Na noite desta terça-feira (29), ocorreu na Rede Globo o último debate antes das eleições de domingo (4) entre os candidatos aos governos dos estados e Distrito Federal. Em Minas Gerais, o encontro foi marcado pela discussão de temas centrais da política estadual e pela troca de críticas entre os candidatos. Participaram Alexandre Kalil (PDT), Cleitinho Azevedo (Republicanos), Flávio Roscoe (PL), Gabriel Azevedo (MDB), Mateus Simões (PSD) e Patrus Ananias (PT).
O evento foi mediado pela jornalista mineira Liliana Junger, e dividido em quatro blocos. Ao final, foi reservado um espaço para as considerações finais de cada participante. Na mesma noite, também foram realizados debates entre os candidatos aos governos dos demais estados, simultaneamente.
Primeiro bloco
No primeiro bloco, foram debatidos temas selecionados. Flávio Roscoe e Patrus Ananias contra-argumentaram sobre a dívida do Estado; Patrus Ananias e Mateus Simões discutiram turismo e cultura; Mateus Simões e Cleitinho Azevedo debateram o feminicídio; Cleitinho Azevedo e Gabriel Azevedo falaram sobre o reajuste dos servidores; Gabriel Azevedo e Alexandre Kalil discutiram a atuação de facções criminosas; e Alexandre Kalil e Flávio Roscoe debateram o transporte público metropolitano.
Os embates começaram com Flávio Roscoe (PL) cobrando de Patrus Ananias (PT) explicações sobre o financiamento de suas propostas e criticando as gestões anteriores do PT. Em resposta, Patrus defendeu a renegociação da dívida com a União e a revisão de isenções fiscais.
No que dizia respeito ao turismo e cultura, Patrus destacou o potencial do estado, e Mateus Simões (PSB) defendeu a descentralização dos investimentos culturais. Já no debate sobre feminicídio, Simões questionou Cleitinho Azevedo (Republicanos) sobre os recursos destinados à segurança pública. Cleitinho, por sua vez, defendeu ações de conscientização nas escolas e medidas de proteção às mulheres.
O tema diretamente associado à pauta feminina, rapidamente se tornou uma troca de acusações pessoais. “Sobre segurança pública, a competência é sua. Ninguém da segurança pública vai votar em você”, disse Cleitinho a Simões. As provocações continuaram: “O Mateus está tão viciado em mim que eu acho que ele acorda pensando em mim e dorme pensando em mim”.
Apesar do tom provocatório, o bloco teve caráter predominantemente temático. As críticas e cobranças entre os participantes estiveram, em geral, relacionadas aos assuntos propostos, enquanto os candidatos também apresentaram e contrapuseram propostas para as questões discutidas.
Segundo bloco
No segundo bloco, os temas foram de escolha livre. Gabriel Azevedo (MDB) e Patrus Ananias (PT) debateram sobre educação; Patrus Ananias e Cleitinho Azevedo (Republicanos) falaram de desenvolvimento econômico e regional; Cleitinho Azevedo e Flávio Roscoe (PL) discutiram o espectro político e IPVA; Flávio Roscoe e Alexandre Kalil (PDT) abordaram a dívida pública e a situação fiscal de minas; Alexandre Kalil e Mateus Simões (PSD) debateram sobre saúde; e Mateus Simões e Gabriel Azevedo encerraram o bloco falando de educação pública.
Entre os principais embates, Gabriel e Patrus discordaram quanto à Escola Plural, modelo de ensino pautado em ciclos de formação e com uma proposta de educação voltada à formação integral do ser humano, que foi implementado durante a gestão do petista como prefeito de Belo Horizonte. Em relação ao desenvolvimento econômico e regional, Cleitinho e Roscoe protagonizaram uma discussão sobre posicionamento político antes de tratarem propriamente do tema, após Cleitinho questionar declarações de Roscoe sobre sua representação do campo político de direita.
Os dois também discordaram quanto à proposta de redução de IPVA: Cleitinho defendeu a diminuição do imposto e a revisão de benefícios fiscais, enquanto Roscoe cobrou a indicação de uma fonte para cobrir a perda de arrecadação.
