Pensando no protagonismo da comunidade negra, organizações como o Oportunidade Preta e a Agência de Comunicação Umbono confrontam a hegemonia racial no cenário trabalhista
por
Ana Luiza Pêgo e Felipe Albanez
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15/10/2020 - 12h

Pretos e pardos são os mais afetados pelo desemprego no Brasil. De acordo com dados divulgados pelo IBGE em 2019, dentre os mais de 12 milhões de desempregados, 64,3% são autodeclarados pretos ou pardos. Entretanto, cresce o número de projetos que buscam reverter essa estatística assimétrica oferecendo oportunidades para o povo negro. Em todos os setores as queixas são as mesmas: faltam negros em posições de liderança. “O Brasil só vai superar esse cenário de racismo estrutural quando não forem os brancos que estiverem decidindo como pretos e indígenas vão viver no país”, pontuou a idealizadora do projeto Oportunidade Preta, Jacqueline Oliveira (31). 

Mesmo morando no Quênia, com a ajuda de uma amiga, ela decidiu criar sua própria iniciativa. Entretanto, ela não contava com tamanho sucesso de sua publicação oferecendo ajuda à comunidade preta. Oliveira sugeriu à colega que unissem seus projetos. “Nesse processo de se unir e criar um projeto só, nós notamos que 95% das pessoas que vieram até a gente eram pretas. Então, por que não fazer o óbvio: tornar isso um projeto para pretos?” 

Aqueles que se dispõem a participar são orientados por mentores e nessas sessões recebem recomendações para melhorar o currículo, melhor se apresentar e principalmente, entender quais as melhores oportunidades no mercado atual. Além desse processo, a brasileira conta que trabalha em parceria com algumas empresas. “A gente divulga as vagas dentro da nossa rede e faz essa ponte. A gente também cede um espaço nosso para que as empresas façam palestras de apresentação e mostre como a empresa está preparada para receber funcionários negros, fale sobre valores e o que é necessário para se aplicar para essa vaga.”

 

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Descrição gerada automaticamente

Logotipo do projeto Oportunidade Preta. Foto: Divulgação

 

Alguns meses depois, com cerca de 400 pessoas envolvidas no Oportunidade Preta, ela confessa que a ideia inicial era conectar pessoas que queriam ajudar com aquelas que precisavam ser ajudadas.

Como ação afirmativa, o Oportunidade funciona muito bem. “de início o papel social era conseguir o emprego, a longo prazo, é formar uma frente de liderança de pessoas pretas no Brasil.” Oliveira ainda conta, em entrevista por WhatsApp, que ainda não quantificam o alcance do projeto. “A gente já conseguiu bolsa de estudo em pós-graduação, bolsas em cursos, dezenas de pessoas que conseguiram empregos, então a gente tem bastante resultado.”

Já o publicitário e sócio da agência Umbono Comunicação, Bruno Rico (34) passou por outra instituição antes de decidir iniciar seu projeto. “Na época o Instituto ainda estava na estruturação, não existia um setor de comunicação definido e precisava de alguém com uma linguagem de movimento negro, com um letramento racial legal e que se comunicava bem com essas questões que envolvem a negritude.”

Rico atuou como gestor de comunicação do Instituto Identidades do Brasil. “Para quem não sabe, o Instituto trabalha com essa questão: diversidade racial no mercado de trabalho. Com grande ênfase em cargos de liderança.” Ele conta que a experiência no Instituto foi muito importante, já que pôde unir sua perspectiva de militante com a de profissional publicitário.

 

Grupo de pessoas em pé posando para foto

Descrição gerada automaticamente

Bruno Rico no Instituto Identidades do Brasil. Foto: Acervo Pessoal

 

Entretanto, depois de três anos no cargo de gestão, decidiu iniciar a própria agência de marketing digital. O sócio da Umbono revela que sempre se incomodou com a elitização do setor publicitário e que conheceu grandes agências do ramo que sequer tinham colaboradores negros. “Queria poder dar a minha cara a uma comunicação que eu julgo diversa, plural e efetiva.” Baseado nisso, montou seu time de comunicadores. “Toda minha agência é negra. Eu e meu sócio e atualmente, meus dois funcionários. Nossa base é negra, mas a gente atende todo tipo de cliente.”

Para o publicitário, o problema está na falta de representatividade. “Não estamos nos cargos de poder, estruturas de poder, mas estamos aí. Não somos minoria, somos minorizados. Percentualmente nós somos maioria, mas somos minorizados porque não temos poder.” 

Seguindo o fio dos projetos, a fotógrafa e integrante da produtora Future Is Of Color, Alessandra Lima (28) criou sua iniciativa. “No final de 2015 criei o projeto AFROWAVE, buscando levar uma onda de referências provenientes da diáspora africana para os lugares com maior visibilidade.”

Alessandra Lima,  criadora do AFROWAVE. Foto: Acervo Pessoal

Lima revela que começou a fotografar a comunidade preta por não se enxergar na mídia. Além disso, ela acredita que o papel de seu trabalho é mostrar que a comunidade tem muito mais a oferecer além de debates sobre racismo. “Mostrar que tem muita coisa que as pessoas ainda não conhecem e que existe um mundo além do contexto europeu que criou um ‘padrão’ para tudo na vida. Seja em comportamento, moda, política e etc.”

A produtora da qual faz parte atua com os mesmos princípios. “A Future [Is Of Color] é uma produtora que realiza pesquisa e curadoria de artistas de diáspora africana, divulgando seus trabalhos, projetos e conectando essas pessoas à grandes marcas.” Como colaboradora, a fotógrafa diz que o objetivo do projeto é compartilhar com o mundo a essência da comunidade negra. “É influenciar e inspirar gerações futuras, mostrar nossa raízes, ancestralidade, de onde viemos e para onde vamos!”

 

Grupos buscam a democratização do acesso à educação e arte nas comunidades longe dos centros urbanos
por
Evelyn Fagundes e Gabriela Gosta
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09/10/2020 - 12h

Iniciativas educacionais e artísticas lideradas por pessoas negras estão democratizando o acesso à cultura na periferia de Guarulhos, região metropolitana do Estado de São Paulo. O objetivo desses movimentos é empoderar a cultura periférica por meio do estímulo ao debate e à solidariedade.

