Por Rafael Pessoa
Por volta das três horas da tarde, o colégio estava silencioso. Poucas crianças pelos corredores, com exceção de um grupo sentado em um canto, próximo à saída. Todas mexiam no celular. A cena, apesar das restrições ao uso dos aparelhos dentro da escola, já se tornou comum. A frente, numa sala tecnológica é ali que o professor Marcelo Vieira passa boa parte de suas aulas de Tecnologia Educacional no Colégio Santa Marcelina. O ambiente tinha cheiro de MDF queimado, deixado pela máquina de corte a laser. E nela viam-se fios de todas as cores e deles eram feitos os carrinhos que estavam estacionados prateleiras acima. Marcelo, como educador, questiona até mesmo o nome dado à tecnologia que ensina. Para ele, chamar esses sistemas de inteligência artificial é inadequado, já que eles não são capazes de inteligir. A máquina, segundo o professor, não apreende a realidade da mesma maneira que um ser humano.
Uma das etapas do processamento que ajuda a explicar seu funcionamento é o chamado tokenizador. Ao receber um texto, o divide em partes menores, os tokens, que podem representar palavras inteiras, pedaços de palavras ou caracteres. Cada uma dessas partes recebe uma identificação numérica que pode ser processada pelo modelo. Na prática, o tokenizador transforma a linguagem humana em uma linguagem robótica. Para demonstrar isso, Marcelo utiliza uma frase em que a palavra manga aparece com sentidos diferentes: o menino subiu no pé de manga e sujou a sua manga; depois, seu amigo, ao vê-lo, gritou não manga de mim. Embora a palavra apareça de maneira semelhante, sua posição e seu significado dentro das frases interferem na forma como ela é processada.
A discussão sobre tecnologia, porém, não termina na inteligência artificial. Alguns andares abaixo da sala do Marcelo, próximo à sala dos professores, trabalha Davi, ex-aluno do colégio que atualmente atua na área de Tecnologia da Informação. Ele conta que já recebeu pedidos de ajuda que chamaram sua atenção. Entre eles estavam estudantes mais novos com dificuldades para realizar tarefas consideradas básicas no ambiente digital, como enviar um e-mail. Segundo Davi, isso se dá porque a escola deixou de oferecer aulas de informática. A educação física também perdeu parte de seu espaço na grade. Marcelo afirmou que as mudanças não atingem apenas o contato dos alunos com computadores e ferramentas digitais, mas também as oportunidades de desenvolver habilidades fora do conteúdo tradicional das disciplinas.
Marcelo diz perceber algumas dessas dificuldades em situações simples do cotidiano. Em sala, observa alunos que precisam de orientação constante para realizar determinadas tarefas. E em casa, já viu o próprio filho encontrar dificuldades para realizar atividades manuais, como cortar um pão. Quando questiona o motivo da dificuldade, a resposta costuma ser: “Faziam para mim”. Para o professor, experiências como essas podem produzir efeitos que aparecem apenas mais tarde. A dificuldade em utilizar uma ferramenta, solucionar um problema ou realizar uma tarefa cotidiana pode não ser percebida imediatamente como uma consequência da formação escolar. Mas, dentro da sala de aula, algumas dessas dificuldades já começam a aparecer.
AULA 2
Uma semana depois, dessa vez às 10h45min da manhã, o colégio parecia seguir o mesmo ritmo. O sinal tocou e Marcelo chamou os alunos para entrar. Nas mesmas cadeiras onde eu havia sentado anos antes, agora estavam outras crianças. Era uma turma do oitavo ano. Marcelo explicou aos alunos que eles iriam para outra sala para a entrega das notas e que, enquanto isso, deveriam responder a um formulário. Na sala, quatro meninas se sentaram em uma mesa ao fundo. No começo, conversavam entre si enquanto aguardavam as orientações. Marcelo pediu que mostrassem os carrinhos construídos ao longo do semestre. Eram diferentes entre si. Um era circular, outro mais retangular; alguns tinham rodas maiores, outros menores. Havia carrinhos pintados de verde, roxo e vermelho. Apesar das diferenças, todos tinham algo em comum: fios saindo de diferentes partes da estrutura. As próprias alunas explicaram que às vezes se confundiam com a ligação dos fios.
