Por Caio Moreira
No futebol de alto rendimento, cada dia longe dos gramados pode representar um prejuízo para a carreira de um atleta. Em fevereiro de 2026, o volante Alexsander, do Atlético-MG, foi submetido a um tratamento que utiliza células-tronco do próprio corpo após sofrer uma ruptura total do ligamento colateral medial do joelho esquerdo. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar o reparo do tecido lesionado. E em abril, já estava atuando em uma partida válida pela CONMEBOL Sudamericana.
Outro caso é o do atacante Ferreira, do Grêmio. Em abril de 2022, o jogador realizou um tratamento com células-tronco retiradas da própria medula óssea e aplicadas na região do músculo adutor da coxa direita, onde sentia dores. O procedimento tinha como objetivo estimular a cicatrização e acelerar a recuperação. O tratamento foi realizado fora das dependências do clube e financiado pelo empresário do atleta, evidenciando como jogadores profissionais podem recorrer a estruturas médicas particulares. Esses casos mostram como a medicina regenerativa ganhou fama no esporte, especialmente na busca por alternativas para acelerar a recuperação de lesões. Mas, enquanto atletas de alto rendimento podem ser acompanhados por estruturas médicas especializadas, pessoas comuns também enfrentam lesões que transformam suas rotinas, muitas vezes sem acesso às mesmas possibilidades de tratamento.
Foi o que aconteceu com Fábio Mantovani, arquiteto de 38 anos. Fábio se arriscava em partidas de futsal com amigos, a habilidade poderia não ser a de um atleta profissional, mas a paixão pelo esporte era idêntica à do ídolo do seu time, Rogério Ceni. Um certo dia no ano de 2017, em uma de suas peladas semanais, ele machucou o joelho direito no meio da partida. Uma ruptura parcial do ligamento cruzado anterior, o assombrou por anos e afastou Fábio do esporte que amava acompanhar e praticar. Segundo ele, o tratamento recomendado na época foi via fisioterapia sem necessidade de cirurgia, porém as longas sessões do tratamento o distanciaram e tiraram dele a confiança de retornar às quadras. 8 anos depois da frustração o arquiteto se sentiu confiante para retornar à sua atividade, o joelho que parecia frágil e instável, retornou a ser o que era antes do ocorrido. Despreocupado e seguro que o joelho não o deixaria na mão, o pior aconteceu. Em agosto de 2026, aquela que antes era uma ruptura parcial, se agravou para um rompimento total do LCA, roubando todo seu otimismo no desempenho recuperado nos anos anteriores.
A ruptura do LCA não é um problema exclusivo do esporte profissional. Entre 2008 e 2014, mais de 48 mil reconstruções do ligamento foram realizadas pelo SUS. Foto: WIKIMEDIA
Sua recuperação agora será mais intensa dessa vez, o tratamento necessitará de uma cirurgia, mas não só isso, as sessões de fisioterapia vão voltar a assombrar o torcedor tricolor, antes e depois do procedimento. Por enquanto, o arquiteto não sente limitações na sua vida cotidiana e citou que sua única restrição foi pendurar as chuteiras por um momento. Ao ser questionado sobre a recuperação regenerativa via células tronco, ele citou que nunca ouviu falar e acrescentou, “Não foi me dado como alternativa”.
A história de Alice Cirina, também revela outra dimensão desse debate. Vinda do interior da Bahia, no município de Brotas de Macaúba para São Paulo, dona Alice migrou para a capital paulista a fim de conseguir novas oportunidades de trabalho. Na Selva de Pedra, ela trabalhou como manicure e empregada doméstica por quase toda sua vida até a aposentadoria. Devido a longos períodos expostos a esforços físicos e posições nada recomendáveis nos seus ofícios, ela desenvolveu lesões na região lombar da coluna. Sentada num banco de madeira, dona Alice segue atendendo suas clientes, aos 78 anos de idade. A clientela, ela conheceu no condomínio onde mora e segue seu ofício com maestria. Seu caso já foi investigado por vários médicos do SUS, porém as dores nunca sumiram, até técnicas de acupuntura foram usadas, mas nada acabou com seu problema.
Dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, analisados em estudo com 88.531 adultos brasileiros, apontam que 21,6% da população adulta sofria de dor crônica na coluna. Foto: WIKIMEDIA
Embora tratamentos com células-tronco já despertam o interesse no futebol de alto rendimento, seu acesso ainda está concentrado em atletas profissionais, que contam com clubes, departamentos médicos especializados e recursos financeiros para custear procedimentos experimentais ou de uso restrito. Para pessoas como Fábio e a dona Alice, que dependem do sistema público de saúde e convênio médico, a oferta é diferente: terapias regenerativas voltadas a lesões ortopédicas ainda precisam comprovar segurança e eficácia em estudos clínicos e obter autorização da Anvisa. Caso os resultados demonstrarem benefício, o tratamento deverá passar pela avaliação da Conitec, que analisará evidências científicas, custos, impacto orçamentário e viabilidade de implementação antes de recomendar sua incorporação ao SUS. Só depois da decisão do Ministério da Saúde e da organização da estrutura necessária seria possível ampliar o acesso à população.