 

Segundo o Mapa do Ensino Superior divulgado em maio deste ano pelo Instituto Semesp, 61% dos jovens da classe A estão matriculados em instituições de ensino superior, enquanto apenas 10,5% dos jovens da classe E acessam a graduação. O Cursinho Comunitário Cora Coralina, localizado no bairro Bom Clima, busca transformar esses dados e aumentar a taxa de adolescentes de baixa renda nas universidades. Fundado em 2013, hoje o Cursinho conta com mais de 50 colaboradores e atende cerca de 40 alunos por ano. No entanto, em vista da pandemia, suas atividades estão suspensas, assim como os demais movimentos culturais a serem citados.

Saulo Alberton
Fonte: Acervo pessoal de Saulo Alberton

 

Em entrevista realizada por chamada de vídeo, um dos líderes e professores desse projeto, Saulo Alberton, 26, doutorando em Física pela USP, contou que o propósito do cursinho não se restringe a ingressar jovens das periferias nas universidades, mas também a desenvolver o coletivismo.  “No Cursinho Comunitário o aluno exercita virtudes que não são exercitadas em um cursinho particular. O aluno trabalha a convivência, a partilha e vai trabalhando cada vez menos o indivíduo para pensar em conjunto”, afirma Alberton.

 

Paloma Queiroz, 27, é graduada em Química pela USP e é uma das fundadoras e também líder do Cursinho. Em entrevista realizada virtualmente, Paloma afirmou com orgulho: “O Cursinho abre a mente do aluno. O jovem que entra em um cursinho comunitário sai outra pessoa. Ele muda muito, se torna uma pessoa muito mais crítica e questionadora”.

 

Colecionando aprovações em diversas instituições do país, o Cursinho Comunitário não se limita à realização das aulas aos fins de semana, mas também desenvolve atividades extracurriculares que estimulam a cidadania. São eventos como palestras, sessões de filmes e passeios às universidades e museus.

Paloma Queiroz está usando uma camisa que traz a frase: "respeita as mina" e atrás dela uma parede grafitada com a frase: "mulher negra é a revolução"
Fonte: Acervo pessoal de Paloma Queiroz

 

 

“Uma vez apresentamos uma palestra sobre violência contra a mulher e foi exatamente o tema que caiu como redação do Enem”, afirma Paloma Queiroz. Os eventos extracurriculares não se voltam apenas para os alunos do Cursinho, mas também para a vizinhança, como afirma a líder: “Queremos trazer a comunidade para o cursinho. O Cora tem o papel de discutir sobre os diversos assuntos que estão acontecendo na cidade, de questionar e de agregar com outros coletivos e a sociedade”.

 

 “Ser um bom cidadão não significa apenas ter um domínio das disciplinas escolares, mas conseguir compreender a realidade, a cultura da sua cidade, do seu país e conseguir socializar. Nesse sentido, sempre tentamos trazer atividades que se relacionam tanto com a realidade local, quanto com a demanda dos vestibulares”, declara Saulo.

 

 

 

 

Alunos, ex-alunos e professores do Cursinho Comunitário Cora Coralina
Fonte: Acervo pessoal de Saulo Alberton

 

Também localizado no bairro Bom Clima, o Karamujo Cultural é um evento ocorrido todo o primeiro domingo do mês e que reúne apresentações musicais, oficinas de leitura, gincanas infantis, dança e teatro.

Roberto Preto está cantando e tocando guitarra
Fonte: Acervo pessoal de Roberto Preto

 

 

Um dos líderes e fundadores do projeto é o músico e motofretista Roberto Preto, 36, afirmou em entrevista sucedida via chamada de vídeo por Whatsapp que a criação do projeto se deu pela necessidade de valorizar o espaço público, estimular a cultura local e a convivência entre moradores.

 

“Os eventos culturais, unidos com os movimentos educacionais podem produzir a transformação que o país precisa”, afirma Preto. Para ele, uma das melhores propostas do Karamujo Cultural são as ações voltadas às crianças: “Muitas vezes alguma criança chega dizendo ‘tio, ontem foi meu aniversário e eu nem ganhei parabéns’ e isso aperta o coração. Então, decidimos que todo o Karamujo teria bolo para as crianças aniversariantes do mês”, conta.

 

 

 

Crianças colorindo desenhos
Fonte: Marcelo Stangari

 

Roberto Preto defende que os projetos culturais são sistemas de mão dupla: ao mesmo tempo em que os líderes do evento levam felicidade ao público, esse corresponde da mesma maneira. “Quando estou falando no microfone, sinto que estou sendo bombardeado de energias boas. Com isso, não tem como não crescer, é inevitável. A mente que se expande jamais volta ao tamanho original”, conclui.

 

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Fonte: Marcelo Stangari

 

O Karamujo Cultural é um evento muito respeitado pela comunidade. Apesar de possuir licença de funcionamento pela Prefeitura de Guarulhos, a Polícia Militar e a Guarda Civil Municipal já tentaram intervir na realização do evento. O mesmo conflito com as autoridades ocorreu em outro projeto periférico, o Sarau da Quebrada, que acontece duas vezes por ano, na Praça da Estrela, no bairro Cidade Soberana.

Érica Teixeira
Fonte: Acervo pessoal de Érica Teixeira

 

 

Uma das líderes do sarau, Érica Teixeira, revelou em entrevista por vídeochamada que, na terceira edição do evento, em 2018, policiais chegaram com viaturas e cães de guarda enquanto a equipe de organização arrumava o local. “Começaram a fazer várias perguntas. Diziam que não poderíamos fazer o evento, enquanto mostravam um panfleto que tínhamos usado para promover o sarau”, conta.

 

Ela ainda relatou que revistaram alguns garotos sentados na praça, pois diziam ter recebido uma denúncia anônima. Apesar do conflito, o sarau resistiu e, hoje, já conta com seis edições realizadas. “O nosso intuito é valorizar e incentivar toda a arte que já acontecia na quebrada, mas não tinha chance de se mostrar. Queremos ser um ambiente livre para pessoas comuns partilharem”.

 

“Muitos falam que nós da quebrada temos que ir para os grandes centros. Só que essas mesmas pessoas também são necessárias onde nasceram, porque são elas que falam com propriedade sobre esse lugar.”, complementa.

