Viajar pela América Latina tem ficado cada vez mais caro para brasileiros devido à combinação de fatores como inflação regional, variação de câmbio e aumento nos custos de turismo. Destinos como Chile e Colômbia, anteriormente considerados econômicos, já não cabem com facilidade no orçamento do brasileiro. Em países como Argentina, Chile e Colômbia, o aumento do dólar elevou os preços de serviços turísticos, bem como aumento nas passagens aéreas e nos custos com hospedagem e alimentação. Além disso, as irregularidades na taxa de inflação de alguns países, em comparação ao Brasil, reduziram o poder de compra dos brasileiros. Não se pode dizer que a desvalorização do real é o único responsável.
Para entender o que mudou, conversamos com a professora e doutora em Ciências Econômicas da PUC-SP, Cristina Helena. Ela explicou que tem dois fatores fundamentais para esse entendimento: a diferença entre câmbio real e nominal e a influência do dólar no turismo. O câmbio nominal é o preço em unidades monetárias de uma moeda. Ou seja, é quanto uma moeda vale. Tomando como exemplo a Argentina, o câmbio nominal é quantos pesos argentinos um brasileiro consegue comprar com 1 real. É aqui que uma moeda valoriza mais que a outra. Como a moeda brasileira valorizou em relação à argentina, com 1 real é possível adquirir mais pesos do que antes. Já o câmbio real, é a capacidade de compra que um estrangeiro tem nesse país com sua moeda original. Muitas vezes, mesmo com a sua moeda original valorizada, o viajante não consegue adquirir muitas coisas, porque o câmbio real está "ruim”, explica Helena.
Ainda com o exemplo da Argentina, o país sofreu com uma inflação que aumentou muito o custo de vida. Então, quando um brasileiro viaja para lá, mesmo com o real estando mais valorizado que o peso, e ele conseguindo comprar um bom número de pesos com apenas 1 real, ele terá pouco poder de compra. O que antes ele conseguia adquirir com 20 pesos, por exemplo, com a disparada da inflação, ele hoje precisa de 60 pesos. Além disso, por uma questão de universalização da moeda, o dólar americano se tornou a principal moeda no turismo. A maioria dos hóteis, passeios, museus, cobram valores em dólar pelos seus serviços, o que não é diferente na rede hoteleira e turística de países da América Latina.
A professora Cristina Helena, desenhou dois gráficos que ajudam neste entendimento.
"Neste primeiro, vemos a taxa de câmbio efetivo real, mostrando como que a nossa moeda tem poder de compra no outro país. Toda vez que você vê essa taxa de câmbio caindo, é porque está ficando mais barato para a gente comprar lá fora. Toda vez que ela sobe, é porque está ficando mais caro a gente comprar lá fora.”, explicou a doutora.
Ela ainda acrescentou que, “já no segundo, toda vez que você vê aumentar o número, é sinal de que essa está ficando desvalorizada em relação ao dólar. Isso significa que para nós é mais barato ir para esse país. Aí, é ao contrário, porque a gente não está vendo o quanto da nossa moeda compra o deles. É o quanto da moeda deles compra em dólar. Então, se eles precisam de mais da moeda deles para comprar dólar, um dólar compra mais da moeda deles, então fica mais barato para a gente", diz.
Outro agente importante na oscilação de preços de viagem, é a política econômica interna e externa dos países. A professora elucida, “O que afeta o valor da moeda nesses países? A capacidade que esses países têm de exportar e de importar, a capacidade que esses países têm de atrair recursos internacionais, como que os investidores olham para situações de risco nesses países. Então as condições políticas afetam o valor do dinheiro”, ressalta Helena.
Nos últimos dois anos, vários países da América Latina passaram por eleições, mudanças em seus chefes - o que mudou a condução da política econômica deles. E em alguns casos, novamente como a Argentina, essas mudanças foram vistas como positivas pelo mercado internacional. Dessa forma, o país recebeu mais investimentos estrangeiros, mais dólares e valorizou de volta sua moeda - aumentando o custo de viagem para os brasileiros.
Como o turismo foi afetado
A inflação e a mudança no câmbio, além de influenciarem a economia local de cada país, também afetam o comportamento do viajante. Carolina Thomazini, agente profissional de viagem, em entrevista à AGEMT, explica que a procura por destinos na América Latina não mudou, mas se tornou mais seletiva e criteriosa. “Agora há mais planejamento e busca real por custo X benefício, além dos passageiros buscarem cada vez mais por destinos que entregam experiências e não apenas viajar porque está barato”, afirma Thomazini.
Apesar de serem destinos na América do Sul, os preços ainda são atrelados ao dólar, e por isso, ficaram mais caros. Ela explica que essa elevação dos valores ocorreu principalmente no Chile e Colômbia, devido a maior valorização da moeda em relação ao real. Além do câmbio, a pandemia do Covid-19 também contribuiu para a alta dos preços. “Notamos esse movimento de elevação dos preços, principalmente, no período pós-pandemia, com o reaquecimento do turismo e a pressão inflacionária no setor", diz Thomazini.
Quando questionada sobre as alternativas de destinos mais “em conta”, a agente afirma que os clientes têm buscado destinos nacionais como substitutos. Ainda que caros, destinos com nicho específico na América Latina que entregam uma experiência única do local, como Machu Picchu, no Peru, e Atacama, no Chile. Carol reforça que notou uma maior movimentação em viajantes que buscam por práticas esportivas e enogastronomia, experiência que harmoniza vinhos com pratos. Essa busca por destinos específicos aumenta a demanda turística nesses locais, pressionando as tarifas. “Não existe um destino barato que seja fixo por si só, e sim uma janela de oportunidades de acordo com as condições do momento.” Esse cenário é influenciado pelos altos custos e pela inflação local em cada país. “Tudo isso contribui de forma significativa na oferta da cadeia turística”.