O Museu de Imagem e Som inaugurou na quarta-feira (2), uma nova exposição com curadoria de Inês Castilho, Marcelo Colaiácovo e William Plotnik. A mostra exibe 141 fotos restauradas e digitalizadas pelo Cine Limite em parceria com o Bar Soberano da Rua do Triunfo, espaço que foi o point dos artistas da Boca do Lixo. Registradas pelo cineasta Wagner Carvalho durante as filmagens do documentário “Mulheres da Boca” (1981), surge com a proposta de celebrar os 45 anos do lançamento do curta, a partir da visibilidade de um grupo que, durante décadas, ficou à margem da sociedade. Com direção de Cida Aidar e Inês Castilho, o curta-metragem reúne imagens e relatos de como era viver nesse espaço de forte concentração cultural, e de como foi pertencer como mulher nesse meio.
A trajetória de Inês Castilho com assuntos de pouca notoriedade pela mídia começou desde cedo. Ainda na faculdade, a roteirista integrou um coletivo de mulheres que escreviam para o jornal “Nós Mulheres”. A imprensa alternativa, vítima de forte censura pela ditadura militar, teve o seu fim de maneira precoce. Referência no cinema feminista brasileiro, Inês encontrou no documentário “Mulheres da boca” uma forma de dar espaço à essas figuras femininas, através da memória urbana da região.
A boca do lixo como espaço de liberdade artística
No meio da sala expositiva, o telespectador se depara com um sofá e uma televisão, que transmite repetidamente o documentário “Mulheres da Boca”. O curta-metragem é ambientado durante o ápice da região Boca do Lixo, espaço que recebeu esse nome da imprensa sensacionalista dos anos 70. O lugar, de ampla concentração de prostituição, criminalidade e vulnerabilidade social, foi palco de grandes produções cinematográficas que definiram o cenário cultural da vida paulistana. A boca do lixo, em São Paulo, foi assim um dos principais polos do cinema independente brasileiro, marcados principalmente pelo Cinema Marginal e pelas Pornochanchadas.
Com produções que buscavam um retrato fiel de camadas pouco visibilizadas, foi capaz de expor uma realidade sucateada. O cinema independente desse contexto, como no documentário "Mulheres da Boca", focou em mostrar a vida marginalizada dessas trabalhadoras do sexo, que por muito tempo foram apagadas da historia do país. A coletânea de imagens deixa claro o caráter de marginalização dessa região, que atualmente passa por uma deterioração e concentra boa parte da Cracolândia da capital. Cida e Inês, ao se apoiarem na "Boca do Lixo" como espaço de criação artística, deram voz às mulheres silenciadas dessa região no Brasil. A mostra segue até o dia 18 de Outubro, com entradas de terça à domingo gratuitas.