No último domingo (02) , o presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a criticar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chamando-o de “corrupto” e “condenado” em entrevista à emissora LN+. O alinhamento ideológico com a extrema direita brasileira e estadunidense e as falas controversas do argentino põem em risco a relação de estabilidade econômica e diplomática entre os dois países vizinhos.
O chefe de estado argentino defendeu suas últimas declarações sobre Lula . Ele afirmou não ter intervindo no cenário político brasileiro mesmo após ataques acalorados ao petista.
“Eles falam sobre interferência política na região. Se alguém está interferindo politicamente na região, é Lula, contaminando tudo com o socialismo [...] O pior é que eles me acusam com mentiras, e eu respondo com verdades. Eu não menti. Quando respondo com verdades, o senhor Lula se sente atacado? Ele é um corrupto e um ladrão. É um condenado. Saiu da prisão por meio de um recurso administrativo. Eu fui ao Brasil e falei em defesa dos brasileiros. Falei sobre Lula, o corrupto, o condenado, e sobre o juiz Alexandre de Moraes [do STF], que me negou uma visita a [Jair] Bolsonaro” , afirmou Milei.
No dia 25 de julho, o presidente argentino esteve no Brasil e participou do evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) , à Presidência da República em São Paulo.
“É um grande prazer para mim estar nesse país, entre aqueles que compartilham minha paixão pela liberdade. E isso se torna especial em tempos como este, quando uma nação se debate entre a libertação ou uma prolongação da esquerda.”
Milei compartilha posicionamentos ideológicos e políticos com a família Bolsonaro, visto que ambos planejavam uma coalizão entre os países latinos contra pautas socialistas. A aparição do argentino na candidatura do filho do ex-presidente mostra seu apoio aos planos da direita brasileira contra o Governo Lula.
Em um discurso apelativo, Milei enalteceu a economia argentina, criticou Lula e as ideias socialistas.
Ainda na convenção do PL, além do presidente Lula, o político argentino fez também proferiu ofensas ao ministro Alexandre de Morais (STF) , por ter sido impedido de visitar Jair Bolsonaro na prisão:
“Para piorar, o lixo careca não me permitiu visitar meu amigo, injustamente preso.”
Após o ocorrido, o Ministro das Relações Exteriores convocou o Embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, para prestar esclarecimentos e manifestar a repulsa do governo brasileiro sobre os comentários, medida que evidencia a tensão diplomática entre os países.
“Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro” , disse o Itamaraty em nota publicada no dia 26 de julho.
Raimondi deixará o Brasil no domingo (9), após o Ministério das Relações Exteriores rebaixar a relação diplomática com o governo de Milei apenas para fins de negócios.
As falas de Milei também repercutiram na imprensa argentina.
No La Nación, o jornalista Carlos Pagni comentou sobre a atitude de Milei. Para ele, a aproximação com Trump é uma evidência de que a necessidade por apoio financeiro americano tem influenciado diretamente nas decisões diplomáticas do presidente argentino.
“Há um jogo geopolítico em curso, no qual o conflito entre a China e os Estados Unidos é projetado na América do Sul, com Lula e Milei como lados opostos. Milei está jogando esse jogo. Isso nos ajuda a entender melhor por que ele está agindo dessa maneira. Não se trata apenas de temperamento. Há uma lógica por trás de sua decisão, ligada a uma certa fragilidade que o governo está enfrentando diante da opinião pública. Essa fragilidade está ligada às finanças e, por sua vez, as finanças estão ligadas a Trump”. ,
No dia 29 de julho, durante a convenção do PSB, o petista respondeu aos ataques de Milei e o desconsiderou possíveis intervenções estrangeiras no Brasil: “Vocês viram a patacoada que ele fez no final de semana. Eu não falei nada, não vou ficar trocando ofensas com aquela coisa. Eu aprendi desde cedo que não sou melhor nem pior que ninguém. E enquanto eu for presidente e vivo ninguém vai meter o bedelho nas eleições brasileiras.”
As ofensas de Milei a Lula em território brasileiro explicitam o desgaste na relação Brasil-Argentina, apesar do histórico de êxito diplomático e econômico entre os dois países. Os posicionamentos do argentino rompem a parceria de longa data entre as nações, visto que seu país é o terceiro principal parceiro comercial do Brasil.