 

 

 

 

Equipe de organização do Sarau. (Da esquerda pra direita) Murilo, Adams, Elvis, Érica, Eduarda, Helô, Henrique
Fonte: Acervo pessoal de Érica Teixeira

 

Teixeira ainda conta que muitas pessoas que participaram algumas vezes do sarau, acabaram se tornando produtores culturais ou líderes de projetos semelhantes: “O nosso grito de resistência está ecoando e isso nos deixa muito feliz.”

 

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Fonte: Acervo pessoal de Érica Teixeira

 

Criador de podcast "Papo de visão" chama ídolos de super-heróis. Cantor Fabbricio busca manter representatividade na música
por
Lucas Martins e Paulo Castro
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07/10/2020 - 12h

 

Os Racionais MC´s surgiram em 1988 na zona sul de São Paulo. Com as suas letras recheadas de críticas sociais, combate ao racismo e orgulho da cor de sua pele, Mano Brown, Edi Rock, Ice Blue e KL Jay se tornaram inspirações para milhões de jovens negros Brasil à fora, entre eles, Tarso Oliveira, criador do podcast “Papo de Visão”. “Eles são os meus super-heróis. Se eu to vivo hoje, respirando, amando a minha pele, se eu olho no espelho e me sinto feliz, me sinto bonito, é por causa do Racionais”.

Racionais
Racionais MC's (Foto:Divulgação)

Além do grupo de rap de São Paulo, Oliveira admirava diversos outros artistas que o faziam sentir orgulho da cor da sua pele, “Os meus pais não eram músicos, mas eles tinham um ouvido muito bom. Por influência deles, eu ouvia muito Luiz Melodia, Tim Maia e Jorge Ben Jor. Cresci nos anos 90, então eu ouvi muito os sambistas da época, que também eram os meus heróis de autoestima e representatividade. Eu olhava pra eles e pensava: ‘Quero ser bonito que nem esses caras”.

Oliveira é filho de professores, mas desde pequeno, se interessou pela música, que, segundo ele, é o seu oxigênio. O também músico e historiador acredita que a arte foi a base da sua formação. “A música me despertou pro conhecimento. Pra me conhecer como homem negro dentro de uma sociedade racista e dentro de um mundo capitalista. Como eu sou inserido e como eu sou visto. Através da música, eu percebi que era possível. Eu pensava: ‘não vou deixar ninguém me chamar de macaco”.

Tarso
Tarso Oliveira (de boné) ao lado de Edi Rock, membro dos Racionais MC's (Foto: Acervo Pessoal)

O paulistano de 27 anos pensa que a indústria musical é um reflexo de uma sociedade racista e sexista, ou seja, é um ambiente desfavorável para cantores e cantoras de pele negra. Oliveira afirma que a presença de artistas negros no mainstream é essencial, não somente para a representatividade, mas também para a “desconstrução de um padrão dentro de um cenário extremamente racista e não democrático”. Ele destacou o rapper Emicida como um dos artistas negros que conseguiram ser bem sucedidos na música brasileira, “Ele canta o que ele quer, ele é dono da música dele, ele tem a sua produtora musical, ele tem a sua marca. Dentro de um cenário extremamente racista, que não é favorável pra homem preto, isso é uma conquista gigante.”

O músico acredita que os negros sofrem dentro do meio musical por conta da apropriação cultural e do padrão de beleza estabelecido pela sociedade, “O Rock, por exemplo, é um gênero criado por pessoas negras, com artistas, como Chuck Berry, sendo um dos precursores, mas as pessoas acham que o pioneiro era o Elvis Presley, porque ele se encaixava no padrão”.

Chuck Berry
Chuck Berry, um dos precursores do Rock (Foto: Veja/Divulgação)

 

       Por fim, Oliveira enalteceu a importância da música na luta contra o racismo estrutural, “Nas novelas, os negros sempre eram mordomos ou empregados. Não que seja um problema ter essas profissões, mas nunca tínhamos um preto advogado ou uma preta médica. Através da arte, a gente proporciona uma nova perspectiva das pessoas negras.” Ele completou: “A música não é o único meio de combate ao racismo, também precisamos de políticas públicas. Precisamos de negros em todos os lugares e fazendo alguma coisa, não apenas estando ali.”

Assim como Tarso, o cantor Frabriccio também viu sua vida ser mudada pela arte da música. Natural do Espírito Santo, ainda menino recebeu de sua avó o seu primeiro violão, e foi nesse dia que sua paixão começou a criar forma. “Perceber que eu podia fazer aquilo também, é uma descoberta na qual minha mente tá no repeat até hoje, me fascina muito, e me lembro que com aquele violão no colo eu nunca me senti tão bem, belo e começando a me conectar com o que eu tinha de mais sutil em mim e no mundo.”

O cantor debate sobre como funcionam as mídias atuais e a maneiras que os negros sempre foram deixados de lado. “Se tirarmos da linha da história o que não foi criado por "artistas pretos", sobra bem pouco, e pelo que vejo esse pouco que resta não move a indústria, sobretudo no Brasil, onde somos maioria. Eu que sempre me pergunto, faz sentido termos gerações e gerações de invisibilização preta?” Frabriccio usa de perguntas para buscar respostas sobre o número de artistas negros e como o sistema valoriza a maioria, “Da pra acreditar que é algo que simplesmente aconteceu? A indústria e suas engrenagens se beneficiam disso de alguma forma? Não seria mais lucrativo e condizente com a realidade o contrário? A quem diga que é um raciocínio absurdo... E pelo jeito um perigo iminente caso esse embranquecimento pare.”

Fabriccio
Capa do álbum Jungle (Foto:Divulgação)

 

Nascido e criado em Vitória, Fabriccio veio para São Paulo e foi aqui que produziu seu primeiro álbum chamado Jungle. Apaixonado pela arte, o cantor promete continuar sua paixão pela música e ainda representar o povo negro da melhor forma possível, já que muitos esquecem de onde vieram. “Hoje além disso tudo é um trabalho pra mim, mas tento não esquecer que estou lidando com algo maior que eu, e tão misteriosa em seus fluxos como a própria vida. É preciso estar com os ouvidos e coração atentos.”

“Ficamos à mercê de nós mesmos, sem cuidado nenhum dos nossos governantes”, afirma Vanessa França, moradora do Quilombo de São Pedro
por
Laura Monteiro e Raphael Dafferner Teixeira
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06/10/2020 - 12h

Localizado no município de Eldorado (SP), o Quilombo de São Pedro ficou sem atendimento médico durante a pandemia do coronavírus: “Ficamos à mercê de nós mesmos, sem cuidado nenhum dos nossos governantes”, conta a agricultora Vanessa França, que mora no quilombo desde os 6 anos de idade.