A situação fiscal do estado voltou ao centro do debate com Roscoe e Alexandre Kalil. Na área da saúde, Kalil e Mateus Simões discordaram sobre a situação dos hospitais regionais. E, por fim, na discussão sobre educação pública, Simões destacou os resultados da administração atual, enquanto Gabriel apresentou propostas para a área.
O segundo bloco apresentou mais momentos de confronto direto que o primeiro, mas as intervenções permaneceram, em grande maioria, vinculadas aos temas escolhidos pelos candidatos.
Terceiro bloco
No terceiro momento do debate, o tema para discussão foi escolhido de acordo com a região de Minas Gerais. A região era sorteada e o candidato escolhido por sorteio podia escolher o adversário e o assunto para a discussão.
Cleitinho Azevedo debateu com Alexandre Kalil sobre a situação da infraestrutura no Sul de Minas. Alexandre Kalil e Mateus Simões sobre o abandono da região metropolitana de Minas Gerais, quando falaram das Regiões Central e Centro-Oeste. Mateus Simões e Gabriel sobre a saúde na Zona da Mata. Gabriel e Patrus Ananias discutiram sobre questões ambientais e o desenvolvimento regional na Região Leste. Patrus Ananias e Flávio Roscoe debateram sobre a educação no Triângulo Mineiro. Já Flávio Roscoe e Cleitinho discutiram sobre o problema da escassez de água no Norte de Minas.
Antes de começar seu debate, Cleitinho Azevedo, rebateu às críticas feitas por Mateus Simões sobre seu suplente ao Senado – o empresário Alex Diniz, a quem Simões acusou de sonegação de impostos e associou a um episódio envolvendo desvio de dinheiro– e negou que tenha qualquer relação com o caso.
Cleitinho e Kalil discutiram principalmente sobre os pedágios e as concessões de rodovias na região Sul. O candidato do Republicanos criticou os altos valores nas cobranças de pedágios e afirmou que pretende revisar individualmente os contratos de concessão. O adversário concordou que o tema merece atenção, mas focou a sua fala na reforma tributária sobre a economia regional e seus impactos. Ele afirmou que esse é o principal problema da região no momento, que causa perda de competitividade nos setores industriais e produtivos, necessitando de uma atuação direta do governo estadual.
No embate entre Alexandre Kalil e Mateus Simões, o candidato do PDT criticou a gestão estadual dos últimos anos, que levou ao abandono da região metropolitana do estado. O adversário rebateu citando investimentos em mobilidade e projetos econômicos de desenvolvimento na Região Central feitos justamente pela última gestão, além de ressaltar o Rodoanel como um dos principais projetos para o estado.
Com Gabriel, Mateus Simões atribuiu a impossibilidade de construção de um hospital regional em Juiz de Fora à prefeitura gerida pelo PT. Enquanto o adversário respondeu que pretende manter diálogo com os gestores independente do partido, além de também defender o aproveitamento da estrutura do hospital inacabado na cidade para a ampliar o atendimento na região. Depois, o candidato do PSD listou propostas de obras e investimentos na Zona da Mata, entre elas a ampliação de serviços de oncologia e reformas hospitalares.
Gabriel, em embate com Patrus Ananias, decidiu focar principalmente na questão da situação do Rio Doce, a qual o candidato do PT considerou como uma prioridade do estado. Por isso, defendeu ações voltadas à preservação dos recursos naturais e a criação de políticas de desenvolvimento econômico e social para a região. Ele ainda defendeu um modelo de desenvolvimento integrado, que combina crescimento econômico, inclusão social, preservação ambiental e valorização cultural. Já o adversário apresentou propostas voltadas à fiscalização ambiental e ao monitoramento da qualidade da água, e defendeu a participação de universidades e da sociedade civil nesse processo.
Patrus Ananias questionou Flávio Roscoe sobre suas propostas para a educação no Triângulo Mineiro. A resposta foi a afirmação de que a região já apresenta indicadores educacionais acima da média estadual, sob a defesa da ampliação de modelos inspirados na rede Sesi, com a forte inclusão da tecnologia. O candidato do PT retrucou afirmando que ainda há desigualdades sociais na região, principalmente na educação. Por isso, ele reiterou que tem como sua prioridade o fortalecimento da educação pública, com o plano de investir em todas as suas instâncias.
