloroso. Uma enfermeira disse que eu deveria cortar meus dreads para não ter problemas no parto e porque depois dele eu não iria mais conseguir lavar”, disse Elizabeth.

A imagem em preto e branco mostra Elizabeth grávida com brincos e colares que remetem à cultura africana. Além disso, ela usa um adereço no rosto semelhante a um raio que cruza sua face
Fonte: Acervo pessoal de Elizabeth

A cantora também sofreu discriminação no transporte público. “Uma vez no trem lotado havia um assento preferencial que estava ocupado por um homem que não era do grupo prioritário. As pessoas gritaram: Ei! Você não vai se levantar para ela? E aí ele disse: Não vou me levantar, quem quiser se levantar que se levante”.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência obstétrica se configura através de abusos pré, durante e pós parto. Entretanto, no Brasil, não existe nenhuma legislação específica para essas condutas. Um estudo de 2010, feito pela Fundação Perseu Abramo, mostrou que elas existem: uma em cada quatro mulheres já sofreu maus-tratos no processo.

É uma das formas mais silenciosas de opressão. “Muitas vezes quando falo sobre isso em eventos, pessoas começam a chorar na plateia. E ao conversar com elas escuto: ‘Eu passei por isso, mas não sabia que era violência’”, contou Daniela Rosa, mãe, mestre em sociologia pela Unicamp e também doula – acompanhante que auxilia a gestante durante toda a gravidez e o período pós-parto.

A imagem mostra Daniela Rosa, mulher negra, atrás de um painel escrito "Espaço Sankofa", local onde ela atende como doula. além de ter uma mesa ao fundo com esculturas e quadros da cultura afrodescendente
Fonte: Acerco pessoal de Daniela Rosa


 

Apesar de atingir todas as pessoas gestantes, a violência obstétrica afeta de maneira específica os corpos pretos. Durante a Conferência Nacional da Promoção da Igualdade Racial, foi divulgado que a mortalidade materna é duas vezes maior para mulheres pretas. “A experiência do racismo atravessa todos os aspectos da vivência de uma pessoa negra e chega, inclusive, na maternidade de forma muito pesada”, afirma a especialista.

Rosa explica que o racismo obstétrico se deve pela formação de estereótipos. “Uma frase bem comum é: ‘Não chora não, porque ano que vem você está aqui de novo’. Partindo do pressuposto que essas mulheres vão ter um monte de filhos”. 

Alguns mitos como de que negras aguentam mais dor remetem à escravidão. “A ideia de um corpo preto forte teve que colar no imaginário racista justamente porque éramos nós que estávamos construindo esse país nas costas”.

Esse julgamento é refletido em números: mulheres pretas recebem menos anestesia. Um estudo da Fiocruz revelou que em relação a episiotomia - corte feito na região do períneo para facilitar o parto normal - negras são a minoria. Contudo, elas têm 50% a mais de chance de não serem anestesiadas durante o procedimento. “É um corpo que não é digno de cuidado, não é digno de atenção”, reitera.

Mulheres negras também têm dificuldade em ter um pré-natal e uma amamentação adequados. Muitas estão em relações de trabalho desgastadas e não conseguem licença maternidade. Rosa aponta: “Essa é a marca do nosso racismo: privação”.

Quando deu a luz, Kelly Cristina tinha 16 anos e utilizava o SUS. “Os exames do pré-natal, principalmente os exames do toque eram horríveis. As enfermeiras eram brutas a ponto de me machucar”, contou.

A imagem mostra Kelly e seu filho pequeno fazendo o sinal do rock com as mãos e sorrindo
Fonte: Acervo pessoal de Kelly Cristina

Kelly acredita que o tratamento recebido no Hospital de Guarulhos foi de péssima qualidade, tanto no pré-natal quanto no parto. “As outras mães não reclamavam sobre o tratamento. Penso que isso se dava por eu estar grávida sendo muito nova. Também acho que houve racismo, mas velado”.

Como diz a canção do grupo Raízes de Baobá: “quem foi que disse que aboliu?”. Todos os dias, os resquícios da escravidão rodeiam, oprimem e controlam os corpos pretos.

