Um em cada cinco estudantes já apostou online; jovens relatam acesso antes dos 18 anos

Levantamento realizado em 191 escolas mostra que 20,4% dos estudantes entrevistados já fizeram apostas online, mesmo com a proibição para menores de idade; Leandro Moreno começou aos 17 anos depois de acompanhar lives e apostar com amigos
por
Luciano Carvalho
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01/10/2026 - 12h

Cinco amigos, cerca de R$ 10 de cada um e uma múltipla de futebol. Foi assim que Leandro Moreno fez sua primeira aposta, quando ainda tinha 17 anos. O grupo perdeu os aproximadamente R$ 50 colocados naquela aposta e, para quase todos, a experiência terminou ali. Mas Leandro decidiu continuar.

"Nois colocou uns 10 reais, perdeu e os caras largaram. Mas eu fiquei maluco. Aí fui e coloquei 50 conto pra recuperar tudo que o pessoal tinha perdido”, conta.

O caso de Leandro ajuda a colocar uma história por trás de um número divulgado no dia 10 de setembro pela Frente Parlamentar Mista da Educação. Um levantamento feito em parceria com o Equidade.info ouviu 1.912 estudantes de 191 escolas e mostrou que 20,4% dos alunos dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio já fizeram apostas online. Aos 17 anos, idade em que Leandro começou, esse número chega a 32,3%. Entre os meninos do 3º ano do Ensino Médio, 49,7% afirmaram já ter apostado.

Mas existe uma contradição nesses números. A utilização de plataformas de apostas por menores de 18 anos é proibida no Brasil. A regulamentação prevê punições para os operadores e determina que as empresas autorizadas façam identificação dos apostadores, inclusive com reconhecimento facial e prova de vida.

Antes da aposta, vieram as lives

Leandro já conhecia esse universo antes de colocar dinheiro pela primeira vez. Ele acompanhava streamers e influenciadores que faziam conteúdos relacionados a cassino e apostas, principalmente junto com os próprios amigos.

"Eu sempre vi muita live e o Yuri começou a fazer live de cassino, muito mais do que de gameplay. Então eu gostava de assistir e eu ficava assistindo as lives do Yuri junto com os moleques. Então a gente começou junto, a gente decidiu ali junto, naquele dia, que a gente ia fazer uma, porque o Yuri tinha mostrado na live uma múltipla que ele fez e nois copiou.”

O fácil acesso às plataformas digitais pode exacerbar o risco de vício em uma comunidade altamente conectada como a universitária (Foto: Marco Cavalcanti)
O fácil acesso às plataformas digitais pode exacerbar o risco de vício em uma comunidade altamente conectada como a universitária (Foto: Marco Cavalcanti)

Apesar de ser menor de idade, Leandro conta que sabia que aquele conteúdo não era destinado para ele. Segundo ele, os próprios streamers repetiam os avisos para maiores de 18 anos. A proibição, porém, não era vista pelo grupo como uma grande dificuldade.

“Os caras falam toda hora que é pra maiores de 18. Só que não é muito difícil de jogar, sabe? No chat mesmo todo mundo conversava sobre, pedia o CPF da mãe, do pai e fazia o login e criava a conta. Era muito fácil.”

Hoje, para operar legalmente no Brasil, as plataformas precisam exigir dados do usuário e mecanismos de identificação. O apostador também deve cadastrar uma conta bancária ou de pagamento em seu próprio nome, e as empresas não podem aceitar depósitos feitos por contas de terceiros.

A experiência relatada por Leandro aconteceu antes do modelo atual de regulamentação estar totalmente estabelecido, mas o levantamento da Frente Parlamentar mostra que o problema não desapareceu. Crianças e adolescentes continuam relatando contato com as apostas mesmo depois do endurecimento das regras.

O próprio Guilherme Lichand, professor da Universidade Stanford e responsável pela supervisão da pesquisa, levantou essa dúvida ao divulgar os resultados: “Como crianças e adolescentes descobrem essas plataformas? Como contornar as restrições de idade?”

Quando perder vira motivo para continuar

No caso de Leandro, a primeira derrota não serviu para afastá-lo. Depois que os amigos perderam os R$ 10 de cada um, ele colocou sozinho aproximadamente o que todos haviam apostado juntos para tentar recuperar o prejuízo.

A psicóloga Vivian Bandeira explica que o círculo social pode ter um peso importante nesse tipo de comportamento, principalmente entre os jovens.