No embate entre Flávio Roscoe e Cleitinho, o candidato do PL lembrou que o senador já participou de audiências públicas sobre a escassez de água no Norte de Minas desde 2019 e questionou quais avanços foram alcançados para enfrentar o desabastecimento. O adversário defendeu investimentos em reservatórios, proteção de nascentes, saneamento básico e infraestrutura e reforçou a proposta de descentralizar parte da administração estadual para o interior.
Após o pedido de detalhamento das propostas por Roscoe, o senador propôs parcerias com a iniciativa privada, ampliação de investimentos e cooperação com o governo federal. Já o candidato do PL, afirmou que a principal solução para a crise hídrica passa pela revisão da política de concessão de outorgas para uso da água. Apesar dos embates, os candidatos conseguiram apresentar e contrapor suas propostas ao longo do bloco.
Quarto bloco
No quarto momento do debate, o tema era livre e o candidato escolhido por sorteio podia escolher tanto o adversário quanto o assunto que seria discutido. Patrus Ananias debateu com Cleitinho Azevedo sobre o projeto para Minas Gerais. Em seguida, Cleitinho escolheu Mateus Simões para um confronto marcado por acusações e questionamentos sobre alianças políticas. Mateus Simões e Flávio Roscoe discutiram a dívida de Minas Gerais com a União. Flávio Roscoe e Alexandre Kalil debateram sobre o posicionamento político do candidato do PDT. Alexandre Kalil e Gabriel discutiram os impactos das apostas esportivas e o uso de recursos públicos para patrocínio de clubes de futebol. Por fim, Gabriel e Patrus Ananias debateram sobre as contas públicas e a situação fiscal do estado.
Antes de iniciar o primeiro confronto, Patrus Ananias questionou Cleitinho Azevedo sobre qual seria seu projeto para governar Minas Gerais. O candidato do Republicanos afirmou que o estado possui potencial econômico para assumir maior protagonismo no cenário nacional e defendeu a necessidade de diálogo com o governo federal. Patrus apresentou seu plano de desenvolvimento regional, baseado nas diferentes características econômicas e sociais das regiões mineiras. Cleitinho também defendeu a redução do tamanho do Estado, o combate à corrupção e a diminuição do custo de vida da população. Entre suas prioridades, citou a reforma administrativa, a atração de investimentos, a redução de impostos e tarifas e o combate ao desperdício de recursos públicos.
O embate seguinte foi de Cleitinho com Mateus Simões, que ficou muito mais marcado por uma discussão de alianças políticas. O candidato do PSD questionou a aliança do adversário com o deputado federal Euclydes Pettersen, do Republicanos, de quem relatou ter recebido anteriormente uma suposta oferta de vantagem indevida, que foi alertada para o senador. Em resposta, o candidato do Republicanos respondeu que cada pessoa deve responder pelos próprios atos e questionou a relação anterior de Simões com os mesmos personagens mencionados no debate. Cleitinho também afirmou que sempre agiu com transparência e que não possui investigações ou denúncias contra si. Mateus Simões defendeu que pessoas envolvidas em acusações não deveriam ocupar posições de influência em um eventual governo, enquanto Cleitinho afirmou que eventuais responsabilidades deveriam recair sobre aqueles que fossem condenados.
Mateus Simões, em confronto com Flávio Roscoe, questionou o adversário sobre a dívida de Minas Gerais com a União. O candidato criticou o volume de recursos destinados ao pagamento da dívida e afirmou que esses valores poderiam ser utilizados em obras e investimentos no próprio estado. Simões também destacou sua participação nas negociações que resultaram no atual acordo da dívida e afirmou que pretende destinar os recursos pagos à União para a recuperação das rodovias mineiras. Roscoe, por sua vez, criticou a atuação do governo federal e afirmou que Minas Gerais recebe poucos investimentos da União. Os dois candidatos também defenderam suas candidaturas como alternativas para impedir que o PT chegasse ao segundo turno.
