Ghostface em estande na Bienal gera confusão nas redes

Homem mascarado aparece aos beijos e em posições sugestivas com jovens mulheres
por
Renata Lopes
|
01/10/2026 - 12h

 

Durante a 28ª Bienal Internacional do Livro, um homem mascarado apareceu com uma máscara do Ghostface, personagem da franquia de terror Pânico, e causou polêmica nas redes sociais. Vídeos viralizaram com ele beijando jovens em posições sugestivas no estande da Fruto Proibido, famosa por publicar livros de dark romance, e fizeram com que a organização do evento notificasse a editora.   

O dark romance é um subgênero do romance que aborda temas difíceis e muitas vezes perturbadores. Essas histórias abordam relacionamentos tóxicos, obsessões, segredos obscuros e, às vezes, até mesmo crimes. 

A pandemia e as plataformas como Wattpad, Goodreads e a comunidade do BookTok no Tiktok desempenharam um papel significativo na ascensão do gênero e que continua até hoje. Segundo Thefllin Mayara Paulino de 27 anos, influenciadora literária que fala na sua conta sobre dark romances, “naquela época (pandemia) vários gêneros se tornaram mais populares, a criação de conteúdo estava a todo vapor. Acredito que a popularidade do gênero se mantém porque ele explora temas pesados, mas com um ar de esperança, visto que há uma perspectiva de amor e final feliz.”

Na Amazon os e-books de dark romance geralmente aparecem entre os mais vendidos, fazendo dele um dos gêneros literários que mais cresce em vendas no Brasil, com uma das escritoras mais proeminentes desse gênero, Zoe X, tendo 400 mil cópias vendidas tanto de livros físicos quanto os digitais. 

O dark romance tem uma legião de fãs, principalmente mulheres entre uma faixa de 18 a 25 anos, espalhado por todo o país e várias autoras nacionais publicadas por editoras especializadas para esse tipo de conteúdo e pelas editoras que são consideradas tradicionais. Para Mayara, esse gênero atrai tanto as leitoras por alguns fatores: “que ser humano nunca passou por traumas? Principalmente mulheres. A gente muitas vezes se encontra nesses livros e se ver representado em um personagem, e ver esse personagem obtendo justiça ajuda a curar a alma mesmo que um pouquinho, além disso ele nos permite "experimentar" situações tensas e perigosas, na segurança do nosso sofá. A adrenalina, misturada a uma boa dose de romance é sempre atraente”.

Mesmo com todo esse sucesso, o dark romance é um gênero bastante polêmico nas redes sociais, um dos principais pontos de críticas é a linha tênue entre a exploração de temas sombrios e a romantização de relações abusivas ou condutas criminosas. “Existem muitos livros neste gênero que realmente romantizam esse tipo de relação, e existe muitos outros que tratam esse tipo de relação como a maior problemática da história. De qualquer forma, acho que as pessoas exageram ao falar de romantização, porque o termo se tornou popular”, aponta Mayara.

A influenciadora ainda afirma que precisamos considerar que o gênero fala de romance e que terá romantização, mas nem toda romantização é nociva, além de por ser um gênero voltado para adultos, esse tema nem deveria ser debatido com tanto afinco já que cabe ao leitor entender que o que está sendo romantizado em determinado livro, só funciona porque é na ficção e há de se separar ficção da realidade.

Desde o dia 6 de setembro, o “Ghostface da Bienal", como ficou conhecido, movimentou as redes sociais com simulações de tapas e enforcamentos, aos beijos e seduzindo mulheres jovens no estande da Fruto Proibido. Muitos na rede social criticaram a forma como as meninas estavam se comportando em um evento que era destinado a todos os públicos, não só do dark romance, e como esse comportamento só alimentava ainda mais o hate em cima do gênero. 

