"A gente não sabe combater fake news e o jornalismo está perdendo de 10 a 0" ― Patrícia Campos Mello
por
Gabriel Soria de Almeida e Maria Luiza de Oliveira Leite
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28/09/2020 - 12h

A 42ª semana de jornalismo, promovida pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, apresentou como tema da última mesa “Erros e acertos no combate à desinformação nas redes”. A responsável por mediar o encontro foi a professora Pollyana Ferrari Teixeira, que teve como convidados: Patrícia Campos Mello (Folha de São Paulo), Guilherme Amado (Época) e Eugênio Bucci (ECA-USP). O encontro contou com cerca de 155 pessoas e trouxe diversos debates sobre as viralizações de notícias falsas e métodos para combatê-las. 

Os convidados, falaram abertamente sobres seus pontos de vista sobre como a desinformação vem ganhando força na sociedade. 

O combate à desinformação está sendo um dos maiores desafios para o jornalismo, pois os fatos e as checagens não têm as mesmas visualizações se comparados às notícias falsas, que são mais facilmente compartilhadas. Então, como o jornalismo pode passar por essa crise da informação?

O assunto tratado na mesa é tão vasto e de tamanha importância, que até inspirou o livro “A Máquina do Ódio”. Obra esta escrita por  Patrícia, uma das convidadas da noite, que opinou: “As pessoas até sabem que são notícias falsas, mas por colaborarem com crenças pessoais, elas acabam compartilhando. O problema é a educação do povo brasileiro? Existem pessoas muito bem educadas, de classe alta até, que saem compartilhando notícias falsa. Se só colocar a informação verídica na linha fina ninguém vai ler. Senão fizer a contextualização no título, ninguém vai ler. A gente não sabe combater fake news e o jornalismo está perdendo de 10 a 0" ― finalizou.

Em sua apresentação, Bucci acrescenta um outro ponto de vista: "A verdade dos fatos não importa, pois não é mais importante se é verdade ou mentira. A questão não é se é verdade ou mentira, mas se aquela verdade ou mentira corresponde ao um ódio muito grande de alguém. A verdade dos fatos é apenas um expediente da propaganda".

Os convidados apontaram o conceito da “pós-verdade” que é quando a informação da fake news vai de acordo com a verdade de cada pessoa: “Se conformou um ambiente, no mundo, que favorece a propagação de conteúdos que existem para tocar as pessoas na áreas sensíveis, não para informar e criar um debate”- falou Bucci.

Já o jornalista da Época afirmou: “A gente tende a achar que o boato é bem sucedido quando ele viraliza, ou quando uma grande parcela da população é enganada por aquilo. Mas um texto que li pontuava que elas são bem-sucedidas muito antes (...) Pois nós já perdemos muito tempo, e estamos perdendo tempo agora, falando de ‘cristofobia’ e de ‘índio queimando Amazônia’ (...) O propagador de fake news, quando sofre no bolso, ele tende a parar”

Para o combate à circulação de notícias falsas ou tendenciosas muito se fala sobre a educação midiática, ou seja, a população é ensinada a usar as redes com maior responsabilidade e consciência, e Amado é um dos comunicadores que defendem essa ideia. Porém, a jornalista da Folha de São Paulo explica que esse método esbarra em dois empecilhos, que seriam: “(...) qual a disposição das pessoas de irem atrás de uma checagem? E, muitas vezes, mesmo mostrando fatos, as pessoas compartilham pois vão de acordo com suas crenças.”

As fake news, atualmente, são usadas como ferramenta política, pois se faz o uso dela para atingir os interesses de alguém. É o que explica o professor da ECA: “O principal é varrer o inimigo, e qualquer pessoa vira um agente de mentira. O mais importantes é saber se isso atinge o inimigo”. Ele ainda acrescenta que o resultado disso é a acumulação de um ódio muito grande dentro da sociedade, que não consegue ver o todo, os fatos, mas que, por conta do sentimento, colocaram a culpa em um único alguém: “o inimigo”.

Após suas falas, foi aberto o espaço para aqueles que acompanhavam a palestra fazerem perguntas. Uma delas foi: "Estamos falhando em sermos menos diretos na exposição dos fatos?"

Patrícia Campos Mello na 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP
Patrícia Campos Mello na 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP

"Eu vejo uma mudança aos poucos em não ficar com eufemismos. Mas não adianta fazer essa contextualização na linha fina ou no texto, temos que contextualizar no título, se não estamos 'factuando' essa verdade. Tem que ficar claro isso. E os veículos estão começando a fazer isso, se não, só vamos reverberar" ― comentou Patrícia.

Guilherme Amado na 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP
Guilherme Amado na 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP

Não somos nós que estamos falhando, é uma luta que já começa inglória. Enquanto uma checagem demora seis minutos para espalhar, a outra (notícia falsa) demora um minuto.  A fake news é sexy, ela mexe com nossos sentimentos, sempre, então sempre vai ser uma luta inglória”. ― acrescentou Amado 

 

Eugênio Bucci na 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP
Eugênio Bucci na 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP

"Se conformou um ambiente, no mundo, que favorece a propagação de conteúdos que existem para tocar as pessoas nas áreas sensíveis, não para informar e criar um debate" ― concluiu Bucci

Como bem apontou Teixeira: "a desinformação é o parasita desse século". As fakes news estão presentes no cotidiano dos usuários das mídias digitais, e o jornalismo é um meio para confrontá-las. Contudo, como afirma Mello, o jornalismo ainda não descobriu a forma de viralizar as notícias corretas. "Há colegas que defendem que deveríamos ignorar as fakes news, mas eu discordo. Se conhecemos as técnicas para desmentir, temos que fazer!" ― disse Amado.