No embate entre Flávio Roscoe e Alexandre Kalil, o candidato do PL questionou o posicionamento político de Kalil, lembrando o apoio dado ao presidente Lula nas eleições de 2022 e mencionando a composição de sua chapa e a aproximação com setores ligados ao PSDB. Kalil respondeu que seu apoio a Lula ocorreu em razão de uma circunstância política específica e afirmou manter independência em relação aos principais grupos políticos nacionais. O candidato do PDT defendeu que sua atuação deveria estar concentrada nos problemas de Minas Gerais. Roscoe ampliou a discussão para o cenário nacional e reafirmou seu apoio a Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República.
Alexandre Kalil, em confronto com Gabriel, levou para o debate a discussão sobre as apostas esportivas e seus impactos no país. Gabriel afirmou ser contrário às plataformas de apostas e defendeu uma ação conjunta para combater o problema. O candidato também criticou o anúncio do governo estadual de destinar recursos para clubes de futebol. Kalil concordou com as críticas ao repasse e classificou a iniciativa como uma medida de caráter eleitoral. Ele também questionou o uso de recursos públicos para publicidade e afirmou que esses valores poderiam ser direcionados para outras demandas do estado.
No último confronto do bloco, Gabriel questionou Patrus Ananias sobre quais erros cometidos durante o governo de Fernando Pimentel, entre 2015 e 2019, ele evitaria repetir em uma eventual administração estadual. Patrus afirmou que sua candidatura possui identidade própria e que não atuaria como defensor nem como crítico do ex-governador. O candidato do PT destacou sua trajetória política e afirmou que pretende concentrar a gestão em políticas públicas nas áreas de saúde, educação, segurança e desenvolvimento econômico. Gabriel voltou a questionar a gestão Pimentel, mencionando problemas relacionados ao pagamento de servidores, aos repasses aos municípios e à responsabilidade fiscal. Patrus respondeu que pretende governar um estado que considera financeiramente fragilizado e, por isso, defendeu a revisão de incentivos fiscais e mudanças na política tributária como formas de ampliar a arrecadação.
Considerações finais
Encerrado o quarto bloco, os candidatos tiveram um minuto cada para fazer suas considerações finais. Entre os principais trechos, na ordem em que foram apresentados, estão:
“Primeiro, eu quero agradecer a todos que acompanharam. Nós ouvimos aqui milhões de coisas que vão fazer, mas o estado tem que estar rico. Nós temos que organizar esse estado, renegociar essa dívida, porque só um estado rico que ajuda a vida social das pessoas” - Alexandre Kalil (PDT).
“Cada governador tem uma missão. A missão do Zema foi colocar as contas em ordem. A minha missão é devolver um pedaço disso para você, porque prometer alívio é fácil, mas entregar alívio demanda quem sabe trabalhar e já entregou” - Mateus Simões (PSB).
“Então, ao escolher o seu próximo governador, o seu próximo presidente, não pense na sua preferência pessoal. Não é disso que se trata. Você tem que pensar efetivamente naquele que vai fazer o melhor para as futuras gerações” - Flávio Roscoe (PL).
“Nesse Brasil em que há tantos escândalos, aqui tem um cara que não perde a esperança de te dizer que o que te convence não deve ser a pesquisa, mas as boas propostas. Aqui a gente quer uma educação com aprendizagem de verdade. Ferrovias. Queremos uma polícia com inteligência para combater o bandido.” - Gabriel Azevedo (MDB).
“Esta campanha fez e continua fazendo muito bem ao meu coração, porque eu realmente tenho uma grande paixão por Minas Gerais. Conheço bem o nosso estado e quero fazer com que Minas Gerais volte a ocupar o lugar que merece.” - Patrus Ananias (PT).
“A partir de 1º de janeiro, você nunca mais será roubado e muito menos enganado. Então, o que eu peço aqui é essa oportunidade para você também, que ainda não decidiu o seu voto. Me dê essa oportunidade, que quem estará sentado naquela cadeira do governo será o povo. Primeiro o povo e sempre o povo.” - Cleitinho Azevedo (Republicanos).