Master causa ataques entre ministros do STF

Guerra de ofícios entre ministros do STF mostra como as instituições democráticas podem ser corrompidas pelo capital financeiro
por
Isabella Damião
Isabela Sallum
|
24/09/2026 - 12h

O primeiro envolvido

O primeiro dia de setembro foi marcado pela divulgação de mensagens trocadas entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. 

Os prints, obtidos pela Polícia Federal no celular apreendido de Vorcaro, mostram que os dois combinavam de se encontrar dois dias antes da prisão do banqueiro, em 17 de novembro de 2025. "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?", questiona Vorcaro a Moraes, em 16 de novembro. Entre as mensagens, Vorcaro discute com Moraes, também, o andamento da investigação do Banco Master. Como as conversas foram feitas por mensagens temporárias, a PF não conseguiu acessar as respostas de Moraes. 

Mensagens recuperadas pela PF de Vorcaro ao Ministro Alexandre de Moraes

Mensagens de Vorcaro supostamente direcionadas a Moraes, recuperadas pela PF. Foto: Reprodução

O envolvimento de Moraes no caso Master já era discutido desde o início da investigação, após a divulgação de mensagens que indicaram um contrato de 130 milhões de reais entre o escritório de advocacia da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, e o ex-banqueiro, Daniel Vorcaro. Em nota, o escritório Barci de Moraes negou qualquer envolvimento com Vorcaro em março. 

Além deste primeiro, foi identificado pela PF um segundo contrato entre o e Viviane Barci de Moraes e Daniel Vorcaro. O segundo contrato, encontrado em trocas de mensagem do ex-banqueiro com seu advogado, Leonardo Palhares, foi dado em 12 de maio de 2025 e firmado entre o escritório Barci de Moraes e a empresa Viking Participações LTDA, que tem Vorcaro como sócio. 

Em  1º de setembro foram divulgados mais arquivos do celular de Vorcaro, entre estes está um contrato de 50 milhões (líquido) que envolvia como forma de pagamento dinheiro, bens móveis ou imóveis associado ao escritório de Viviane, que, por sua vez, se posicionou e negou, mais uma vez, seu envolvimento com Vorcaro: "O escritório possuía somente uma contratação com o Master e nega qualquer transferência ou substituição do contrato. A proposta do Banco Master não foi aceita, nada foi assinado e o contrato original foi extinto com a liquidação do banco, o que encerrou qualquer vínculo com a instituição."

No dia 9 de setembro, o ministro e presidente do STF, Edson Fachin autorizou a sessão solicitada por Mendonça para iniciar a investigação de Moraes, que ficou marcada para o dia 15 de setembro.

A suposta parcialidade de Mendonça

No dia 2 de setembro, supostos encontros do ministro André Mendonça, relator do caso Master, com Daniel Vorcaro, principal investigado do mesmo caso, foram denunciados em outras conversas do banqueiro, reveladas pela PF. Ainda na mesma manhã, o ministro enviou à imprensa uma nota que confirmava tais encontros e confirmava, ainda, encontros com o advogado do banqueiro. A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, durou cerca de duas horas e foi realizada no endereço de um instituto fundado pelo próprio juiz.

Depois que o encontro entre Mendonça e Vorcaro foi divulgado, a Câmara dos Deputados enviou um pedido ao presidente do STF a respeito da "parcialidade” na condução das investigações de Mendonça. Além disso, Mendonça estaria deixando de lado as investigações acerca do caso "Dark Horse”, que ligaria Flávio Bolsonaro ao Banco Master. 
 

O contra-ataque de Moraes

No dia 4 de setembro, a história se inverteu: foi a vez do ministro Alexandre de Moraes enviar a Fachin um pedido de investigação contra André Mendonça, acusado da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade, crime de responsabilidade e favorecimento a determinados grupos políticos no exercício da relatoria dos casos Master e INSS.

Na noite do dia 14, Moraes afirmou que o colega teria cometido irregularidades processuais ao investigá-lo ao não apresentar pedido formal para a abertura de investigação contra ele nesta Petição (16.662), em manifestação de 121 tópicos entregue ao presidente da Corte, Edson Fachin.

A partir das investigações de mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro pela Polícia Federal, outros ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) também estão relacionados ao dono do Banco Master. Entre eles está listado André Mendonça, que teve, ao menos, um encontro presencial com Daniel Vorcaro. A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, em São Paulo, durou cerca de duas horas e foi realizada no endereço de um instituto fundado pelo próprio juiz.

Quem articulou o encontro entre Mendonça e Vorcaro foi o advogado Ciro Rocha Soares, que em mensagem de áudio enviada ao banqueiro encontrada nas investigações da PF, afirmou estar “trabalhando” para Vorcaro ao levar relator do caso Master no STF em alfaiataria. Documentos evidenciam encontro prévio do advogado com Mendonça sobre uma situação relacionada aos problemas enfrentados pelo Master no Banco Central.