Equipe das Blogueiras Negras e Juliana Marques, uma das coordenadoras do projeto Mulheres Negras Decidem, criticam posicionamentos de Kamala Harris, que disputa com Joe Biden a presidência da superpotência
por
Laura Monteiro e Raphael Dafferner Teixeira
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02/09/2020 - 12h

As integrantes do projeto Blogueiras Negras, Charô Nunes, Larissa Santiago e Viviane Gomes, afirmaram que a agenda da candidata à vice presidência dos EUA, Kamala Harris, é insuficiente em certos temas. “A contradição de Harris é justamente por ela ser uma mulher democrata conservadora, que ao longo de sua trajetória contribuiu para o aumento do número de pessoas encarceradas nos EUA”, explicaram. Em entrevista por e-mail, elas solicitaram ser identificadas de forma coletiva.

Blogueiras Negras
Reprodução: Instagram (@blogueirasnegras)

Já Juliana Marques, uma das coordenadoras do movimento Mulheres Negras Decidem, responsável por articular formas de inserção de mulheres no debate político, leva em conta os mesmos princípios que as blogueiras. Marques entende a candidatura de Harris como um “lugar simbólico”, o que se reflete no Brasil: “Ela se encontra em um lugar simbólico no sentido de apontar as questões de desigualdade e nos lembrar dos caminhos que a gente precisa superar aqui”.

Juliana Marques, no Instagram, protestando em favor da aprovação pelo financiamento e tempo de propaganda proporcionais para candidatas negras
Reprodução: Instagram (@mulheresnegrasdecidem)

Essas declarações vêm em um momento muito importante para o movimento negro. Desde a morte de George Floyd, vítima da violência policial norte-americana, a discussão acerca do racismo reacendeu. O assassinato acarretou uma grande mobilização global, o Black Lives Matter: o mundo foi às ruas para protestar em favor da igualdade racial.

Sobre o contexto do movimento negro atual, as representantes do Blogueiras Negras afirmaram que as organizações políticas de mulheres negras ocorrem por uma questão de sobrevivência: “Nos organizamos politicamente pois estamos morrendo”, relataram com veemência.

As três ativistas ainda foram além, explicando qual é o papel da mulher negra na política brasileira: “O nosso papel tem sido fundamental para a teoria, prática e consumação das ações políticas dentro ou fora do caráter institucional do Estado - estamos sempre buscando a manutenção da vida, nossa e dos nossos.”

Considerando a gradual cristalização do movimento negro, a então senadora Kamala Harris, no dia 9 de junho, emergiu como favorita à vice presidência na chapa dos Democratas, tornando-se a primeira negra a concorrer em uma disputa presidencial. Frente a esse quadro, a discussão sobre a importância de mulheres ocupando cargos políticos tomou proporções internacionais.

No Brasil, Jair Bolsonaro exibe resistência ante a mobilização racial e conserva o mito da democracia plena - tal ideia apoia-se na imagem de um Brasil isento de ódio, intolerância e desigualdade. Na verdade, porém, trata-se de um dos países mais racistas de todo o mundo, contando com 27% da população feminina negra e tendo apenas 2% dela representando o Congresso Nacional e menos de 1% a Câmara dos Deputados (IBGE).

         “As mulheres negras têm o conhecimento sistêmico de como funcionam as estruturas de educação, saúde, cultura. Conhecimentos estes necessários para integrar ações que alcancem toda a população”, contaram as integrantes do blog. Para muitos, os tópicos reivindicados pelos movimentos em favor de igualdade racial são bastante extremos. De acordo com a membra do projeto Mulheres Negras Decidem, porém, “a busca pelo radical é, na verdade, o direito ao básico.”

A pauta feminina junto à racial exige atenção redobrada. De acordo com o mapa elaborado pela Confederação Nacional dos Municípios, que discute a questão racial de mulheres na política, a tendência é de que tanto os partidos como o eleitorado associem competência com uma figura masculina, heterossexual e bem posicionada socialmente. Tal estereótipo, no entanto, não simboliza o país. Benedita da Silva, atual deputada pelo PT-RJ e dona de uma carreira política de destaque, em entrevista a HedFlow TV em 2019, declarou: “Nós parimos este país, nós mulheres negras fomos estupradas para parir o Brasil, depois fomos abandonadas, jogadas de lado, e agora querem cobrar de nós meritocracia.” 

 

 

O jornalismo cultural é "racista" para Thais Prado, que escreve no site Mundo Negro
por
Julio Cesar Ferreira e Danilo Zelic
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28/08/2020 - 12h

“Você tem de simplesmente ser o melhor e fazer um jornalismo de nível inquestionável”, afirma Miguel Arcanjo Prado sobre como é ser um jornalista negro que escreve sobre cultura, onde a produção é feita majoritariamente por brancos. Já a redatora do site Mundo Negro, Thais Prado, diz “Eu enxergo o jornalismo racista.”