 

Cristiano Burmester: "A questão ambiental no Brasil está necessariamente politizada. A população entende; não é mais apenas um debate".
por
Ana Beatriz de Souza
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24/09/2020 - 12h

Em sua 42º edição, a Semana de Jornalismo promovida pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo apresenta como tema o 4º Poder na Era 4.0 e trouxe, na noite desta quarta-feira (23), o debate “Passando a boiada: Meio ambiente na crise política e sanitária”, acerca de como continuar a luta por sua preservação e dos problemas causados pela pandemia. 

Mediada pelo professor Cristiano Burmester, da PUC-SP, foram convidados para a mesa Ana Carolina Amaral, jornalista ambiental (Folha de S. Paulo); Emily Costa (Amazônia Real); Messias Basques, doutor em Antropologia pela UFRJ e pesquisador de populações indígenas no Mato Grosso do Sul, e Renata Tupinambá, co-fundadora da Rádio Yandê, primeira web rádio indígena do Brasil.

Renata Tupinambá começou as discussões introduzindo como a ditadura intensificou a perda dos territórios indígenas e a violações de direitos, o que é descrito no relatório Figueiredo. Nas décadas de 1930 e 1940, familias indígenas foram expulsas pela soltura de boiadas de gado nos seus territórios. O descaso, principalmente em locais mais afastados, deixou feridas abertas até hoje. "Uma situação de garimpo não é apenas a terra explorada, mas também aliciamento de jovens (prostituição e droga), o que intensifica seu rastro de destruição", explicou. Sobre o cenário político atual, ressaltou que estamos vivendo um período em que pessoas irresponsáveis estão no governo e ao analisar o todo, é difícil encarar os discursos como naturais. Renata, que também é jornalista, explicou que a mídia é central para denunciar e acompanhar  o que está ocorrendo nesse sistema. Sobre a etnomídia, disse: "Quando produzimos notícias, colocamos também nossa visão cultural, o que é diferente da mídia. Acreditamos na comunicação uma forma mais eficaz de educação. Educação é comunicação e comunicação é educação".

Emily Costa falando de seu trabalho jornalístico em Roraima
Emily Costa falando de seu trabalho jornalístico em Roraima.

Emily Costa mudou-se para Roraima aos oito anos e notou que grande parte da população é composta por migrantes, e analisa a região como um “microcosmo” entre locais, migrantes e imigrantes dos países próximos. A jornalista, que acompanhou a chegada dos venezuelanos em 2017 e 2018, hoje acompanha a pauta dos povos indígenas do lavrado para os quais a pandemia se mostrou devastadora, “Na Reserva Raposa Serra do Sol, por exemplo, é possível ver o impacto direto na vida das pessoas. Quando os grandes referências falecem, quem irá repassar o conhecimento?". Também demonstrou sua preocupação com as queimadas que estão ocorrendo nos últimos meses, principalmente porque 50% de Roraima é terra indígena e o governador é alinhado com os ruralistas que ameaçam quem vive nesses territórios: "Enquanto a queimada é uma pauta nacional, aqui ela ainda não chegou. Mas quando chegar, não será mais notícia".

Nos últimos 10 anos, Messias Basques trabalha com povos indígenas no Mato Grosso do Sul. Para a mesa, trouxe alguns questionamentos sobre a visão dos não-indígenas, como “o que pode ser meio ambiente?”.  Sobre a luta indígena, indagou: "Mesmo que se diga que os direitos foram dados e não conquistados, tem um direito do século 17, o indigenato, ou seja, direito à terra. Portanto os direitos conquistados, estão sendo violados [...] e isso não vem do Estado, mas mediante muita luta'". Citou ainda uma passagem do livro “A Queda do Céu”: "Quando falam da floresta, os brancos usam outra palavra: meio ambiente. É o que resta de tudo que sobrou do que eles destruíram até agora. [...] Nós xamãs, defendemos a floresta por inteiro".

Ana Carolina Amaral compartilhou suas inquietações com a cobertura de pautas ambientais: "Eu me perguntei: será que fazemos jornalismo com a mentalidade que gerou os problemas ambientais?". No debate, também foi discutido o discurso do presidente Jair Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU na terça-feira (22). A jornalista argumentou que estamos vivendo uma guerra de narrativas, que pode se acirrar cada vez mais, e que a legitimidade da opressão está em jogo. “O que estamos vendo é uma repetição: ele (Jair Bolsonaro) não quer convencer ninguém, ele quer confundir. E a boiada é uma das estratégias para isso".

Ana Carolina contou sua experiência na cobertura dos bastidores de questões ambientais
Ana Carolina contou sua experiência na cobertura dos bastidores de questões ambientais.

Ainda, na opinião de Amaral, não se pode apenas falar “eu já sabia”, mas sim buscar o que é relevante para a sociedade. Enquanto à cobertura jornalística de questões ambientais, argumentou: "Acho que a grande questão é ter se separado o que é humano e o que é meio ambiente, e o jornalista tenta se enxergar fora da sociedade. [...] A natureza é comunicativa, e nela, não acontece a parte é intrínseca a estratégia de sobrevivência. Assim como o jornalismo pertence ao ecossistema da sociedade, e aí temos uma função social". Emily Costa explicou que se deveria dar mais importância à questão humana e que “o filtro humano no jornalismo deve vir primeiro”.

Acerca da relação entre política e questões ecológicas e populações relegadas pelo Estado, explicou: "Nesses locais mais afastados nos sentimos desprotegidos. Um sentimento de ausência e de viver à margem. [...] (Na pandemia do coronavírus) as comunidades tiveram que se mobilizar, porque o Estado não fez seu papel". Salientou também que a  única ligação de Roraima com o Brasil é uma rodovia que dá para a Floresta Amazônica.