Foto: acervo pessoal
Foto: Acervo Pessoal

Estudante de Pedagogia na Universidade Virtual do Estado de São Paulo (UNIVESP), França explica que o atendimento às comunidades era realizado de quinze em quinze dias, porém, após o início da pandemia, o auxílio foi interrompido. Em razão do descaso do Estado para com as comunidades quilombolas, ela defende as práticas desempenhadas pelos habitantes dos quilombos, os quais, a fim de controlar o contágio do vírus, tiveram de se organizar sozinhos, criando barreiras sanitárias e deixando entrar apenas o essencial.

Entretanto, apesar do pouco-caso, França relata o sucesso nas medidas de isolamento de seu território, que não contou com nenhum caso de COVID-19. Porém, a agricultora ressaltou o fato de a população ter corrido um grande risco: “Se um pegasse, a comunidade inteira pegaria”.

As comunidades quilombolas do Estado de São Paulo não contam com nenhuma morte. Porém, de acordo com os dados do Observatório da Covid-19 nos Quilombos do Brasil, parceria realizada pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) com o instituto Socioambiental, até o dia 28 de setembro, são 4598 casos de coronavírus, 166 óbitos e 1219 quadros em monitoramento. Nos quilombos brasileiros, isso representa uma taxa de mortalidade de 3,6%, 0,7% maior que a taxa do país inteiro (2,9%).

Givânia Silva (52), uma das fundadoras da CONAQ e ativista na luta quilombola, revela que a resistência dos quilombos antecede a pandemia: “Eles têm resistido à invasão da mineração, às queimadas, aos grandes empreendimentos e aos avanços da monocultura”.

Nascida no quilombo Conceição das Crioulas, no interior de Pernambuco, Silva é professora no município de Salgueiro e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal de Brasília (UnB), além de mestre em Gestão de Política Públicas. Considerada uma grande figura de liderança pelos povos quilombolas, durante o Governo Lula, ela assumiu a Secretaria de Políticas para Comunidades Tradicionais (Subcom) e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

 

Tatiana Reis/Huffpost Brasil
Tatiana Reis/Huffpost Brasil

“Desde o golpe de 2016, se iniciou o extermínio de alguns órgãos e o esvaziamento de outros, fazendo com que as políticas de regulação fundiária se enfraquecessem. Tais artimanhas começaram no Governo Temer e se aprofundaram no Governo Bolsonaro”, declara Silva.

Ainda sobre as demarcações de terras, Vanessa França diz que as principais ações afirmativas são voltadas para essa luta, e explica: “Os quilombolas, sem seu território, não são nada. É do território que nós sobrevivemos”.

Na concepção da estudante de pedagogia, a falta de iniciativa no processo de demarcação das terras traz insegurança aos moradores, os quais, por medo dos grandes fazendeiros, acabam abandonando seus territórios: “Os ruralistas têm interesse em nossas terras, e são eles quem demarcam elas agora”, informou.

Para além da construção de ações afirmativas, França dá ênfase na questão da necessidade de os espaços políticos também serem ocupados pelos quilombolas: “Só nós sabemos o que é importante para nós. Esse lugar também é nosso”.

 “A gente caminhava em um avanço e reclamávamos por ele ser lento; agora nem isso temos, porque o governo atual não investe e nem apresenta nenhuma perspectiva de mudança”, manifesta a ativista. Por isso, os habitantes viram-se obrigados a criar formas de mobilização social: “Temos construído meios de comunicação alternativos por meio das redes sociais, além de pressionarmos os parlamentares e o Congresso Nacional”.

Tatiana Reis/Huffpost Brasil
Tatiana Reis/Huffpost Brasil

 

A pauta acerca da garantia dos direitos dos povos tradicionais há de ser colocada em discussão na esfera pública: “São vários caminhos para as ações afirmativas, elas não se resumem à cotas. É preciso um debate mais amplo, a começar pelas construções políticas, articulações com o Parlamento e até a justiça.” Em seguida, a representante quilombola alega o dever dos órgãos governamentais em assegurar as comunidades frente ao contexto pandêmico: “Estamos denunciando o governo brasileiro por abandono e descaso nesse momento tão difícil”.

Face ao desprezo com os povos quilombola, a residente do Quilombo de São Pedro aproveitou para fazer críticas ao Governo Bolsonaro: “Nós não vemos esse Governo com bons olhos. A cada dia um direito nosso é tirado”, desabafou.

 

Foto: acervo pessoal
Foto: Acervo Pessoal

        A doutoranda conta que o governo do presidente é preocupado com os interesses de sua família e “dos grandes que o bancam”. E continua: “O que mais a gente tem visto nas comunidades quilombolas é a violação dos direitos desses sujeitos, praticado especificamente pelo Estado. Trata-se de um Governo que se afirma e é racista. Ele prega a morte e não a vida, além de ter muito mais compromisso com a escravidão do que com a liberdade”, concluiu sobre o racismo estrutural da sociedade brasileira.

 

 

Iniciativas criadas por pessoas negras auxiliam a colocar negros em espaços que contrariam a subserviência forjada ao longo da história
por
Julio Cesar Ferreira e Danilo Zelic
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02/10/2020 - 12h

“No Brasil há estereótipos de pobreza e ignorância, então empoderar pessoas pretas para terem conhecimento sobre finanças, economia e investimentos, com certeza é um ponto importante para mudar esses estigmas racistas”, afirma Alan Soares, idealizador do Boletinhos. Em entrevista realizada por meio de mensagens de e-mail, Alan Soares, publicitário, 24, conta que decidiu criar o Boletinhos, um perfil no Instagram, como forma de ajudar as pessoas a lidarem melhor com seu dinheiro.

“Eu sempre gostei de cuidar do meu próprio dinheiro, estudar sobre finanças e economia, como um interesse pessoal mesmo, nada profissional.”, acrescentando que: “A maioria dos conteúdos sobre finanças que chegavam até mim eram de coaches que prometiam o 'primeiro milhão antes dos 30', um discurso que eu não gosto. Procuro ser o mais pé no chão dentro do Boletinhos.”

