Vasco da Gama comemora 100 anos da “Resposta Histórica”, um dos símbolos da luta contra o racismo no futebol

Cruzmaltino foi protagonista de um dos grandes feitos contra a discriminação racial no esporte, sendo citado no acervo do Museu do Futebol
por
Oliver de Souza Santiago
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04/10/2024 - 12h

No dia 07 de abril de 1924, o Clube de Regatas Vasco da Gama protagonizou um grande feito histórico no combate ao racismo no futebol brasileiro. Desde suas origens em 1898, o Gigante da Colina era composto com um time recheado de futebolistas negros e pardos, todos provenientes dos subúrbios do Distrito Federal da época.

 

A conquista do campeonato carioca de 1923 pelo Vasco revoltou a Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), principal associação de agremiações praticantes do futebol da capital nacional da época, de acordo com o site do clube. 

Equipe do C.R. Vasco da Gama em 1923. Foto: Acervo Museu do Futebol
Equipe do C.R. Vasco da Gama em 1923. Foto: Acervo Museu do Futebol

O futebol no Brasil é oriundo da Inglaterra, graças à Charles Miller, que é creditado por trazer o desporto aqui no Brasil em 1894, segundo o Museu do Futebol. Por ser um período próximo da aprovação da Lei Áurea em 1888, a maioria dos futebolistas do final do século XIX e início do século XX eram formados por homens das elites de São Paulo e do Rio de Janeiro, visto o racismo presente neste período.

Uma nova associação é fundada

A resposta foi a criação da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (A.M.E.A) no dia 01 de março de 1924. Inicialmente formada pelos clubes America, Bangu, Botafogo e Fluminense. Todos pertenciam à elite da época. O cruzmaltino foi convidado para integrar a associação, mas foi exigido “que excluísse 12 jogadores de suas equipes, 7 do primeiro quadro e 5 do segundo quadro, pois esses atletas estariam em desacordo com os “padrões morais” necessários para a prática do futebol.

Logo da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA). Foto: Reprodução/Pinterest @heraldicadesportiva
Logo da Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA). Foto: Reprodução/Pinterest @heraldicadesportiva

O estatuto da associação era discriminatório em relação à praticantes das camadas populares e um dos artigos citavam:

“[...] Da inscrição dos amadores, suas formalidades e requisitos.

Art. 65

Não poderão, ser inscritos:

1- os que a troco de dinheiro, tenham tomado parte em festas, partidas, campeonatos ou concursos esportivos de qualquer natureza, dentro ou fora do país;

2- os que tirem os seus meios de subsistência de qualquer profissão braçal, considerando como tal a que se predomine o esforço físico;

3- os que direta ou indiretamente tirem proveito da prática do esporte;

4- os que já tenham tomado parte em qualquer prova das quais participem profissionais;

5- os que se entregarem a exploração de jogos de azar, ou viverem da sua prática;

6- os que não forem reconhecidos como amadores pela entidade máxima a quem competir a direção do esporte no Brasil;

7- os que não saibam escrever e ler correntemente;

8- os pronunciados, enquanto durarem efeitos da pronúncia, os condenados por crimes capitulados no Código Penal, e os culpados mediante provas irrecusáveis de atos imorais ou desonroso;

9- os que habitualmente não tenham profissão ou empregos certos;

10- os que exerçam profissão ou emprego subalternos; tais como: contínuo, servente, engraxate e motorista;

11- os que exerçam profissão ou emprego que exija, permita ou facilite o recebimento de gorjetas;

12- os praças de pret. (soldados, cabos e sargentos), excetuando-se, porém, os aspirantes a oficial e os alunos de Escolas Militares, os sargentos e desligados do tempo de serviço obrigatório [...]”

"Nossos jogadores eram vistos como os indesejáveis do futebol”

A "Resposta Histórica"

Em resposta à A.M.E.A, o presidente vascaíno, José Augusto Prestes, emitiu o ofício CRVG nº261, no dia 07 de abril de 1924, comunicando a desistência do clube de fazer parte da nova liga por não concordar com o preconceito racial, social e da exclusão de seus jogadores.

Documento oficial do ofício CRVG nº261, 07 de abril de 1924. Foto: Reprodução/Instagram: @vascodagama
Documento oficial do ofício CRVG nº261, 07 de abril de 1924. Foto: Reprodução/Instagram: @vascodagama

 

A “Resposta Histórica” marcou a luta contra a desigualdade racial do desporto bretão. Mesmo com as fundações da Associação Atlética Ponte Preta de Campinas-SP em 1900 e do clube gaúcho Riograndense em 1907, ambos com fundadores negros, houve um processo até a aceitação de atletas negros no futebol várzeano da época.

O Museu do Futebol do Estádio do Pacaembu, contém diversos acervos do enfrentamento do racismo no futebol e junto de fontes sobre a presença de futebolistas negros e dos clubes que foram pioneiros ao integrarem estes praticantes no começo do esporte no Brasil.

O Museu foi reformado e reaberto no dia 12 de julho deste ano. É aberto de terça-feira a domingo, das 9h às 18h. Os ingressos são gratuitos toda terça-feira.