"A Odisséia" reacende debate sobre o texto clássico

O novo filme de Christopher Nolan dividiu opiniões e aproximou o público da obra de Homero
por
Lara Manasseh
|
26/08/2026 - 12h

O filme “A Odisseia”, dirigido por Christopher Nolan, foi lançado no Brasil no dia 16 de julho e, mesmo um mês depois, continua lotando as salas dos cinemas brasileiros, quebrando recordes de bilheteria. Segundo a Variety, o longa arrecadou cerca de 675 milhões de reais apenas nos cinemas estadunidenses e 757 milhões no mercado internacional. 

A crítica especializada apostou no filme mesmo antes do lançamento. Além do elenco de peso com atores como Zendaya, Tom Holland, Anne Hathaway e Robert Pattinson, o filme também contou com cenas e efeitos visuais grandiosos, característica comum dos trabalhos de Nolan. 

O diretor do filme preferiu não usar computação gráfica (CGI) e optou por criar do zero todos os objetos de cena. Um exemplo disso é o ciclope (Polifemo). A equipe criou uma marionete com estrutura mecânica gigante de 18 metros de altura dentro da Gruta Nestor, na Grécia. Bill Irwin, que já havia trabalhado com Nolan em outros projetos, operou e deu voz ao megatrônico. 

Nolan decidiu fazer o filme no IMAX 70mm, gerando um debate técnico nas redes, devido à escassez de infraestrutura para as exibições analógicas. Existem cerca de 41 cinemas no mundo que conseguem projetar o filme no formato original, que, em sua maioria, estão localizados nos Estados Unidos. As discussões foram voltadas para o aspecto da acessibilidade, visto que apenas 1% da população global conseguiria ver a obra como foi concebida. 

Em relação ao roteiro, a trama acompanha Odisseu, também conhecido como Ulisses em algumas traduções, no seu retorno para Ítaca após a guerra. Ele é descrito como um homem de inteligência astuciosa, brilhante, que após dez anos sem conseguir quebrar as fronteiras de Troia, concebe a ideia do Cavalo.

Nesta versão, além de ele enfrentar batalhas, monstros, fúria divina e tentações, ele também encara uma batalha interna, movimentada pela culpa da repercussão de suas ações durante a guerra.

 “A lógica de um herói atormentado pelo que ele fez na guerra é nossa, ela não pertence à lógica desse mundo (mundo grego). A ideia do remorso, da culpa, isso é próprio da nossa sociedade”, afirmou em entrevista à AGEMT, Giuliana Ragusa, especialista no clássico e professora associada de língua e literatura grega da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de São Paulo (FFLCH). 

anne hataway como persefone com um manto esverdeado segurando um arco e flecha
Anne Hathaway como Penelope em “A Odisseia”/Foto: Universal Studios, divulgação

O tema sobre como as mulheres foram desenvolvidas na obra de Nolan também tomou grandes proporções na mídia e chateou alguns pesquisadores, como Emily Wilson, renomada helenista, latinista e tradutora britânico-americana da obra. Em seu artigo (An Uncomplicated Man) publicado após o filme, ela destacou que as personagens de Nolan são fracas, submissas e representam a misoginia do diretor, que optou por não desenvolvê-las.

As personagens femininas têm um papel central no poema, pois são elas que determinam como será a trajetória de Odisseu. Além da deusa Atena, que serve como uma espécie de mentora para o herói, existem a feiticeira Circe, a ninfa Calipso e sua mulher Penélope. 

Segundo Ragusa, Penélope, interpretada por Anne Hathaway, poderia ter sido mais explorada, pois ela tem a sua própria inteligência astuciosa e resistência, que espelham as de Odisseu, caracterizando uma personagem complexa e crucial para a trama.  No filme, mulheres relevantes como Atena, vivida por Zendaya, tem somente 8 minutos de tela, enquanto Helena de Troia (Lupita Nyong'o) 3. 

Em entrevista para o Digital Spy, o diretor constatou que precisou cortar episódios do texto original para caber dentro do tempo e orçamento do filme. Porém, Nolan fez uma reelaboração, uma recriação autoral, ressignificando os elementos mais disseminados do poema, afirmou Ragusa. Isso se evidenciou no conto do Ciclope: no livro, o episódio demonstra a célebre astúcia do herói, que se apresenta como “ninguém” para escapar da caverna. 

Outra mudança relevante foi na concepção da lei de Zeus.  Segundo a professora, o conceito da lei, que denominaria uma hospitalidade de tratar o próximo como gostaríamos de ser tratados, citada diversas vezes no filme e relevante para o roteiro, não passa de um conceito cristão. Ela explicou que no conceito grego se valoriza a ética da reciprocidade, fazer o bem a quem me faz bem e mal a quem me faz mal. 

Matt damon como odisseu, atrás dele tem zendaya como Atenas
Matt Damon como Ulisses em “A Odisseia”/ foto: Universal Studios, divulgação

Mesmo com diversos debates envolvendo a obra cinematográfica, Emily Wilson e Giuliana Ragusa destacaram a importância e a relevância do filme para o cenário atual de streamings. Wilson defendeu em seu artigo que “o filme talvez convença alguns administradores de universidades a não cortar seus departamentos de literatura, línguas e história. Nolan (...) está fazendo o possível para levar o público em geral a voltar a ler, e sou grato a ele por isso”. Assim como Ragusa, que destacou o quão ela considera positivo o efeito que o filme teve em gerar interesse pelo poema e levar as pessoas à leitura da obra.