Alan Soares
Alan Soares, criador do Boletinhos. (Reprodução Instagram)

Para ele, falar sobre finanças de uma forma fácil e didática é essencial. “Acho que todos os assuntos deveriam ser democratizados - traduzidos em linguagens mais acessíveis.” Pois para o publicitário, “Enquanto o conhecimento fica restrito a uma elite intelectual, ele se mantém como um instrumento de controle social. E ensinar as pessoas sobre dinheiro quebra muitas dessas barreiras de dominação.”

Ele pontua a importância de negros saberem lidar com o dinheiro, sobretudo para subverter o inconsciente coletivo. Em seu projeto de dissertação de mestrado, que está aguardando a aprovação, ele busca discorrer sobre o Afrofuturismo e o Imaginário do Negro no Futuro. “O Afrofuturismo é um movimento que quer mudar o inconsciente coletivo sobre o negro”, disse ainda que: “No Brasil há estereótipos de pobreza e ignorância, então empoderar pessoas pretas para terem conhecimento sobre finanças, economia e investimentos, com certeza é um ponto importante para mudar esses estigmas racistas.”

“Nunca pensei que pudesse ajudar tanta gente. E fico mais feliz ainda vendo quanta gente preta segue o Boletinhos e aprende sobre finanças com ele”, adicionando também que é, “Algo tão negado à população em geral, e mais ainda às pessoas pretas.”

Boletinhos.
        Conta do Boletinhos no Instagram (Reprodução Instagram)

Por outro lado, há negros que não falam de finanças, mas buscam empreender. Atualmente no Brasil, há várias iniciativas privadas que visam contribuir para o empreendedorismo negro. Como por exemplo, a Feira Preta e o Movimento Black Money, que possibilita a conexão entre empreendedores negros e comunidade negra, buscando fortalecer o afroconsumo. 

O levantamento realizado pelo Global Entrepreneurship Monitor, em 2017, mostra que a população negra representa 51% dos empreendedores do país. Mas outro dado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) expõe que 64,6% dos desempregados no país são negros. O que contribuiu em pensar que empreender acaba sendo a única saída para essa população.

Já o empreendimento idealizado pelos irmãos Daniel, 30 e Diego Dias, 33 e com a ajuda do primo, Thiago Rosário, resultou na criação da Cervejaria Implicantes, que iniciou de uma produção caseira, em que apenas conhecidos pudessem desfrutar do produto, para algo amplo e que abordasse a principal causa da marca: a representatividade e a luta contra o racismo. 

A falta de representatividade e o gosto por cerveja artesanal, sucedeu na criação da Implicantes, marca negra, que luta contra o racismo por meio de rótulos com figuras importantes dessa luta, e principalmente, porque é criada por pessoas negras. Eles criaram a marca porque, ao frequentarem espaços cervejeiros, não se sentiam representados e pertencentes do local. 

Idealizadores Implicantes.
Thiago Rosário (esquerda) Daniel Dias (centro) e Diego Dias (direita), idealizadores da Cervejaria Implicantes. (Acervo Pessoal)

Em entrevista feita por meio de áudios, Diego falou que outras marcas de cerveja já tentaram, de algum modo, praticar a representatividade, mas na maioria das vezes não era nada favorável. “Geralmente com figuras caricatas, ou termos pejorativos. Então muitas vezes ficava complicado nós consumirmos aquele produto, porque nós íamos estar validando uma ideia totalmente equivocada”.

Frases como: "Por que a gente fala que é a primeira cerveja negra?” e “Talvez seja vitimismo'' eram escutadas por eles. Para contrapor essas falas, Diego argumenta que: “A gente queria representar o nosso povo que não se sente à vontade, queríamos mostrar para pessoas iguais a nós, que tem uma cervejaria que não vai trazer somente o rock; uma cultura que é de branco, cis e hétero.” 

Rótulos Implicantes
Rótulos das cervejas da Implicantes, com as figuras negras: Maria Firmina dos Reis (esquerda) Luís Gama (centro) e Leônidas da Silva (direita). (Reprodução Instagram)

Em outro momento, falam sobre como a população negra reage a marca, Diego diz que o sentimento não poderia ser melhor. “A gente chega a se emocionar. Viram que era realmente uma cervejaria que lutava por eles”. A reação e a busca por criação dentro da marca, proporcionou a produção de produtos exclusivos. 

Diego ainda fala que: “A pegada e a essência da Implicantes, é pelo Black Money. Nós não vendemos somente para pretos, mas nos nossos eventos a gente traz de preferência pessoas pretas, afroempreendedores, para que possam fortalecer”.

 

Iniciativa “Dedo na Ferida” combate o racismo institucional e estrutural por meio de workshops e debates
por
Isabella Pugliese Vellani e Maria Sofia Aguiar
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02/10/2020 - 12h

O Esporte Clube Bahia, um dos mais tradicionais clubes do Nordeste, sempre se posiciona a favor das causas sociais e democráticas, como o movimento negro. Para fortalecer seus posicionamentos, em janeiro de 2018, criou o Núcleo de Ações Afirmativos (NAA), que visa combater diversos preconceitos, como a intolerância religiosa, a discriminação de gênero e sexismo e, principalmente, o racismo.

Desse modo, no ano passado, no dia da Consciência Negra, criou o projeto "Dedo na Ferida", que promove oficinas gratuitas internas no Bahia e oficinas externas para outras instituições e empresas que se interessem. A proposta é debater sobre o racismo estrutural e institucional para assim, combatê-lo.

Coordenador do projeto e integrante do NAA, Fábio Souza, em entrevista por Whatsapp, ressalta que a ideia do projeto surgiu para abalar a estrutura do racismo. "A gente conversou com a Ângela Guimarães - presidenta nacional da União dos Negros pela Igualdade Racial -  e entendemos que o formato ideal seria o Bahia, com a busca ativa, levar o debate para o espaço, onde essa pauta não é debatida".

Ademais, Souza diz que levar a iniciativa para outras instituições é essencial: "O Bahia sozinho não conseguiria mudar a estrutura do racismo em Salvador." Por ser negro e torcedor tricolor, apelido dado aos torcedores do time, o coordenador se mostra muito orgulhoso e representado.

Souza destaca a importância da posição que ele ocupa no projeto: "Foi muito importante para o meu amadurecimento e também para entender o meu potencial, enquanto corpo preto, e a importância de pessoas pretas ocupando um lugar de poder".

