Uso constante do smartphone pode mudar o cérebro humano

O hábito de recorrer ao GPS e aos motores de busca altera a forma como prestamos atenção e retemos informação, mas especialistas divergem sobre os impactos reais na nossa capacidade cognitiva.
por
Isabelle Muniz
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28/09/2026 - 12h

Por Isabelle Muniz

 

Para chegar à faculdade, o estudante de Administração Henrique de Lira, 20 anos, costuma fazer o mesmo caminho: entra no carro, abre o Waze e coloca o endereço do destino. Mesmo depois de percorrer a rota algumas vezes, ele continua seguindo as orientações do aplicativo para saber qual rua pegar, onde virar e quando mudar o trajeto. Henrique tirou a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) há cerca de cinco meses e passou a utilizar aplicativos de navegação com frequência desde então. A dependência do GPS fica mais evidente quando o celular deixa de ser uma opção. Ele já ficou sem bateria ou sem Internet durante um percurso e, apesar de saber aproximadamente em que região estava, não conseguia identificar exatamente como chegar ao destino. A dificuldade também aparece quando precisa explicar um caminho que já percorreu. Henrique conta que, em alguns casos, consegue lembrar apenas de partes do trajeto, mesmo tendo chegado ao mesmo lugar outras vezes.

Para ele, a diferença está na atenção dedicada ao percurso: sem o aplicativo, seria necessário observar ruas, prédios e outros pontos de referência. Com o GPS, essa tarefa fica a cargo da tecnologia. O comportamento não se limita à orientação espacial. Quando precisa lembrar de alguma informação, Henrique também costuma recorrer diretamente ao celular, em vez de tentar recuperá-la pela própria memória. A facilidade de pesquisar faz com que, muitas vezes, ele nem tente guardar a informação. A experiência do estudante ilustra uma mudança na relação entre tecnologia e memória. Funções que durante muito tempo dependeram diretamente da atenção, da memória e da capacidade de orientação passaram a ser compartilhadas com sistemas digitais. Aplicativos de navegação indicam os caminhos, mecanismos de busca encontram informações em poucos segundos e os celulares mantêm disponíveis dados que antes precisavam ser lembrados. Nesse cenário, a questão não é simplesmente determinar se a tecnologia está prejudicando ou não a memória, mas entender como a disponibilidade constante dessas ferramentas modifica a maneira como as pessoas utilizam suas próprias capacidades cognitivas. A memória humana não funciona como um arquivo que registra igualmente tudo aquilo que é vivenciado. A atenção exerce um papel importante nesse processo, já que as informações às quais uma pessoa presta atenção têm maiores possibilidades de serem elaboradas e posteriormente recuperadas. Quando uma ferramenta assume determinada tarefa, portanto, também pode mudar a quantidade de atenção e esforço dedicada a ela.

Na orientação espacial, seguir instruções passo a passo de um GPS permite chegar a um destino sem necessariamente construir uma representação mental do percurso. É possível saber que se chegou ao lugar correto sem conseguir reconstruir o caminho feito. Esse processo pode ser relacionado ao conceito de memória transacional, segundo o qual o conhecimento necessário para realizar determinadas atividades pode ser distribuído entre pessoas e fontes externas. No ambiente digital, essa lógica se amplia. Parte das informações que antes precisavam ser armazenadas individualmente pode ficar sob responsabilidade dos dispositivos. Em vez de memorizar uma informação, basta saber onde encontrá-la. Em vez de aprender um trajeto, basta saber utilizar o aplicativo que o indica.

Para o psicólogo Carlos Eduardo Malagutti, no entanto, o uso do celular, por si só, não permite afirmar que a memória esteja sendo prejudicada. A capacidade de memorizar depende de diferentes estímulos e atividades cognitivas, como leitura, diálogos e exercícios. Malagutti aponta que a facilidade de pesquisar uma informação imediatamente pode, por outro lado, alterar a forma como a própria memória é utilizada. Ao recorrer ao Google antes de tentar lembrar de alguma coisa, a pessoa pode deixar de acessar conhecimentos que já possui. A atenção também está relacionada a esse processo. Segundo o psicólogo, quando o foco está constantemente direcionado ao celular, parte da atenção que poderia estar voltada para pessoas, ambientes e acontecimentos ao redor deixa de ser utilizada. Como a atenção participa do processo de armazenamento das informações, essa divisão pode interferir naquilo que posteriormente será lembrado. No caso da orientação espacial, Malagutti não considera que o Waze necessariamente prejudique essa capacidade. Para ele, o aplicativo pode funcionar como uma ferramenta de apoio. A questão está menos na existência da tecnologia e mais na maneira como as informações oferecidas por ela são utilizadas. Mesmo quando uma ferramenta realiza parte de uma tarefa, a habilidade não precisa necessariamente ser perdida.

