Por Julia Jorge
A médica Sarah Perez saiu da Bolívia para estudar Inteligência Artificial no Hospital Beneficência Portuguesa, em São Paulo. A falta de precisão nos diagnósticos médicos era uma das suas maiores preocupações nos hospitais e clínicas onde realizou seus estágios. Hoje, atua como residente em um dos hospitais mais importantes do País e lidera um estudo, junto com cientistas, sobre como utilizar a Inteligência Artificial na medicina, de modo que o atendimento seja mais preciso e seguro. Ele reúne cerca de 25 cientistas brasileiros e estrangeiros, formados na área da medicina e dedicados a estudar e aprimorar o uso da Inteligência Artificial nos hospitais e clínicas. O intuito é que a tecnologia atenda milhares de pessoas diariamente na cidade de São Paulo e auxilie os médicos na realização dos diagnósticos.
A utilização da Inteligência Artificial na saúde brasileira deixou de ser uma utopia e passou a fazer parte da realidade de clínicas e hospitais em 2026. A regulamentação da Inteligência Artificial na saúde brasileira avança, mas ainda parte de uma estrutura restrita. A Lei nº 675/2022, da Anvisa, estabeleceu a categoria de Software como Dispositivo Médico (SaMD), criando um marco regulatório para produtos de Inteligência Artificial com indicação diagnóstica ou terapêutica. Por detrás das pesquisas, a tecnologia transforma uma das etapas mais importantes do atendimento médico, que é a análise das informações do paciente. Exames, históricos clínicos e outros dados podem ser analisados por sistemas capazes de identificar padrões que, em alguns casos, poderiam passar despercebidos durante uma consulta pelo profissional da área da saúde. O mercado de saúde digital brasileiro foi avaliado em US$ 12,4 bilhões em 2025, com expectativa de atingir US$ 44,6 bilhões em 2034. O Brasil concentra 64,8% de todo o investimento em healthtechs, termo em inglês utilizado para definir empresas e startups que desenvolvem tecnologias voltadas à saúde e ao cuidado dos pacientes.
José Eduardo Dolci, diretor científico da Associação Médica Brasileira e um dos idealizadores do projeto no Hospital Beneficência Portuguesa, detalha que a ferramenta não tem como objetivo substituir os profissionais da saúde, mas auxiliá-los durante o atendimento e na tomada de decisões na área da saúde em grandes hospitais brasileiros. Para isso, há possibilidades que representam alterações positivas na maneira como médicos e pacientes podem se relacionar com os diagnósticos. A intenção, no entanto, não é entregar à máquina a responsabilidade pela decisão, mas utilizar seus recursos como uma ferramenta de análise. O uso da tecnologia pode ajudar a diminuir o tempo gasto pelos profissionais em tarefas repetitivas do cotidiano nos hospitais e clínicas. Em uma rotina hospitalar marcada por atendimentos diários e com muitos pacientes, a possibilidade de organizar informações e auxiliar na interpretação de exames permite que o médico dedique mais atenção às pessoas e ao diagnóstico.
Essa transformação, porém, não acontece sem questionamentos. Entre os profissionais da área da saúde, ainda existe a preocupação sobre a possibilidade de erros cometidos pelos sistemas tecnológicos e sobre quem seria responsabilizado caso uma decisão apoiada pela Inteligência Artificial provoque um diagnóstico incorreto ou até a morte de um paciente. Outro desafio está relacionado à quantidade de informações utilizadas pelos sistemas. Para funcionar, a Inteligência Artificial precisa ter acesso a grandes volumes de dados sigilosos, o que representa um risco à privacidade dos pacientes.
Por isso, segurança, privacidade e proteção dessas informações se tornaram parte importante da discussão sobre o avanço da tecnologia no mundo acadêmico e científico. A formação dos profissionais também começa a acompanhar essa mudança. Médicos que antes não conheciam o funcionamento de sistemas de Inteligência Artificial passam a entrar em contato com ferramentas digitais durante a formação universitária e em hospitais, especialmente durante processos de especialização da área médica.
Um caso que ajuda a compreender como a tecnologia participa da descoberta de uma doença é o caso de Maria Gomes, de 70 anos, aposentada. Durante uma consulta, Maria recebeu de um médico um diagnóstico considerado incorreto e sem informações precisas. O problema estava relacionado à hepatite B, uma doença que ainda não havia sido identificada pelo profissional durante as consultas e os exames no hospital. A história mudou quando as informações clínicas da paciente foram analisadas com o auxílio da Inteligência Artificial. A ferramenta identificou elementos que chamaram a atenção para a possibilidade da doença e auxiliou os profissionais a aprofundarem a investigação. A partir dessa nova análise, Maria descobriu que tinha hepatite B e, assim, foi estabelecido o procedimento correto de cuidados com a doença viral. Para a aposentada, a tecnologia aparece em um momento delicado em sua vida, que é a descoberta de uma nova doença, responsável por alterar o dia a dia. O caso indica uma das possibilidades discutidas pelos pesquisadores: a Inteligência Artificial não precisa ocupar o lugar do médico para participar do diagnóstico. Ela pode funcionar apenas como uma ferramenta complementar, capaz de levantar hipóteses e indicar informações que merecem uma investigação mais cuidadosa.
No Hospital Beneficência Portuguesa, o trabalho desenvolvido por Sarah e pelos demais pesquisadores representa justamente esse encontro entre duas áreas que durante muito tempo pareciam distantes: a medicina e a tecnologia. Sua pesquisa procura entender como a ferramenta pode ser incorporada à rotina sem retirar do médico o papel central no cuidado humano. A expectativa é que, com o avanço dos estudos, a Inteligência Artificial possa contribuir para diagnósticos mais rápidos e, além disso auxiliar na identificação de doenças dos pacientes que passaram despercebidas durante às consultas e exames médicos.
O futuro da Inteligência Artificial na saúde brasileira, portanto, não necessita apenas da capacidade das máquinas de analisar informações. Depende de como os médicos, os pesquisadores, os hospitais e os órgãos reguladores irão estabelecer os limites para seu uso. Entre a possibilidade de diagnósticos mais precisos e os novos riscos trazidos pela tecnologia, a Inteligência Artificial começa a ocupar um espaço cada vez maior na medicina brasileira e na área da saúde global, mas ainda encontra no contato humano seu principal ponto de equilíbrio e confiança.
Enquanto os cientistas desenvolvem novos sistemas, médicas como a Sarah começam a construir uma nova relação com as ferramentas digitais. A experiência que a levou da Bolívia a São Paulo mostra que a discussão sobre a Inteligência Artificial na medicina ultrapassa os laboratórios e chegou à rotina de quem está se preparando para cuidar dos pacientes nos hospitais brasileiros. Para pessoas como a Maria, a tecnologia representa uma nova possibilidade e um novo mecanismo diante da incerteza de um diagnóstico mal avaliado.