Edson Cardoso, cocriador do Movimento Negro no Brasil, jornalista e doutor em Educação pela USP, é o responsável por ministrar as oficinas. Em entrevista por telefone, ele afirma: “No momento em que o Bahia resolveu encarar o tema, ele resolveu assumir suas responsabilidades sociais. O time está fazendo agora porque a sociedade brasileira vive o tema. ”

FOTO- Edson e Fábio
À esquerda, Edson Cardoso (Fonte: Ponte Jornalismo). À direita, Fábio Souza (Fonte: Arquivo pessoal)

 

As oficinas se iniciam na explicação do preâmbulo da Constituição brasileira, fundamental para o debate do tema, que aponta o Brasil como uma "sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos". Assim, Cardoso explica que o início da luta antirracista e a afirmação negra devam partir da humanização do estigmatizado. "Existem várias formas de fazer esse processo de humanização. O antirracismo é essencial e fundamental por isso: porque ele luta pela afirmação e humanidade de todos. ”

Tanto nas oficinas externas e internas, as pessoas brancas lideram as inscrições. A minoria negra, que se inscreveu, menciona nos formulários terem sofrido racismo dentro de suas empresas e, por isso, consideravam importante a abordagem do tema em seus locais de trabalho. "Foi um pedido de socorro", como expressa Souza.

No edital, é exigido que, em cada instituição, três gerentes e dois diretores devam estar presentes. O requisito foi criado com o objetivo de que os gerentes brancos ouvissem seus funcionários negros relatando situações de racismo que sofreram em seus expedientes.

Na opinião de Fábio Souza, ter mais pessoas brancas no projeto é o ideal. "A gente acredita que o interesse para aprender tem que vir de pessoas brancas, porque quem faz o racismo não são as negras. Os negros têm que estar inseridos no projeto por questão de sobrevivência."

Segundo o Estudo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, os atos racistas em campo cresceram 70%, em 2020. Para Cardoso, as confederações de futebol tratam esse dado com omissão e precisam ser capazes de punir aqueles que infringem as normas.  Souza acrescenta que a resposta das confederações e diretorias precisam ser mais efetivas. "Fazer apenas comentários, notas de repúdio, é pouco".

Considerado o estado mais negro do Brasil, segundo a Fundação Cultural Palmares, o coordenador destaca: "A gente entende o papel social da instituição, enquanto maior do Nordeste, enquanto representante da maior população negra fora da África. Muitos torcedores passaram a apoiar as causas de ações afirmativas, passaram a entender a importância da pauta."

FOTO personalidades
Personalidades negras recebem camisas do Bahia na Fonte Nova (Fonte: El País)

 

O Núcleo de Ações Afirmativas do EC Bahia abraça a defesa de "grupos minoritários", mas que tem uma massa imensa de pessoas. Iniciativas como o Dedo na Ferida são um pontapé para a discussão transparente do tema e disseminação do antirracismo. Por exemplo, um dos resultados da oficina foi o de instituições que demitiram seus gerentes quando descobriram que estes estavam praticando atos racistas.

Edson Cardoso e Fábio Souza defendem essas ações porque, desde a abolição da escravatura, raras foram as atividades de inserção e o empoderamento para a parcela negra, deixando-os à margem da sociedade. "Com uma mão, você faz a ação afirmativa e com a outra, você deveria fazer a universalização de tudo para todos", confirma Cardoso. "É um começo. Toda instituição deveria se posicionar. Não dá mais para ficar onde está", conclui Souza.

FOTO - Roger
Ex-técnico do Bahia, Roger Machado vestindo uma camisa com a mensagem "Chega de preconceito" (Foto: Felipe Oliveira/Divulgação/E.C. Bahia)

 

Lucineia dos Santos, professora de Direito, aponta racismo e falta de representatividade na Justiça
por
Luiza Mazzer
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15/09/2020 - 12h

“Sua letra é feia. Não quero te contratar”. Essa foi apenas uma das desculpas que Lucineia Rosa dos Santos, hoje professora-chefe do Departamento de Direitos Humanos da Faculdade de Direito da PUC-SP, recebeu ao ter um emprego recusado no início de sua carreira. “Era mais fácil terem falado que o motivo era a cor da minha pele”.

“O racismo no Brasil não é político ou econômico, mas sim racial”, afirma Santos. Por isso, não importa o quanto dinheiro uma pessoa negra tenha, ela sempre será estranhada ao chegar em um restaurante de elite, por exemplo. E esta situação se torna ainda mais comum em cargos “respeitados” pela sociedade, como a de advogado ou juiz.

As situações de racismo mais divulgadas pela mídia - não menos importantes, todavia- são as dos réus,  dos milhares de negros condenados injustamente apenas por sua cor de pele. Porém, há racismo também do outro lado do tribunal, dentro do Poder Judiciário.

Enquanto 54% da população brasileira é negra, é a minoria que consegue um diploma universitário, ainda mais na área jurídica, onde apenas 28,8% dos estudantes de Direito são negros, caindo para 18,2% quando trata-se das faculdades com notas mais altas. E isso se explica, dentre diversos fatores, pela falta de oportunidades histórica que há para a população negra.

Contudo, a questão ainda maior, segundo a professora, não é apenas os números, mas sim a invisibilidade. Nem mesmo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) enxerga os advogados negros. Santos conta que, apesar de a quantidade de estagiários negros nos escritórios de advocacia brasileiros estar crescendo, “são apenas números”, pois quem realmente é efetivado no cargo ou ainda tem a oportunidade de promoção, são sempre os brancos.  Os juízes de segunda instância, do Supremo Tribunal Federal, são todos brancos. E a maioria do sexo masculino.

Santos conta que, em seu escritório de advocacia, onde atende principalmente causas trabalhistas, além de consultas para situações de violências e questões raciais, é muito comum que as pessoas peçam a diminuição de seu honorário por ser uma mulher negra. “Não é algo consciente, está no subconsciente das pessoas. É aí que falamos de racismo estrutural”. Quando trata-se de um homem branco, frase comum dita pelos clientes é “o preço dele é alto, mas é um ótimo advogado”. “É muito mais fácil pedir a diminuição do honorário para uma mulher negra”, afirma a professora-chefe. O racismo estrutural se mostra na falta de confiança na capacidade das mulheres advogadas, e ainda mais das advogadas negras. 

