Na manhã de sexta-feira (18), alunos, professores e funcionários da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) marcharam em protesto pacífico até a sede da Fundação São Paulo (FUNDASP), mantenedora da universidade. Sob cânticos universitários e o lema “Amar a PUC, lutar pela PUC”, o ato acabou sem resoluções, e uma nova paralisação por parte dos movimentos estudantis será votada na próxima terça-feira (22).
“A gente solicitou, na nossa concepção, coisas básicas para uma universidade como a PUC funcionar, e o padre não nos deu ouvidos. A ideia é que a gente não pare até que sejamos ouvidos.” Essa foi uma das falas de Íca Iyamí Nishimoto, presidente do Centro Acadêmico de Serviço Social na PUC-SP, após o não comparecimento do diretor-executivo da FUNDASP, padre José Rodolpho Perazzolo.
As reivindicações a que Íca se refere já são antigas, mas ganharam força especialmente após o anúncio da adoção da plataforma Educaopen para a concessão e renovação de bolsas de estudo em 13 de agosto. A ferramenta analisa, por meio da tecnologia open finance, movimentações dos alunos e seus familiares para determinar se deveriam ou não receber, ou continuar com a bolsa de estudos.
Mais detalhes sobre como isso funcionaria e quais dados e períodos seriam analisados, não foram fornecidos aos estudantes, mesmo após pedido formal do Centro Acadêmico de Relações Internacionais (CARI). Devido à repercussão negativa, a FUNDASP voltou atrás no dia 2 de setembro, mas a insatisfação com outros quesitos não pôde ser contida.
Reuniões internas de cada curso da PUC-SP aconteceram, até que no último dia 16, uma assembleia geral com grande quórum aconteceu no Campus Monte Alegre. Estiveram presentes centenas de alunos, funcionários e professores, que votaram por uma paralisação voluntária durante os dias 17 e 18 de setembro. Figuras políticas e candidatos como Thiago Ávila e Isadora Brizola também discursaram em apoio aos estudantes. E assim se deu. Professores avisados e alunos fora da sala de aula, apesar de uma parte continuar como se o clima no ar não fosse de tensão.
Mesmo assim, a mobilização era visível. Durante os dois dias, os alunos não compareceram às aulas, e realizaram produções de cartazes, rodas de conversa e outras atividades. Até que no último dia da paralisação, às 10h, os manifestantes marcharam rumo à sede da FUNDASP para pressionar o Conselho da mantenedora, que se reuniria às 10h30 com o Conselho de Mobilização para negociar.
Dentre as reivindicações apresentadas por representantes dos Centros Acadêmicos e Movimentos Estudantis da universidade, estão: melhoria na infraestrutura, aumento na concessão de bolsas pela instituição, congelamento no preço das mensalidades ou com aumento limitado pela inflação, aumento dos salários dos docentes e maior transparência em relação à situação financeira da PUC-SP.
Helena Allil, relações públicas do Centro Acadêmico de Direito (CA 22), destacou minutos antes da caminhada até a mesa de negociação na Fundação: “A paralisação é a melhor ferramenta que a gente tem para lidar com a situação atual. Estamos agindo muito bem e todos os estudantes precisam apoiar, porque a situação da PUC está catastrófica e a força estudantil precisa mudar isso.”
Segundo dados de acesso público do Ministério da Educação (MEC), o número de bolsas integrais PROUNI caiu de 284 para 146 entre 2020 e 2026. Entre 2021 e 2023, o número se manteve relativamente estável perto de 300 por ano, até que em 2024 chegou a 540 e despencou para 126 em 2025.
Em relação à verba destinada à pesquisa, de acordo com demonstrativos financeiros da FUNDASP, o montante foi de apenas R$ 21 mil no ano passado, contra quase R$ 2,5 milhões em 2019. Para 2026, a Fundação - que chamou de falsas as informações divulgadas - se limitou a divulgar em nota no último dia 10, que mais de R$ 1 milhão foi liberado para editais de fomento à pesquisa até então. Mesmo assim, o valor não chega a 0,5% das despesas totais da instituição.