Ainda segundo o psicólogo, ela pode continuar preservada quando a pessoa também presta atenção e utiliza as informações necessárias para realizar a atividade. A relação entre tecnologia, memória e concentração, portanto, não se resume à ideia de que o celular estaria simplesmente destruindo a memória. O uso dessas ferramentas também envolve uma mudança naquilo que as pessoas consideram necessário memorizar e no esforço empregado para recuperar informações. A neurociência amplia essa discussão. O neurocientista Miguel Nicolelis explica que a memória humana não funciona como um arquivo digital armazenado de maneira fixa no cérebro. Trata-se de um processo biológico, dinâmico e constantemente reconstruído a partir das experiências e do contexto de cada pessoa. A partir dessa característica, Nicolelis alerta para os efeitos da terceirização contínua de funções cognitivas para máquinas. Quando dispositivos e algoritmos passam a realizar tarefas que exigiriam raciocínio, tomada de decisão ou memória, essas capacidades deixam de ser exercitadas da mesma maneira. A perspectiva ajuda a compreender situações como a de Henrique.

  Curtir  Não gosto A frase de Miguel Nicolelis, "A inteligência artificial nem é inteligente nem é artificial," reflete uma crítica às concepções populares sobre a inteligência artificial.

A frase de Miguel Nicolelis, "A inteligência artificial nem é inteligente nem é artificial," reflete uma crítica às concepções populares sobre a inteligência artificial.

O problema não está necessariamente em utilizar o Waze ou mecanismos de busca, mas na possibilidade de depender dessas ferramentas a ponto de deixar de exercitar habilidades que poderiam continuar sendo desenvolvidas individualmente. Uma experiência diferente aparece na trajetória da engenheira de qualidade Andressa Muniz, 41 anos. Ela tirou a carteira de habilitação aos 18 anos, quando aplicativos como o Waze ainda não faziam parte da rotina dos motoristas. Na época, aprender a dirigir também significava aprender a se orientar. Para chegar a um lugar desconhecido, Andressa recorria a mapas, pedia informações ou anotava instruções. Depois de repetir um trajeto algumas vezes, já conseguia fazer o percurso sem consultar essas referências. O processo dependia da observação. Praças, postos de gasolina, lojas, pontes e outros pontos do caminho funcionavam como referências para identificar onde era necessário virar. Caso não prestasse atenção ao ambiente, poderia se perder. Quando algo dava errado, também era necessário encontrar uma solução por conta própria. Errar uma rua poderia significar voltar, procurar outra rota ou pedir informações. Essas situações faziam parte do próprio processo de aprendizagem do caminho. Hoje, Andressa utiliza o Waze principalmente quando vai a lugares que não conhece. Nos trajetos habituais, muitas vezes dispensa o aplicativo.

Alguns dos caminhos aprendidos décadas atrás continuam registrados em sua memória. Para ela, a tecnologia não necessariamente tornou as pessoas menos capazes de memorizar ou se orientar. A principal mudança estaria na necessidade de utilizar essas habilidades. Com ferramentas capazes de fornecer respostas e indicar caminhos imediatamente, o esforço exigido para realizar determinadas tarefas diminuiu. A experiência de Andressa também mostra que a utilização da tecnologia não impede necessariamente a atenção ao ambiente. Quando dirige para um lugar novo, ela procura compreender o caminho e observar as referências, em vez de apenas seguir as instruções do aplicativo. As experiências de Henrique e Andressa não permitem concluir que uma geração tenha uma memória melhor que a outra. Elas mostram, porém, duas formas diferentes de aprender e utilizar uma mesma habilidade. Enquanto Andressa aprendeu a construir os trajetos a partir da observação, da repetição e da memorização, Henrique passou a dirigir em um contexto no qual essas etapas podem ser realizadas, em parte, por uma ferramenta digital. A tecnologia, nesse sentido, não apenas oferece novas formas de acessar informações. Ela também modifica quais tarefas precisam ser realizadas pela própria pessoa. O caminho pode continuar sendo percorrido, a informação pode continuar sendo encontrada e o destino pode continuar sendo alcançado. A diferença está em quanto desse processo permanece na memória de quem o realiza.