Em 2019 foi lançada a Associação Nacional de Advocacia Negra (ANAN), cujo objetivo é dar visibilidade aos advogados negros e orientá-los em diversos aspectos como de conhecimentos profissionais, intelectuais, pessoais, entre outros, além de combater o racismo na área jurídica, resultado de uma discriminação racial histórica. 

Estevão Silva, advogado negro e fundador da ANAN, afirma, em entrevista para o site Migalhas: “A ANAN também é um avanço histórico por que ela desvenda o racismo e discriminação na estrutura interna da Justiça, ela não é um encontro de advogados negros. É a declaração de que a estrutura judiciária não integra o membro negro altamente qualificado”.

 

Aline Pellegrino, agora diretora de futebol feminino da CBF, torna-se uma das exceções entre mulheres negras que ocupam cargos dirigindo clubes e federações
por
João Carlos Ambra e Maria Sofia Aguiar
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14/09/2020 - 12h

O Brasil tem 54% da população negra, com 27% desse total composto por mulheres. A transposição desses dados para o campo não se altera: no futebol feminino brasileiro, a maioria das jogadoras são negras. Contudo, fora dos campos, tudo muda. O futebol, sendo um espelho social, apenas reafirma a quase inexistência de mulheres negras ocupando altos cargos que, na esmagadora das vezes, são ocupados por homens brancos.

Podemos contar nos dedos quantas mulheres negras coordenam as equipes femininas”, afirma a jornalista negra Natália Andrade, que além de responsável por cobrir o futebol feminino em Minas Gerais no blog "Deus me Dibre", luta pelos direitos das mulheres negras no meio esportivo. 

 Quando se fala em mulheres negras na gestão de clubes e federações, o único nome que vem à mente é o de Aline Pellegrino, a Pellê - ex-jogadora da Seleção, atual Diretora da Federação Paulista de Futebol Feminino e possível candidata à gestora de futebol feminino na CBF.

Pellê na coordenação da FPF
Pellê na coordenação da FPF (Foto: Reprodução/El País)

"Em campo, a maioria das jogadoras são negras e as mulheres negras, ou melhor, as pessoas negras, em geral, não são vistas na intelectualidade. O que você vê no campo, não se reflete nos cargos de poder", afirma Natália.

Ter, então, Aline Pellegrino nesse cargo fora das quatro linhas, só reafirma a falta de oportunidade para as mulheres negras. Como qualquer outra pessoa, elas podem e são capazes. "Eu sou muito fã da Pellê. Dentro de campo ela já era absurda, fora dele, ela conseguiu ser mais ainda. Mas ela não tá ali por questão de representatividade, ela tá ali porque ela é extremamente competente", completa.

"Se a gente pensa na 'Santíssima Trindade do Futebol Feminino', no Brasil, é a Marta, que é uma mulher negra; a Cristiane, que é uma mulher negra; e a Formiga, que também é uma mulher negra. Então, em campo, isso é óbvio. Só que a gente é esquecida quando se fala em representar”

Santíssima Trindade do futebol feminino
Santíssima Trindade do Futebol Feminino Brasileiro: Cristiane, Marta e Formiga (Foto: Reprodução/Lance!)

Natália aponta que reconhecer a negritude é uma conquista crucial, e possibilita, por sua vez, o fortalecimento dos movimentos antirracistas e da luta pela ocupação em cargos de poder: "Quanto maior o poder, mais explícitas ficam essas demonstrações de racismo, justamente pela ausência de pessoas negras no poder, porque ali você passa a ser um animal exótico. Nós chegamos nos lugares e somos as únicas mulheres negras ali."

Ela ainda aponta o privilégio das mulheres brancas em relação às negras: "se as brancas são exceções, as negras são inexistentes". Desprezar o privilégio branco no feminismo apenas retrocede o movimento. "O problema não é a mulher ser privilegiada, é ela não reconhecer seus próprios privilégios. O que então, todas as mulheres negras, que também merecem, não fizeram para merecer? Por que elas não estão aí?"

A presença de uma mulher negra no comando de uma federação de futebol pode ser considerado um exemplo para as meninas negras que almejam o mesmo. Pellê é inspiração para milhares de "Natálias" desse país. “Quando a gente nasce mulher e negra, a gente já nasce lutando pra viver, sobreviver e existir. Então desistir não é uma escolha.”

Natalia Andrade em cobertura jornalística
              Natalia Andrade em cobertura de um jogo de futebol                                 feminino, em Minas Gerais. (Foto: Arquivo Pessoal)

 


 

 

 

A disparidade social e racial nunca ficou tão evidente como agora apontam profissionais da educação
por
Fernando Bocardo e Pedro Duarte
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10/09/2020 - 12h

         

sala de aula
Sala de aula vazia: aulas presenciais estão proibidas desde março,  por conta da pandemia do novo coronavírus (Foto: Fábio Vicentini)

            A pandemia escancarou a desigualdade que existe, tanto em relação à infraestrutura quanto em relação aos professores. A qualidade é precária e tem a ver com vários fatores. Colocaria a questão estrutural, e ela é ratificada pelas instituições brasileiras”, afirmou Francisco Gonçalves, docente da rede particular na cidade de São Paulo.

Desde o início da pandemia, mais de 47 milhões de alunos brasileiros deixaram de frequentar a escola presencialmente, de acordo com estimativa do coordenador de desenvolvimento humano do Banco Mundial para o Brasil, Pablo Acosta.

Em situação ainda mais precária, estão estudantes negros e periféricos que, mesmo em um cenário pré-pandemia, já enfrentavam diversos obstáculos para alcançar o acesso à educação de qualidade. Segundo dados do Instituto Unibanco, cerca de 67% dos jovens negros de 7 a 25 anos estão na rede pública de ensino, enquanto apenas 13% estão na rede privada. Já 5.400.000 jovens negros sequer estudam. 

            A disparidade entre a rede pública e privada de ensino fica ainda mais evidente no contexto do ensino virtual, em um país onde 58% dos domicílios não têm acesso a computadores e 33% não têm acesso à internet, segundo dados do Comitê Gestor da Internet no Brasil coletados em 2018.

Francisco, que teve sua formação acadêmica completa na rede pública, resume: “A questão deve ser analisada a partir de três principais vieses. O primeiro é o próprio aluno e suas dificuldades de acesso à internet, computador ou até mesmo um celular. O segundo é a falta de preparo dos professores, a maioria esmagadora não foi treinada para dar aulas online, enquanto os da rede privada estão mais familiarizados com o método. Por último, destaco o fato de a escola pública ser um espaço em que a formação do professor não é valorizada.” Para Gonçalves, a profissão exige um constante aperfeiçoamento que não é incentivado na rede pública.

