Por Dhara Yuki
Amélia estava em casa quando percebeu algo errado com a notificação de uma transação feita em seu cartão em um mercado que fechava às oito horas da noite. Ao entrar em contato com o banco tentou resolver a situação abrindo um BO e seguindo as orientações recebidas para contestar a compra, mas o procedimento não teve o resultado esperado. No fim, a transação no valor de R$ 68 precisou ser paga. Uma compra que não havia sido feita por ela acabou se transformando em uma despesa que precisou assumir. Depois disso, outra tentativa de compra aconteceu, mas desta vez, o valor era muito maior, sendo uma transação de aproximadamente R$ 5.900. A transação teria sido feita pela internet, uma compra em um site de marketplace, mas, por falta de limite no cartão, o banco entrou em contato para saber se Amélia autorizava a compra. Ela não reconheceu o valor e, diante da possibilidade de uma movimentação de milhares de reais, foi diretamente ao banco.
Dessa vez, ela conseguiu que a compra não fosse autorizada recebendo ajuda da empresa responsável pelo pagamento. Conversando com a atendente do banco, Amélia disse que iria trocar a senha do cartão, mas o procedimento adotado pela atendente foi excluir aquele e fazer um novo. O cartão foi trocado e a tentativa de utilização indevida não chegou a gerar um novo prejuízo financeiro. A diferença entre as duas situações mostra como o reconhecimento rápido de uma movimentação pode ser determinante. Na primeira situação, o dinheiro já havia sido utilizado e os R$ 68 precisaram ser pagos. Na segunda, a tentativa foi identificada antes de ser concluída. Depois das ocorrências, Amélia passou a tomar mais cuidado com o cartão. Ela conta que começou a utilizar novos procedimentos de segurança para tentar evitar que algo parecido acontecesse novamente. O que antes fazia parte da rotina de maneira quase automática passou a exigir mais atenção. O cartão, que deveria facilitar as compras, passou a representar também uma preocupação.
Segundo dados do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgados em 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou 2.261.055 ocorrências de estelionato em 2025, um aumento de 2,7% em relação a 2024 e de 429,8% desde 2018. O número representa uma média de 258 casos por hora, ou quatro por minuto. Entre as ocorrências, mais de 346 mil foram golpes digitais, que cresceram 20,6% no período. Os dados incluem diferentes formas de fraude, desde golpes tradicionais até aqueles realizados por meio de links, aplicativos e redes sociais.
Por isso é fundamental conferir movimentações, perceber valores que não reconhece e procurar o banco quando alguma coisa parece diferente passaram a fazer parte da experiência de Amélia. A primeira fraude trouxe uma perda financeira pequena quando comparada à segunda tentativa, mas o impacto não está apenas na quantidade de dinheiro envolvida. Quando uma pessoa percebe que uma compra foi feita em seu nome sem sua autorização, também precisa lidar com a sensação de que perdeu o controle sobre algo que deveria estar sob sua responsabilidade.
Depois do episódio, a experiência mostrou que a segurança de uma compra não termina quando a transação é aprovada. Para quem já teve o cartão utilizado indevidamente, cada nova movimentação pode carregar a necessidade de conferir, desconfiar e agir rapidamente, deixando uma preocupação muito maior, a de que, no mundo das compras digitais e dos cartões, nem sempre o dinheiro sai da conta pelas mãos de quem é seu dono.
No caso de Amélia, ainda não se sabe como os dados do cartão foram acessados por outra pessoa e qual a possibilidade de serem usados em outras fraudes. A hipótese é que talvez tenham acessado a sua conta do site e o cartão estava salvo nos dados do seu perfil, mas existem casos em que a pessoa que pretende aplicar o golpe vá diretamente até a pessoa.
Foi o caso de Andrea que estava olhando um anúncio de uma churrasqueira no Facebook e entrou em contato com o vendedor. A pessoa do anúncio pediu seu número e a ligou por chamada de vídeo, o que parece uma ação até de confiança. Ver o vendedor, na verdade, também expõe um dado que muitos esquecem: seu rosto, que hoje em dia já é usado para desbloquear aplicativos de bancos.