De acordo com uma pesquisa realizada pelo GEMAA (Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa), os principais jornais do Brasil permeiam a desigualdade racial, como em: O Globo, que 10% são pretos, na Folha de S. Paulo, apenas 4% e no Estadão somente 2%. 

Miguel Arcanjo Prado, 38, jornalista há 17 anos e crítico da Associação Paulista de Críticos de Artes, já passou por veículos como TV Globo, Record, Band, Folha de S. Paulo, R7, Record News, UOL, Editora Abril e Gazeta.

Homem de terno e gravata

Descrição gerada automaticamente

Miguel Arcanjo - Coordenador de Extensão Cultural da SP Escola de Teatro e Editor do Blog do Arcanjo (Edson Lopes Jr./Acervo Pessoal)

Para ele, a cultura sempre esteve presente em sua vida, pois é neto de mãe Gigi, fundadora do primeiro bloco afro de Minas Gerais, o Afoxé Ilê Odara, o que facilitou sua paixão em escrever sobre. 

Miguel exerce um jornalismo cultural plural: “Nunca quis falar apenas de um nicho, tenho uma percepção abrangente do que é cultura. E, ao abarcar todos, também crio um jogo de valoração equitativo na percepção do grande público.”

Embora tenha passado por várias redações, Arcanjo enxerga a desigualdade racial presente no jornalismo, sobretudo cultural. “Nas redações que passei geralmente tive poucos colegas negros. Muitas vezes éramos dois em um universo de mais de cem.”

Thais Prado, 26, redatora do site Mundo Negro, arte educadora e remanescente do Quilombo da Caçandoca, conta que escrever sobre cultura e arte aconteceu a partir de seu envolvimento com exposições: "Iniciei como arte educadora em uma exposição sobre arte afro brasileira do Sesc.”

Mulher sorrindo com chapéu na cabeça

Descrição gerada automaticamente

Thais Prado - Redatora do site Mundo Negro (Acervo Pessoal)

Ela escreve sobre tudo, inclusive cultura, e ressalta a importância da representatividade do negro dentro do jornalismo, que para ela, vai além das questões raciais. “Negros podem e sabem falar sobre tudo. Não só de pautas relacionadas a questões raciais.”

Tratando sobre cultura negra, ela considera que “falar dos meus e para os meus em uma linguagem que os respeita é ajudar a manter a memória de pessoas pretas importantes para cultura”. Thais questiona também: “Quem melhor do que uma pessoa preta para falar sobre isso?”

Miguel conseguiu ocupar diversos espaços majoritariamente brancos, afinal ele foi “o único colunista negro durante muito tempo em dois dos maiores portais do país”. Atualmente é o único crítico negro e já foi vice-presidente da APCA. “O jornalismo e a crítica seguem esse caminho de uma estrutura racista, mesmo que de forma inconsciente.”

“Fato é: nas grandes redações brasileiras quem manda ainda é o jornalista homem, branco e heterossexual”, define Miguel. Segundo ele,  “infelizmente, seja na minha trajetória profissional, ou na de alguns colegas, o jornalista negro que consegue destaque na profissão precisa ser excepcional naquilo que faz, tem de simplesmente ser o melhor e fazer um jornalismo de nível inquestionável”.

Thais questiona a falta de aprofundamento quando o assunto cultural é abordado. “Criticam a estética, mas não entendem as origens daquilo”. Uma das questões está na forma da escrita: “Eu enxergo o jornalismo racista, incluindo o vocabulário que um branco usa ao escrever sobre um negro”. E ela dá como exemplo o título "Estudante é preso fazendo drive-thru de maconha", quando se trata de  branco. "Se fosse negro, a mídia logo estamparia como traficante.”

Para a redatora, além de cultura, é essencial abordar questões raciais. “As pessoas  precisam entender que não basta serem antirracistas só quando convém. A cada 23 minutos, um jovem negro morre no Brasil". E  ela aponta ainda para a sua própria atividade:  “Não tem como ser negro e não falar das questões raciais que tanto nos afeta. Mesmo eu podendo e sabendo falar sobre os mais variados assuntos, sendo mulher, negra e quilombola, eu respiro questões raciais.” 

Já Miguel amplia o debate dizendo que “há um machismo muito forte nas redações, mulheres jornalistas também sofrem este tipo de questão nas suas carreiras, bem como jornalistas LGBTQIA+s.”