A tentativa de explicar como haviam construído os carrinhos foi interrompida diversas vezes pelas conversas paralelas delas e da sala. A sala estava barulhenta e a atenção das alunas se dividia entre a atividade, os colegas e os pedidos que vinham de outros pontos do ambiente. Quando perguntadas se conseguiriam construir um carrinho daquele tipo novamente sem as instruções recebidas durante o projeto, elas não demonstraram segurança. Uma das meninas contou ainda que havia pintado uma placa e, durante o processo, danificado o sistema. Segundo ela, depois de algum tempo o carrinho voltou a funcionar porque havia “desqueimado”. Logo depois, quiseram mostrar os carrinhos funcionando. Dos quatro que estavam sobre a mesa, apenas um realizava a tarefa proposta pelo professor: andar para frente e parar quando encontrar um objeto. Os outros se movimentavam apenas para trás ou não paravam diante do obstáculo.
A tentativa de solucionar o problema começou com uma hipótese simples. As meninas arrancaram o sensor que estava preso com cola quente e tentaram invertê-lo, acreditando que a mudança poderia fazer o carrinho funcionar.
Enquanto isso, a sala continuava chamando pelo professor:
“Marcelo, onde está a cola quente?”
“Marcelo, onde está a chave de fenda?”
“Marcelo, o que é para fazer?”
E o professor dividia a atenção entre os alunos que atendia individualmente e os pedidos que surgiam ao redor da sala.
Enquanto uma das meninas tentava fazer o carrinho voltar a funcionar, outra suspeitou que poderia haver um problema na fiação. Pediu cola quente para prender novamente o sensor e uma chave de fenda para mexer nos fios. Durante alguns minutos, reclamou com a amiga porque acreditava que ela havia recebido a ferramenta errada. Até perceber que o problema estava em suas próprias mãos: ela estava girava a chave para o lado errado. A situação chamava atenção porque aquelas alunas estavam no oitavo ano e já tinham contato com esse tipo de atividade desde o sexto. Mesmo depois de dois anos trabalhando com o conteúdo, algumas dificuldades apareciam justamente em tarefas necessárias para solucionar um problema que surgiu durante a montagem.
A atividade seguinte mudou o tipo de desafio. Agora, diante do computador, os alunos receberam a tarefa de fazer com que um personagem, ao bater em uma parede, voltasse. Em outras mesas, algumas crianças conversavam, mexiam nos computadores e pouco reagiam quando eram questionadas. As respostas eram curtas, geralmente apenas “sim” ou “não”, antes que voltassem àquilo que faziam na tela.
A mesa que apresentava esse comportamento, porém, era também a que havia apresentado melhor desempenho nas atividades. Os alunos não demonstraram grandes dificuldades para realizar a tarefa do carrinho e tampouco para cumprir a atividade digital.O problema estava em outro lugar. Nos computadores, não havia o formulário pedido por Marcelo. A plataforma utilizada pelo colégio também não estava aberta. Nas telas apareciam jogos e vídeos do YouTube.
A mesma tecnologia que poderia ser usada para realizar a atividade proposta estava sendo utilizada para outra finalidade. A dificuldade, portanto, não parecia estar simplesmente em saber operar um computador. Os alunos sabiam navegar, encontrar vídeos e jogar. O que estava em disputa naquela sala era como fazer com que essas crianças utilizassem a tecnologia para aprender e resolver problemas.
No fim daquela aula, os carrinhos continuavam sem funcionar e os formulários ainda não haviam sido respondidos. Cerca de 45 minutos haviam sido consumidos entre tentativas de conserto, conversas e jogos nos computadores. Além de todas as complicações durante a aula Marcelo ainda encontrava dificuldade para finalizar a aula. Pedia aos alunos que deixassem os materiais nos lugares onde haviam encontrado e voltassem para a sala. A resposta vinha em coro, entre gritos de “calma” e pedidos por “só mais cinco minutos”.
Durante aqueles 45 minutos, porém, eles demonstraram saber utilizar algumas das ferramentas disponíveis. Navegavam pelos computadores, encontravam jogos e vídeos e conseguiam realizar determinadas tarefas quando recebiam orientação ou eram obrigados por que a atividade valia nota. As dificuldades apareciam quando era necessário utilizar esses mesmos recursos para solucionar um problema, seguir uma sequência de instruções ou trabalhar sem a intervenção constante do professor.