Ana Carolina Amaral argumentou sobre as diferenças entre o governo atual e os anteriores em questões ambientais: “Antes o projeto era modernista, e havia a preocupação de se mostrar sustentável, por exemplo com metas de emissão de carbono, agora o governo é declaradamente anti ambiental. Aí não há o que se cobrar, e isso muda tudo. Ambos ignoram os limites do planeta, mas esse nos leva para um retrocesso muito maior”.

Messias Basques comentando a importância do acompanhamento das pautas indígenas
Messias Basques comentando a importância do acompanhamento das pautas indígenas.

Respondendo sobre um possível novo modelo de sociedade através do debate ecológico, Renata argumentou: “A partir do momento que enxergamos que a natureza é tudo que somos, a gente consegue ver o todo e trazer pra nossa narrativa de comunicação. Segundo Messias Basques, o caminho é "Educação de forma ampla. Se compartilharmos e sugerirmos informações com pessoas mais próximas, já é um caminho". Para Ana Carolina, a pandemia provou que o mundo pode parar, e talvez tenha aberto uma brecha para se pensar que ele possa girar de outra forma. Já Emily  apontou o papel  do jornalismo na questão: “O jornalismo tem que priorizar a busca pela verdade e a importância de conectar conhecimentos.”

Perguntados sobre os desafios dos próximos prefeitos municipais, Emily Costa destacou que Boa Vista enfrenta, além de novos problemas, antigas questões, com o descaso com povos indígenas. "Como não demos prioridade para a pauta ambiental nas eleições federais, nas municipais isso será necessário", destacou Ana Carolina Amaral. Messias Basques sugeriu aos presentes uma pesquisa de proposta ls de candidatos em cidades do estado de São Paulo que abrigam terras indígenas.

Renata Tupinambá falando sobre a importância da etnomídia
Renata Tupinambá falando sobre a importância da etnomídia.

Sobre as saídas para a posição passiva da mídia para as ações do governo, o antropólogo destacou que não basta dizer que é mentira, mas também mostrar o que é a realidade. Para Renata, não é apenas um problema com a imprensa: “Já encontrei muita censura, sermos impedidos de noticiar. Não é apenas os jornalistas, mas um sistema que impede que as informações cheguem. [...] Seria muito inocente pensarmos que pessoas de determinadas esferas possibilitariam que essas notícias chegassem".

Acerca de possíveis políticas para reparação ambiental, Messias explicitou que ela encontra a questão indígena: “Passa pela ideia de território. A ideia de terra indígena que os não-indígenas e a imprensa têm não é a mesma visão que os indígenas têm de território”. Destacou ainda que, enquanto uns têm múltiplas cidadanias, tem-se a noção de que não se pode ser indígena e brasileiro. “Ainda não entendemos que a floresta Amazônica não existiria sem os indígenas, não está em nosso imaginário", finalizou.

Perguntada sobre o silenciamento das vozes indígenas, Renata Tupinambá destacou: "Temos enxergado como algo estrutural, que não vem de agora. Governos sempre serão Governo, o mesmo com o Estado. Temos visto a questão de que os povos são autossustentáveis e autônomos e isso sempre será ameaça para quem quer nos tornar dependentes. [...] Quando se muda a cultura indígena, como pelo proselitismo religioso, há o projeto de limpeza e mudança de práticas e da imposição de questionamentos nas comunidades". Apesar de tudo, permanece otimista: "Apesar do céu coberto pela fumaça, as vozes podem clarear as coisas"

 

 

Durante a 42ª Semana de Jornalismo, profissionais ressaltam tensão e cautela ao fazerem seus registros.
por
Georgia Barcarolo e Lara Guzzardi
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24/09/2020 - 12h

 

“As pessoas perderam a renda, não conseguiram pagar o aluguel, ainda mais em época de pandemia”, diz Ina sobre esta foto. (Divulgação: Ina Henrique Dias)

“O 4º Poder na Era 4.0” é o tema da 42ª Semana de Jornalismo, que acontece dos dias 21 a 25 de setembro. Organizada pelo Centro Acadêmico Benevides Paixão, a atividade reúne profissionais da área da comunicação para debater o papel da mídia nesse período de pandemia. O evento, transmitido online, é aberto ao público.

Na mesa de terça-feira à noite (22), a discussão girou em torno da importância do fotojornalismo durante a crise do Coronavírus. Contando com a presença de Yan Boechat (BAND), Ana Carolina Fernandes (Everyday Brasil) e Ina Henrique Dias (Afrometria), sob o título “Do documental ao artístico: O papel fundamental do fotojornalismo na pandemia”, abriu com uma indagação: em que medida a expressão, de caráter subjetivo, informa?

Ina Henrique Dias abriu a mesa falando sobre sua trajetória na fotografia e sobre os desafios de ser uma mulher periférica no meio jornalístico. Ina começou a fotografar em 2012 por hobby. Posteriormente, fez um curso técnico em fotografia no SENAC e partiu para a fotografia documental. “A fotografia de rua e a documental são os estilos que mais me atraem, pois se você perde um instante a cena muda, temos que mudar o foco sempre, e isso para um fotógrafo de rua é essencial e estimulante”, afirma. 

As últimas fotos que registrou são de moradores de rua no centro de São Paulo durante o “novo normal”, termo utilizado para explicar as mudanças incorporadas no cotidiano oriundas da pandemia. Segundo a fotógrafa, o trabalho documental foi feito de forma cautelosa. “Tentei ser o mais discreta possível. Não expor demais a pessoa porque ela já está exposta.”