A nota destaca obras realizadas no Campus Monte Alegre, como a revitalização da quadra e do bosque; fala sobre o aumento da mensalidade de 2025 para 2026 ter sido de 9,49% no curso de Relações Internacionais, o que estaria abaixo do limite estabelecido pelo conselho; e reforça que cumpre as regras do MEC sobre a oferta de bolsas estudantis.
No entanto, a obra mencionada na quadra levou anos para ser concretizada, após uma série de pedidos das Atléticas. A reforma do bosque inutilizou o espaço do Centro Acadêmico de Jornalismo, que foi ocupado por entulhos e teve seus móveis descartados sem autorização e ainda teve piso e paredes danificados, segundo lideranças do próprio CA.
Sobre o reajuste, o Centro Acadêmico de Relações Internacionais destaca que o aumento na mensalidade deveria ser justificado pela inflação, que foi de 4,22% segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), menos da metade do aumento registrado em um ano. Há também cobrança pelo aumento no número de bolsas fornecidas pela Fundasp para minimizar a diminuição das bolsas concedidas pelo Governo Federal - dados que, por sua vez, não estão suficientemente claros nos relatórios da fundação.
Em entrevista para a AGEMT durante o ato em frente ao prédio da FUNDASP, a candidata à reeleição como deputada federal por São Paulo pelo PSOL, Samia Bomfim, destacou o seu apoio a causa estudantil: “É necessário permitir, a partir da política de cotas, a entrada de estudantes mais pobres na universidade [...] além de se ter políticas de permanência, para garantir que os estudantes tenham o direito de se formar.”
Professores e funcionários da PUC-SP também estavam presentes na assembleia. Entre cartazes, um megafone, mochilas de estudantes e stencils colados à mão nos tapumes da obra da futura Linha 6-Laranja do metrô na Rua Cardoso de Almeida, escutava-se um único grito: pelo direito básico que é a educação de qualidade para todos.
Questionada pela AGEMT sobre a ausência de Rodolpho na reunião, a FUNDASP respondeu: “Temos a informar que, a pedido dos estudantes, reiterado em assembleias, o padre Rodolpho está fora dessas negociações. O padre João Júlio, diretor-executivo como ele, atendeu o Conselho de Mobilização dos alunos da PUC-SP, mas os representantes se recusaram a seguir em negociação”. A Fundação não deu mais detalhes sobre esse “pedido dos estudantes” para que o padre Rodolpho ficasse de fora das negociações, e os estudantes repudiaram a ausência.
Gritos de “Fora Rodolpho” foram entoados, e grande parte dos cartazes produzidos atacava o padre. Em comunicado nas páginas dos CAs na rede social Instagram, o Conselho reiterou que “agradeceu aos representantes da Fundação a recepção”, mas que “não há sentido em uma reunião sobre as negligências da gestão de Rodolpho sem que o próprio esteja presente”
Com a falha nas tratativas, o Conselho realizará novamente uma assembleia geral na PUC-SP na próxima terça-feira (22), às 10h e às 18h. Nela, será discutida e votada uma nova paralisação e uma possível ocupação do campus Monte Alegre, tal qual ocorreu em maio do ano passado, também por conta de problemas de infraestrutura e sucateamento. Além disso, um novo e-mail solicitando uma reunião expressamente com o padre Rodolpho foi enviado à Fundasp.
“Se o padre não ouvir os estudantes, a gente vai paralisar, e se continuar, vamos votar uma ocupação, e se mesmo assim não ouvir, vamos ocupar a PUC-SP,” garantiu Laís Hera, presidente do CA de Direito, logo após a ausência de Rodolpho na reunião ser anunciada em frente ao prédio da Fundação.
Ao som da Bateria do curso de Relações Internacionais, entre cantos, cartazes e sob um sol que há dias não aparecia em São Paulo, os estudantes marcharam de volta ao campus sem resposta. “Se a paralisação se estender para a próxima semana, eu não tenho nenhum problema em vir aqui com o pessoal”, frisou Luciano Paulino, diretor de eventos da BateRI.