“Quando uma prática é constantemente apresentada por pessoas com as quais o jovem se identifica, seja por amigos ou por figuras que ele acompanha nas redes, existe uma tendência de normalização daquele comportamento. Ele deixa de enxergar aquilo como algo distante ou excepcional”, explica.

No caso de Leandro, não existia apenas a influência das pessoas que acompanhava pela internet. Os próprios amigos consumiam aquele conteúdo e decidiram começar a apostar juntos.

Vivian também destaca que o comportamento da pessoa dentro de um ambiente de aposta pode ser diferente daquele apresentado normalmente no dia a dia.

“Existe uma expectativa de recompensa muito intensa. Mesmo uma pessoa que não demonstra uma busca exagerada por dinheiro no cotidiano pode, dentro daquele ambiente, entrar em uma lógica de querer ganhar mais ou recuperar imediatamente aquilo que perdeu.”

A tentativa de buscar o dinheiro de volta é um comportamento também apontado por outros profissionais. A psiquiatra Giovanna Quinet afirmou à Agência Brasil que uma pessoa pode começar a perder mais dinheiro e aumentar o valor das apostas justamente tentando recuperar o prejuízo anterior.

Das apostas esportivas para o pôquer

Com o tempo, a forma como Leandro jogava também mudou. As apostas esportivas perderam espaço e o pôquer passou a ser a principal atividade. Hoje, ele joga tanto online quanto presencialmente e já participou de torneios.

“Poker é o que eu jogo hoje. Já fui até jogar presencial. Às vezes eu jogo online também pra treinar. Mas cassino hoje eu uso mais como treino de mentalidade. Aposta esportiva eu larguei.”

Leandro se define atualmente como uma pessoa viciada em pôquer. Mesmo assim, existe uma diferença entre essa prática e as apostas esportivas quando se fala especificamente da regulamentação das bets. O pôquer, por envolver habilidade entre os participantes, não entra da mesma maneira na modalidade de aposta de quota fixa regulamentada pelo governo.

Mas a relação de Leandro com apostas não ficou marcada apenas pela mudança do tipo de jogo. Ao longo dos anos, ele teve períodos de ganhos e perdas e conta que chegou a perder valores maiores do que pretendia e um desses momentos aconteceu quando colocou R$ 3 mil em uma aposta.

“Eu já não tava aguentando mais. Eu tava perdendo muito dinheiro naquela época. Aí teve um dia que eu coloquei 3 mil e eu perdi. Aí eu fui falar com a minha mãe, contei sobre todos os meus vícios em aposta e prometi pra ela que eu não ia mais jogar.”

O valor não foi necessariamente a maior perda que Leandro já teve, mas marcou um momento em que ele decidiu mudar sua relação com as apostas esportivas. Desde a conversa com a mãe, ele afirma que deixou de apostar da mesma maneira que fazia anteriormente.

As apostas também mudaram o futebol

O futebol foi a porta de entrada para a primeira aposta de Leandro, mas também acabou sendo afetado pela relação que ele criou com o dinheiro.

Corintiano, ele percebeu principalmente isso quando começou a colocar dinheiro em jogos do próprio clube.

“Eu nunca gostei muito de apostar no Corinthians. Porque quando o Corinthians perdia e eu tinha apostado, ficava mais puto ainda, dobrava a raiva e me afastava um pouco até do time. Eu ficava com raiva do time a semana inteira. Então acabou misturando muito e eu parei de apostar no Corinthians.”

 A experiência de Leandro começou antes dos 18 anos, idade em que ele legalmente ainda não poderia utilizar uma plataforma de apostas. Mas o caso dele está longe de ser isolado. O levantamento divulgado pela Frente Parlamentar da Educação mostra que um em cada cinco estudantes entrevistados já teve algum contato com apostas online.

As regras atuais aumentaram as exigências para identificar quem está apostando e também endureceram restrições de publicidade para crianças e adolescentes. Mesmo assim, os números mostram que o acesso de menores continua sendo um problema.

 Por isso, a principal questão levantada pela pesquisa não é apenas quantos jovens estão apostando, mas como eles chegam até esse ambiente tão cedo. No caso de Leandro, o caminho passou por lives, amigos, futebol e uma primeira aposta de R$ 10. Depois vieram valores maiores, outros tipos de jogo e uma relação com as apostas que começou ainda antes da idade permitida.