 

Foto da primeira série sobre a pandemia do coronavírus no Rio: "O Silêncio ao Redor". 29.03.2020, Praia de Ipanema, Rio de Janeiro. (Divulgação: Ana Carolina Fernandes)

Exposição e hostilidade foram temas recorrentes na mesa. Os três convidados concordam ao afirmar que a pandemia e as crises econômica, política e ambiental geram esse medo na população, e documentar mesmo estando na era da comunicação se torna difícil quando há essa barreira. 

Ana Carolina Fernandes é formada em Fotografia pela Escola de Artes Visuais do Parque Lage e já passou pelas redações do Jornal do Brasil, Agência Estado e Folha de S. Paulo. Depois que saiu da Folha começou a fotografar de forma mais poética, em preto e branco, e teve várias imagens publicadas. Durante o debate, a fotógrafa falou sobre a agressão que sofreu recentemente enquanto fotografava vendedores sem máscara no Ceasa e sobre situações delicadas, como enterros, em que as pessoas perceberam que estavam sendo fotografadas e reagiram mal. 

As fotos dela costumam ser voltadas para pautas sociais como a causa ambiental, o racismo, as religiões afro-brasileiras, a população periférica e as travestis. Hoje conseguiu encontrar uma maneira de conciliar seus projetos pessoais como fotodocumentarista e de atuar como fotojornalista na linha de frente em manifestações. Fez diversas fotos desde que a pandemia começou e recentemente lançou uma série chamada “O Silêncio Ao Redor” com fotografias que mostram vários lugares vazios em decorrência da quarentena. 

Irmãos Thiago Firmino e Tandy Firmino, Rio de Janeiro, Abril/2020. (Divulgação: Ana Carolina Fernandes)

Ana tem visitado regiões periféricas e registrado diversos momentos de solidariedade no combate ao coronavírus. Acompanhou os irmãos Thiago e Tandy Firmino, fotógrafos, guias turísticos e produtores na Favela Santa Marta, em sua iniciativa de comprar os equipamentos  de sanitização por conta própria e ajudar os moradores a higienizar a favela. “A única coisa bonita dessa pandemia é ver as pessoas se mobilizando”, comenta ela.

Quando o COVID-19 chegou ao Brasil, Yan Boechat se preparou para cobrir o período complicado que se instalaria em pouco tempo. Passou a ir às ruas diariamente após o primeiro óbito confirmado para achar histórias. Focou nas fotos de mortes em casa, situação que mostra um Brasil desassistido, e acompanhou o serviço de remoção de corpos.

100 mil mortos. A ONG Rio de Paz soltou mil balões vermelhos e fixou cem cruzes pela memória dos mais de 100 mil mortos pela COVID-19 no Brasil. Amanhecendo na Praia de Copacabana. Rio de Janeiro, 08.08.2020. (Divulgação: Ana Carolina Fernandes)

Repórter com 20 anos de experiência e passagens por veículos de imprensa como IstoÉ, Gazeta Mercantil, Valor Econômico, Boechat já esteve em zona de guerra e fez vários paralelos entre um cenário de pandemia e de guerra. Segundo o jornalista, houve facilidade das pessoas ao conceder uma entrevista em ambas as situações. “As pessoas tentam dar algum sentido para a morte nessas situações dramáticas e ficam muito abertas para contar suas experiências. Acabam vendo em nós jornalistas alguém que poderia dar voz aquela tragédia.” 

Ele acredita que a pandemia é só mais uma catástrofe como tantas no Brasil, talvez até menos violenta do que o genocídio da juventude negra nas periferias. Quando perguntado sobre o que seria mais difícil, cobrir uma pandemia ou uma guerra, Boechat afirmou que “são dois processos de trabalho diferentes, mas alguns elementos se aproximam um pouco. Em geral, você vai ver que as pessoas que têm mais recursos e mais contatos conseguem passar por isso mais tranquilo. A desigualdade social tem uma marca profunda.”

Os três fotojornalistas possuem a habilidade de ultrapassar os limites da arte e da reportagem, mesclando conceitos e registrando momentos históricos. Suas fotos não só dão visibilidade a tópicos que precisam ser iluminados, como também ajudam quem precisa de voz, já que por trás das câmeras esses fotógrafos são ativistas extremamente conscientes e sensíveis ao mundo que os cerca.

“A imprensa é racista porque é um reflexo da nossa sociedade racista”, defende Flavia Lima em sua fala
por
Julio Cesar Ferreira
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23/09/2020 - 12h

“Racismo na Imprensa Brasileira: o discurso da mídia no combate antirracista”, foi o tema da quinta mesa da 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP. O debate, que ocorreu de forma virtual e com os convidados dividindo suas telas, discutiu o racismo dentro das redações.

O evento, com mais de 180 pessoas, contou com a mediação de Amailton Magno, Professor da PUC-SP e com os palestrantes: Flavia lima, Ombudsman da Folha de S. Paulo, Pedro Borges, cofundador do Alma Preta e Yasmin Santos, ex-repórter da revista piauí e pós-graduanda pela PUC-RS.

Amailton abre a mesa abordando o racismo na história, sobretudo brasileira. Em sua fala, ele afirmou que o racismo é um mal-estar civilizatório e um crime contra a humanidade, de modo que ainda vivemos com os rastros históricos da escravidão. O professor da PUC também destaca que o racismo no Brasil ocorre por meio do fenótipo - o papel do colorismo -  a abolição que ocorreu sem leis reparatórias e a necropolítica (conceito proposto por Achille Mbembe que cita sobre quem o Estado deixa morrer em maior escala, que são os corpos negros). Por fim, enfatizou a maneira que a Instituição Policial ainda ecoa práticas da escravidão. “Os policiais sabem quem é negro.”