O homem mascarado foi logo identificado. Seu nome é Yuri Gagarin, de 30 anos, ele mantém um perfil nas redes sociais voltado à literatura romântica em que usa um personagem inspirado nessa temática. Sobre esses homens que fazem conteúdo para leitoras de dark, Mayara comenta: “Acho que eles encontraram uma fonte de atenção e de renda, visto que muitas mulheres enviam presentes e dinheiro a eles. São caras espertos, por assim dizer. Enquanto alguns deles são bons criadores de conteúdo, que respeitam a comunidade, outros são criminosos por trás de uma máscara. Meu conselho: cuidado, mulheres, ao menor sinal vermelho, deixem de acompanhar imediatamente.”

A Bienal notificou a editora onde afirma: “A Bienal Internacional do Livro de São Paulo esclarece que o episódio ocorrido no interior do estande de um de seus expositores não integra a programação nem de ação oficial, promovida ou autorizada pela organização do evento.”

Ainda em nota, a organização declara que não compactua com condutas ou ações inadequadas dirigidas ao público e reafirmou o compromisso com a manutenção de um ambiente seguro, respeitoso e acolhedor para visitantes, expositores, autores, profissionais e demais participantes. 

“Não acho que deveriam proibir cosplayers mascarados, mas exigir identificação e notificar as editoras para que se coloque limites na participação deles.” comenta Mayara sobre uma segurança mais rígida no evento.

Após a notificação, a Editora Fruto Proibido postou em seu Instagram um longo texto explicando que Yuri não tinha sido contratado por eles e que nem mesmo tinham conhecimento sobre as situações relacionadas a ele: “Imagens e vídeos envolvendo uma pessoa mascarada que esteve em nosso espaço ganharam repercussão nas redes sociais, acompanhadas de interpretações de que sua presença teria sido organizada pela editora. Esclarecemos que a Fruto Proibido não contratou, solicitou ou solicitou a presença dessa pessoa.” 

Em nota, ainda é explicado que tudo ocorreu de uma forma espontânea e foi recebida inicialmente pela a equipe e pelo público como um momento de distração, além disso a editora não compactua ou endossa quaisquer atitudes atribuídas à pessoa por trás da máscara e preza por um ambiente seguro, respeitoso e acolhedor para todos. Para Mayara a nota da editora é só um jeito de “foi a editora "tirando o dela da reta para não se prejudicar. A partir do momento que a participação dele extrapolou o bom comportamento, deveriam ter intervido.”

Foto: Redes Sociais/ Reprodução
Fotos: Redes Sociais / Reprodução
Foto: Redes Sociais/ Reprodução
Foto: Redes Sociais / Reprodução

Além dos pronunciamentos da Bienal e da editora, Yuri por meio de seu advogado afirmou que a visita à feira foi voluntária e que esteve no local apenas para gravar um vídeo combinado com uma amiga, ele também nega ter recebido cachê e afirma que fotos com outros frequentadores aconteceram de forma livre e consensual.

Foto: Redes Sociais/ Reprodução
Foto: Redes Sociais / Reprodução 

 

Para Mayara esse caso furou a bolha por causa do estigma que o dark romance sofre: “esse acontecimento alimentou ainda mais o preconceito, deu mais motivos para as pessoas que já gostavam de xingar a comunidade, xingar ainda mais. O assunto foi crescendo por conta disso, até chegar ao exposed sobre os supostos atos ilícitos do rapaz, e a partir dali, virou notícia séria, já que envolvia supostos crimes e não mais apenas leitoras tendo um momento de diversão inusitado.”

Mayara também relata o quanto depois dessa polêmica ficou mais difícil ser influenciadora literária que fala sobre esse gênero: “Infelizmente a repercussão negativa já vem ocorrendo desde a Bienal. Como criadora de conteúdo que fala sobre esse gênero, eu sempre sofri um pouquinho de hate de pessoas preconceituosas, porém isso aumentou muito desde a Bienal, e comentários de ódio passaram a ser ainda mais violentos. E imagino que isso esteja acontecendo com autoras também, infelizmente só o que podemos fazer é limitar os comentários e denunciar quando eles são muito desrespeitosos e violentos.”

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