Adição de proteína extra em alimentos ultra-processados impacta na saúde

Pesquisas da UNICAMP e de uma universidade da Espanha comprovam que consumidores acham produtos com proteína mais saudáveis sem ver sua composição nutricional
por
martim tarifa
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28/09/2026 - 12h

Por Martim Tarifa

 

Fábio tem 26 anos e desde criança quase sempre esteve acima do peso. Com o passar do tempo e principalmente durante a pandemia, Fábio se tornou obeso devido a um período difícil em questão de sua saúde mental. Ele terminou a escola durante a quarentena e se viu sem chances de ingressar em uma universidade ou arranjar um emprego. 
Com o fim da pandemia, o principal objetivo era recuperar sua saúde física e mental,  para depois pensar o que fazer da vida.

Fábio fez da academia um hábito. Executava os exercícios corretamente e se mantinha disciplinado na dieta, mas não via grandes resultados. Assim ele acabou transferindo a culpa para si mesmo e voltou a ter depressão, deixou de frequentar a academia e começou a focar apenas no emprego que havia arrumado a pouco tempo. 

Foi apenas cerca de 1 ano depois que Fábio decidiu se consultar com uma nutricionista presencialmente. Apresentando toda a sua rotina da época em que estava praticando atividade física regularmente, ficou claro para a profissional que o problema estava na alimentação. Apesar da dieta estar correta, toda proteína consumida por Fábio vinha de alimentos ultra processados e ou altos em gordura e açúcar. Algo que o jovem nem tinha parado para pensar, pois imaginava que por ter proteína e ser indicado por pessoas do mundo fitness, esse produto seria saudável. Depois disso Fábio retomou a musculação e o acompanhamento nutricional com profissionais que estavam o auxiliando de verdade e mantinham contato presencial.

 

Com o crescimento da recente moda de adição de proteína em alimentos comuns, o consumidor deve ficar alerta em como isso é uma estratégia de marketing das empresas. Ter proteína extra não torna um alimento necessariamente saudável. Um produto ultra-processado com altos índices de açúcar e ou sódio não se torna bom para a nossa saúde apenas por ter mais proteína. Porém o consumidor ainda não percebeu isso e as empresas do ramo alimentício estão aproveitando essa oportunidade. 

Uma pesquisa realizada pela FCA da UNICAMP (Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade de Campinas) entrevistou 412 pessoas para entender como essa adição de proteína principalmente destacada nos rótulos dos produtos afetava a preferência de compra dos consumidores. E os resultados confirmam a tese de que um produto ultra-processado ganha uma nova chance com os consumidores apenas por possuir no rótulo o selo light, fit, saudável e proteico. Todos os entrevistados se mostraram afetados por esse padrão. Até mesmo os consumidores que dizem não se importar com a saúde, disseram escolher alimentos com essa característica, por mais que sem saber, a fórmula continuasse a mesma em muitos casos. 

Outro estudo, publicado na revista científica Nutrients, e conduzido por pesquisadores da Universidad Complutense de Madrid, analisou 36 produtos processados enriquecidos com proteína vendidos em supermercados da Espanha. O nível de proteína desses produtos variava de 10% a 88%, mostrando o quanto essa "dose extra" pode ser exagerada. Segundo a pesquisa, apenas uma porção de alguns desses produtos, somada a 150g de carne no dia, já é suficiente para ultrapassar toda a recomendação diária de proteína de uma pessoa, chegando a até 306% do necessário em mulheres e 232% em homens. O consumidor pode estar exagerando no consumo sem nem perceber, apenas por confiar no rótulo. O estudo também aponta riscos desse excesso: o risco de pré-diabetes e diabetes tipo 2 pode aumentar entre 20% e 40% a cada 10g de proteína consumida além do necessário, além de possíveis efeitos negativos na microbiota intestinal e até ganho de peso, quando o excesso de proteína não vem acompanhado de uma redução de carboidratos ou gorduras na dieta.

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Barras de proteína são o principal alimento ultra processado do mundo fitness. 


No caso de Fábio foram as dicas de exercício, dieta e suplementos que o auxiliaram. Disse que sabia nada de academia, dieta e proteína. Tudo aprendeu na Internet. Hoje está conseguindo emagrecer e tem uma saúde mental estável para enfrentar o dia-a-dia.

Por isso é essencial que o consumidor aprenda a checar o rótulo corretamente antes de confiar apenas no que está estampado na embalagem. O primeiro passo é ignorar as chamadas na frente do produto, como "rico em proteína" ou "fit", e ir direto para a tabela nutricional e a lista de ingredientes. Nessa lista, os ingredientes aparecem em ordem decrescente de quantidade, ou seja, os primeiros da lista são os que mais compõem o produto. Se açúcar, xarope de glucose ou gordura vegetal aparecerem entre os primeiros, é um sinal de alerta, mesmo que a proteína esteja em destaque na embalagem. Outro ponto importante é observar o tamanho da porção usada como referência na tabela nutricional, já que muitas vezes as empresas calculam os valores para porções pequenas, fazendo o produto parecer mais saudável do que realmente é quando consumido na quantidade real. Por fim, vale comparar o produto "fit" com a versão tradicional do mesmo alimento, olhando lado a lado os valores de açúcar, sódio e gordura saturada, para entender se a diferença é real ou apenas uma estratégia de marketing.
    

    

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