 

Amailton
Amailton Magno, Professor da PUC-SP na 42° Semana de Jornalismo (PrintScreen da tela do Zoom)

 

Em seguida, Flavia Lima inicia a sua contribuição explicando a abordagem da mídia, que para ela é reflexo de uma sociedade racista com instituições e leis excludentes, e a imprensa é fruto disso. “A imprensa é racista porque é um reflexo da nossa sociedade racista”. Em sua apresentação, a jornalista da Folha de S. Paulo falou ainda sobre a representação dos negros no jornalismo e como estão quase sempre presentes em sessões policiais, de esporte e em menor escala, cultura. “A mídia transformou o jovem negro em um pivete.” De acordo com ela, a política de cotas foi o único momento em que os negros foram trazidos para o debate político na grande mídia.

Flavia
Flavia Lima, Ombudsman da Folha de S. Paulo na 42° Semana de Jornalismo (PrintScreen da tela do Zoom)

Citou ainda o caso de George Floyd para ilustrar como o jornalismo lida com o racismo no Brasil. “Foi a primeira vez que vi profissionais brancos sem saber muito o que fazer.”

 

Ao término da contribuição de Flavia, Pedro Borges, em sua exposição, defende que a política de cotas foi algo positivo e como foi resultado frutífero das lutas de movimentos sociais negros, e o debate tornou-se nacional, pois, "mexe com a elite brasileira, porque a universidade pública é algo que eles utilizam”. Em seguida, citou Perseu Abramo e os padrões de manipulação que ocorrem em cima das pessoas negras. Ainda criticou a mídia coorporativa, que visa atender os interesses da elite e como a mídia tradicional é usada como instrumento político. E para finalizar seu discurso falou sobre o papel importante que a mídia alternativa tem em desvincular-se dos interesses  aristocráticos brancos. 

 

Pedro
Pedro Borges, cofundador do Alma Preta na 42° Semana de Jornalismo (PrintScreen da tela do Zoom)

 

Yasmin Santos, em sua vez, trouxe sua pesquisa de TCC, “Letra Preta”, para demonstrar o papel de negro dentro do jornalismo impresso. Em seu discurso, Yasmim relata que foi a primeira mulher negra contratada na piauí e que o papel do homem branco mais velho ainda impera nas posições de comando em redações.

 

Yasmin
Yasmin Santos, ex-funcionária da Revista Piauí e pós-graduanda pela PUC-RS na 42° Semana de Jornalismo (PrintScreen da tela do Zoom)

 

Em sua pesquisa, há uma demonstração de como o racismo acontece dentro das redações, que para ela é majoritariamente por meio do silenciamento, colocando o jornalista negro em um espaço de “setoristas de negritude” ou em uma espécie de “Wikipretos”, pois posiciona os negros em locais que só possam falar sobre questões raciais e fossem porta-voz da pauta racial, e nada mais. Além disso defendeu que problemas estruturais exigem mudanças estruturais, trouxe também em sua apresentação que os termos utilizados precisam ser repensados e a necessidade de ouvir fontes e especialistas negros. “Falar sobre isso não é sobre ser um jornalismo militante, é sobre ser um jornalismo ético."

Depois de todas as apresentações, abriram o espaço para as perguntas.

A primeira pergunta levantada por uma participante foi sobre o que fazer em relação à divulgação de imagens de violências e espetacularização dela e como proteger a vítima e expor somente o culpado. Para os convidados, divulgar a imagem da vítima deve ser algo para se pensar com cuidado. Pedro defendeu que é necessária uma manipulação, para que "deixe visível apenas o culpado, não a vítima". Flavia Lima cita que é importante que não haja a espetacularização da violência, mas que ainda "seja dita de forma responsável". Yasmin ressalta que, com a Internet, é muito difícil ter controle sobre isso, mas não devemos publicar imagens de violência em veículos de informação, ao menos sem uma manipulação que proteja a vítima de mais exposição.

Ao responder uma questão sobre o Programa de Trainee para pessoas negras da Magazine Luiza. Yasmin disse que “é preciso pensar em permanência, não somente a entrada”. Já para Pedro Borges "a representatividade não é tudo", pois tem muito para mudar, como defende ele. E o Professor Amailton contribui citando o “pacto narcísico” cunhado por Cida Bento. Para ele, a ação da Magazine Luiza revela o “medo da branquitude no sentimento de perda da fala.”

A "plateia" também perguntou sobre a representatividade e a estética negra no jornalismo. Yasmin cita que os jornalistas brancos precisam se comprometer de fato com a luta antirracista, mas não fazem. “Há uma vontade de diversidade, mas não há ação.” Segundo Flavia, a “estética influencia, porque a redação é um microcosmo da sociedade”.

O espaço que o corpo negro dentro do jornalismo exerce causa um estranhamento, complementam Flavia e Yasmin. Pedro, por sua vez, apontou o fato de que a estética negra incomoda, mas ele gosta de causar incomodo, para ele é um ato político.

Em meio a uma fala de Pedro, ele disse que não podemos ficar reféns apenas da representatividade, e cita: "Daqui a pouco teremos Fernando's Holiday's no jornalismo" Em contrapartida, Flavia Lima, com o objetivo de abarcar a pluralidade de ser negro no Brasil cita "Nós precisamos de Fernando's Holiday's no jornalismo."

