Em abril de 1978, foi publicada a edição número 0 de Lampião da Esquina. O primeiro jornal ativista pelos direitos civis gays do Brasil. O editorial da primeira edição clamava pela saída da comunidade LGBTQIAN+ dos guetos. O Lampião durou até 1981 e foi o primeiro a abordar a homossexualidade, desafiando censura e preconceitos vigentes no país durante a Ditadura Militar. O jornal caminhava contra a mídia hegemônica e protestava pela forma como a comunidade era retratada em veículos tradicionais.
Em entrevista à Flávia Péret, autora de “Imprensa Gay no Brasil”, Celso Cury, redator e editor do jornal, conta que em veículos tradicionais, até os glossários não eram adequados aos públicos minoritários. Na Folha de S. Paulo, por exemplo, a palavra “lésbica” era substituída por “feminista”.
A mídia contra-hegemônica surge para representar as necessidades de grupos minoritários, que tentam alertar o grande público sobre o rumo que a sociedade está tomando. Para Rosane Borges, doutora em Comunicação e Linguagem pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autora de “Imaginários emergentes e mulheres negras”, “ouvir essas vozes não é apenas uma questão de empatia, mas de reconhecer que a desumanização desses grupos apequena toda a sociedade”.
Hoje, veículos da grande mídia apresentam colunas e editoriais dedicados à comunidade queer. Mas, apesar dos avanços, os grupos minoritários continuam sendo perseguidos e violentados por movimentos de fanatismo religioso, preconceitos e ideologias retrógradas.
Além da representação nas mídias, surge a necessidade de espaços de segurança para os membros dessa comunidade. O Unicorns Brazil, projeto multiesportivo voltado ao convívio de pessoas LGBT+, é um desses espaços.
Filipe Manetta Marquezin, advogado e fundador do projeto, afirma: “O Unicorns acaba sendo um lugar seguro fisicamente, mas também mentalmente, livre de preconceito. Ninguém vai se preocupar se você é gay aqui”.
Quando as vozes contra-hegemônicas se unem, surge uma identificação coletiva, transformando indivíduos isolados em grupos sociais conscientes. Essa união mostra que o “padrão universal” de outrora é, na verdade, uma visão limitada do mundo, argumenta Borges. Segundo a professora do curso de jornalismo da PUC-SP, “a união funciona como uma frente ampla que gera força de pressão sobre os governos. Esse movimento promove a autonomia, a emancipação e serve como uma ferramenta de educação para o conjunto da sociedade.”
Os membros do Unicorns enxergam o grupo como um espaço de pertencimento. Luiz Fernando Cornacioni de Sousa, Gestor de Diversidade e Eventos e administrador do time-escola de futebol, afirma que a ocupação vai além dos campos. “Jogar aqui é assumir um espaço, não só na quadra. Quando saímos juntos para tomar cerveja, as pessoas veem gente diferente, dos mais afeminados aos mais padrões”, conta.
João Victor Freire, influencer e jogador do time de futebol do Unicorns, relata: “É um processo um pouco mais complexo, não é só do futebol. No meu caso, acho que é um processo de autoaceitação também”.
“Fui procurando caminhos para achar gente que também é gay, um grupo que me acolhesse melhor, entrar para o Unicorns também é encontrar pessoas com vivências parecidas com a sua”, completa.
Sobre essa busca aos seus semelhantes, Borges explica, “a representação hegemônica estabelece uma normatividade baseada em um padrão cis-hétero, é isso que deslegitima vozes heterogêneas que estão fora desse padrão”. A masculinidade hegemônica transforma o espaço e o convívio fora dele. Para a pesquisadora, Grupos como o Unicorns Brazil reivindicam o direito de voz e de ocupar espaços sem precisar se adequar a padrões tradicionais de comportamento.
Marcelo Douglas Costa, consultor de Costumer Experience, esperava começar o “rachão do Unicorns” quando conversou com a AGEMT, “Eu já sabia que era gay, mas o futebol era uma fuga para mim”. A segurança foi um fator determinante para procurar pelo grupo, “futebol é uma paixão nacional e não era justo sermos excluídos pelo desconforto de outros”.
Os símbolos do Unicorns representam orgulho e aceitação. Paulo Octávio Hueso Andersen, advogado e atleta de futebol do projeto, relata: “a primeira vez que pude representar o time pertencendo a um grupo, foi um momento de orgulho. Quando coloquei a camisa com meu nome e saí na rua ou fui à academia com ela, foi uma reafirmação.”
“Em uma sociedade democrática real, a voz de uma pessoa LGBT, indígena e branca deve ter o mesmo valor e peso político. Sem essa escuta, não há democracia, nem espaço público qualificado”, afirma Borges. Fora das quadras, o projeto Unicorns Zine é um braço de lifestyle do grupo. A revista retrata o dia a dia LGBT em SP. A escritora explica que esse tipo de proposta é um jeito formal de organizar as vozes de uma comunidade. “A mídia contra-hegemônica é fundamental porque funciona como a voz silenciada que irradia os bloqueios da mídia tradicional”, pontua a professora.