Além de ter tirado capturas de tela do rosto de Andrea, o vendedor ainda se aproveitou da situação, pedindo que ela compartilhasse a tela do seu celular na chamada, fazendo com que ele conseguisse visualizar tudo o que estava sendo clicado em seu celular, aplicativos, senhas, redes sociais e bancos. Somente com esses dados, de longe, ele conseguiu acessar remotamente o celular e já começou a baixar outros aplicativos que ajudavam mais do acesso remoto. O momento que definiu toda a situação foi sua filha, que, naquele dia, estava trabalhando em casa ao invés de estar presencialmente na empresa. Ela percebeu a conversa estranha da mãe no telefone e foi perguntar o que estava acontecendo, e entender toda a situação e a exposição que sua mãe estava tendo. Já desligou a chamada do celular, apagou os aplicativos que o vendedor baixou remotamente no aparelho, trocou senhas e, por fim, como garantia, redefiniu o celular ao padrão de fábrica para limpar totalmente qualquer resquício que tenha ficado ocultado pelo golpista. Mas os golpes não se limitam a testar a fragilidade de idosos ou pouco acostumadas com o uso de aparelhos digitais.
Pessoas mais novas também são alvos de golpes virtuais, que encontram nas redes sociais um ambiente favorável para explorar a confiança das vítimas e transformar perfis aparentemente legítimos em ferramentas para aplicar fraudes. A procura por ingressos para o show do System of a Down também levou Marcelo a cair em um golpe digital. A banda havia anunciado uma apresentação no Brasil após mais de dez anos sem realizar shows no país. O primeiro evento, marcado no Allianz Parque, teve os ingressos esgotados em menos de um minuto. Com a grande procura, uma data extra foi anunciada para Interlagos, onde Marcelo conseguiu assistir à apresentação. Mas antes disso, a frustração por não ter conseguido ingressos para o primeiro show fez com que ele procurasse outras formas de compra na Internet.
Ao acompanhar as publicações de pessoas que também não haviam conseguido ingressos, Marcelo encontrou um comentário em uma página do Instagram que se apresentava como uma das maiores revendedoras de ingressos do Brasil. O perfil tinha cerca de 300 mil seguidores e aparentava ser profissional. Marcelo chegou a verificar os perfis que acompanhavam a página e, segundo ele, muitos pareciam pertencer a pessoas reais. Além disso, a conta apresentava informações como CNPJ, o que contribuiu para que a página transmitisse uma aparência de legitimidade. Os ingressos eram anunciados por valores abaixo dos praticados oficialmente e, acreditando que se tratava de uma empresa confiável, Marcelo realizou um pagamento de pouco mais de R$ 300 por Pix.
A suspeita de que havia sido vítima de um golpe surgiu imediatamente após o pagamento. Durante a conversa pelo Instagram com o vendedor, ele havia informado que o ingresso seria disponibilizado em um aplicativo de ingresso utilizado para armazenar as entradas dos eventos assim que o Pix fosse realizado. Depois de efetuar o pagamento, Marcelo acessou o aplicativo, mas o ingresso não apareceu. Ele aguardou e entrou novamente em contato com o perfil para informar que ainda não havia recebido o ingresso. Naquele momento, a conta que havia realizado a venda o bloqueou. Foi então que Marcelo percebeu que havia realizado um pagamento para um perfil falso e perdido o dinheiro.
O caso de Marcelo também não é isolado. Em janeiro de 2026, a Polícia Civil de São Paulo realizou a Operação Fear of the Pix, que investigou um esquema de venda de ingressos falsos para os shows do Iron Maiden no Allianz Parque. A investigação começou depois que uma vítima denunciou ter realizado o pagamento, mas não ter recebido os ingressos. A polícia identificou um site falso utilizado para comercializar as entradas e cumpriu mandados de busca e apreensão relacionados ao esquema.