Ao longo de várias perguntas e respostas a mesa é finalizada com dicas e conselhos dos palestrantes para que haja um posicionamento antirracista dentro e fora do jornalismo. Flavia ressaltou que é preciso ler e estudar para ter um olhar crítico do racismo na sociedade, Pedro defendeu que jamais podemos perder a noção de coletividade e Yasmin retomou a importância de ouvir profissionais e especialistas negros como fontes. 

 

Profissionais da área de comunicação em ciência e saúde falam sobre como a imprensa exerceu um papel fundamental na cobertura da pandemia do Coronavírus
por
Liana Ruiz
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23/09/2020 - 12h

O debate sobre jornalismo em tempos de pandemia marcou a terceira mesa da 42ª Semana de Jornalismo da PUC-SP e contou com a presença da bióloga Natália Pasternak (IQC) e das jornalistas Mariana Varella (Portal Drauzio Varella) e Cristiane Segatto (UOL). Mediada pelo jornalista Leonardo Sakamoto, a conversa se estendeu por duas horas na manhã de terça-feira (22).

Natalia Pasternak
Natália Pasternak falando sobre a importância da imprensa na cobertura da pandemia

De acordo com Natália Pasternak, se não fosse pela atuação da mídia tradicional não haveria campanha para o uso de máscara e isolamento social, o que poderia ocasionar ainda mais mortes: “A imprensa veio suprir um vácuo que foi deixado pelo próprio governo federal”, disse Natália. Segundo ela, durante a pandemia, houve um casamento perfeito entre jornalistas e cientistas que conseguiram informar a população de forma muito acessível e esclarecedora.  Para a jornalista Cristiane Segatto, com mais de 24 anos de experiência na área de ciência e saúde, a mudança constante dos técnicos no Ministério da Saúde dificultou muito o acesso à informação de qualidade: “Nunca tinha visto antes um Ministério tão confuso na forma como divulga as suas informações e nunca os jornalistas tiveram tanta dificuldade para ter acesso à informações confiáveis”, relatou Cristiane. Segundo ela, a disputa política e a falta de alinhamento das estratégias por parte do governo prejudicou muito o trabalho da imprensa.

Cristiane
Cristiane Segatto comentando sobre a dificuldade de acesso à informação

Mariana Varella, que durante a pandemia sofreu vários ataques na internet devido à desinformação e as campanhas de difamação, falou sobre a importância de saber se pronunciar quando necessário, mas também de ignorar em certos casos,  a fim de frear a visibilidade de informações equivocadas: “A gente tinha muito essa dificuldade como portal de saúde de não dar mais lenha para a desinformação ao responder, então muita coisa a gente acabou ignorando”, falou Mariana.

Mariana
Mariana Varella sobre os ataques que sofreu e a campanha de desinformação 

Além disso, a jornalista também ressaltou como foi difícil o acesso à informação junto ao Ministério da Saúde, durante a pandemia, que muitas vezes segurou a divulgação dos dados, colocou pessoas que não tinham noção da área para falar com a imprensa e utilizou da campanha de desinformação em benefício das disputas políticas. Para ela, “a população ficou extremamente confusa no meio disso tudo” e “foi muito difícil assumir uma responsabilidade num momento em que todas as informações dos órgãos oficiais são contraditórias e que não há uma coordenação nacional”. Questionada sobre vacina da Rússia, Natália Pasternak alertou sobre a importância da transparência no processo do desenvolvimento da vacina para dar credibilidade ao tratamento e impedir que teorias conspiratórias ganhem espaço e prejudiquem a própria população. Para ela, a vacina russa está sendo testada precocemente e isso pode gerar uma falta de controle da sua real eficácia.

As entrevistadas ainda falaram sobre o riscos da volta às aulas determinada pelo governo de SP, da importância de também mostrar o bom comportamento das pessoas em relação ao distanciamento social e uso de máscara e de conduzir as ações baseando-se na ciência e em evidências.

“Estou aprendendo a ser jornalista de novo” disse a jornalista Marina Dias
por
Isabela Lago Miranda, Maria Luiza da Costa Marinho, Ramon Henrique de Paschoa Baratella e Tabitha Ramalho
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22/09/2020 - 12h

As jornalistas Marina Dias e Carolina Trevisan foram recebidas por um sorridente mediador da segunda mesa da 42ª Semana de Jornalismo da PUC.  Com saudosismo, professor José Arbex dava boas vindas online a ex-alunas do curso.

Mas, desta vez, a aula era delas; Uma crise dentro da crise: a cobertura política na pandemia  foi o tema debatido pela correspondente da Folha de São Paulo e pela colunista do UOL. Ao refletir sobre o trabalho do jornalista de política nestes tempos modernos, Marina disse que estava aprendendo a ser jornalista de novo: "A pandemia reformulou nossa forma de fazer jornalismo”, afirmou, ao destacar as  intermináveis videoconferências entre repórter e fonte.

Sem a possibilidade de entrevistas presenciais devido a pandemia, Carol Trevisan fala da importância de estabelecer conexões, e o pacto de confiança do repórter com as fontes: “A gente quer conseguir explicar um país desse tamanho”, ressaltou. A colunista do UOL enfatizou a importância de nos cercarmos de pessoas confiáveis.

O ponto de unanimidade entre a plateia online e as convidadas foi, além do jornalismo político, também uma certa "delicadeza" de uma cobertura jornalística de política em pleno isolamento social.

As convidadas enfatizaram o quanto a cobertura jornalística tem perdido e ganhado ao mesmo tempo, adaptando-se em metamorfose. “Queria trazer isso pra mesa , esse formato novo que o temos de fazer jornalismo”, pondera Marina Dias, entusiasmada com a presença de mais de 200 participantes na mesa.
 