Francisco Gonçalves, docente da rede particular
Francisco Gonçalves, docente da rede particular (Foto:acervo pessoal)

A disparidade no acesso à educação, acentuada pela pandemia da Covid-19, tem graves impactos no ingresso do jovem negro e periférico na universidade. Para Dennis de Oliveira, professor de Comunicação da USP e pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares do Negro Brasileiro (NEINB), “a estrutura não é só acesso à internet, mas ter um espaço para estudar”.

Os problemas de infraestrutura, no entanto, não são exclusivos do ambiente doméstico. A própria universidade impõe obstáculos ao universitário negro e periférico. Segundo Oliveira, a USP é “pouco acolhedora para o [universitário] trabalhador”: bibliotecas e restaurantes fecham cedo, o transporte no período noturno é deficitário e a cidade universitária tem infraestrutura ruim.

Além disso, o professor apontou problemas na política de cotas implantada na USP em 2016. Resultado de intensa mobilização estudantil, a USP foi uma das últimas universidades estaduais a adotar o sistema de cotas como meio de ingresso. Ainda hoje, há resistência por parte da reitoria na instituição de uma comissão para verificar e coibir fraudes nas cotas.

 

O professor da USP, Dennis de Oliveira
O professor da USP, Dennis de Oliveira(Foto:acervo pessoal)

        Para Oliveira, é um “mito que o aluno cotista teria desempenho pior, porque parte do pressuposto de que o desempenho no vestibular é um indicador de qualidade, mas o vestibular não mede qualidade do aluno e, sim, preparo. O repertório que o vestibular exige não é indicador do desempenho do aluno no ensino superior”.

Sobre a desigualdade enfrentada, Francisco Gonçalves finaliza advertindo que existe a possibilidade de piora no cenário. “Se nós não nos debruçarmos sobre a questão do público com prioridade para esse universo da escola pública em si, não vai haver mudança. O que vemos em relação aos governos, tanto atual quanto os passados, é um movimento contrário.”

Enquanto a capital paulista tem 37% de negros, segundo censo de 2010, Câmara Municipal, com 55 vagas, não chega a 2%
por
Daniel Seiti Kushioyada e Pedro Catta-Preta Martins
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10/09/2020 - 12h

Apesar de constituírem 37% da população na capital paulistana, segundo Censo de 2010, negros são sub-representados em cargos políticos majoritariamente ocupados por homens brancos. Atualmente, na Câmara Municipal de São Paulo, dos 55 vereadores em mandato, apenas um é negro.

De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as eleições de 2016, a porcentagem de vereadores negros eleitos no Brasil, 42,07%, é drasticamente superior a de São Paulo. Essa desigualdade na ocupação de cargos políticos reflete uma realidade social de racismo estrutural, com origem histórica, repressiva e exclusiva, aos afrodescendentes.

Simone Nascimento, graduada em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), integrante da coordenação estadual do Movimento Negro Unificado e é pré-candidata a vereadora pelo PSOL na capital paulista, em entrevista ao site da Agemt, defende a importância da inclusão participativa negra na política. 

Foto Simone Nascimento
Simone Nascimento.  Foto: Victoria Alves

 

“Há uma série de formas e mecanismos de genocídio da população negra orquestrados em espaços políticos onde há uma ausência justamente de negros.O parlamento pode ser um espaço de luta. Se ele for ocupado por uma diversidade de pessoas em São Paulo, que seja pelo povo periférico, pelas mulheres negras e por movimentos socias”, afirma a candidata.

Na Câmara Municipal, apenas 18% dos parlamentares são mulheres, porém nenhuma negra. Nascimento explica a presença de um duplo preconceito, já que "mulheres negras sofrem com o racismo e o machismo". A pré-candidata acrescentou que a política brasileira reproduz um funcionamento de sociedade que deixa as mulheres negras escanteadas.

“O espaço político não foi feito para nós, porque ele foi pensado para que os descendentes dos que escravizaram meu povo continuassem no poder. Quando tentamos ocupar esse espaço comprometidas com projetos para o nosso povo, nos tornamos extremamente perigosas, como foi a Marielle Franco”, conclui.

O Projeto de Lei 4041/20, proposto pela deputada Benedita da Silva, em agosto deste ano, foi aprovado pelo Plenário do TSE para ser colocado em prática a partir das eleições de 2022. Porém, de acordo com a medida liminar tomada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, os quesitos aprovados na PL, como a destinação de dinheiro do Fundo Partidário e Fundo Eleitoral de forma proporcional às campanhas de candidatos negros e a distribuição proporcional no tempo de propaganda em rádio e TV do horário eleitoral, podem ser impostos nas eleições municipais que ocorrerão no fim de 2020.

Um dos raros vereadores negros eleitos na história da cidade de São Paulo, Fernando Silva Bispo, mais conhecido como “Fernando Holiday”, no entanto, vê a baixa participação de pessoas negras na política como uma “evolução da sociedade”, “que me elegeu pelas minhas ideias e não pela minha cor”. 

Foto Fernando Holiday
Fernando Holiday.  Foto: Vitor Liasch

Quanto aos motivos pelos quais há tão poucos negros na Câmara e na política em geral, Holiday culpa os próprios candidatos, que, de acordo com ele “tentam se eleger por serem negros, e não trazem outras pautas ou propostas consigo.”

 “Devemos dar atenção a pautas que representem os negros, mas sem esquecer do trânsito, da qualidade do atendimento de saúde pública entre outras coisas.” diz o vereador a Agemt.

Por diversas vezes, suas ideias foram de encontro com pautas de movimentos raciais. Holiday já criticou as cotas, a figura de Zumbi dos Palmares, o feriado da consciência negra e o próprio movimento negro. No entanto, afirma que não deixa de lutar pelos negros, atuando apenas de formas diferentes.

 Sobre a sua experiência na Câmara de Vereadores, ele afirma que “é um ambiente que te incentiva a conversar e mudar de ideias. Alguns são mais fechados ao diferente, mas a maioria está disposta a debater e mudar quando necessário. Eu, por exemplo, aprendi muito nesses anos de mandato”.