A quem interessa o sigilo?

Em 9 de setembro, o presidente Lula se manifestou em seu perfil oficial do X a favor da quebra do sigilo do Caso Master. 

Presidente Lula solicita transparência no Poder Judiciário. Reprodução: X/@LulaOficial
Presidente Lula solicita transparência no Poder Judiciário. Reprodução: X/@LulaOficial

O sigilo mencionado se trata do sigilo estabelecido por outro ministro do STF, o Dias Toffoli, que restringia documentos, petições e processos do Supremo contra Vorcaro. Toffoli estabeleceu o sigilo em dezembro de 2025 após pedido dos advogados de defesa do banqueiro. 

No dia 10 de setembro, o ministro e presidente do STF, Edson Fachin, solicitou a divulgação do sigilo a Mendonça antes da sessão do dia 15. As informações presentes no sigilo incluíam mensagens de Moraes a Vorcaro, encontros de Vorcaro com a família Bolsonaro e o financiamento do “Dark Horse”. Foram associados ao Vorcaro os senadores Ciro Nogueira (PP) e Jaques Wagner (PT), além do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). Mensagens dos ministros Luiz Fux, do STF, e de Kassio Nunes Marques, do Tribunal Superior Eleitoral, com o ex-banqueiro, Daniel Vorcaro, também foram encontradas.

A intersecção entre o STF e o Banco Master

A partir das investigações de mensagens e áudios extraídos do celular de Vorcaro pela Polícia Federal, outros ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) também estão relacionados ao dono do Banco Master. Dias Toffoli é um deles, embora o mesmo tenha conduzido o caso Master como relator das investigações no Supremo. Após surgirem indícios de sua proximidade com o entorno de Daniel Vorcaro. A PF encontrou no celular do banqueiro mensagens que mencionam Toffoli e apontou conexões indiretas envolvendo negócios da família do ministro com um fundo ligado ao grupo investigado.

Outro membro do STF encontrado entre os contatos de Vorcaro foi o ministro Gilmar Mendes, segundo conversas extraídas do celular do ex-dono do Banco Master, o escritório de Dalide Corrêa (advogada sócia de Gilmar Mendes) recebeu cobranças de repasses de Daniel Vorcaro. Além disso, segundo apuração da PF, o gabinete de Gilmar Mendes informou que recebeu Vorcaro e advogados do banco em abril de 2024 para tratar do caso, mas disse que Dalide não participou. 

O ministro Kassio Nunes Marques, no mesmo contexto dos demais membros do STF, aparece nas investigações da Polícia Federal por meio de seu filho, Kevin Marques. Mensagens encontradas pela PF mencionam um possível pagamento de R$ 500 mil mensais a Kevin. A empresa pela qual ele prestava serviços teria recebido cerca de R$ 6,6 milhões do Banco Master, segundo informações baseadas em dados do Coaf. Além disso, a PF encontrou um contrato de honorários de até R$ 427 milhões relacionado a 12 processos de precatórios de interesse do Banco Master.

Além destes, Luiz Fux e seu filho, Rodrigo Fux, também aparecem na lista de contatos de Daniel Vorcaro. Em mensagens trocadas em 17 de maio de 2024, foi identificada uma relação de proximidade entre Rodrigo Fux e o banqueiro. Chamam um ao outro de “irmão”, e Rodrigo convida Vorcaro para ir ao seu escritório tomar um café, com direito a “tapete vermelho”. Alguns dias depois, em 24 de maio, mensagens indicam que Vorcaro teria articulado o custeio da viagem de Luiz Fux e de sua esposa a Nova York, incluindo passagens, hospedagem e um almoço em homenagem ao ministro. Fux, porém, nega ter sido convidado por Vorcaro e afirma que a viagem ocorreu a convite da Forbes, onde participou de um evento e proferiu uma palestra.

Os desentendimentos entre os ministros e os documentos que comprovam o envolvimento Alexandre de Moraes, André Mendonça, Dias Toffoli, Gilmar Mendes, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux com Daniel Vorcaro e/ou com o Banco Master colocam em cheque a validade das instituições que visam a manutenção do Estado Democrático de Direito e afunda o país em uma crise política que coloca em xeque a credibilidade das instituições políticas. 

Sob esta perspectiva, a ministra Cármen Lúcia, na sessão do dia 15 de setembro que debatia o curso da investigação do envolvimento dos ministros ao Caso Master, se disse envergonhada pela situação do Supremo Tribunal Federal. “Estou pedindo desculpas ao presidente do Supremo, a todos os colegas, mas ao povo brasileiro, porque realmente queria ter sido melhor em poder ter ajudado a acalmar as coisas e não consegui”, lamentou a ministra.

Ministra Cármem Lúcia no julgamento de Moraes, em 15 de setembro.
Ministra do STF, Cármen Lúcia, em sessão plenária extraordinária. Foto: Rosinei Coutinho/STF