A leveza e o bate-papo inundaram a segunda mesa da Semana de Jornalismo na PUC-SP, que abriu espaço para uma descontração entre professores, e comentários que transcendem gerações ligando todos a uma única antena: o dever de mostrar a verdade e a paixão por contar histórias reais. Arbex, de forma muito bem humorada, conduziu toda a situação e ainda brincou com as mazelas que tem passado durante as aulas online: “Não sei se eu que sou dinossauro ou realmente falta esse contato”. As jornalistas lamentaram a ausência de contato com o público, os cafés com as fontes, o ser e estar nas ruas com o povo e toda a bandeira de direitos humanos que faz parte da narrativa de todo bom jornalista. 

Print da mesa com convidadas, organizadoras e professores
Marina relatando sua experiência em Washington

Marina comentou sobre sua cobertura durante as manifestações do Black Lives Matter e argumentou: “Eu me emocionei com aquilo, meu pai fala uma frase que diz: enquanto você se emociona, está sendo um bom jornalista. Então eu permiti me emocionar”; o mito da imparcialidade jornalística foi bem discutido durante a mesa, e as convidadas, de forma unânime,  destacaram a importância da cautela e da segurança do repórter: “Você tem medo? eu tenho medo e acho que o medo me protege”, enfatizou Carolina Trevisan

A estudante Lígia Saicali pergunta sobre o fato de  o jornalista se desvincular das relações partidárias ou ideológicas para uma boa reportagem.

Marina responde: “Direitos humanos não é lado político, é humanidade”, e comenta sobre projetos e reportagens com os quais se manteve muito envolvida por tratar-se do sentimento do entrevistado.  

A jornalista Maria Carolina Trevisan relembra  o recente caso da menina de dez anos que realizou o aborto legalmente: “Esse é um caso que chama muito a atenção porque ele junta a política em relação com a violação de direitos humanos da menina”

Carolina destaca como as informações chegaram até ela. “Conforme eu ia apurando, descobri que quem tinha publicado o nome e o local tinha sido a Sara Winter, que foi funcionária do ministério, não só ela mas também outras pessoas que tentaram provocar tumultos antidemocráticos no governo como por exemplo aquele cara que tentou jogar fogos de artifício na frente do Supremo Tribunal Federal”.

Ela termina dizendo que o Ministério dos Direitos Humanos refutou a reportagem: "É uma prática do governo Bolsonaro ameaçar jornalistas como a gente tem visto desde o começo (...) também porque o presidente tem uma preferência por fazer essas ameaças a jornalistas mulheres, isso não é à toa”.

Jornalista Carolina Trevisan
Carolina Trevisan comentando questões políticas do país

 

Questionada sobre a forma de realizar jornalismo político, Marina Dias comenta: “Eu acho que a gente precisa ser objetivo, precisa ter distanciamento, mas a gente não precisa se despir de quem a gente é para fazer jornalismo”, relacionando com a cobertura de direitos humanos realizada por sua colega de mesa. 

Como correspondente nos Estados Unidos, Marina narra a dificuldade de abordar entrevistados na rua. Mesmo com máscara e distanciamento do entrevistado, apoiadores de Donald Trump insistem para que a jornalista retire sua máscara e a cumprimente com um aperto de mãos.

“Por mais que às vezes eles nem conheçam o jornal brasileiro, eles falam ‘você é jornalista mesmo?’”.

Ela termina afirmando que considera o maior risco de um jornalista estadunidense no momento manter sua saúde e segurança durante a pandemia, principalmente em situações como a descrita.

“Como correspondente internacional, eu não sou um alvo do governo Bolsonaro como a Folha de São Paulo é”.

Carolina Trevisan, por outro lado, comenta: “Para cobrir e se proteger em um governo autoritário é preciso estudar muito, você não pode chegar lá para fazer uma entrevista com ninguém desse governo, ou nesse momento político do Brasil, sem estar muito bem preparada (...), você pode cair numa armadilha”, que considera essencial para que não perca credibilidade, não seja atacada. 

Ao ser questionada a respeito da cobertura jornalística sobre o racismo no Brasil e nos Estados Unidos, Carolina Trevisan lembra de uma frase de Carlos Moore, escritor cubano que já entrevistou: “O racismo é plástico, se adapta aos momentos históricos”. Aborda que o Brasil, como o país cuja escravidão durou mais tempo, possui uma dívida histórica e necessidade de reparação, e a função do jornalismo seria reconhecer esse racismo na forma em que se apresenta na sociedade, através da escuta e da humildade.

Quando Marina Dias conta sobre o momento em que Trump dispersou a manifestação pacífica em frente à Casa  Branca com bombas, ela relembra a fala de seu colega argentino: “Você tem mais medo da polícia daqui ou da polícia do Alckmin de São Paulo?”, o que trouxe um choque para os participantes da mesa em relação a tamanha violência policial: “Eu cobri as eleições de 2013 e me vi ter esse medo novamente”.

As eleições americanas serão agora em 3 de novembro e os atos de Donald Trump  são de acordo com seu nível de popularidade nos estados, “eu falo para os meus amigos e colegas de redação que eu vim do futuro, porque tudo que o Trump fala o Bolsonaro faz” Marina brinca no final.

O encerramento do primeiro dia da 42ª Semana de Jornalismo consta com a fala de Arbex à Carolina Trevisan “queria ter tido você como aluna”, além de relembrar da participação efetiva da sua ex aluna Marina Dias no jornal ContraPonto.

