Enquanto o São Paulo tenta deixar para trás um jejum de dez jogos sem vencer no Brasileirão, encerrado no último sábado (29) com a vitória sobre o Bragantino, o clube enfrenta uma crise institucional nos bastidores que pode ser ainda mais complicada do que a fase ruim dentro de campo.
O estopim mais recente está no contrato de gestão de ingressos do Morumbis. Esse acordo, que prevê a substituição da Total Acesso pela Ticketmaster na venda de ingressos e no programa de sócio-torcedor a partir de 2027, trouxe à tona um desentendimento sério entre a diretoria executiva e o Conselho Deliberativo.
A troca traz uma antecipação de R$140 milhões para o clube, dinheiro que a diretoria queria usar para quitar dívidas com o elenco, especialmente os direitos de imagem, até o fim de setembro.
O presidente do clube, Harry Massis Júnior, reagiu com firmeza à criação de uma comissão para reexaminar o contrato. A comissão foi formada majoritariamente por aliados do presidente do Conselho, Olten Ayres de Abreu Júnior, seu principal adversário político.
Em nota divulgada no site oficial do clube, Massis chamou a iniciativa de “uma tentativa de prejudicar um processo estruturado", que já havia sido aprovado por unanimidade pelo Conselho de Administração e encaminhado ao Deliberativo em 27 de agosto.
Segundo apuração do UOL junto ao próprio presidente do Conselho, a comissão foi criada depois que a NewC, empresa derrotada na concorrência, apontou ao órgão inconsistências nas versões do edital, falta de retorno sobre uma proposta revisada e dúvidas sobre uma condição comercial ligada à controladora de uma rival. Na mesma nota publicada no site do clube, Massis rebateu, classificando a proposta da NewC como uma apresentação preliminar, sem viabilidade real.
Mas o conflito vai além do contrato de ingressos. Ele revela uma disputa de poder entre a diretoria e o Conselho Deliberativo que deve continuar marcando o cotidiano do clube nas próximas semanas.
A pressão sobre o São Paulo não vem só de dentro do clube. As torcidas organizadas Independente, Dragões da Real e Falange Tricolor, lançaram uma nota conjunta nas redes sociais exigindo explicações da diretoria sobre uma questão que está gerando muita discussão: por que o clube escolheu antecipar 140 milhões de reais com a Ticketmaster, em vez de aceitar uma oferta de até 500 milhões de reais da NewC.
Nos dias seguintes, os torcedores levaram faixas ao estádio do Morumbis durante o jogo contra o Bragantino com mensagens como “Conselheiro, você não é dono do clube” e “Ei conselho, prestação de contas já”, direcionadas à alta cúpula do clube.
Para grande parte da torcida, a diferença entre os dois valores reforça a impressão de que a gestão está tomando decisões financeiras duvidosas. Mesmo que o próprio São Paulo afirme, como já foi dito, que a proposta da NewC nunca foi uma opção real ou comparável à da Ticketmaster, o episódio revela que o descontentamento dentro das arquibancadas já atinge tanto o Conselho de Administração quanto a diretoria.
A crise política ganha ainda mais peso porque acontece num momento de fraqueza dentro do São Paulo. Depois de cair da quarta para a 12ª posição do Brasileirão, o São Paulo viveu o jejum sem vitórias mais longo desde 2013, piorado pela dificuldade da diretoria em reforçar o elenco. Entre os últimos reforços, o zagueiro Matheus Dória rescindiu o contrato depois de poucos meses, o meia Cauly não conseguiu se firmar e o goleiro Carlos Coronel mal foi aproveitado.
A vitória por 2 a 1 contra o Bragantino deu um alívio imediato. O Tricolor subiu para a 11ª colocação, com 30 pontos, e a pressão sobre o técnico Dorival Júnior diminuiu por enquanto, mas a instabilidade institucional ainda pesa no dia a dia do time.
Também de acordo com apuração do UOL e do Arqtricolor, parte do elenco tem direitos de imagem atrasados de até quatro meses, e alguns jogadores não receberam nenhum valor referente a esse item nesta temporada. Isso mostra que a situação financeira do clube está longe de ser 100 % resolvida. Diante disso, a diretoria já pensou em vender titulares, como o volante Damián Bobadilla e o lateral Enzo Díaz, para equilibrar o caixa.
O departamento de futebol já sentiu o peso de decisões desse tipo antes: em março, o técnico Hernán Crespo foi demitido de forma repentina, em meio a divergências com a diretoria sobre o planejamento da temporada, numa decisão anunciada nas redes sociais sem consulta aos principais jogadores do elenco.
A luta por controle, em vez de ser resolvida, parece apenas estar se intensificando. E enquanto o time tenta recuperar o ritmo de jogo, a disputa política dentro do clube pode continuar sem trégua, influenciando cada decisão do dia a dia do São Paulo. O temor agora é que o impasse em torno da Ticketmaster abra um novo capítulo de instabilidade.