 

Jornalista Lisa Gomes afirma que o jornalismo tem um papel social de criar uma rede de proteção para todas as mulheres
por
Victoria Nogueira
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21/09/2020 - 12h

por Victoria Nogueira

Em sua 42º edição, a Semana de Jornalismo promovida pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo apresenta como tema o 4º Poder na Era 4.0 e trouxe, na manhã desta segunda-feira, para o debate “A Luta Pelo Espaço Feminino no Jornalismo”. Mediada pela professora da PUC-SP, Anna Flavia Feldmann, a primeira mesa da semana tinha como convidadas as jornalistas Alinne Prado (Record TV), Lisa Gomes (RedeTV!) e Natuza Nery (Globo News).  

Em 18 anos de carreira, com atuação em diversos veículos da imprensa e atualmente na Record TV, Alinne Prado inicia ressaltando a força da voz feminina. “Acho que temos que voltar e falar da criação da democracia e que, nós mulheres, não fomos convidadas para a sua criação. A democracia foi criada por homens, para homens. A mulher foi colocada em terceiro escalão. Em segundo escalão, os escravos, em terceiro as mulheres que ainda assim não tinham voz. Então, nós somos herdeiras das sufragistas que começaram todo o movimento e graças a elas estamos ampliando a nossa posição dentro da comunicação” 

Mulher negra, nascida em comunidade, Alinne critica a objetificação da mulher e dos padrões de beleza dentro das redações. “Eu estava conversando com uma colega que tinha sido convidada para fazer uma pauta política e, nessa pauta, estavam pedindo que houvesse uma jornalista bonita. Quando entrei na Globo, indicaram como eu deveria me portar e vestir, e que deveria alisar o cabelo. Falei que perderia o emprego, mas não o alisaria." 

Alinne lembra que na época do Vídeo Show, recebeu muitos “haters” por causa do nariz e do cotovelo “russo”, ou ressecado. " Tinham diversas reclamações do meu cabelo, do meu turbante. Pediram para que eu mudasse todo o meu figurino. Eu me submeti a uma cirurgia plástica para diminuir o nariz.”Alinne Prado

 

 

 

 

 

 

Alinne Prado diz que as mulheres são a maioria na profissão, porém não ocupam um percentual expressivo nos cargos de liderança, “a todo tempo tenho que ficar provando a minha capacidade”, ressalta. A jornalista afirma já ter sido mais combatente na militância negra e feminista, no entanto, hoje é mais resiliente. “Eu, por exemplo, passei por diversos tipos de enfretamentos. Esses enfretamentos me fecharam muitas portas, e me demandavam um desgaste físico e emocional. A minha função como figura pública é a de pedreira. Eu estou construindo uma ponte, eu sei que eu não vou passar por essa ponte, talvez eu chegue à metade do caminho dessa ponte, mas sei que não irei conseguir atravessar. O que eu posso fazer é construir para que as gerações seguintes talvez possam chegar ao outro lado”.  

Alinne destaca que a educação de filhos e maridos é uma estratégia para contornar a masculinidade tóxica com raízes na construção política e no patriarcado.

Repórter do TV Fama na Rede TV, Lisa Gomes conta o receio que sofreu de não ser aceita no ramo jornalístico ao ingressar na carreira. Transexual, Lisa exerce um trabalho dentro e fora da emissora em que atua para trazer estudantes trans à grande mídia. “A minha luta é de trazer a comunidade LGBTQ+ para dentro da comunicação”.

Lisa rellete sobre a ocupação dos postos de trabalho nas redações: “Por que eu não posso ter uma produtora transexual ao meu lado, por que não posso ter um repórter transexual dentro da emissora em que trabalho, ou em qualquer outra emissora?”, questiona Lisa, apontando a falta de um maior engajamento dos veículos televisivos na contratação de transexuais.

 

Lisa Gomes

Lisa ainda relata o preconceito sofrido, e na dificuldade em estar a frente do vídeo. “eu tentei o jornalismo político, mas fui ameaçada pelo prefeito e pela equipe dele. Fiz a primeira matéria e uma pergunta que tinha de ser feita. Quando cheguei na redação, os seguranças tinham mandado uma foto minha para a direção da emissora e uma frase de ameaça”. E não é raro ouvir “você quer conquistar um espaço? Olha o meu telefone aqui, me liga”, critica.

Lisa ressalta que dentro da televisão existe o assédio e que exige respeito para com ela e para com todas as colegas, todas as mulheres”. Para ela, o jornalismo é um agente protetor. “Temos um papel social de criar uma rede de proteção para todas as mulheres. Esse é o nosso papel no jornalismo”. Compartilha com a mesa o sonho de ser a primeira jornalista transexual a apresentar um telejornal.

A jornalista Natuza Nery conta que o assédio sempre foi comum, seja com fontes ou dentro das redações. “Tive um caso de assédio na redação, mas não era um momento que se denunciava. Isso passou sem que muita gente soubesse”, conta a jornalista. Destaca ainda a disparidade entre homens e mulheres dentro da profissão, “eu fui notando que os jornalistas homens eram sempre bons. Eram sempre jornalistas espetaculares e, nós mulheres tínhamos sempre uma relação com a fonte. Eu nunca era competente o suficiente”.

E que tudo ficou mais difícil após se tornar mãe, “depois que voltei da licença maternidade, tive que trabalhar muito mais. Eu tinha que mostrar para os homens. Não podia diminuir o trabalho”.

Natuza NeryComentarista de política e economia da Globo News, para Natuza, embora a presença feminina seja maior, mesmo nas coberturas políticas em Brasília, o machismo é uma realidade, bem como a homofobia e racismo. “Eu tenho amigos gays, que não se assumem, por terem medo da reação das fontes. Eu também nunca tive uma chefe preta. Isso precisa ser uma demanda de todas nós”.